Poesia Judaica em Juiz de Fora: um “delírio mineiro-Ostrowiec”.

 

Marília Librandi Rocha

 

 

“Ela, Fanny, filha de Ana e Aron,

poeta ao luar, nas preces dum

gefilte fish

Em versos de sabor.

A idishe mamme que sonha e

escreve um delírio mineiro-Ostrowiec

 

Ele, Luiz, filho de Chana e Alberto,

ao guidon da bicicleta,

o imperador dos sonhos do menino,

herói de dois mundos,

profeta e visionário, num balanço mineiro,

de mormaço e nostalgia.

Um Chaplin ensolarado para numerosa freguesia.

Ao chegarem de braços dados para as núpcias no Céu,

os querubins declamaram versos e maravilhas querequexê”.

 

(Jacob Pinheiro Goldberg. “Meus Pais. Ao modelo icônico dum Kadish.In Judaísmos ético. Não étnico, 1997)

 

 

            A poesia de Jacob Pinheiro Goldberg é o tema de nossa tese de doutorado em Teoria Literária (USP) [1] , que ora apresentamos resumidamente em uma de suas vertentes: a que pretende ressaltar os ecos da literatura materna na sua escrita, a qual, nesse aspecto, segue o recado do pai, referido em um de seus poemas, quando este lhe recomenda: “não deixem esquecerem sua mãe”. E ela estará presente, efetivamente, “na carne da memória” da poesia de Goldberg e, subrepticiamente, na recorrência da cantiga de ninar, ao mesmo tempo signo e sinal da voz materna e resquício do mameloschn, o ídiche, “língua da mamãe” (cf. GUINZBURG, 1996).

Espécie de errância interior, trajetória de vida contada e recontada em muitos poemas e textos, a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg pode ser descrita como a de uma “vida singular tornada estranhos poemas” ou “poemas-vida” (FOUCAULT, 1995) Relacionada a uma experiência histórica traumática, é uma poesia que nasceu ligada ao ritmo esquerdo e expressando o tempo exilado (títulos de dois de seus livros)Como uma narrativa fragmentária, em gêneros diversos, sua lírica conta uma mesma história a partir de outras estórias – o testemunho de uma vida, a escrita de um “eu clivado”, a memória do que podia ter sido e não foi, e do que foi e podia não ter sido, e a consciência de uma relação complexa, difícil e contraditória com a arte.

Como escreveu Carlos Drummond de Andrade em carta de 1969 endereçada a Goldberg, a sua poesia reflete uma “consciência crítica”, escrita como “testemunho generoso”.  E é como “literatura de testemunho” que a apresentamos de modo a contribuir com os estudos atuais sobre a literatura brasileira contemporânea de expressão judaica (cf. IGEL, 1997), lançando seus textos para que outros possam lê-los e ajudar a pensá-los.

Breve Apresentação

Filho de imigrantes judeus poloneses que chegaram ao Brasil em meados da década de 20, Jacob Pinheiro Goldberg (que também referiremos como JPG) nasceu em Juiz de Fora, MG, em 1933, e hoje vive em São Paulo. Conhecido por sua atuação como psicólogo, ele é no entanto desconhecido como poeta, apesar de uma produção literária intensa. Seu primeiro livro, Ritmo Esquerdo, foi publicado em 1952, e o mais recente, Monólogo a Dois, em 2002, compondo assim uma obra escrita que percorre 50 anos de atividade. Nosso trabalho procedeu à organização desse material para fins de selecioná-lo na Antologia de Poemas, Poemas em Prosa e Prosa Poética. que propomos no segundo volume da tese.

Sua atividade literária começa intimamente ligada ao jornalismo, escrevendo sobre assuntos variados, numa atividade que manterá até os dias de hoje. Para que o leitor possa ter uma idéia geral sobre sua produção escrita, resumimos abaixo a seqüência de seus livros:

1) Em Ritmo Esquerdo (1952), História que a Cigana (nua) me contou (1960) e Tempo Exilado (1968/69), predomina uma poesia engajada, ligada às situações políticas vivenciadas na época.

