Mônica Bérgamo - Prefeituráveis no divã


Folha de S. Paulo
25/7/2004

O ex-ministro José Serra (PSDB) parece seduzido pelo pessimismo e dá a impressão de estar cumprindo uma obrigação. Já o ex-prefeito Paulo Maluf (PP) concorre pela enésima vez por ser um "compulsivo", por ser o "incapaz de parar". A prefeita Marta Suplicy (PT) é "exagerada", mas este é um dos elementos do "gozo do poder". E a ex-prefeita Luiza Erundina (PSB) tem "a psiquê dos gerentes".
Em comum, os quatro primeiros colocados (segundo a última pesquisa Datafolha) tinham a corrida à Prefeitura de São Paulo. E, agora, a análise psicológica feita a pedido da Folha pelo psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg, doutor em psicologia, com trabalhos na área de psicologia política. "Não fiz uma análise da personalidade, pois isso seria adivinhação, mas sim do personagem", disse ele.
Goldberg tratou "da figura ou da figuração composta pelos marqueteiros e até pelos próprios políticos". Para ele, não há impedimento ético na tarefa, uma crítica comumente feita. "A ética não só permite esse gênero de análise como até o exige, porque se não é o psicólogo, se não é o sociólogo, o estudioso do comportamento humano que vai auxiliar o eleitor nesse entendimento da figura pública, quem será?"
"A impressão que dá é a de que José Serra está cumprindo um dever e, em determinados instantes, passando uma certa atitude de "desgusting" [de estar repugnado]. Como quando, por exemplo, pega os adesivos que colocam nele e os arranca."
"Embora tenha começado a sua carreira como líder estudantil, presidente da UNE, por isso num processo idealista e sentimental muito forte, com o passar do tempo e com suas experiências acabou fazendo uma opção "low profile" [discreta], que lembra um escoteiro."
"Ele veste o caráter quase beneditino, sacrificial, o sacerdócio. Parece ser seduzido pelo pessimismo. Há um mau humor que eu diria que fica mais presente do que a antipatia alegada por seus opositores."
"Em termos de atitude de potência e impotência do político, Serra fica numa posição embolada entre os dois. É uma daquelas personagens que está sempre com um risco de ficar aquém, ao contrário do Paulo Maluf, que corre o risco de ficar sempre além, até do real."
"A Marta Suplicy faz esse novo papel feminino, no qual não tanto no caso do [senador petista] Eduardo Suplicy, [ex-marido], mas muito mais no caso do Luis Favre [atual marido], o consorte é que é obrigado a fazer o papel de rainha-mãe."
"Que personagem é essa que, além de tudo, é psicanalista e deve saber o que está fazendo, que faz um casamento, afrontando, aparentemente, uma porção de estruturas e rigidez de conduta? Numa cidade como essa, ela mantém laços cordiais com o ex-marido, casa com um sujeito que é estrangeiro..."
"A própria indumentária é um caso de organização de aparência. Lembra o escritor Oscar Wilde, que dizia que só as pessoas superficiais não dão importância à aparência. A Marta carrega duro na "gestalt"."
"Quando ela fica numa posição defensiva exagerada e, por ser exagerada, contraproducente, não é gratuito não. É um dos elementos do gozo do poder. Em termos de carisma, faria uma certa deferência para a Marta como "show-woman"."
"Luiza Erundina tem muito a ver com uma líder tribal. É uma mulher que tem um histórico a cumprir, até mesmo o histórico de inserção do nordestino em São Paulo. Tem as características e as idiossincrasias do provincianismo. É uma mulher do interior do Brasil, como boa parte da população daqui."
"Diferentemente de Marta e, Maluf, ela não acontece. A Marta, apareça onde aparecer, num velório ou numa festa, mesmo antes de ser candidata, é um evento. O Maluf até cumprimentar paciente de UTI foi. Já a Erundina é o não-happening."
"Sua candidatura é a do acerto de contas feminino, mas que não tem o caráter passional da de Marta, e sim o de contabilidade fria. A sensação que ela dá é a seguinte: lucro e déficit. Ela está ali com lápis vermelho e azul e marcando. É mais pragmática, menos impulsiva."
"Têm a psiquê dos gerentes, a falta de carisma dos gerentes. Basta perguntar para qualquer grande empresário, se tivesse de contratar entre esses quatro um gerente, qual deles seria?"
"Paulo Maluf é um caso extremado de onipotência. Se amanhã achar que deve galgar o monte Everest, ele vai sair andando e tentar subir. Se no meio do caminho desistir ou faltar força, vai culpar a montanha."
"Fico até em dúvida se Paulo Maluf quer ser candidato ou se ele está se obrigando a ser candidato por ser uma compulsão, por ser um compulsivo. É a necessidade permanente do moto-contínuo do show. Quer dizer, é o artista que é incapaz de saber o momento de parar."
"Eu o fico imaginando numa situação em que é absolutamente comprovada qualquer acusação em relação a ele. Maluf fica como o personagem de "Alice no País das Maravilhas", o Humpty Dumpty, para o qual as coisas são como ele quer que sejam, as palavras têm o significado que ele quer que tenham."
"Ele se refere a si mesmo como outra pessoa. Diz: "O Maluf construiu esse viaduto". É muito curiosa essa satisfação que ele tem de ser, ao mesmo tempo, o protagonista e o auditório da sua própria biografia."

O DONO DO DIVÃ

Política é tema de psicanalista
Em 17 de março de 1985, no auge da crise de saúde de Tancredo Neves, a Folha publicava reportagem com o título: "Psicólogo requer melhor comunicação com o poder". O psicólogo era o mineiro Jacob Pinheiro Goldberg, que já naquela época se dedicava à psicologia política e a às vezes conturbada relação entre os homens de cargos públicos e a sociedade.
Desde então, ele lançou vários livros sobre o assunto, sendo os mais recentes "Monólogo a Dois" (Centro de Estudos da Mentalidade, 2002) e "Cultura e Agressividade" (Landy, 2004).
Nas últimas semanas, a Folha publicou duas análises semelhantes à sua. Na primeira, em 7 de junho, o psiquiatra Jerrold M. Post, que presta serviços à CIA, perfilava líderes mundiais. Na segunda, de 5 de julho, o psiquiatra Justin Frank explicava o que escreveu em seu livro, "Bush on the Couch" (Bush no divã), em que analisa o presidente norte-americano
 

 


Um filme anticristão

Artigo - JACOB PINHEIRO GOLDBERG
Folha de S. Paulo
O filme "A Paixão de Cristo" tem conteúdo anti-semita?

SIM
Acho desnecessário, pela obviedade, provar que o filme é anti-semita, digno de Mel Gibson, que se afirmou orgulhoso do pai, que negou o Holocausto. Mas é oportuno provar seu anticristianismo agressivo.
Trata-se da versão hollywoodiana da maior contrafacção política e ideológica da história, a inteligente e hábil manobra de atribuir aos judeus a culpa da condenação de Jesus à morte. Como essa fórmula primária, que qualquer criminalista seria capaz de desmistificar, tem resistido a estudos e análises?
Em primeiro lugar, explica-se pelo anti-semitismo disseminado pelos cultores da nova religião, interessada em bloquear as fronteiras com sua fonte originária. Em segundo lugar, a uma natural e apaixonada resistência judaica, indignada diante do apoderamento de seu filho, transformado, contra sua vontade, em instrumento de ódio e perseguição. Em abono desta tese poderíamos transcrever inúmeras passagens do Novo Testamento. Inútil. Ou o leitor percebe que, numa vida de 30 e poucos anos, Jesus dedicou todos os seus momentos conhecidos à tarefa do estudo da Torá e dos preceitos religiosos do judaísmo, como antes e depois fizeram milhares de rabinos e eruditos pregadores, ou escolhe a via tortuosa do sadomasoquismo anti-semita, que se prende ao drama arquitetado pelos dominadores romanos nas suas últimas horas.
Na verdade, na figura de Jesus, foi crucificado na época o espírito de insurreição religiosa e política de Israel, provavelmente com a cumplicidade de alguns elementos engajados com o conquistador. Nos dois milênios que se sucederam, os judeus têm sido castigados pela trágica herança de haverem concebido um filho mágico e dileto, de espírito universalmente aberto. Provavelmente, uma das grandes horas da história será o instante da reversão da dinâmica de Jesus. De seus versículos proferidos, de todas as passagens vividas por Jesus, Yeoshua bem Yossef, transpira sua apaixonada adesão ao judaísmo, seu entranhado amor ao seu povo e sua mensagem de libertação.
O processo de seu deslocamento começa no desenvolvimento produzido por Pilatos, a reconciliação e o reconhecimento de sua função como judeu, o apagar do tônus anti-semita, que procura retratá-lo como estranho ao seu povo, a final trama desmentida pelo senso comum de seu papel, como messias para os cristãos, como filho querido para os judeus. Quem instruiu, magistralmente, a necessidade dessa revisão foi o poeta libanês Khalil Gibran, no seu diálogo entre Jesus de Nazaré e Jesus dos cristãos, que, segundo ele, ainda não tinham conseguido se conciliar. Fonte histórica de Jesus, o judaísmo perdeu para o cristianismo institucionalizado seu poder político e social, que permitiu à nova religião dar o tônus da civilização ocidental.
No entanto, nas últimas décadas, e destacando-se o pensamento de figuras como João 23, Tomas Merton e Jacques Maritain, acentua-se um processo de judaização do pensamento cristão de algumas áreas mais esclarecidas. Do lado judaico, tal inclinação se adivinha na análise de Jesus feita por Joseph Klausner. No estudo "A Morte de Deus e o Futuro da Teologia", Gallagher afirma que devemos nos rejubilar "não por qualquer coisa que é, mas por aquele que virá". Dificilmente a noção judaica do messias poderia ter uma melhor categorização do que esta.
Na medida em que o cristianismo passa pelo mergulho introspectivo do abandono das imagens greco-romanas e penetra no "pathos" e no "ethos" de Jesus, o rabi judeu, a mansidão e o amor à vida se irão contrapor ao martírio da paranóia. Obviamente, a dialética de uma crise de consciência e revisão totalizante desse alcance não se fará suavemente, eis que vai abalar toda a teologia do sofrimento -interno e externo, expresso na mecânica da agressividade- das cruzadas, do ódio ao prazer, da tendência à abstinência, do conceito brutal de salvação de todo o gênero humano e, finalmente, da própria concepção da estrutura religiosa como instituição.
Talvez este será o mais formidável paradoxo da história: vencidos os bloqueios psicológicos, o anti-semitismo terá ensejado a mea culpa, que conduzirá a elite do pensamento filosófico cristão à aceitação do judaísmo. Porque nesse jogo, como na vida, quem perde ganha. Não se pode esquecer de que a cruz era um suplício romano, não um instrumento da justiça judaica. Jesus foi executado pelos romanos, na missão de dominação política, como agitador. A acusação ao judeu de ser o assassino de Cristo foi uma lenda divulgada pela propaganda romana, na Diáspora.
Depois dos Manuscritos do Mar Morto, estudar Jesus não é tarefa para a construção da desavença. Judeu, estudei no Instituto Grambery, Colégio Metodista, em Juiz de Fora, onde nasci. Lá começou a revelação, para mim, de que Jesus não morreu -ao contrário do que imagina Gibson. Ele vive com os cancerosos, os miseráveis, os abandonados, órfãos e viúvas. Mas também na alegria, na esperança, na fé. Sente-se a paixão de Jesus no silêncio, na introspecção do seu sacrifício. Na vitória da vida sobre a morte, do amor sobre a raiva. O filme de Gibson é a recrucificação de Jesus por US$ 200 milhões.

Jacob Pinheiro Goldberg, psicanalista, é doutor em psicologia pela Universidade Mackenzie e professor convidado pela Uniwersytet Jagiellonski (Cracóvia, Polônia).
 

 


 

FHC e Lula: culturas em colisão

 

A campanha eleitoral e o ritual da posse deixaram claro o que de nebuloso existe por atrás deste continente brasileiro em termos de contrastes e confrontos. Os franceses têm uma fórmula para distinguir dois saberes. O da formação acadêmica, ilustração de reconhecimento social, segundo padrões estabelecidos pelo poder institucional da universidade, o “savant”. E aquele da experiência direita, a sensibilidade filtrada pela percepção do significado do social e do mundo.

A diferença é maior do que entre o doutor e o douto, o titulado e o sábio.

No mergulho de nossa realidade, quem percebeu e genialmente conseguiu unir as duas pontas do universo brasileiro foi Guimarães Rosa. Sofisticado, poliglota e, ao mesmo tempo, humilde, com ouvidos no grande sertão, capaz de adivinhar a complexidade da alma do nosso interior. Interior nos dois sentidos, o geográfico e o psicológico.
Na política, não tivemos ainda quem somasse, numa só personalidade, o reflexo dos dois Brasis, que não se dividem, unicamente, no campo econômico, mas, muito mais, na dimensão cultural. O caipira e o metropolitano, o simples e o complexo (primitivo ou complicado, para radicais), o conservador e o revolucionário.

Durante oito anos, FHC experimentou a liberdade das implicações infinitas do código apelidado de primeiro mundo de globalização. O eleitorado julgou. Outro juízo, cético ou crente, caberá aos historiadores. Nesse intervalo, a crítica investiga para captar a sobriedade subjacente e o que a celebridade produziu.

