O careta e o rebelde
Por Jacob Pinheiro Goldberg ( doutor em psicologia e escritor )
Quando fui convidado a escrever sobre como o conceito de "rebeldia" mudou nesses últimos tempos, diversas coisas me vieram à cabeça. Uma delas foi um livro instigante que Artur Koestler escreveu, O yogue e o comissário, que defende a tese de que a sociedade oscila entre o comportamento introvertido, espiritualizadoe contido versus o invasivo, coletivizado, plural.
Em seguida comecei a me concentrar no tema. Depois de décadas em que o individuo tem sido violentado em nome de modas, ideologias e abusos – sempre em nome do prazer e da felicidade – começa o pendulo a se voltar para a "caretice". Atualmente, uma postura considerada "rebelde" é ser "careta" – não beber, fumar, se drogar etc. – uma reação exausta contra a crise generalizada. E isto se manifesta na internet, na musica, na escola, no trabalho, na TV, na roupa, enfim na maneira de se viver no mundo.
Todo sentimento básico que anima a sociedade, em nossos dias, é uma composição repassada de medo e ódio, um sonho angustiante de poder. No Brasil, um gostinho repetido de Deja-vu combina questões menores de um cotidiano político-partidário a um monólogo monotônico que pretende reduzir uma grandeza continental a um pássaro engaiolado ou um tigre desdentado.
Ora, o renascimento da esperança é essencial para o desenvolvimento da civilização e um projeto democrático depende de uma visão social inspirada na imaginação. Os instrumentos ideológicos demandam um toque de fantasia capaz de alimentar a pólis. O urbanista e sociólogo Lewis Munford nos lembra que "utopia" foi, por muito tempo, o nome dado ao irreal e ao impossível. Temos dado destaque à utopia em oposição o mundo. Na realidade, são nossas utopias que tornam tolerável o mundo – a cidades e mansões com que sonha o povo são, finalmente, aquela em que estão vivendo.
Certas sociedades e o nosso tempo tem tido dificuldades para reativar o potencial dos seus nexos simbólicos e infra-estruturais, sem os quais a vivencia política torna-se incoerente. Se não queremos comprometer o futuro devemos estimular verdadeiros e profundo anseios de progresso. A ideologia de uma época traída é o pesadelo das extensões do passado, verdadeira "distopia", perspectiva pavorosa do Admirável Mundo Novo.
Por outro lada há respostas em nível individual para este beco-sem-saida existencial. Um exemplo disso se revelou durante a tragédia de um terremoto ocorrido outrora na Itália que quase passou despercebido na pressa do noticiário. Um fato que não se deve perder como lição quase oracular. Em Castelnuovo Di Consenza, o medocp Gennaro Venutolo perdeu a mulher e uma filha na tragédia. Porem, após cavar horas a fio, conseguiu resgatar outra filha. A seguir deixou-a sozinha e correu a assistir os moribundos. Ou seja, no meio da morte e da destruição, o "anjo" derrota o "animal" e sustenta a mensagem da força maravilhosa que espiritualiza a existência. Pospõe sua visão na metacondição sócio-cultural alem do tempo da historia.
Se o nosso objetivo é continuar concordando com um corpo político inerte e a manutenção de privilégios e interesses, devemos reduzir o poder catalisador das reformas, frear as mudanças e substituir o trabalho contra a injustiça e o sofrimento pelo circo demagógico do totalitarismo. Enquadrar as vontades em "Planos Mirabolantes", hipotecar as almas na eficiência dos computadores e dar prosseguimento infernal ao "jogo das contas-de-vidro" do nada, com o "vamos ver", do "quem sabe", com o "quero crer", unidos à diluição dos esforços, o sacrifício da juventude, o jargão dos "como" disfarçando o "desejamos"...Contudo, se tivermos a coragem de assumir o compromisso da esperança radical, o magnetismo emocional da solidariedade proporcionara uma força de motivação capaz de estimular a cultura a transcender a si mesma, promovendo modelos de comunidades humanizadas. O ato santo e revolucionário parte de exemplos como o de Gennaro Venutolo e não da pálida figura do burocrata dos aparelhos partidário, criado pelo macro organismo e flutuações societárias. O engajamento neste atos é o que justifica um programa policromático para uma revolução de fé.
O "rebelde", hoje, não é só o que opta por ser "careta" como uma maneira de rejeitar as imposições dos grupos sociais a que pertence. Mas também se aplica àqueles que são uma caricatura do verdadeiro revolucionário. São, meramente, transgressores e, por isto, alimentados pelo culto do bandido. Se você que está lendo essas palavras pretende assumir uma postura realmente "rebelde", que lute pela coletividade melhor, mais justa, contra as imposições que a doente sociedade moderna lhe impõe, reflita. Que tal ser um "rebelde" com causa?
Jacob Pinheiro Goldeberg