2)Os livros Segunda Madrugada (1971), Monólogo do Medo (1972) e Memórias do Abismo (1972), marcam seu contato com a psicanálise, com predomínio de uma prosa poética caracterizada pelo fluxo do inconsciente como “Manufesto do Eu”.

3) O Dia em que Deus Viajou - Histórias curtas mas sem sentido, (1974), Cidade dos Sinos (1975), acentuam o aspecto místico, unindo a influência do judaísmo à do zen budismo.  Nesses anos, Goldberg cria e dirige o “Laboratório de Literatura” que tem sua experiência registrada no livro Perspectivas da Literatura segundo Goldberg (1975).

4) Os livros Cantata para o Brasil (1975), e Indo-Amérika, 1976 (que voltará a ser publicado com o título Jamo Panka Pixipre Jamo, com comentários de Oscar D’Ambrósio, em 1992). E seu único livro infanto-juvenil Maneco Nheco-Nheco, (1979).

5)Os livros Psicologia e Reflexões do Inconsciente (1978) e Psicoterapia e Psicologia (1979), que incluem poemas e poemas em prosa.

6) Em 1989, publica pela editora Massao Ohno o livro Ritual de Clivagem que situamos como uma outra etapa de sua trajetória poética  que se desenvolve até os dias de hoje.

7)A produção dos anos 90 até hoje, com:  A Clave da Morte (1992) e A Ógea e a Calhandra – Fragmentos sobre o susto (1997), compostos de poemas e aforismos.  Judaísmos – Ético e não étnico (1997), com poemas e artigos. Seu último livro publicado Monólogo a Dois (2002), inclui os ensaios clínicos, que mesclam o relato médico ao texto ficcional, além de uma seleção dos livros anteriores.

Literatura de Testemunho [2]

Começando a escrever no início dos anos 50, mas firmando uma escrita poética mais efetiva a partir de final dos anos 60, a poesia de JPG defende e pratica procedimentos da arte de vanguarda do início do século – desde as proposições futuristas sobre a palavra em liberdade até a livre associação surrealista, a conjunção arte-vida, a utopia de uma arte livre de regras em revolução permanente e a de uma sociedade livre de autoritarismos, assim como as manifestações da poesia beatnik e da contra-cultura dos anos 60/70, num misto de influências que vão se unir à sua prática e formação de psicoterapeuta. No seu caso, essas contribuições estéticas vêm desde o início sombreadas pelos fantasmas e horrores da Segunda Guerra Mundial (contemporânea à infância do escritor, nascido no mesmo ano em que Hitler ascende como chanceler da Alemanha, e cujos ecos chegavam até Juiz de Fora, onde ele, como filho de pais imigrantes judeus-poloneses, escondia-se no interior de suas “cabanas-cavernas” montadas com os jornais que davam notícia dos conflitos internacionais e com a notícia de seus familiares paternos mortos nos campos de concentração). Essa experiência marca sua poesia com a consciência da fratura, no desacordo e desajuste de quem escreve poesia como quem não pode escrever poesia, produzindo uma escrita feita de restos, fragmentos, cortes, cisões. Por isso a relacionamos com a chamada “Literatura de Testemunho”, que fala do trauma e da impossibilidade de o trauma, a fratura, ser dita, como uma escrita na fronteira da história e da poesia, que precisa testemunhar o mesmo terror que a cala.

Nesse sentido, a poesia de JPG pode ser lida como um quase-romance ou diário esparso, composto ao longo dos anos. A narrativa desse romance é a de um escritor em busca de um estilo, mas é também a de um menino judeu, nascido em Juiz de Fora, criado em escola metodista, sofrendo as perseguições por ser feio, ter orelha de abano, ser “o judeu que matou Jesus” (versos do poema “Bio(necro)grafia II”, 1997), num depoimento que é a expressão de sofrimento, exclusão e denúncia, pois grande parte de seus textos fala dos “abismos”, das“angústias, do “medo” e do “absurdo”. Nesse sentido e talvez pelo constante tom de parábola, tendo como pano de fundo as narrativas bíblicas e um  diálogo surdo-mudo com Deus, a escrita de JPG. é a de um deslocado mineiro-brasileiro-de Ostrowiec ou a de um descendente de um schetl, em Juiz de Fora, entre a alegria propugnada por Baal Schem Tov e o olhar atemorizador da religião ortodoxa.