Vinte diplomas de doutor honoris-causa miram a impressionante caravana dos caboclos e cabras que acessam o “site” do poder.

Na TV, um “reality show” mostra Lula, o protagonista que, ao se exibir, parece farto de ego e ambição, alguém que desperta da inocência para a revelação. Lula multiplica milhões de Zé-Ninguéns, em todas as classes, nos mais diversos níveis de cultura, e não apenas no Brasil.

Seus melhores e piores desempenhos se sucedem e intercalam, em ritmo acelerado, um tipo múltiplo de exuberância e serenidade.
Gestos quase simultâneos desarmam tendências catastróficas e aquietam ansiedades sociais.

Na verdade, suas lagrimas inundam as faces do pobre e do rico, num contexto sociológico que promete a libertação do inferno. A fome, o desemprego, o crime, o atraso cientifico, a corrupção. O “santo guerreiro” contra o “dragão da maldade”. Derrama um sentido em relação a cada cidadão, a cada perdido na multidão, que se torna a metáfora de sua caminhada. A metáfora que empolga é a do “self made man”, aquele que se construiu por si. Portanto uma figura individualista e, ao mesmo tempo, capaz de escolher sem medo seus coadjuvantes, que se rendem, sem resistência.

Gênio versátil de energia, Lula zomba das contradições e aparentes dificuldades, e uma dialética original faz com que não se sinta intimidade pela tarefa nem a importância da gente presunçosa.

A nação está suspensa em sua trajetória e acompanha seu almoço com Fidel Castro, tentando adivinhar, na Bovespa, a sobremesa.

As oscilações dos humores partidários criam uma nova identidade, juntando a linguagem do banco de Boston com a Cidade de Deus.

FHC vai se retirando (quase carrega a faixa presidencial) para o interior da França, de onde vem o marido de Marta Suplicy. Ida e volta para nenhum ficcionista botar defeito.

Um provérbio africano diz que “um pedaço de pau por mais que flutue na água, nunca se tornará um crocodilo”. Esse traumatismo cultural pode resultar em várias possibilidades, que vão da frustração até um novo modelo criativo de poder. Quem sabe o exemplo de Guimarães Rosa possa servir outra vez.

O médico, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras, que, ao ouvir o sábio dos tempos imemoráveis de Minas Gerais, reproduz um idioma genuíno. E assim, e ao cabo, o conflito se transforma em convergência.

 

Folha de São Paulo, 29/01/03

 

 

Polônia, ida e volta

 

Pátria de excluídos, cortiços, favelas, Nordeste, Portugal, África e todas as terras, esta síntese é amalgama a ser decifrado.

A noite de 18 de novembro de 2002 , marcou um momento nas relações profundas entre o acontecido e o oculto. Cinqüenta intelectuais se reuniram para criar o Grupo de Análise Czeslaw Milosz, Nobel de Literatura. A descrição narrativa do fato segue o modelo reportagem. Foram lidos seus poemas e discutida sua obra. Bianca Rinaldi, a atriz de TV, Marília Librandi Rocha, teoria de crítica literária, Universidade de São Paulo, Jadwiga Cichen Dansa, advogada, Professora Julia Kraujalys, o Embaixador Krzysztof Jacek Hinz e eu.

Respondendo aos versos de Milosz que transcriei: O verso do verso. Morrendo, anverso do mundo. Atrás do pássaro, a montanha, expor do sol. A essência, o sentido feito sentido. Ainda que só existia o verso, sem anverso. O sabiá na palmeira, as noites e dias que seguiam a infinita rotina. Tudo , nada mais que o nada. Ainda o verso que ao versejar, protesta nos infinitos.

O essencial correu no entretexto. Meus pais imigraram da Polônia, aproximadamente a um século, vindos de Ostrowiecz. Meu avô materno o Rabino Aron Elwing com a família e meu pai, um “out-sider”, sozinho no cargueiro Valdívia. Pobres, guardavam da Polônia, a magoa de judeus desenraizados e uma nostalgia saudosa de amor profundo. Conflito que dilacerava suas lembranças. Nasci em Juiz de Fora e alimentei-me com esses sentimentos ambivalentes por toda minha vida.

Até que deparei-me com a escrita de Milosz. Li e reli seus versos, e atrás das palavras advinhei o recado. Dividi minha emoção com escritores e artistas. Reação unânime. Relatava meu testemunho biográfico. Convocamos a reunião. Um dia antes do evento, telefonema de Brasília. Jacek Hinz participará com uma conferencia. As bandeiras da Polônia e do Brasil ornam a mesa. Vislumbro meus pais falecidos pairando, surpresos e admirados. Fico entre o choro e o riso. Gerações perpassam a fala de Hinz comentando a saga política de Milosz, num pronunciamento político lúcido e corajoso. É lido um poema em lituano.

Conto a inspiração da iniciativa, o inicio da jornada naquelas terras geladas, aonde um jovem, Luiz, 18, atrás de Fanny, 15, entrelaçando seus destinos na única globalização permitida, o cosmopolitismo das almas.

As palavras do Cônsul Andrzej Lisowski que me resgata a condição de polonês.

A família de meu pai foi exterminada em campos de concentração. Ao minuto de silêncio do luto, segue-se a viagem de volta. O ódio não prevaleceu. O coro celebra os acordes. Ouviram do Ipiranga as margens plácidas. Jeszcze Polska nie zginela.

Tudo é símbolo, e sábio é quem lê em tudo. Plotino.

Uma espécie de microcosmo dos grandes conflitos étnicos, religiosos, políticos da Europa e, de certa maneira do próprio Ocidente, culminando na figura carismática de João Paulo II.

Isto me reporta à outra dramática personalidade que habita o imaginário de milhões de leitores no Brasil, de “Lord Jim”, “O coração das trevas” ou “Diário do Congo”. Refiro-me à Konrad Korzeniowski, mais conhecido ou muito conhecido como Joseph Conrad.

Suas histórias de vigor estético e conteúdo emocional contraditório, podem espelhar cenários do mundo, vasto mundo, que extrapola a geografia e desafia a história. Uma correspondência de Tadeusz Bobrowski, tio de Conrad, revela que este ao 19 anos perdeu em Monte Carlo dinheiro e acabou dando um tiro em si mesmo. Num momento Conrad vai para a Inglaterra e embarca num navio costeiro inglês, decidido a abandonar a vida, a língua e a fraqueza de outrora.

Faz a sua ressurreição. Quem lê a introdução desta crônica e traduzir o verso inicial do hino polonês (o país que não morre), verá a saga comum e universal que enrola e desenrola o passado e o futuro.

Com “Heart of darkness”, o coração nas trevas em que para estancar velhas feridas, no recesso do espírito, alguém morre, para alguém nascer.

Deixei as palavras escorrerem, para retratar os passos peregrinos. Passa no espaço quem não trai seu tempo.

E o nosso tempo tem sido um dos mais bárbaros da presença humana na Terra. Genocídio, guerras, terrorismo, incompreensão. Mas também tem sido a epopéia de perdão e reconciliação, harmonia e ternura, uma construção penosa em que dialogam as tribos de origens multifaceticas mas de horizontes abertos.

Quando miro as fotos esmaecidas de meus antepassados, viajantes naquela distante Polônia e o salto para o Brasil, rememoro de meu nascimento e infância nas paragens de Minas Gerais, a canção de rua de moleques. Escravo de Jô jogava caxangá, tira, põe, deixa ficar. Guerreiro com guerreiro fazem zig, zig, zag.

Até breve Presidente Kwasniewski.

 

Tribuna da Imprensa – 30/11 e 01/12/02

 

 

Paranóia e poder

 

Kafka, o percuciente crítico da alienação social, lia às gargalhadas seus manuscritos para seus amigos. Realmente, existe um traço unindo o trágico e o cômico na descrição do horror e a inadequação do homem. Orwell provoca medo pelo espetáculo manipulatório do poder que antecipa e causa hilaridade pelo desacerto e “non sense” dos anti-heróis, clima viscoso e amalucado das suas intenções onipotentes. O humorista ocupa papel ideológico em momentos de crise da civilização: quando a tragédia se faz comédia, a dor se transveste em gargalhada, ou, otimista, a esperança torna-se vestibular do sorriso. Foi nos estertores da antigüidade clássica, no fecho da Idade Média, antes da Revolução Francesa e hoje. Petrônio, Cervantes, Voltaire, Shaw, Carlitos. Carlitos, que arrancou a máscara do sangrento palhaço Adolf, mostrando-o na hipnose do culto patológico à morte. Fez a catarse do ódio provocado pelo terror institucionalizado; porque, para além do medo e da raiva, o nazi-fascismo é ridículo na sua pretensão de amestrar a alma, controlar a consciência e instaurar uma “ordem salvadora”. A fraqueza, a leveza, o gênio inventivo chaplinesco desenha a vulnerabilidade da força do mito hitlerista reduzido à sua dimensão demoníaca, à perda das características humanas, à regressão na escala ao bicho, com o berro substituindo a palavra e o grotesco da ameaça no lugar da expressão corporal, a falácia para esconder o real desígnio. A galeria dos tipos é ampla; façanhudo Mussolini, na sua corrida feliniana; camarada Mao, octagenário campeão de natação. O humorista autêntico permite-se ceticismo diante do ritual e da cerimônia de consagração, faz mofa ao dogma, à certeza absoluta, ao fanatismo e à razão acadêmica. Insiste em analisar todos os ângulos das questões e é solidário com o oprimido, no aprendizado da sua própria autocrítica; joga com o contraste para medir a resistência do alvo, a meleabilidade do objeto de gozo. É o contrário do bobo da corte profissionalizado, o caricaturista e servidor do rei, que se presta ao torpe papel de popularizar o dono, por intermédio do humor partidário, pondo seu talento a serviço da causa vil. Pão e circo! Ehrenburg disse que o nazismo começou com piadinhas anti-semitas, nas cervejarias de Munich. Mesmo certos preconceitos do folclore chulo contra a mulher, o negro, o pobre, o velho, o doente, o diferenciado sexual, dão vazão à agressividade subjacente reforçada, em vez de se esconder nos desvãos da comunidade; o que se desmascara em “A vida pela frente” de Emile Najar, patética contra a arquitetura hipócrita: - “Você compreende? - Não. Mas não faz mal. Estou acostumado. - É lá que eu vou me esconder quando estou com medo. - Medo do que, D. Rosa? - Não é necessário motivos para se ter medo, Momô”. O surrealismo de Breton viu no “humor negro” um radicalismo da visão da realidade. Shakespeare soube trabalhar as cargas de ambigüidade, no anseio do riso, nas suas tragédias, desaguando no humor de ficção científica, que adianta o porvir, como por exemplo o de Murray Leinster. Ítalo Svevo, sutil no engraçado do seu personagem Zeno. A sátira e o humor foram armas dos colonos durante a Revolução americana. Trumbull relata, na epopéia cômica “M’Fingal”, o aperto dum senhor Tory. Uma anedota do período stalinista: o americano vangloria-se - “Meu país é livre. Posso gritar na frente da Casa Branca: Morra Roosevelt”. O russo responde - “E eu posso gritar na frente do Cremlin: Morra Roosevelt”. A política, arte da manha, irmã canhestra da safadeza, é canal fácil para a definição de Kant: “O riso advém de uma espera que dá subitamente em nada”. Alguns dos nossos mais pomposos “estadistas” tiveram seus destinos alterados na “vox populi” das esquinas impiedosas, retratam sua empáfia e burrice, com um dito engraçado e total. Uma piada ficou antológica, pelo efeito devastador em relação a certo presidente da República, que, viajando pelo País, intrigado, perguntou ao ministro que empresa era a tal de Emobrás, da qual tinha visto tantas placas. Uma das mais fortes sátiras da literatura, o lamento de Isaías sobre a morte do rei da Babilônia, ou a malícia apressada sobre uma bebedeira do bufo tiranete latino-americano, coincidem no respeito ao espírito do homem. O direito de ver o mundo ao contrário, mostrar o pluralismo, instrumento de libertação contra a feroz gravidade. Despir o ferrabrás é reconduzi-lo ao lugar de onde nunca deveria ter saído - pobre e tosco planeta pessoal. Freud, em “Humor e sua relação com o inconsciente”, ilustra o entrelaçamento de diferentes áreas de experiência nas implicações sociais, documentando a matéria.

 

 

Ética jornalística ou Narcisismo?

 

Em “Psicologia da Agressividade” tentei delinear o contra-ponto da imprensa livre e a denúncia perseguidora.

O homem é senhor da realidade, enquanto ser cultural, também por diferenças diacrônicas, evoluindo, intelectualmente, para relações sincrônicas. Por isto, será impossível escrever a história contemporânea, sem o auxílio da reportagem, o depoimento vivido do sangue, carne, esperança, nervos, que ressuma do editorial, da foto, da notícia perdida nos cantos das páginas e até do anúncio.

O jornal é a testemunha insubmissa, o dedo acusador que descreve a corvadia e a vileza, a corrupção e o erro. Quando, livre, porque se não for, transforma-se no mandado do Poder, na diretriz partidária, finalmente a esdrúxula figuração cuja metáfora exemplar pode ser representada na Rainha que reclamava, envaidecida: “Espelho, espelho meu, existe no mundo alguém mais belo do que eu?”.

Aliás, o desacerto entre as conveniências e a objetividade começa, praticamente, com Gutenberg, enterrando, na altura de 1500, toda a forma de julgamento do processo medieval, preso à oralidade do cavaleiro.