Ela é testemunho de um escritor que se auto-define como “judeu-brasileiro-indo-americano”, e que passou os doze primeiros anos de vida com a reverberação do pesadelo hitleriano e seus ecos em Juiz de Fora e que transportou esse trauma para a sua literatura. 

Por isso importa compreender de qual história ele é herdeiro. Conhecendo-a, é possível ler melhor a sua poesia e identificar os personagens que a habitam. Dentre esses, dois especificamente: o pai e a mãe, mas também o pequeno grande mundo de Juiz de Fora, o schtetl, Ostrowiec, o ídiche e o português, o Estado Novo e Segunda Guerra Mundial, compondo a história que é a dele e que é também parte da história da imigração judaica no Brasil neste “breve século XX” (cf. HOBSBAWN).

A Literatura materna.

“Em letras de Sonho, escreveu Fanny”

 

Quisera pagiar o

teu choro,

para secar tuas almas,

e com meus dedos trêmulos,

falar de nossa derradeira

despedida.

E poder dizer-te, agora

que o limite se encerrou,

e nenhuma palavra, jamais

será ouvida,

minha mãe,

que só pelo silêncio,

as turvas imprecisões, e

essa infinita distância

que inaugura você, no

meu útero,

quiçá,

não seja mais

preciso palavras porque

em paga de antes,

agora te carrego, para

sempre, na carne da

memória.

A mãe de Jacob, Faig (Fanny) Elwing, chegou ao Brasil vindo de Ostrowiec, Polônia, quando tinha cerca de 12 anos, acompanhando os pais e mais sete irmãos na segunda metade dos anos 20. Seu pai era schoichet, o encarregado do corte da carne, segundo o ritual kasher. No Brasil, casou-se com Luiz Goldberg, também originário de Ostrowiec, e se estabeleceu com ele na cidade de Juiz de Fora. Nos anos 80, Fanny Goldberg publicou dois livros de poesia: Minha Esperança e Meu Caminho sem Fim. Por eles, ficamos sabendo que em 1929, ela já estava no Brasil. Morou com os pais e os irmãos numa vila no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, (na rua Tenente Pena, e também na rua Treze). Eles moravam na parte de cima de um sobrado e na parte de baixo morava uma família italiana. Do Brasil de sua adolescência é marcante a assimilação num país que para ela favorecia a integração.  (“Quando cheguei no Brasil / com meus doze anos / no primeiro dia queria / aprender a falar, como se dá até logo, / e boa noite / essas palavras ficaram gravadas dentro de mim / como um cheiroso jasmim...” em “Brasil, meu Brasil”). Em seus textos as lembranças do velho mundo e a vida no novo mundo são postas em perspectiva. A tradição judaica, européia, e a vivência brasileira se misturam. Esse caminho pelo espaço e pelo tempo marca boa parte de seus versos. O passado  expressa a saudade e as recordações doloridas do velho mundo, mas também o passado de sua infância no Bom Retiro; as comemorações judaicas misturando-se às festas populares brasileiras como o carnaval e a musicalidade das modinhas. Compõe-se, assim, os livros de Fanny Elwing Goldberg como um testemunho que nos ajuda a conhecer melhor a imigração judaica no Brasil, segundo a perspectiva de uma mulher que se põe a escrever, com dor e afeto, o que foi a sua vida e a de seus familiares.

 “Canção do Exílio”. 

“Em ViÈs”

 

Laibale, “seu Luizinho”

 

O poema poderia

terminar no início,

mas quem se lembraria do

guaraná na Cervejaria

José Weiss, e o selim

Da bicicleta e o aceno

do lenço branco na

estação ferroviária, e

principalmente, as

palavras - que de tão

pungentes e gratas,

eu não disse quando

deveria?

E meu pai recomendava:

Não deixe esquecerem sua mãe.