Fazendo-se o cotejo entre dois conceitos, o “Volkisher Beobachter”, que advoga a coincidência entre o destino da Pátria, o anti-marxismo, o anti-semitismo, o anti-liberalismo e o anti-cristianismo, contrapõem-se ao denodo do “Washington Post”, na busca do fato que se torna uma obsessão, que desmascara a mentira e a casuística no comportamento de Nixon, transformando sua queda numa vitória moral da nação.

Se existe uma linha comum entre as ideologias da força é a das reservas mentais.

O sigilo, o “interesse nacional”, o mas combinando com o talvez, ajustam-se na perturbação de uma filosofia que acaba se degenerando na descrença da procura lúcida.

Numa passagem clássica, Shakespeare denuncia o patético do problema:

“Otelo: — Quero a prova ocular; ou pela minha eterna alma, seria melhor que tivesses nascido um cão do que responder à ira provocada.

lago: — É assim?

Otelo: — Mostra, quero ver, ou pelo menos prova, e que a prova não tenha canto ou curva, onde restar uma dúvida; ou pobre de tua vida”.

Algumas das razões recônditas dos mecanismos que conduzem ao medo com que se encara o jornalista, podem alinhar-se na sua ansiedade pelo fato, impondo-se pelo relato o mais direto entre o olho do leitor e o acontecimento.

Isto lhe confere a grandeza do sociólogo, o sucesso que demanda a participação democrática.

Diante da Tv, a fenomenologia ocorre diferente. O meio se distancia, permitindo o desengajamento. Psicologicamente, a teatralização já se bastou.

O hiato que o jornal cria é uma guarnição de liberdade. Queima nos dedos o reflexo, obriga a meditação, leva à formulação do juízo pessoal. Daí o seu poder-de-fogo singular que aterroriza a seita e o dogma, desregula o “ego”reprimindo e tira o cidadão do cotidiano rotineiro.

Em cima da suspeita, trabalha o jornalista que tem o senso do destino existencial, sem nenhum prévio ajustamento com a “confiança”. A diferença moral entre o “press release” e a coluna assinada é a autoridade que emana do risco a correr, pelos interesses contrariados.

Aquilo que é o sonho e a esperança visionária da civilização — acesso à informação ampla, livre e controvertida — é o pesadelo do burocrata e do fanático, projetando na tela do seu inconsciente reação descontrolada, sinônimo de desordem e ameaça.

Quando o delírio se junta à má-fé, os desdobramentos escolásticos conduzem à monomania; o ódio, ao complexo.

Dois mil e trezentos anos antes de o homem descer na Lua, Platão afirmou que “os astros, por mais belos que sejam, pertencem apenas ao mundo visível, que não é mais que vaga sombra ou cópia deformada do mundo real das idéias. É absurdo, portanto, trabalhar na determinação exata dos movimentos desses corpos imperfeitos”.

Agrupar os fatos, revelar a ocorrência, na dimensão exata, realiza a imaginação, no estamento racional. Atrás de cada mundança decisiva, um jornal, dramático observador, cataliza o enfático, ligando o público ao ativista. A alternativa seria a confusão, plano caótico de expressão alienada.

Quixote alucinado, ou Sancho Pança estabelecido, metalúrgico ou empresário, o leitor refaz o noticiário, por cima de sua auto-atualização, longe do “decorum”, perto da cognição e do reconhecimento.

Pobre época retratada num jornal, pergaminho que daqui a dez mil anos será o diário da nossa catástrofe.

 

Politicamente correto

 

A partir do início do século XX, fica evidente que a luta pelo poder nacional, sindical, religioso, mundial, toma características de uma violência sem precedentes, na história. Entender a ânsia do homem pela força e a potência, pode servir como elemento de desmistificação. Como é que se processam os mecanismos de ansiedade dentro do indivíduo e se projetam na sociedade, com o objetivo de dominar o outro? O sadismo - o exercício sobre o outro “eu”, de tal maneira que proporciona prazer, através do controle da mente, do físico e do intelectual, tornou-se uma constante emocional, nos jogos das interações humanas. Matar, torturar, manipular. Eis verbos fáceis que Hitler e Mussolini souberam tornar populares. Obviamente, isto só pode acontecer como fruto de fenômenos econômicos e políticos de tremenda envergadura, dentre os quais um dos mais conseqüentes foi a proliferação dos instrumentos de comunicação e cultura de massa. Sem rádio, a TV, o jornal, a Internet, não se pode compreender o ditador moderno. Mas, de outro lado, estamos cogitando de uma realidade profunda do mundo subjetivo de cada um. Sem a cumplicidade e a omissão não se estabelece o poder ilimitado. Na citação de Max Weber: “Potência - macht - significa toda oportunidade de impor a sua própria vontade, no interior de uma relação social, até mesmo contra resistências, pouco importando em que repouse tal oportunidade”. O crescimento monstruoso desta realidade, penetra hoje, em nossas vidas, das maneiras mais grosseiras e sutis. Desde o controle de nossa atividade acadêmica até de nossos mais recônditos pensamentos e desejos. O pesadelo antevisto por Georges Orwell em “1984”, está se realizando. Qual a alternativa viável para o prosseguimento desta ânsia de controle que acabará desencadeando a guerra nuclear, com a destruição da civilização? Os homens se acostumam depressa demais à obediência. Na Polis grega a vida pública é caracterizada pela discussão. O diálogo entre a criança e o adulto, a mulher e o homem, o branco e o negro, o sim e o não, constitue a última fronteira contra o Leviatã ameaçador, cuja vontade de reduzir o cidadão ao autômato e a cultura a uma noção de “defesa e proteção”, e não de “Liberdade e expansão”. O crescimento, demográfico e institucional, das forças de produção e dos módulos de controle da informação, obrigatoriamente, acarreta a diminuição do espaço para o trânsito individual? Em “A Terceira Onda”, Alvin Toffler procura adivinhar a saída honrosa de uma alternativa humanista e comunitária. De uma ou outra maneira, esta preocupação se casa com a sobrevivência da dignidade da espécie. O nosso século viu a tortura ser incluída no Dicionário político e jurídico, de quase todas as nações. O genocídio e o racismo são as garras vulgares da massificação e ânsia de força, que integram num só domínio o fabricante de armas e o desestabilizador social, o terrorista enlouquecido que mata John Lennon e o super-funcionário burocrático que manipula estatísticas para provar o que não pode ser provado:que a miséria é sadia, que a falta de condições mini mas de vida é uma imposição dos “tempos...”. O poder não pode e não deve divorciar-se de sua única fonte de legitimação, que é expressa democrática e soberanamente, pelo povo, só podendo ser exercido em seu nome. Quando foge deste batismo original, torna-se o braço da opressão, na mentalidade do horror. Numa escala provinciana ou em escala nacional, dentro da família ou nos grandes conglomerados urbanos, o poder, outrossim, precisa estar sempre exposto ao juízo da crítica e da auto-crítica, bem como limitado pelas sanções da moral coletiva, sem o que, tende para a redundância totalitária. A saga da resistência teve um “clímax” no filme “Z” de Costa Gavras, na greve de fome de Sakharov ou no suplício anônimo das fétidas prisões deste planeta atormentado. O “anti-climax” se determina pela objeção de consciência que furta ao tirano a glória do ganho. Uma espécie de “proibido proibir”, em sermão libertário e fraterno.

 

 

Escola da Tortura

 

O Brasil tem longa tradição de autoritarismo sádico. Este sistema de opressão se manifesta através de mil faces, todas inducentes ao propósito de manutenção do “status quo”. Uma destas máscaras, e das mais perversas, é o uso da tortura física e mental para amedrontar, desmoralizar, inutilizar e matar a vítima. O adversário do regime, que se propõe a tentar mudar a estrutura político-econômica da sociedade por meios radicais (eleitorais ou não), tem sido tratado, no Brasil, como animal ¾ aliás Sobral Pinto argüiu a lei de Proteção aos Animais para defender Prestes dos beleguins de Felinto Muller. Para tanto, não faltam nossos estereótipos do machismo bossalizado, pretensões de aristocracia senhorial, mentalidade coronelesca, dos senhores e capatazes que fincam pé, numa história que faz o etnocídio contra o índio e arrebentou com o negro na escravidão legal e na discriminação de sempre. No governo de Arthur Bernardes, mas, principalmente, com a ditadura sanguinária do fascista Getúlio Vargas (que contou com o silêncio, conveniente, omissão ou namorico de boa parte de nossa intelectualidade cooptada pelo DIP e Ministério da Educação), e depois do golpe de 64, com a introdução das técnicas avançadas de infligir dor, mutilação e agonia, estabeleceu-se uma espécie de complacente ideologia de que um “certo grau de brutalidade” é aceitável; que faz parte, digamos assim, das razões de Estado. Um tipo de comportamento à Pitecantropus Erectus. Contrafacção significativa deste pensamento (?) é a conduta no sistema carcerário, policial do país. Enquanto o leitor elabora este material, certamente por este Brasil tem muito preso dependurado em pau-de-arara, submetido a espancamento, em condições de reclusão que fariam babar de gozo a Gestapo. A habitualidade da convivência com uma certa destrutividade da autoridade leva a dois fenômenos de moral deteriorada: ¾ Um raciocínio de acomodação que se racionaliza com o argumento de que é inútil qualquer resistência, individual ou coletiva. “A vida é assim mesmo”, a aliança com o algoz, “bandido tem que ser tratado desse jeito”, enfim, a horizontalização, totalitária que culmina com a apologia da pena de morte. ¾ Preservação do silêncio conivente pelo receio de represália que acanalha a alma de cada um, contaminando como peste a vontade da cidadania. Diante deste quadro, existe um precedente que foi adotado no tribunal de Nurenberg que julgou os crimes de guerra nazista. Não só o direito, mas o dever para todo cidadão, civil ou militar, em qualquer circunstância, de desobedecer à ordem imoral que se apóia na tortura, obrigado ainda a denunciá-la. A guerra por sua natureza é um fenômeno de violência. Mas, mesmo na guerra, o que distingue o homem da natureza bestial do animal é um código mínimo de valores que empresta dignidade e até “panache” ao militar, condoído pela desgraça dos vencidos. O contrário é a barbárie do prepotente escondendo a impotência de ser. O torturador é um depravado moral ou um demente? Provavelmente a lamentável soma das alternativas. Piedade, caridade, bondade, solidariedade, enfim os atributos básicos da compaixão, exigem que a monstruosidade covarde da tortura (sempre feita em condições de desvantagem física) seja abolida, em todos os níveis de interação comunitária. Mas, principalmente, que se institucionalize a consciência do valor ético da desobediência à ordem imoral. Ordenar, executar ou cumprir tortura contra o semelhante é crime de lesa-humanidade, em qualquer circunstância ou situação. A arbitrariedade desfigura o homem coisificando-o. A resistência à opressão é maturidade que eleva a criatura à condição de pessoa.

Finalmente, a complacência cria um clima em que a tortura, física e moral se alastra entre os indivíduos. Contra a mulher, a criança, o idoso, em formas camufladas, veladas, por toda a comunidade. Uns contra os outros. O todo contaminado.

 

Tribuna da Imprensa – 26/07/99.

 

O Mercador de Ilusões

 

Escrever a história política de nosso tempo, é um pouco descrever a participação do intelectual, nos desastres da civilização. Principalmente, quando messiânico, a serviço do Excluído ou do Escolhido.

Neste momento em que as diversas candidaturas arrebanham artistas para avaliarem suas pífias campanhas, oportunas algumas considerações.

Mussolini foi redator do jornal socialista “Avanti”. O Partido Comunista, desde sempre, tinha suas células compostas por intelectuais e artistas, assumindo a condição de instrumentos de proselitismo.

Direita e Esquerda, esta polarização facilitou e deu ensejo, nas formas de suas nuances totalitárias, o stalinismo e o nazi-facismo, ao “delivery” de consciência, por convicção ou por interesse, e muito, freqüentemente, ao “mix” do inconsciente e da ideologia.

Ezra Pound em suas alocuções apelando à deserção dos soldados ítalo-americanos, e, quando, preciso para salvar a pele, uma demência encomendada.

Paroxística e trágica é a cumplicidade da cultura no linchamento psíquico do adversário, feito inimigo. Em “Schachnovelle” Stefan Zweig, que não se curvou ao totalitarismo, descreve a caça.

Aragon, Ehrenburg, Picasso, e toda uma corte internacional, que enaltecendo a “religio” soviética sustenta a megalomania de Josef Visionarovitch Djugashvili, o seminarista Stalin, paranóico, perseguido pelos fantasmas de suas adulterações.

A crueldade contra a “inteligentzia” russa, faz contra-ponto com o assassinato de Garcia Lorca, presença eloqüente de resistência anti-franquista.

O arrependimento pela perda da individualidade, da imersão na manada dos elementos ativos e passivos, responsáveis pela ordem política da submissão terrena, precisa ser questionado, para que não se esgote por si.

A transformação em um estado autoritário dá-se com o sacrifício da alma do homem, a perda do senso crítico. Por isso, a inteligência não sobrevive neste estado, em que os ideais de justiça são usados para a criação do sistema de opressão.

Em relação ao uso que a demagogia possa fazer dos meios de comunicação de massa, o perigo é de que a televisão possa ajudar a formar indivíduos insensíveis, uma sociedade de gostos comuns, aquilo que Tocqueville chamou de “tirania da maioria”, que pode levar à repressão legalizada de minorias.

A massa nanobrável é capaz de confundir o Museu de Cera com o Panteão Grego, e a desorganização mental que transforma a Universidade num ginásio de asneiras, a Justiça num circo de gladiadores, a Verdade no instrumento dos medíocres, faz girar a roda da História, velozmente para trás.

Ódio ao pensamento, expresso na campanha contra Adlai Stevenson à presidência dos E.U.A – o mote dos “eggshead” - brilhantes por fora, vazios por dentro, segundo o burro de ocasião, o matuto conservador.

Aqui no Brasil, o integralismo, com Gustavo Barroso, e o comunismo, com Jorge Amado (que, posteriormente, corajoso fez sua auto-culpa), usaram e abusaram daqueles dispostos a emprestarem sua “naiveté” partidária, ou ambição de prestígio, para engrossarem a argumentação que conduz à abdicação do pensamento livre. É preferível errar com o Partido do que acertar sozinho.

A redução das escolhas existenciais ao Chefe que pinta e borda, justificando o maquiavelismo de quaisquer alianças, em nome da causa-vide pacto Molotov-Ribentropp.

No Brasil, um enclave emblemático, à frente Getulio Vargas – Luiz Carlos Prestes, o algoz e a vítima, unidos em nome de interesses surrealistas, que repugna a essa sim, intelectualidade crítica e libertaria, que frutifica na chamada Esquerda Democrática.

Aliás, para nosso orgulho, temos o caso exemplar do intelectual paradigmático, na linguagem patrulheira, um alienado, inclusive perseguido num congresso da União Brasileira de Escritores, o magistral literato, talvez o maior tipo humano de nossa era medíocre, Guimarães Rosa.

Recusando-se a servir aos ídolos e movimentos de ocasião, não obstante, o testemunho valoroso, em Hamburgo, arriscando a própria vida para salvar perseguidos do totalitarismo hitlerista e com a descrição de sua aldeia, conduzindo Riobaldo à re-conquista da dignidade humana.

Esta sim, a única função a qual o intelectual tem o direito de imprimir sua “griffe”, enquanto cidadão, e jamais, num paternalismo onipotente, imaginar-se acima de qualquer suspeita, ditar à sociedade, Júpiter, seus desejos e opções. Exercite os desejos, formule as opções, mas enquanto eleitor, sem a narcisica petulância de influenciar a “massa” que, no fundo, despreza.

REALOCAR SEUS PRÉSTIMOS FAZ DO “COMPANHEIRO INTELECTUAL”, POETA OU MARKETEIRO, UM MERCADOR DE ILUSÕES.

 

Diário de São Paulo, 25/09/02.

  

A Crônica da Morte anunciada

 

O primeiro turno das eleições girou em torno da Economia. O segundo deve girar em torno da Psicologia e da Filosofia. Quem somos e o que pretendemos. Ultrapassagem do quanto, e o espaço do quando e do Sentido. Para alguns a eleição de Lula é o Apocalipse vermelho, como se Aloísio Mercadante não fosse, abrindo meu voto num debate radiofônico, a soma da Ética com a Estética. Para outros a eleição de Serra, a continuação do governo pálido de FHC, como se a democracia não tivesse consolidado uma conquista extraordinária de pluralismo, este sim de Primeiro Mundo.

A sensação de ansiedade, traço de paranóia, alimentada pela especulação e o aventureirismo, mas também pelas máscaras criadas pelos marqueteiros, jogam na fantasia e na ambigüidade, o futuro ideológico e político.

Teorias conspiratórias fazem com que o Bicho Papão seja nosso Pastor. O FMI ou Che Guevara, como se a extraordinária identidade nacional, mergulhasse num vazio dependente da aprovação do “Risco Brasil”, o boletim que o menino travesso precisa exibir para o Merryl Lynch, travessura adolescente puxando o estilingue para jogar pedras e receber o riso envelhecido da esquerda européia.

Um povinho de periferia, conduzido e apavorado por Fernandinho Beira-Mar, como se fossemos, a escória da Terra, dependendo dos capitais extrangeiros para continuar nessa miséria insuportável que assalta as crianças famintas nas esquinas da bandidagem.

O lixo do luxo que se espelha nas colunas sociais, o cinismo niilista que decreta nossa covardia.

Machado de Assis, não nasceu em Miami, Guimarães Rosa não passava bronzeador na Cote D’Azur. O nosso “melting-pot” é o mais precioso do planeta. Baiano e italiano, vascaíno, corintiano. Temos Scolari, no futebol, Miguel Srougi na medicina, Gisele Bundchem na beleza, Zilda Arns, na solidariedade social.

Pois que, no salto vertical, das estatísticas e das bolsas de valores e muito para além dos arranjos negocistas dos partidos de ocasião trocando cargos futuros, lembrando infantes “batendo figurinhas”, comprometendo e corrompendo, um traço revolucionário.

A revolução dos sonhos resgatados.

José Serra, Zé Mané que chegou onde chegou, ora vejam. O moço da U.N.E. que, provavelmente, nas noites de insônia, imagina uma nação que assegure um minimo de dignidade na sobrevivência dos seus pares, nós, desde o rico que não quer viver no bunker do carro blindado ou o pobre desempregado.

Luiz Inácio Lula da Silva, o metalúrgico que sacudiu a poeira e deu a volta por cima e não depende de aval, para se imaginar celebrando um Pacto Nacional, sem medo e sem ódio.

As autenticas mudanças históricas que transfiguram a civilização independem de bravatas e se ancoram no coloquial, na reza do silêncio, a sutileza do olhar.

Esta é uma colocação negra. Aquela do libertário anarquismo individualista, que numa contracorrente ofereceu um milhão e quinhentos mil votos a alguém que grita seu nome, na confusão da barbeiragem.

O “Eu” que reclama sua hora e vez é do Zé Ninguém de Reich, pleiteando a consciência do eleitor e do eleito.

Voltando de Paris, após a Copa, declaro que perdemos diante da “Marselhesa” e não das chuteiras. Cito Napoleão que com este hino e 5.000 homens derrota 50.000 inimigos.

Boris Casoy me interroga. O que fazer? Respiro e inspiro. “Ou ficar a Pátria livre ou morrer pelo Brasil”.

Temos dois atores, capazes de grandeza ou redução ao bizarro. Façam seu jogo.

 

Folha de São Paulo, 21/10/02.

 

 

Paranóia na eleição trash.

 

Paul Ricoeur qualificou o método freudiano como “hermenêutica da suspeita”.

Na forma das citações, a história não se repete a não ser como farsa. A campanha eleitoral que ora se pretende desenvolver, configura um caso extraordinário da sociedade de espetáculo, num contexto de violência, ritualizado na mediocridade. Big Brother. TV-Globo e George Orwell.

Senão , vejamos, para escândalo dos bem-pensantes, patrulheiros e financistas.

1.       O exorcismo da ideologia. Qualquer compromisso com princípios políticos, visões de mundo estão, radicalmente, expulsos da discussão. O estupro do chamado socialismo real, que começa no relatório Kruschev e desemboca no niilismo das revelações, confissões e denuncias transformaram legendas e ícones, em atores de “dossiês policiais”.

O liberalismo, anunciando o “fim da história”, com a celebração da massa e do consumo, joga a esperança no desemprego, a juventude na histeria abissal dum “rap” caricato, arquitetando malandros e picaretas, travestidos numa estatuária arrogante.

2.       O intercâmbio dos personagens confunde a efígie das personalidades. Assim, José Serra, Hamlet, não sabe se assume ou não o legado de Fernando Henrique, deixando na orfandade a parcela do eleitorado que apóia a política presidencial, balançando, segundo o marketing entre a austeridade, a vocação pessoal e a concessão ao populismo que acaba por confundir boi e vaca, para tema de José Simão.

Ciro Gomes, herdeiro legitimo do poder nordestino, desfila, num modelo mal-ajambrado por matiz acadêmico, juntando o remanescente do Partido Comunista, com Antonio Carlos Magalhães. Sutil ares de mistagogo, assustando os nervosos mercados, cujos fricotes especulativos correspondem à cartas marcadas, no dejà-vu.

Garotinho, pregador cow-boy, evangelista, ligação direta com o Divino. Tenório Cavalcanti, na sanha moralizadora, que viceja na ambígua cultura fluminense. O ovo da serpente, do messianismo Getulio-luterano.

Luiz Inácio da Silva, no figurino de Duda, se transforma em Loyola, da dona Vera, emergente, desfilando com o hilário Alencar, milionário capaz de vender o patrimônio do Tio Patinhas, para uma vice-presidência ao modelo de compadre Itamar, mais Pança, menos Quixote, e na garupa sacrificando os sonhos de um Brasil, 4 anos em assembléia permanente.

3. Crise de identidade, dado o afastamento entre os anseios inconscientes da população e a linguagem dos “currais de voto eletrônicos”.

Painel que teria outra leitura, em forma de metanóia. Senão, outra vez, vejamos:

1.       Os protagonistas despejam os coadjuvantes, heterônimos de si-mesmos, todos capazes de um rasgo patriótico, visionário, informarem ao Brasil que o bravo capitão faz brava a gente e que este país tem uma dívida com seu povo merecedor dum destino “humano, demasiadamente humano”.

2.       A decisão voluntarista do apelo à Churchill – “com sangue, suor e lágrimas” mobiliza a sociedade, adulta, rejeitando a alienação.

Eis que a aflição da cidadania – a guerra do crime organizado jaz no oculto, no tabu.

O sociodrama deste tempo sombrio está se configurando num conflito insanável. O esgarçamento do tecido partidário, tradicionalmente, frágil desmoraliza qualquer projeto de nação. As privatizações acompanhadas de escândalo, lembram uma cena à Rasputin, que acaba por inventar um Estado-fantasma de que o Espírito Santo se ergue fantasmático.

E no Imaginário da desilusão e do aborrecimento, uma cultura debochada escolheu, a dedo, alguns milhares de figurantes num democratismo de imitação, para entregar o futuro do país.

Todas estas vertentes e perplexidades podem traduzir o sentimento em Alice no Pais das Maravilhas “acho que eles não jogam nada direito e brigam tanto que não se dá para ouvir mais nada. Também parece que o jogo não tem regra nenhuma, ou se tiver ninguém cumpre”. Lewis Carrol.

 

Folha de São Paulo, 27/08/02

 

Escola da Tortura – Aprimoramento

 

Infligir torturas aos prisioneiros, políticos ou de guerra, embora a Convenção de Genebra ou as declarações internacionais o condenem, continua a ser uma forma consagrada de se extrair informações ou, pura e simplesmente, de punir o adversário vencido.

Com o requinte de sadismo, os apaixonados das religiões, os dogmáticos das ideologias, sempre se arrogaram o direito de bestializar seus semelhantes, física e emocionalmente. Desde a China antiga até a inquisição, a matéria vem recebendo dos seus “experts” alentados subsídios informativos. Hodiernamente, em correspondência com os novos descobrimentos sobre a alma e instrumentos mecânicos, criaram-se situações deveras originais.

Embora a escala só permita o tormento dos cinco sentidos, algumas variações vêm se firmando, nas Escolas de torturas, disseminando, através de cursos especializados, por quase todos os paises, nas policias ou nas forças armadas. Inclusive existem, hoje, aulas para submeter os soldados, antes de partirem para as trincheiras, o certo número de violências e pressões, objetivando aumentar seu grau de resistência a eventuais torturas, em caso de captura pelo inimigo. Imaginamos que os mais resistentes devam receber melhores classificações, em tais cursos, e que é uma real conquista do masoquismo como filosofia.

Dentro de todo este esforço técnico, procura-se despir os métodos de tortura de suas aparências passionais, emprestando-lhes a dignidade de frio dever. Para tanto, em laboratórios datadíssimos, cobaias voluntárias permitem a aferição da dor, através de um mecanismo apelidado dolorímetro. Abaixo transcrevemos dois textos elucidadores da tentativa de transformação da sociedade, na armadilha do homem-rato, em que seus executores são, aparentemente normais, verdadeiros Frankenstein, médicos e monstros, capazes de procriarem filhos, apreciar obras de arte e descer às profundezas do inferno:

O edifício parecia-se com um vasto estabelecimento de banhos; à direita e à esquerda, grandes vasos de betão continham caules de flores murchas. Junto da pequena escada de madeira, um S.S. benévolo, com umas grandes bigodaças, dizia aos condenados: “Nada lhes acontecerá de desagradável! Só é preciso respirar muito forte, o que fortifica os pulmões e é uma boa maneira de evitar as doenças contagiosas, uma belíssima desinfecção”. Quase todos entravam sem dizer palavra, empurrados por aqueles que iam atrás. No interior, uns cabides numerados cobriam as paredes de um espécie de vestiário gigantesco, onde o gado se despiu como pode, reconfortado por cicerones S.S. que recomendavam a todos que fixassem bem os números; uns pedaços de sabão que pareciam pedras foram-lhes distribuídos. Golda pediu a Ernie que não olhasse para ela, e foi com os olhos fechados, guiado pela rapariga e pelas crianças cujas mãos finas se agarravam às coxas nuas, que ele penetrou através da porta corrediça no segundo compartimento, onde, debaixo dos chuveiros fixados no teto e a luz azulada de pequenas lâmpadas metidas dentro de umas grades e colocadas em pequenos nichos abertos no betão, se comprimiam já homens e mulheres, crianças e velhos judeus; de olhos fechados Ernie agüentou a avalancha dos últimos fardos de carne que os S.S. atiravam agora à coronhadas para a câmara de gás. E, de olhos fechados, teve a consciência de que a luz se apagava para os vivos, para as centenas de mulheres judias que, subitamente, rompiam em clamores de angustia, para os velhos, de cujos lábios logo as preces sagradas se elevaram com uma força cada vez maior, e para as crianças mártires, que, no meio das aflições, retomavam a inocente frescura dos medos de outrora, os quais se manifestavam em todas por idênticas exclamações: Mamã, mas eu não fiz maldades! Ui!, que escuro que está!... Enquanto os primeiros eflúvios de gás “Cyclon B” se infiltravam por entre os corpos suados dos adultos, para se irem depositar, a um nível inferior, sobre o tapete agitado que as cabeças infantis compunham, Ernie, libertando-se do abraço mudo de Golda, inclinou-se no escuro para os miúdos encolhidos e como que abrigados até entre as suas pernas e pôs-se a berrar ao mesmo tempo com o tom mais doce de que era capaz e com toda a força de sua alma: “Respirem forte, meus cordeirinhos, respirem depressa!””.