O pai de Goldberg, Luiz (Leib) Goldberg veio de Ostrowiec sozinho, chegando ao Brasil por volta de 1928. Ele tinha 18 anos e chegou ao Rio de Janeiro vindo no navio cargueiro argentino, Valdívia. Segundo narrou a seu filho, ao desembarcar, sem falar uma palavra de português, Luiz Goldberg ficou andando de um lado para o outro falando em ídiche: “Quem é judeu? Quem é judeu”? Até que lhe encaminharam para uma hospedaria, onde ficou sabendo que havia uma cidade com possibilidade de emprego, chamada Juiz de Fora, para onde então se encaminhou. Conhecido como “seu Luizinho”, trabalhava como prestamista comprando e vendendo mercadoria  de porta em porta.

Interessante notar que a atividade profissional de prestamista, praticada por poloneses como o sr. Luiz Goldberg, aparece citada no famoso poema de Murilo Mendes, “Canção do Exílio”, publicado pela primeira vez em 1929 (Cf. GUIMARÃES, 1993), no verso: “os filósofos são polacos vendendo a prestações. É possível que o poeta de “Poesia:Liberdade”, nascido em Juiz de Fora, tenha se inspirado nos dois ou três “polacos” que chegaram à cidade entre 1928 e 1929, e que se reuniam para conversar num local chamado “Café Internacional”  (Cf. ROCHA, 2003, sobre a presença de judeus em Juiz de Fora).

O pai e a mãe são presença constante nos poemas de Goldberg, de cunho acentuadamente memorialista. Ao lê-los conhecemos um mundo que não é o nosso e uma família que não é a nossa e podemos nos aproximar dela, identificando-nos, num processo que a poesia é capaz de realizar porque cria efeitos na leitura que movimentam os afetos. Cito um de seus poemas que merece destaque em nossa leitura:

VELA

Não creio nas primeiras lembranças,

que fogem e fuligem.

Mas alguma luz na tela permite

imaginar (lembrança),

o corre-corre, minha

mãe aflita - A luz queimou !

E meu pai, sereno, acalmando-a,

— Vou acender as velas.

Distribui mágico, pela casa,

de luz - tão mais fortes,

hipnóticas que a gelada luz

da eletricidade.

Pontos gentis, humildes, mas

translúcidos, inquietos, combativos.

Agitado e paralisado, corro

de ponto a ponto, acompanhando

a romaria paterna (da cozinha ao

banheiro, aos dormitórios)

plantando luzes, poderoso.

Cativado, me detenho entre as

estações, em êxtase, diante do

cristal em brasas, a chama que

se ergue, a fumacinha perturbadora

e feia.

 

Quando, anti-clímax,

o depósito de gordura que

se esvai, ameaça

com a

escuridão.

 

O Ano e o Nome

JPG nasce então no fatídico ano de 1933, data em que Hitler ascende como chanceler da Alemanha. 1933 é também o ano em que Walter Benjamin escreve o artigo “Experiência e Pobreza”, no qual vaticina: “A crise econômica está diante da porta, atrás dela está uma sombra, a próxima guerra”.  Com a guerra de 1939 a 1945, os doze primeiros anos de sua vida coincidem portanto com a ascensão, a guerra até a posterior queda do nazismo. Essa realidade atinge o menino que teve os familiares paternos mortos nos campos de Varsóvia (incluindo uma tia sua que teve o visto negado para entrada no Brasil, pelo Itamaraty), enquanto no Brasil, a posição dúbia do Estado Novo, a ditadura Vargas.

Seu nome é uma homenagem ao tio, Yakov Pinkas, meio-irmão de seu pai, que veio da Polônia por volta de 1920 para trabalhar em uma fábrica no Rio de Janeiro, aí falecendo aos 18 anos. Jacob deveria então se chamar Jacob Pinkas Goldberg. O “Pinheiro” no lugar de “Pinkas” ele explica pela tradução que foi feita a pedido do tabelião que fez o registro e estranhara o nome, atribuindo-lhe um sobrenome que, como Oliveira e outros, assinalaria uma origem cristã-nova. Fonte de indagações constantes, o sobrenome Pinheiro passa a indicar para a comunidade judaica e para a comunidade brasileira que Goldberg seria “meio-judeu”. Essa tradução de nomes que está na origem de sua identidade mostra-se então problemática. Sendo efetivamente filho de mãe e pai judeus, Pinheiro Goldberg passa a viver e a incorporar a situação ambígüa e difícil do entre-lugar ou sem-lugar como a que é associada aos marranos (Cf. NOVINSKY, 2001). No seu caso, por ter estudado em escola de “piedosos pastores metodistas” norte-americanos (o Instituto Granbery, em Juiz de Fora) a situação ficaria entre nem ser totalmente judeu, nem católico, nem protestante, mas entre essas três esferas, como ele alude em seus textos.