(O Ultimo Justo – André-Achwarz-Bart)

 

“Serpentes venosas eram introduzidas nas vaginas das mulheres que morriam em penosa agonia. As autoridades usavam também garrafas quebradas, que empurravam a força para dentro das vaginas das mulheres. As mulheres perdiam a consciência e muitas vezes morriam. Os guardas usavam estiletes de aço que metiam por baixo de todas as unhas dos prisioneiros. A seguir, envolviam seus dedos, empapavam-nos em gasolina e acendiam-nos. Bombearam água para dentro de nossas narinas e boca. A água era misturada com molho de peixe, extremamente picante. Queimava-nos as membranas. Usavam também sabão. Ou então Crezil, desinfetante sanitário bastante forte, utilizado em lavatório e toilettes para matar os germes”.

(Do livro “Ética e Tecnologia” do Dr. Jacob Pinheiro Goldberg)

 

Jornal do Movimento Anarquista – Dealbar – Junho/1998.

 

 

Presidente Judeu de Portugal

 

Um fato de mágica e transcendental importância acompanha a eleição de Jorge Sampaio à presidência de Portugal. O candidato socialista, eleito com ampla margem de diferença sobre seu opositor direitista, Cavaco, é filho de mãe judia e pai católico. Portanto, segundo os cânones da ortodoxia religiosa judaica, que reconhece o filão da matrilinhagem, Sampaio é judeu.

Nação de tradições católicas as mais enraizadas do mundo ocidental, provoca um resgate teológico, ideológico, político, de efeito histórico impressionante: de um só golpe derruba o desígnio que a Inquisição pretendeu, através de torturas, fogueiras e extinção genocida.

A mãe do presidente Sampaio, de sobrenome Bensaude, portanto de origem “sefaradi”, ao casar-se com seu marido católico, outrossim, rompeu o consenso do casamento tribal que é alimentado pelo fundamentalismo judaico e que foi acirrado, de maneira dramática, exatamente, pelo terror da Inquisição, não só em Portugal, mas em todo o Ocidente.

A eleição do presidente Sampaio, sob este ponto de vista, é um exemplo magnífico, que deve ser aproveitado na sua integralidade. Muito mais impactante que as reparações alemãs pagas pelos crimes nazistas.

Pelo Estado de Israel, cuja Lei do retorno não reconhece a patrilinhagem e nem mesmo a conversão celebrada por rabinos reformistas. Legislação esta inspirada pelo radicalismo sectário.

Para aqueles que não confundem casamento interconfessional com assimilação horizontal, serve o fato de que 50% dos casamentos judeus no Brasil hoje são feitos com nubentes de outras religiões.

E deve se tratar de um fenômeno de mão dupla.

A derrubada do Guto físico, emocional, de civilização, não pode ser confundida com deserção, ou covardia, ou adesão aos valores do grupo social numericamente superior.

A transação de concepções precisa ser dimensionada segundo opções existenciais profundas. Moisés e Salomão não se restringiram, no campo afetivo, ao crescimento interno. O próprio Abrão, mito fundador, é também o Estrangeiro, o diferente, que vive na Metanóia.

Na realidade, o grande desafio contemporâneo se destina a horizonte oposto”um mundo, o mundo, a ser fertilizado pelo espírito judeu e não mais o pavor medieval, que acaba num complexo de inferioridade patológico e cavernoso.

A lição de Jorge Sampaio é que o judaísmo é grande demais para ser propriedade exclusiva dos judeus, e de que a PAZ FOI CELEBRADA. Esta eleição tem a mesma dimensão universal do acordo Israel-Palestinos.

O fruto do casamento misto, Jorge Sampaio, em debate com Cavaco, afirmou: “Contra a arrogância ofereço o dialogo, contra o nervosismo prego a confiança, contra o sectarismo voto pela paz, serenidade e tolerância”.

O casamento misto é a oferta judaica à humanidade, corporificada no amor e não no medo, na abertura e não no agachamento, na coragem e não no ódio.

Fênix renasceu das próprias cinzas. Esta lição portuguesa terá desdobramentos profundos na psique dos povos e na mentalidade das religiões.

Jornal da Tarde/SP – 18/01/96

 

 

Laboratório de Literatura

 

Em 1972 fui convidado por Pietro Maria Bardi, para lecionar no curso de Museologia, do MASP. Daí evoluímos para a criação do Laboratório de Literatura. Era uma proposta aberta, de um ensino renovado. Durante dois anos, com a colaboração de professores idealistas, forjamos uma espécie nova de ensino.

Uma reflexão livre, melhor libertária, sobre o aprender e o ensinar. Um modo Zon de encarar a cultura do saber. Os resultados foram extraordinários. Não havia livro de presença, mas havia presença. Não havia provas ou notas, mas ouve um “happening” semanal. Daí prosperamos para laboratórios em Universidades, ginásios e até jardim de Infância. A experiência transbordou, na PUC, no Simpósio Nacional sobre o Pré-Escolar. Em Ribeirão Preto, a Professora Ely Vieitez Lanes montou um Laboratório ao nível de extensão universitária, na Faculdade de Filosofia Moura Lacerda, e escreveu dois livros sobre o processo: “Perspectivas da Literatura, segundo Goldberg” e “Laboratório de Literatura”. Dividimos o repertório com os alunos da Faculdade de Educação, na USP.

Desde 1978, nas Faculdades São Judas Tadeu, cristalizou-se, primeiro, formalmente; através de um Curso regular, e depois, espraiando-se pelo melhor espírito do laboratório, um esforço de encontro com a comunidade, o Laboratório de Criatividade, desafiando os percalços do tempo – a cobaia dinamizada. Sem registros de alunos, sem dogmas, sem burocracia, sem provas, exames, sem paredes, sem horários. Seminários, pesquisas incorporando-se a fertilidade dos grupos dos estudiosos do “Fórum de Inteligência”, do Instituto de Ciências do Comportamento, através da ponte da professora Maria Conceição Mesquita Chiocarello.

Impossível, por sua gênese e desenvolvimento, um relato histórico frio, do que foi, é, e imaginário será, o Laboratório de Criatividade.

Tenho procurado ser nele, o professor espantado, consciente da limitações absolutas de minha realidade informativa e sensorial.

Conversando com o professor José Carlos de Azevedo, o intranqüilo intelectual que dirige a Universidade de Brasília, lembrei-me de uma aula que dei no CEUB, na Faculdade de Direito em Brasília, aonde disse: “Tenho ventilado idéias, em aulas, para dezena de milhares de universitários, em todo o Brasil, por quase vinte e cinco anos de um magistério informal, sem caráter, sem lenço, sem documento, com a inspiração do poeta”.

Sem salário, horário ou folha de pagamento.

Quais os frutos e quais as perspectivas?

Se houver que medir com as medidas convencionais, fracasso. Trabalhadeira, viagens, incompreensões, dores de cabeça.

Se houver que medir com as medidas subjetivas, uma ponta de esperança. Um diretor da Televisão cultura, que chega no corredor antes de uma entrevista e diz: “Olha Goldberg, o que eu entendo de TV, aprendi no Laboratório do MASP”.

Uma carta, um sorriso, um moço que me para, no meio do trânsito de São Paulo e diz: “Depois de ler seu relato do Laboratório, larguei a Faculdade no meio e mudei de curso”. “Descobri que o meu caminho era outro”.

Os sonhos começam sem uma dimensão de tempo e acabam em pesadelo ou semente.

Tudo isto vem a propósito de uma entrevista com a professora de calibre extenso e a formalização de documentos.

A Universidade brasileira, como todo o ensino contemporâneo passa por uma profunda crise de identidade. Como conciliar a necessidade de elenco de informações, “quantitativamente” cada vez mais numerosas e o talento da criação, cada vez mais deficitário?

Até onde vão os quadros negros do Laboratório de Criatividade que se ficou nas Faculdades São Judas Tadeu, e aonde se rasgam os horizontes do começo, do meio e do fim?

O Laboratório do MASP, um dia se encerrou, porque precisavam da sala para ensaios musicais. Se encerrou? Mas Juliana Bueno Valente Bio, continua vivendo seus instantes, num jornalismo vibrátil. O de Ribeirão está na alma e no ensino de Ely, perene.

Propus e foi aceito, no esforço que estamos empreendendo junto ao Departamento da História da Ciência, na USP, com a crença do professor Geraldo Florsheim e outros “perdidos idealistas”, uma sistemática de testemunhos substituindo as aulas padronizadas. É o Laboratório em curso, sem lanço e sem documento, ultrapassando as fronteiras dos prédios e invadindo as almas que só querem entender, aprender.

Aprender, entender.

O resto são quimeras da objetividade. Objetividade. Objetividade não casa com criatividade. Somente o surreal é concreto. Os engenheiros do meu ensinar, não são fiscais de notas, são Jorge Luiz Borges e o labirinto do absurdo.

Em 1984, o Laboratório inicia nas Faculdades São Judas Tadeu, uma perspectiva narrativa.

 

Diário da Manhã – Ribeirão Preto 08/12/1983

 

 

Discreta guerra civil

 

O mito do “homem cordial” brasileiro meio que já caiu por terra. Mas a armação do Carnaval e a fábula do jogo do bicho (que não se perca pelo nome), “honestíssimo”, ainda vão sustentando os vestígios do jeitinho, apesar de homéricos malogros de quebra-galho, como filosofia de vida. Não por acaso será nas escolas-de-samba, nos senhores da “fezinha” e na rota do contrabando que a marginária opõe-se ao poder oficial.

A mentalidade de um personagem típico, bonachão, tolerante, compreensivo e jeitoso (mineiridade e carioquice) se pretende prevalecer contra todas as evidencias. A gauchice de 30 e paulistanada de 32 insubordinam.

A fantasia cômoda, tecida por Gilberto Freyre, de uma sociedade que no “fim dá certo”, risonha a franca, ou o Brasil do Milagre, colide com a brutalidade do comportamento da nossa (?) oligarquia e do homem qualquer, no seu cotidiano.

Concentrando na megalópolis, Grande SP, Grande RJ, Grande PA, os paises que estão se nucleando, o camponês, o provinciano, violentado pelo choque cultural do deslocamento, enfrentando a tecnologia, as disparidades entre o alucinado ritmo de vida industrial, a TV,e suas carências, mergulha periférico numa realidade criminógena.

Um quarto a população brasileira é composta por menores carentes (quase 30 mulhões) dos quais, aproximadamente, 2 milhões inteiramente abandonados, equivalendo a combatentes de uma guerra não-declarada, em que roubam, assaltam, matam, e são presos, espancados, torturados e mortos.

A conformidade com este estado de coisas, manifestada por um comportamento leviano (refletido nas colunas sociais reveladoras de um mundo aloprado), político (discussão alienada dos verdadeiros desafios iminentes), religioso (sincretismo que se pretende intermediar o além e o aquém, em rituais afro ou europeus), cultural (universidade e escola que já fracassaram), hábitos e costumes que transformam qualquer vigia noturno de condomínio em algoz fascistóide, perseguindo principalmente as crianças confinadas em play-grounds, que não tem “plei” nem são “graunds”.

Este miserável corpo-a-corpo de agressividade que, historicamente, se percebe na nossa tradição de torturas políticas, genocídio dos índios, castigos dos escravos, ditadura contra o objetor de consciência, no sistema carcerário, é denunciado pelo desespero do intelectual não-cooptado no imenso clube do elogio – mutuo que sustenta a estrutura de barganhas do nosso burro império de faz-de-conta.

Estes denunciam o grau de perversidade reinante nas verdadeiras interações de nossa sociedade. É necessário verificar, no agudo urbano, a cronicidade deste fenômeno de mau – caratismo e brutalidade.

O homem cresce e amadurece quando se debruça sobre suas deficiências e encara suas ambigüidades e contradições. A neurose fica extasiada entre a mentira e a contemplação. Não terá chegado a hora e vez, coincidindo com a constituinte, de checar o psiquismo que se esconde atrás do macunaímico?

Abandono, rejeição, falta de solidariedade, estranhamento, medo, angústia, melancolia habitam a alma deste infeliz que assalta e é assaltado nas nossas cidades e nosso interior.