Sua literatura é assim a de um filho de imigrantes judeus poloneses no Brasil,  desterritorializado, exilado, e que a todo momento afirma seu não-ser e não-pertencer (“Eu não sou daqui”). O sobrenome Pinheiro teria acentuado esse deslocamento e essa posição de fronteira. Do mesmo modo, como herdeiro de uma língua assassinada, ele só pode escrever habitando a mudez ou testemunhando o terror que o cala, como faz ao registrar o acalanto.

O Acalanto – Poema de Guerra.

O acalanto é um gênero específico de poemas destinados a embalar o sono, entre os quais se incluem as cantigas de ninar.  Nos escritos de Goldberg, a canção de ninar é citada de modo recorrente do primeiro ao último livro. Neles, a canção de ninar é associada à guerra e seus horrores, e ao mesmo tempo mantém a intimidade e recordação da voz de acalanto materna. Como se sabe, o ídiche é a “língua da mamãe”, a língua das “canções de ninar”, como dialeto falado sobretudo pelas mulheres que não aprendiam a ler o hebraico.

No seu primeiro livro, Ritmo Esquerdo (1952), o poema “Canção de Ninar”, inicia-se com a voz materna recitando ao filho:

 

Dorme nenê que os nazis estão aí,

dorme filhinho que mamãe cuida

de ti.

 

Em dez estrofes, o poema narra a história do homem que não gostava dos judeus e domina uma nação outrora grande para matá-los, num tempo em que “o diabo está solto”

 

Agora dorme nenê que os homens maus

estão por aí.

 

Dorme filhinho, dorme nenê. 

 

Nesse poema, publicado quando o escritor contava 19 anos, lemos a narrativa ao mesmo tempo pueril, imitando a linguagem materna dirigida à criança em sua oralidade característica, numa composição que é também pueril, no sentido de ser toda referencial e denotativa, mas com um substrato que contrapõe ao pueril o horror da história, a ameaça da morte e do assassinato, e que aumenta na medida mesma de sua contradição: cantiga de ninar que, ao invés de ter como efeito fazer dormir, acorda leitor e criança para uma situação de terror e medo. Ainda nesse mesmo livro, Ritmo Esquerdo, o poema “Parágrafo” alude, em primeira pessoa ao desamparo diante da noite eterna e da obra do Maldito:

 

“Parágrafo”

 

Na tempestade da vida encontrei-me.

Sem amparo

a noite eterna

desceu, e

as nuvens escuras

 

coroaram a obra

do Maldito.

 

A noite em que se cantam as cantigas de ninar, que teriam a função de amparar e proteger o sono, é aqui absolutizada numa noite eterna, escura, na qual domina  a presença reinante do Mal, com o qual o sujeito deve se confrontar na tempestade da vida, como algo que o acomete. O título “parágrafo” pode ser lido como parte integrante dessa história escrita nesses poemas. No livro Tempo Exilado (1968), reaparece a imagem do demônio que acompanha o sono :

“Conciliação”

 

Durmo com meu

demônio.

Com ele

terei que tranqüilizar

o sono.

Vem do reino

da morte,

terminou o dia do

Anjo.

 

Impaciente em

cada espaço,

mas nada vislumbro

no lençol.

Inimigo,

travesseiro,

hei de sentir,

o carpir insosso

 

“Carpir” – todo esse conjunto de poemas  vêm sob a égide desse verbo: carpir. O canto tinge-se de negro, de luto, como acalantos fúnebres que acompanham essa trajetória poética e de vida, num tempo que é morto porque só traz a morte. A escrita é todo o tempo relacionada à memória, ao não-esquecimento, como registro, lamento, revolta, dor em tempos de inferno, com o inimigo que aqui não mora ao lado, mas no interior, no leito de dormir da criança, no inimigo travesseiro, e que faz com que a canção de ninar seja o carpir da guerra constante.  Sigmund Freud, determinando a batalha da civilização entre a pulsão de morte e de vida (Eros e Thanatos), refere-se às cantigas de ninar como tendo a função e o efeito de fazer esquecer e apaziguar essa luta principal da civilização:

“(...)a luta entre Eros e a Morte, entre a pulsão de vida e a pulsão de destruição, tal como ela se elabora na espécie humana. E é essa batalha de gigantes que nossas babás tentam apaziguar com sua cantiga de ninar sobre o Céu”. (1930)

 

Nos poemas de JPG, como vemos, a canção de ninar não apazigua e nem faz sonhar com os anjos, mas tem a função de lembrar e ferir porque aqui todo o tempo ela canta o inferno e não o Céu. De tal modo que até mesmo Deus, aparece como “insone” e precisando ser embalado, como nesse forte texto de Goldberg, publicado em Cidade dos Sinos, de 1975:

 “Deus Insone”

 

“Os profetas que afirmaram que DEUS MORREU, enganaram-se. Deus está mais vivo do que nunca. Nem sequer consegue dormir. Na realidade, DEUS ESTÁ INSONE. Os homens conseguiram causar-lhe o estado de ansiedade, provocando sua insônia. Os homens? Quando será o suave acalanto de Deus? O repouso do sono dos justos? Talvez se uma noite (de estrelas e sol brilhante) todos os corações puderem cantar uma canção de ninar.  Canção e dança. Cantando e dançando. Balançando os corpos, a mente, a dor, a esperança, o luto, o mundo-que-vir.  E como as rochas e os furacões jogaremos flores no passado bestial.  Finalmente, liberto, Deus sorrindo concilia o sono. E dormindo, sonha.

Que está acordado.

Vendo um mundo de dança e canção. 

(Escrevi este texto em homenagem ao rabino que foi assassinado pelos nazistas e pediu, como última vontade, que pudesse vestir suas roupas e elementos de reza. Cavou sua própria sepultura e foi enterrado vivo. Estará morto? Ou vivo e insone?)

(...).  Dorme, dorme, meu querido, que o mundo vela por ti.

Dorme, sossegado, que ando, por mim. (...)”

 

Em 1967, Goldberg publica em o Jornal de Debates, um poema dedicado ao 25o ano de destruição da cidade de Lídice, aldeia na Boêmia, Tchecoslováquia, inteiramente destruída em 10 de junho de 1942 pelo exército nazista. O poema intitula-se: “Lídice – minha canção de ninar”, confirmando a associação mais uma vez entre a cantiga e a guerra. Composto de oito estrofes, o poema finaliza-se associando Lídice às localidades dos campos de concentração:
 

“Lídice, minha cidade,

Büchenwald, Oswiecim, Matenhaüsem,

ceifa de minha nação!

 

Esta nota dissonante

minha canção de ninar!”

 

Como uma canção de ninar dissonante, ela embala não apenas uma criança, mas é a música de fundo dessa situação mundial.  Em poema bem posterior (de 1997, ou seja 30 anos após este que citamos), encontramos de novo o título “Canção de Ninar”, confirmando a recorrência do tema. Em 2002, um de seus mais recentes poemas, publicado em Monólogo a Dois, retoma o tema da canção de ninar, cujo som embala como chuva e choro essa poesia:

CHOVE

 

Para acalentar, acalanto,

meu próprio sono,

chovo,

faço chover, na seca

noite.

Como se lá fora, raios,

trovões, água caindo, fossem

violinos, tambores, tangos, a

imensa orquestra que toca

a canção para mim,

ninar.

 

E, ao balanço da úmida

onda, no travesseiro,

agarrado, amparado, barquinho

no imenso oceano,

o sono e o sonho,

as nuvens da fantasia,

chove a tempestade que,

no contraste,

o calor das cobertas,

a cortina leve, diáfana,

que faz dormir, esquecer,

lembrar, que

entre as pálpebras,

chove.

 

Marília Librandi Rocha. marilialibrandi@uol.com.br. Doutora e Mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada, (USP), autora da dissertação As Espantosas Palavras: uma análise de Grande Sertão:Veredas”, 1997, e da tese Parábola e Ponto de Fuga – A Poesia de Jacob Pinheiro Goldberg, 2002.

 

Bibliografia citada e referida.

de Jacob Pinheiro Goldberg:

Ritmo Esquerdo, Rio de Janeiro, Editora Rio, 1952

História que a cigana (nua) me contou, São Paulo, Ed. Junco 1960

Tempo Exilado, São Paulo,  Ed. Cultural , 1969

Segunda Madrugada, São Paulo, Ed. Cultural , 1971

Monólogo do Medo, São Paulo, Ed. Cultural, 1972

Memórias do Abismo, São Paulo, Ed. Cultural , 1972

O Dia em que Deus viajou, São Paulo, Ed. Clássico Científica , 1974

Cidade dos Sinos, São Paulo,  Ed. Clássico Científica, 1975

Indo-América, São Paulo, Editoras Unidas, 1976

Cantata para o Brasil. São Paulo, Ed. Oina Brasil, 1978, (2ª edição).

Maneco Nheco Nheco, São Paulo, Editora Símbolo, 1979

Ritual de Clivagem, São Paulo, Massao Ohno, 1989

O Feitiço da Amerika - Jamo Panka Pixipre Jamo. Estudos e comentários de Oscar D’Ambrosio. Campinas (SP), Grupo ATB, 1991/ 1992.

A Clave da Morte, São Paulo, Maltese, 1992

A Ógea e a Calhandra (Fragmentos sobre o susto), São Paulo, Sefarad Editorial,1997

Judaísmos: Ético e não étnico, São Paulo, Sefarad Editorial 1997

Monólogo a Dois. Centro de Estudos da Mentalidade, São Paulo, 2002

Correspondência:

Carlos Drummond de Andrade. Rio de Janeiro, 2 de maio de 1969 (arquivo do Autor)

Geral:

BENJAMIN, Walter.“Experiência e Pobreza”, em Obras Escolhidas- Magia e Técnica, Arte e Política,, vol.1, trad. Sergio Paulo Rouanet

FOUCAULT, Michel. “A vida de homens infames” (1977) in O que é um autor. Trad. Antonio Fernando Cascais e Edmundo Cordeiro Veja, Lisboa, Portugal, 1995, 2a ed.. pp. 89-128
 

GUIMARÃES, Júlio Castañon. Territórios/Conjunções. Poesia e prosa críticas de Murilo Mendes. Rio de Janeiro, Imago, 1993. P. 26

GUINSBURG, Jaco. Aventuras de uma língua errante. Ensaios de Literatura e Teatro Ídiche. Ed. Perspectiva, São Paulo, 1996.

IGEL, Regina. Imigrantes judeus / Escritores brasileiros. O componente judaico na literatura brasileira. Prefácio Rubens Ricupero. São Paulo. Perspectiva: Associação Universitária Judaica, Banco Safra, 1997

NOVINSKI, Anita. “A nova historiografia sobre os judeus no Brasil: perspectivas para o século XXI”. In Seminário de Tropicologia: o Brasil e o século XXI: desafios e perspectivas, Recife, 2001, (Anais... [prelo]. No site: http://www.tropicologia.org.br/conferencia/2001nova_historiografia.html

ROCHA, Marília Librandi. “Judeus na Manchester Mineira”. In Revista Lócus. Universidade Federal de Juiz de Fora, 2003, no prelo


 

[1] Defendida em abril de 2003, perante banca constituída pelos Profs, Drs. João Adolfo Hansen, Leon Kossovitch, Luiz Costa Lima e Alberto Pucheu, aprovada com distinção e louvor e indicada para publicação.

[2] “Literatura de Testemunho” é a denominação atribuída aos escritos dos sobreviventes das duas grandes guerras no século XX, sua vivência e reverberação. È a que nasce ao mesmo tempo da necessidade e da impossibilidade de testemunhar, e que põe em questão as relações e fronteiras entre representação e realidade, documento e ficção. A bibliografia sobre o assunto é extensa. Cf.por ex. Nestrovski e Seligmann-Silva, Catástrofe e Representação. São Paulo, Escuta, 2000. Ou o roteiro do filme Shoah, de Claude Lanzmann (Prefácio de Simone de Beauvoir, Paris, Gallimard, 1997).