A intimidade do seu universo em que falta alimento, amor, e lucidez se inferniza num drama hipócrita: “Escravo de Jô, jogava caxangá... tira, Poe, deixa ficar...”. Guerreiro com guerreiro?

 

Folha de São Paulo 25/03/88

 

 

Tortura – o sintoma canibal

 

O Brasil tem longa tradição de autoritarismo sádico. Este sistema de opressão se manifesta através de mil faces, todas inducentes ao propósito de manutenção do “status quo”.

Uma destas máscaras, e das mais perversas, é o uso da tortura física e mental para amedrontar, desmoralizar, inutilizar e matar a vítima.

O adversário do regime, que se propõe a tentar mudar a estrutura político-economica da sociedade por meios radicais (eleitorais ou não), tem sido tratado, no Brasil, como animal, aliás Sobral Pinto argüiu a Lei de Proteção aos Animais para defender Prestes dos beleguins de Felinto Muller.

Para tanto, não faltam nossos estereótipos do machismo bossalizado, pretensões de aristocracia senhorial, mentalidade coronelesca, dos senhores e capatazes que fincam pé, numa história que faz o etcnocídio contra o índio e arrebentou com o negro na escravidão legal e na discriminação de sempre.

No governo de Arthur Bernardes, mas, principalmente, com a ditadura sanguinária do fascista Getúlio Vargas (que contou com o silencio, conveniente, omissão ou namorico de boa parte de nossa intelectualidade cooptada pelo DIP e Ministério da Educação), e depois do golpe de 64, com a introdução das técnicas avançadas de infligir dor, mutilação e agonia, estabeleceu-se uma espécie de complacente ideologia de que um “certo grau de brutalidade” é aceitável; que faz parte, digamos assim, das razões de Estado. Um tipo de comportamento à Pitecantropus Erectus.

Contrafacção significativa deste pensamento (?) é a conduta no sistema carcerário, policial do país.

Enquanto o leitor elabora este material, certamente por este Brasil tem muito preso pendurado em pau-de-arara, submetido a espancamento, em condições de reclusão que fariam babar de gozo a Gestapo.

A habitualidade da convivência com uma certa destrutividade da autoridade leva a dois fenômenos de moral deteriorada:

-                     Um raciocínio de acomodação que se racionaliza com o argumento de que é inútil qualquer resistência, individual ou coletiva. “A vida é assim mesmo”, a aliança com o algoz, “bandido tem que ser tratado desse jeito”, enfim, a horizontalização totalitária que culmina com a apologia da pena de morte.

-                     Preservação do silencio conivente pelo receio de represaria que acanalha a alma de cada um, contaminando como peste a vontade da cidadania.

Diante deste quadro, existe um precedente que foi adotado no Tribunal de Nurenberg que julgou os crimes de guerra nazistas.

Não só o direito, mas o dever para todo cidadão, civil ou militar, em qualquer circunstância, de desobedecer à ordem imoral que se apóia na tortura, obrigado ainda a denunciá-la.

A guerra por sua natureza é um fenômeno de violência. Mas, mesmo na guerra, o que distingue o homem da natureza bestial do animal é um código mínimo de valores que empresta dignidade e até “panache” ao militar, condoído pela desgraça dos vencidos. O contrário é a barbárie do prepotente escondendo a impotência de ser.

O torturador é um depravado moral ou um demente? Provavelmente a lamentável soma das alternativas.

Piedade, caridade, bondade, solidariedade, enfim os atributos básicos da compaixão, exigem que a monstruosidade covarde da tortura (sempre feita em condições de desvantagem física) seja abolida, em todos os níveis de interação comunitária.

Mas, principalmente, que se institucionalize a consciência do valor ético da desobediência à ordem imoral.

Ordenar, executar ou cumprir tortura contra o semelhante é crime de lesa-humanidade, em qualquer circunstância ou situação.

A arbitrariedade desfigura o homem coisificando-o.

A resistência à opressão é maturidade que eleva a criatura à condição de pessoa.

 

Folha de São Paulo – 06/05/88

 

 

Judaísmo em Guimarães Rosa

 

Erudição e inteligência privilegiadas, o escritor, versado em Cabala, há de ter mergulhado em suas raízes que os nomes - Guimarães e Rosa – remetem ao cristão-novo.

No seu discurso de posse Acadêmica: “E o incontentamento é o seu clima, porque o artista não passa de um místico retardado, sempre a meia jornada. Falta-lhe o repouso do sétimo dia. Não tem o direito de se voltar para o já-feito, ainda que mais nada tenha por fazer”.

O sentido misterioso da entidade divina, segundo os preceitos mais profundos do judaísmo, no conto “Cara de Bronze”:

“O Fazendeiro Cara-de-bronze pede ao subalterno: “Vá buscar para mim o quem das coisas”. “O quem é o ilimitado, o infinito, transcendente”.

Dona Aracy de Carvalho, relata um comportamento dileto dos descendentes dos cristãos-novos, a ausência a missa. Segundo ela, Rosa rezava diariamente, mas nunca ia à missa.

“Conhecia todas as religiões a fundo, foi até a sinagoga. Ia muito conversar com um rabino, que disse que Rosa era uma inteligência fora do comum”.

E se a gente quisesse podia ir assim-assado, na linguagem talmúdica, do fluxo semi-consciente da obra Roseana, apanhando indicações e pistas da sua errancia judaica.

Talvez estas origens judaicas expliquem o comportamento de Dona Aracy e do maior escritor da língua portuguesa. Embaixador Guimarães Rosa – ambos, salvando vidas judias, durante o Shoá.

 

 

‘Judeufobia’ de uma negra

 

Marielene Felinto escreveu uma crônica na Folha, anteontem, a pretexto do filme “Amistad” - outra vez, de maneira agressiva, dando seu recado anti-semita, fruto, parece, de um problemático complexo de inferioridade. O deboche começa no título, em que usa “caramba” para qualificar o pênis avacalhado, ao qual se reporta no fim do texto quando fala do pênis grande dos negros, fantasia recorrente da homossexualidade não assumida, em plenitude.

Arrola, de maneira confusa e angustiada, argumentos anti-semitas, pobres no conteúdo e criminosos na finalidade.

1) Diz que judeus e negros são inimigos, porque judeus são milionários e negros são pobres. Impossível luta comum contra o racismo. Imitação do ódio de Farrakhan, arauto do “lúmpen” negro norte-americano, sempre pronto a extorquir dinheiro das organizações liberais judaicas. Sugere que Steven Spielberg, em vez de gastar US$70 milhões no filme, deveria reservar a esmola aos negros.

Embora não considere Spielberg o melhor tradutor da imaginação diante do morticínio nazista (prefiro o clássico “Shoah”), “Amistad” ajuda a resgatar a negritude diante do racismo branco. Marilene, apresentando a inveja da fracassada, insiste nos chavões do “dinheiro judeu”, “controle judeu sobre a mídia” (mas é ela que tem a coluna na Folha para projetar seus minúsculos sentimentos).

Aliás, são ditadores negros, ladrões e corruptos que, da África, depositam milhões de dólares roubados de seus povos na Suíça...

Lembro a frase paradigmática de Engels: “O anti-semitismo é o socialismo dos tolos”.

2) Diz que a raça (concepção anticientifica) judia é endogâmica. O genro do presidente e o companheiro de Xuxa desmentem a bobagem, sustentada por fanáticos de cá e de lá. O medo retorna à contração, ao gueto físico e espiritual. A lição do passado ilustra. José e Moisés casaram-se com mulheres que não eram do povo de Israel. A figura feminina mais impressionante da Bíblia é Rute, a moabita, bisavó do rei Davi.

Na grande jornada histórica, o futuro da Anunciação teológica passa pelo amálgama com os povos do mundo, o ímpeto messiânico. Ao contrário do que prega a tradição posterior, a base do judaísmo autêntico é o casamento misto. A importância do laço sanguíneo (matrilinhagem) para identificar o judeu é racista, étnica.

O judaísmo de Buber e Spinoza (linhagem moseísta) é ético, não étnico; depende só da opção espiritual. A identidade se faz pela escolha. É judeu quem se crê judeu.

Registro o verso lapidar de Gilberto Gil, este, sim, negro humanista: “Bob Marley morreu porque além de negro era judeu”. Em Israel, judeus negros da Etiópia, os “falashas”, compõem o esforço de alteridade que uniu um dia rei Salomão e a rainha de Sabá.

E, ainda acredito que para desgosto de Marilene, cito, de meu livro “A Discriminação Racial e a Lei Brasileira”, a apresentação de Eduardo de Oliveira, da Casa da Cultura Afro-Brasileira: “Frente à mesa eucarística da comunhão de todos os povos e todas as raças, todos e cada criatura encontrem sobejas razões para viver em paz, sob o signo do amor e da fraternidade”.

 

Folha de São Paulo

 

 

O Sertanejo é um forte

Os neonazistas e Guimarães Rosa

 

SÃO PAULO – A propósito dessa movimentação que alguns pigmeus que se dizem neonazistas desencadearam, alegando inclusive o ódio contra os nordestinos, participei de um debate pela TV Record, ocasião em que lembrei que “baianos” foram e são Rui Barbosa, Castro Alves, (que enaltese a imagem da Judia em belíssimo poema), Gilberto Gil, Caetano Veloso, enquanto eles são a periferia da periferia.

No ínterim, lembrei-me de uma entrevista concedida pelo maior escritor moderno ( não só brasileiro, maior mesmo com M maiúsculo, da estatura de todos os clássicos), Guimarães Rosa, a Gunter V. Lorenz, publicada pela E.P.U. em 1973.

Lorenz questionou Rosa: “Foi isto que em Hamburgo levou você a se arriscar, perigosamente; arrebatando judeus das mãos da Gestapo?”.

Resposta do escritor: “Foi alguma coisa assim, mas havia também algo diferente: um diplomata é um sonhador e por isso pude exercer bem essa profissão. O diploma acredita que pode remediar o que os políticos arruinaram. Por isso agi daquela forma e não de outra. E também por isso mesmo gosto muito de ser diplomata (...) e agora, o que houve em Hamburgo, é preciso acrescentar mais alguma coisa. Eu, o homem do sertão, não posso presenciar injustiças. No sertão, num caso desses, imediatamente a gente saca o revolver. Em Hamburgo isso não era possível. Precisamente por isso idealizei um estratagema diplomático (...)”.

Trata-se de uma afirmativa de mais alta relevância. Guimarães Rosa não era dado a palavras vazias, muito pelo contrário. Poliglota, erudito, foi o criador de uma verdadeira linguafem Roseana, estribada em paradigmas do idioma caipira e a mais rigorosa busca de cosmopolitismo. Então o que disse significava o que sentia: nazista tem que ser tratado a bala.

De passagem, estranhe-se na defesa do presidente impedindo Collor a insistência do advogado Gilmar Mendes em tentar desqualificar o Tribunal de Nuremberg...

O fato é que tanto na retórica e no discurso límpido de Guimarães Rosa, como na descrição genial de Euclides da Cunha, o nosso outro clássico, “o sertanejo, na transparência, é um forte. Caso do nordestino, homem das fronteiras externas e íntimas, geográficas e psicológicas”.

Ao contrario do nazista, que por debaixo de sua brutalidade é um fraco, de caráter e de alma, desvirilizado na sua própria contingência de aparências. Ele é capaz de matar idosos, mulheres e crianças, sob qualquer pretexto. Portanto, uma pústula, quase demite do gênero humano e se transforma em animal de caça, merecendo o tratamento pertinente.

Não há que se tergiversar. Fica aqui registrada a lição imorredoura de nosso melhor humorista que, na sua obra de estética ímpar e na sua vida (inclusive salvando judeus, embora embaixador de um Itamarati anti-semita) de “Chevalier sans peur e sans reppoche” legou para o Brasil e para a civilização essa herança espiritual: “saca o revólver”.

Com integralista, nazista, racista, não existe debate ou interlocução. Rosa disse.

 

 

Homossexuais, as maiores vítimas dos preconceitos

 

Uma pesquisa realizada para avaliar “o grau de preconceitos sexuais e raciais da sociedade brasileira” chegou a dois resultados, aparentemente contraditórios. A análise pura e simples dos números obtidos confirma que a maioria dos entrevistados não considera “inferiores” os negros, os judeus, os velhos, as mulheres e os jovens, embora um terço admita que discrimina os homossexuais. Mas as reações que acompanharam as respostas, registradas nos relatórios dos pesquisadores, revelam um forte preconceito – em ordem decrescente – contra os homossexuais, judeus, velhos e negros.

A pesquisa foi feita pelo Instituto de Ciências do Comportamento, em São Paulo e mais 40 cidades do Interior e outros Estados. Seu diretor, o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg, autor de 100 livros e teses sobre temas do comportamento (como Psicologia da Morte, Psicologia da Religião, Trânsito, Sexo, etc.), disse estar “perplexo com o dualismo das respostas, o anti-semitismo, o racismo contra o negro e a discriminação ao homossexual”, revelados pela pesquisa.

O levantamento, que pretendeu “checar o lugar comum de que o brasileiro é um homem afável tolerante, cordial e sem preconceitos”, revela a Jacob Goldberg que “atingimos um ponto doentio, mórbido, da sociedade”.

Goldberg que gastou dois meses para efetuar a pesquisa (concluída ontem) e 20 pesquisadores participaram do trabalho, desde a formulação das questões até a pesquisa de campo, em sua maioria estudantes de Ciências Humanas, como Psicologia e Sociologia. Para atingir as 40 cidades, os entrevistadores pediram auxilio a diretórios acadêmicos, mandando os questionários pelo Correio. Estudantes das diversas cidades fizeram a pesquisa junto à população.

Foram preenchidos, na Capital e outras cidades, mil questionários contendo sete perguntas: “Você acha superior, igual ou inferior: 1. o negro; 2. o homossexual; 3. a mulher; 4. o judeu; 5. o velho; 6. o jovem; 7. o homem”.

Embora a maioria dos entrevistados optasse, na ficha-questionário, pela igualdade dessas várias categorias, não deixava de fazer comentários que revelam o preconceito escondido.

 

MUITA IRONIA

“O que mais me impressionou foi essa dualidade nas respostas – insistiu Goldberg. – O sujeito assinala na ficha que o negro e o branco são iguais, porém faz ao pesquisador um comentário irônico, como “mas, no fundo, o negro é preguiçoso, não gosta de trabalhar”. Por isso, segundo ele, a pesquisa tem dois resultados: um oficial (baseado nas respostas das fichas – veja o quadro) e outro empírico, baseado no observação dos entrevistadores.

“Muitas pessoas queriam agredir os entrevistadores, chamando-os de subversivos. Algumas pessoas abordadas respondiam rispidamente: ‘O que você tem com minha vida? E isso fez vários entrevistadores desistirem do trabalho”, disse Goldberg.

Segundo ele, várias reações demonstraram um grande preconceito. “Quando perguntaram se o judeu é superior, igual ou inferior, muitos responderam com afirmações violentas, como ‘deviam acabar com todos eles’. Na hora de fazer a cruzadinha, colocavam que o judeu era superior, mas acrescentando que “superior no mau sentido, de esperteza”.

Muitos negros, entrevistados, reconheceram uma posição de inferioridade, mas justificando, como um deles: “Embora preto, tenho vontade de subir na vida”. A pergunta, feita a brancos, se o negro é igual, superior ou inferior, muitos respondiam: “É claro que é igual”, demonstrando, pela ênfase, o preconceito escondido.

“Alguns entrevistados também mostraram medo”, afirmou Goldberg. Exemplo: um dos pesquisadores perguntou o nome de entrevistado. Resposta: Frederico Pimentel. Mas, um garoto ao lado consertou: “Pimentel, não, pai, seu nome é Nascimento”.

O machismo também não ficou oculto. “Quando a pesquisadora era mulher, os homens faziam charme, dizendo que a mulher é superior, mas sempre acompanhando a resposta com um olhar sedutor”.

Goldberg contou outra entrevista: “Uma senhora, respondendo se o velho é igual, superior ou inferior a outras pessoas, disse: ‘Coitadinho. O velho é superior’, em flagrante contradição”. Quando aos homossexuais, as pessoas questionadas sobre sua superioridade, inferioridade ou igualdade respondiam com longos discursos sobre a igualdade humana, para depois concluírem: “O homossexual, coitado é inferior”.

 

FACE CRUEL

Para Goldberg, a pesquisa “mostra a face cruel do perfil brasileiro, como jamais foi desnudada. E um “streap-tease” cultural que merece discussão ampla”. Os resultados, segundo ele, “não apresentaram diferenças fundamentais, comparando os da Capital com os de outras cidades”.

Disse ainda que o maior preconceito, quanto à inferioridade, é contra os homossexuais. Em segundo lugar, contra os judeus, que foram os mais criticados nos comentários dos entrevistados. Os negros foram objetos de comentários irônicos ou maliciosos. Os homens foram mais preconceituosos do que as mulheres, mas os pesquisadores estão em duvida se eles não foram apenas mais francos ao externar as opiniões.

As camadas instruídas também revelaram menos preconceituosos. “Será que os menos instruídos tem medo de externar o que sentem, ou será que eles ignoram mesmo seus sentimentos?”

É uma duvida que ficou na equipe, segundo Goldberg.

 

Folha de São Paulo - 02/03/1983

 

 

A revolução social pela psicoterapia

Luiz Fernando Emediato

 

Num dos mais neuróticos dramas de Nelson Rodrigues, um dos seus personagens – o famoso Palhares, aquele que beijou “a própria cunhada” – pergunta um amigo cuja filha estava fazendo psicanálise:
-
   E então, como vai a sua filha?

-   Vai muito bem – responde o outro. – Ela diz que depois que começou a fazer psicanálise piora de cinco em cinco minutos. E o psicanalista diz que isto é assim mesmo. Quanto pior ela ficar, melhor será. Eu acabo dando um tiro na cara daquele desgraçado.

Nelson Rodrigues não gostava da psicanálise – mas teria sido, segundo os psicanalistas, um “prato cheio” nas mãos de qualquer psicoterapeuta. O que ele teria escrito, se psicanalisado? Sua dramaturgia seria outra? Dostotevsky teria sido melhor romancista se expurgado de seus traumas? Van Gogh e Gauguin seriam artistas mais completos se menos excêntricos e desajustados?

Embora seja às vezes aceita como verdadeira a teoria segundo a qual a criação intelectual e artística é mais poderosa em seres humanos desajustados, de espírito inquieto – a criação como rebeldia e resposta ao meio hostil – o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg acha que não. Envolvido ultimamente em experiências pioneiras, que fundem num só corpo psicoterapia e desenvolvimento da inteligência, ele acredita que artistas, intelectuais e cientistas só tem a ganhar com a psicanálise. O conhecimento da realidade exterior só poderia ser completo com o conhecimento integral da realidade interior de cada individuo – a revolução pelo conhecimento.

A idéia polemica, principalmente quando ligada a ciência tão controvertida. Definida por alguns como filha da religião e neta da feitiçaria, muito mais que uma ciência do comportamento humano, proibida nos países socialistas (nos quais é vista como uma deformação burguesa), temida pelos leigos, a psicanálise sempre despertou controvérsias, desde sua criação por Sigmund Freud, o primeiro a aplicar metodicamente técnicas psicológicas para restabelecer o equilíbrio emocional do individuo.

Entre o alquimista e o futurólogo, o psicoterapeuta se debruça sobre o passado do individuo (sua infância, sua adolescência), revolvendo seus temores, vasculhando seus segredos, devastando suas mais intimas razões, para questionar o seu presente e adivinhar, junto com ele, o seu futuro.

Até onde, porém, a psicologia é um discurso correto e até que ponto não passaria de uma fantástica mistificação, a dois ou em grupo? Até onde o psicoterapeuta e o analisando não estariam fazendo um mero exercício abstrato de suas próprias iipotências , e mais: confundindo o real com o ideal? Varias motivações, argumentam os leigos, podem estar implícitas nesta relação “neurótica” entre psicoterapeuta e analisando. Este pode estar motivado por suas inseguranças, seus medos e sua ignorância da metodologia; aquele, simplesmente pela vaidade, quando não incurso em erro de apreciação cientifica.

Outra das perguntas que se fazem com relação à psicoterapia é a que questiona sua importância para o individuo. Ela se destinaria apenas aos “doentes” e seria, em decorrência disso, um mero “tratamento” reservado à psicopatologia? Ou seria – mais do que isso – uma concepção do mundo, aquilo que os alemães chamam de Weltschaung, neste caso incorporando-se ao campo da filosofia?

Como Nelson Rodrigues, outros pensadores e intelectuais – em tom sem dúvida menos jacoso que o do dramaturgo – chegam a pôr em duvida a própria validade da psicanálise. Acusam-na de perigosa, por sua pretensão quase metafísica; ou desnecessária, apenas, nada mais que o superfulo produto de uma sociedade em crise. Apesar disso, nenhuma área do comportamento humano tem crescido tanto, mesmo no Brasil, nos últimos anos, quanto a psicologia.

As evidencias de que existe uma ansiedade de conhecimento a respeito do tema estão na sua exploração pelos meios de comunicação de massa e na popularização de certos profissionais, que se tornam figuras publicas quase tão mitificadas quanto cantores ou atrizes de televisão. É o caso, entre outros, do psicanalista Eduardo Mascarenhas, hoje freqüentador habitual das colunas sociais ou de fofocas. Disputas profissionais e conflitos classistas assumem dimensões imensas, como no caso das referentes à participação de um psiquiatra em interrogatórios policiais.

Nesse contexto de discussão popular, a imaginação e as fantasias correm soltas a respeito também de outro aspecto igualmente polemico: o psicanalista poderia usar o seu inegável poder de persuasão para envolver e seduzir pacientes? Num filme norte-americano recente, inspirado em caso real e exibido pela televisão, pôde ser discutida a história de um processo judicial em que o acusado, um psicanalista, foi afinal condenado por ter seduzido sua paciente, com quem mantinha um romance compulsivo que quase a levou à loucura.

Apesar destes desvios – afinal detectáveis em quase todas as profissões – e das condenações da esquerda marxista, radical há quem acredite, como Jacob Pinheiro Goldberg, que “a revolução do futuro será muito mais o resultado da Psicologia do que da Sociologia ou da Economia Política, porque, na sua opinião – e ao contrário do que pensam os marxistas – “a grande aspiração do homem está centrada na sua mente e no seu coração, e não no estomago ou no poder”.

 

Uma guerra contra os tabus

Com quase 60 livros publicados, e trabalhos sempre polêmicos divulgados no País e no Exterior, Jacob Pinheiro Goldberg tem-se destacado por sua preocupação em emprestar à psicologia também uma função de participação social, no que nem sempre é compreendido. Ele não teme, por exemplo, insurgir-se contra tabus ainda reverenciados pela maioria dos seus companheiros, nem em utilizar, para isso, as mais variadas tribunas, desde as revistas cientificas até os jornais e revistas populares.

É esse esforço pela “popularização” da uma ciência controversa que lhe tem valido as críticas dos que ainda acreditam na necessidade de sua preservação numa espécie de torre de marfim, de acesso difícil aos leigos. Goldberg, acredita, pelo contrário, que o acesso ao conhecimento deve ser facultado a todos os indivíduos.

“Entendo a psicoterapia, a psicanálise e o psicodrama como a fórmula contemporânea de tentar responder a clássica e desafiadora afirmativa oracular: ‘Conhece-te a ti mesmo’. A meditação oriental que apaixonou milhões de jovens numa verdadeira simbiose Ocidente-Oriente, antevista, entre outros, por Herman Hesse, é uma experiência paralela, assim como a da procura das drogas e das viagens alucinógenas, com suas terríveis conseqüências. Pode-se ver, nisso tudo, um notável esforço de autoconecimento”.

Goldberg acredita que esse esforço deve ser feito por todo o ser humano, em qualquer ocasião – e não apenas, portanto, no momento depressivo e angustiado. Este autoconhecimento, acrescenta, pode ser expandido enormemente com a ajuda da psicoterapia. “A reflexão sobre si mesmo, feita juntamente com um estudioso da questão (neste caso, o psicoterapeuta), seguindo uma metodologia, é a maneira mais correta de se evitar o perigo das explorações e até dos desvios esquizóides que ledores de mão, astrólogos e toda uma gama de charlatães acabam oferecendo para cativar a natural inquietude do homem em torno dos mistérios do ser”.

“De onde venho?, “Quem sou”, “Para onde vou?” são questões ancestrais e indagações criativas, que impulsionam a mente humana na direção do futuro. São indagações fundamentais na psicanálise, cujo criador, Freud, já repelia o enquadramento dessa ciência como uma simples especialização médica.

“Não por acaso”, critica Jacob Pinheiro Goldberg, “o totalitarismo e a psicanálise se repelem. Porque a psicoterapia é, antes e acima de tudo, práxis do livre pensar, que não admite qualquer restrição mental. Muito pelo contrário, demanda um questionamento permanente a respeito do todos os dogmas, sejam comunitários, sociais ou familiares. A ciência da psicologia oferece subsídios extraordinários para a desmistificação do poder e da repressão. A megalomania do tirano não resiste ao olho crítico do psicanalista, que vai reduzi-lo à sua real proporção de uma infeliz vitima de fixação edipiana”.

A partir desse ponto de vista pode-se concluir que os ditadores atormentam uma nação inteira por não terem talvez sabido enfrentar o conflito com o pai. Muitos psicanalistas ligam a agressividade humana a possíveis frustrações sexuais, e o autoritarismo a uma inconsciente vingança do tirano reprimido na infância pelo pai dominador. Donde Hitler talvez não tivesse existido se tivesse se submetido a uma psicanálise eficaz.

Mas a psicanálise continua temida por muitos. Para Goldberg, “o trabalho psicoterapeutico desencadeia muitas vezes, para o leigo, tendências de obsessão persecutórias, do gênero, ‘o que é que este homem que vai conhecer meus segredos poderá fazer para eventualmente usá-los contra mim?’. Ele reflete, nesse caso, o medo que uma sociedade tribalizada cria nos seus componentes, que passam a confundir privacidade com clandestinidade”.

Uma das funções do psicoterapeuta tem de ser o seu “conduto catártico”, a possibilidade de alívio que numa outra linha – confessional – é emprestada pela absolvição religiosa. O índio brasileiro escrevia seus pecados numa pedra e jogava-a num rio. O cidadão de classe média da sociedade industrial vai entregar sua pedra para o arquivo do psicoterapeuta.

Numa reportagem recente, O Estado de S. Paulo revelou que vários padres de São Paulo acreditavam estar a maioria de seus fiéis necessitados não de confissão religiosa, mas de assistência psicológica. Os dramas relatados no confessionário surgiam mais de conflitos psíquicos que propriamente de pecados.

“Também acredito, ao contrário de alguns críticos superficiais, que a sociedade moderna precisa de mais psicoterapia e não de menos”, afirma Goldberg. “A megalópole com seus acampamentos verticais, os apartamentos, a violência urbana, a delinqüência, tudo isso deu uma dimensão global à necessidade do reencontro do homem consigo mesmo e com o outro. A alienação transformou-se na doença do nosso tempo. Quando e por quanto tempo o homem realmente freia a sua marcha acelerada atrás da morte, para indagar os anseios profundos do seu eu? Quando é que, a não ser no consultório do psicoterapeuta – ou num terreiro de umbanda – ele se outorga o direito a si mesmo, e de, com serenidade, discutir se é feliz, buscar as causas de suas frustrações e ressentimentos, o seu próprio motivo de existir?”

Busca-se, na psicoterapia, a verdadeira razão de viver. Daí que , para Jacob Pinheiro Goldberg, as criticas e condenações a esta ciência deveriam merecer uma análise séria. O que estaria por trás disso? Por que, por exemplo, um dramaturgo como Nelson Rodrigues investiu tanto – e com tanto radicalismo – contra a psicanálise, quando ele próprio era – em outra linha – um profundo analista de seus tipos?

Nelson Rodrigues criou seu mundo neurótico porque era, ele mesmo, um neurótico? Dostoievsky elaborou suas fascinantes personagens à beira da loucura porque ele próprio, epilético e deprimido, beirava, às vezes, os limites entre a sanidade e o delírio? O artista seria um produto de seus desvios psicológicos? Seria a arte o resultado da angústia e do sofrimento?

Para Jacob Pinheiro Goldberg, esta é uma visão doentia do processo criador, “uma diminuição da altitude da obra de arte, que deve ser o resultado da biofilia (o amor à vida) e não uma compensação da dor. Acho que a psicanálise permite o verdadeiro encontro consigo mesmo, este encontro que faz do artista uma personalidade madura e não um frustrado, um recalcado, segundo o estereótipo popular que faz do artista ou do cientista um louco, um esquisito, um extravagante”.

Essa visão peculiar espelha, segundo a psicoterapeuta, um preconceito contra a própria inteligência. Houve uma época, nos Estados Unidos, em que se apelidou um candidato a presidente da Republica (Adlai Stevenson, professor universitário) de porta-voz dos egg’s head (cabeça de ovo), o protótipo do pensador, cuja careca seria como a casca do ovo: polida por fora, mas frágil. “É uma característica da sociedade de massa o nivelamento por baixo. Uma espécie de ‘mediocracia’, em que todo o homem que se dedica ao mister de pensar é visto com suspeita, até como uma ameaça!”

Indivíduos inteligentes e inquietos são testemunhas contra a acomodação e o lugar comum, a grande ameaça à mediocridade dominante. Por isso, continua Goldberg, “costumo dizer que o sujeito inteligente é um monumento vivo erguido contra a boçalidade. Entendo que psicoterapia é, além de um estudo sobre a problemática emocional, um jogo de desenvolvimento da própria inteligência”.

 

E a dura luta contra a miséria da ignorância

As sociedades tecnologicamente avançadas parecem ter consciência de que, num mundo de sofisticação informativa, o capital mais precioso é a capacidade do homem de ordenar e organizar com forma e sentido seu poder de atuação e transformação da natureza e de si mesmo. Afirmar que a psicoterapia e a psicanálise podem colaborar com o anseio da independência e do desenvolvimento é uma idéia ousada – mas é isso o que propõe Jacob Pinheiro Goldberg.

O desenvolvimento norte-americano nas décadas de 40 e 50, diz ele, pode se atribuído em parte à imigração de cérebros alemães para os Estados Unidos ( o responsável pelo programa espacial dos EUA foi Werner von Braun, cientista alemão que criou as bombas V-2). A União Soviética destina recursos fabulosos para alimentar o nível de vida privilegiado de seus intelectuais, que ali constituem uma espécie de casta, a nomenklatura. Investe-se no talento criador. Entretanto, o próprio meio ambiente atua, paradoxalmente, como repressor da explosão criativa.

Mas os fatores que reprimem tal “explosão” podem ser identificados e neutralizados pelo próprio individuo, na medida em que este tome consciência deles e aprenda a reagir contra os mesmos. Na opinião de Goldberg, justifica-se, portanto, o esforço para se verificar as causas das inibições, bloqueios,medos e repressão que impedem ao homem utilizar sua inteligência na totalidade – e, a partir daí, formular uma espécie de reprogramação de propostas vivenciais.

Mas como fazer para ultrapassar os condicionamentos familiares, educacionais, sociais e religiosos? Como proceder para se atingir a grande meta – a utilização total da dotação fisiológica, orgânica e histórica da inteligência, sem restrições? Não é fácil, certamente, mas a simples identificação do problema e a conscientização do individuo de que ele existe (e pode ser eliminado) já é um grande passo.

Num workshop realizado este mês no Guarujá, com um grupo de analisandos bastante eclético, o assunto foi discutido, com o estudo individual de cada caso. Durante três dias, 14 pessoas se debruçaram sobre a sua formação escolar, suas vontades e castrações, para tentar entender sua própria inteligência. Professores universitários do Brasil e do Exterior, estudantes e até uma dona-de-casa tentaram situar os limites em que são capazes de aplicar conexões intelectuais para responder aos estímulos, adversidades e provocações do mundo exterior.

Diante de um problema real, como alguém reage? Aplicando a própria inteligência, com prontidão e diligencia total? Ou, pelo contrário, percebendo-se preso num confuso e aterrorizante emaranhado que só lhe permite aplica-la parcialmente? Quantas vezes um individuo descobre, dias, semanas, e até meses depois que poderia ter reagido de forma diferente, e mais satisfatória?

Guardando a identidade dos participantes, por uma questão de ética (não obstante terem concordado em trabalhar na presença de um jornalista, estranho ao grupo), alguns dos casos merecem ser explicitados. Por exemplo: um dos elementos do grupo, professor universitário, considerado um dos mais brilhantes expoentes no seu ramo de conhecimento, em todo o País, punha em duvida sua capacidade intelectual, preferindo atribuir seu sucesso à “ignorância alheia” ou à sua “capacidade de vender uma imagem mentirosa e falsa de si mesmo”. No fim das sessões de terapia, percebeu-se que ele não vinha enfrentando o problema com seus dotes intelectuais, por quase de um medo quase pânico diante da perspectiva de sucesso. Um medo ligado à noção de que tal sucesso traria obrigatoriamente a competição e a eventualidade de uma derrota seguida do escândalo e da exposição pública ao vexame. Diante de tal situação, vinha reagindo como um colegial.

Outro caso interessante: o de um professor de universidade estrangeira, economista e biólogo, convidado para assumir, até o fim do ano, a vice-presidência mundial de uma empresa multinacional, com status e salário altíssimos, mas cujas atividades vinham sendo realizadas mecanicamente, sem qualquer contribuição individual. Filho de pais pobres, mas criado por parentes abastados, que sempre exigiram dele uma atitude subserviente – para que não se sobressaísse em relação ao filho da família, seu primo – ele não se permitia aceitar o próprio sucesso, por uma falsa noção de gratidão e lealdade aos tutores.

Outro caso dramático: uma moça de quase 30 anos, filha de família nobre européia (uma duquesa), viu-se, de repente – com a falência da família - , na contingência de trabalhar com um salário de classe média, no Brasil, como imigrante, e sem qualquer status, depois de ter estudado nos melhores colégios suíços. No emprego brasileiro, entretanto, agia com dupla imagem: a de duquesa e a de assalariada. Num determinado episódio, seu chefe foi radical: ou ela se adaptava à sua realidade ou seria uma duquesa no olho da rua.

Inteligente, capaz, era evidente que suas conquistas profissionais se deviam a seu valor como individuo e como profissional (socióloga), mas uma leitura distorcida da realidade levava-a a presumir que tinha sido contratada não por seus atributos intelectuais, mas pelo titulo nobiliárquico. Uma atitude, evidentemente, ingênua e até estúpida. O choque com a verdade – por intermédio da psicoterapia – exigiu uma releitura de toda a sua vida. E uma tentativa de auto-aceitação.

“Sem liberdade, sem que afastemos nossos fantasmas interiores, não podemos exercer a inteligência plena”, conclui o psicoterapeuta. O esforço para a compreensão de fatos traumáticos veio acompanhado muitas vezes de reações dramáticas, crises de choro – e, depois, de um profundo alivio. Uma espécie de libertação que os japoneses chamam de satori (iluminação).

A experiência neste workshop revelou, de acordo com sue coordenador, que nenhum país pode abrir mão do estimulo a inteligência, à educação e à liberdade critica. Gênios podem estar sendo massacrados por um sistema educacional repressivo, que atua ao lado de uma organização familiar também imperfeita. A história está cheia de exemplos de casos nos quais a própria sociedade sufocou e até assassinou seus melhores filhos.

 

O Estado de S. Paulo – 31/01/82

 

 

A teoria freudiana frente ao misticismo do judaísmo

 

Embora não tenha tido uma religiosidade judaica tradicional, nem uma educação ortodoxa religiosa, Freud foi um erudito e, nesta proposta, profundo conhecedor da cultura judaica e de seu misticismo.

Já em carta que escreveu em 1909 a Jung, Freud afirma: “A natureza especificamente judaica de meu misticismo”.

Usou na ciência psicanalítica a criação de categorias esotéricas, o jogo dos mitos e a tentativa sucessiva de interpretação para – além das aparências – Super-Ego, Censura, Id, Libido.

Para todo o esoterismo, e na Cabala judaica, particularmente, o conhecimento não deve ser entregue aos limitados. Freud citava os versos de Goethe: “Das beste was du wissen Kannst, darst du bem Buben doch nicht sagen”. Já notamos como a numerologia cabalística pesou na sua tentativa de cálculo de data da sua morte.

A importância do sexo como base de energia na vida está presente na metafísica de um dos livros da Cabala, o Zohar (Sefer-há-Zohar, Livro do Esplendor), escrito pelo rabino Moses de Leon, provavelmente, e que era do conhecimento de Freud, que aproveitou o conceito como fundamento da psicanálise.

A harmonia da vida, na divindade, se refletiria no amor entre Deus e sua Shehina, a presença. Esta concepção foi aproveitada pelo cristianismo, na similitude do papel da Virgem Santíssima.

O homem primeiro seria, segundo Isaac Lurias, o místico, Adam Kadmon, filho da união divina e com características bissexuais.

Nas dez emanações místicas do Senhor, encontramos as Sephirot. A nova e chamada ysod, localizável nos órgãos genitais da divindade. Em hebraico, esta palavra significa base e contém uma palavra, sed, que se traduz por sagrado.

Assim, seria o fundamento secreto da vida. O sexualismo de Zohar esteve acompanhando as idéias dos falsos messias, Sabati Zvi e Jacob Frank.

Realmente, é curioso notar que, na concepção freudiana, a libido seria masculina, embora na simbologia do Ocidente e do Oriente, Eros fosse considerada feminina. A possibilidade de que o homem possa carregar o bissexualismo encontra origem na passagem do Gênese, 1o. 27: “Macho e fêmea os criou...”

Freud teve, como é sabido, um comportamento pessoal, dentro dos valores da religiosidade rabínica, dentro de regras bastante rígidas.

A inteira noção judaica de alegria e erotismo se verifica no tempo reservado para o descanso – o sétimo dia da criação, o Shabat.

Na disposição freudiana de luta contra a idéia – pai, estabelecem-se as ligações com Moisés, Laio, o gorila pitecantropus-erectus primitivo, o Super-ego, provavelmente traçadas a partir da luta de Jacob contra o Anjo – o forte contra Deus - , que culmina com a mudança de nome para Israel.

Numa outra abordagem, a relação entre Freud e Moisés mostra à sociedade este conflito formidável que se estabelece entre a sensualidade (cuja teoria tem em Freud seu porta-voz) e a intelectualidade (retratada por Moisés). Escreveu o ensaio “O Moisés de Michelangelo” e mostrou muito de sua ambivalência em “Moisés e o Monoteísmo”, sua obra mais frágil, em que se entrega a uma autentica revolta contra sua origem judaica de Moisés.

Freud chegou a assinalar que a psicanálise, de certa maneira, seria uma forma de alargamento do “espírito do novo judaísmo”.

E, na verdade, seria impossível a compreensão da filosofia psicanalítica sem o entendimento de Freud como culto cientista do amor à vida, que se fortalece nas estruturas do misticismo judaico.

 

 

Uma séria ameaça à estrutura da saúde

 

O projeto de lei n. 2726, apresentado à Câmara pelo deputado Salvador Julianelli, é uma séria ameaça à combalida estrutura de saúde no Brasil, por significar uma tendência à desvalorização profissional, regressão cientifica e tumulto organizacional.

São de tal maneira absurdos seus delineamentos que uma pergunta paira em sua leitura: a quem interessa?

De má política legislativa, permite confusão jurídica, dificultando uma analise em detalhes, por não ter uma estratégia global do objetivos claros.

Foi repudiado, por unanimidade, pela assembléia geral da SBPC, através de moção de minha autoria, e está a exigir a presente denuncia.

No Brasil, existem mais de 5.000.000 de deficientes mentais e cerca de 10.000.000 de deficiente