Judeus na “Manchester Mineira”
Marília Librandi Rocha
“Todo mundo importante no Brasil nasceu em Juiz de Fora”
(frase de um entrevistado)
Como epígrafe, a frase acima evidencia o sentimento de orgulho juiz-forano em relação ao histórico de sua cidade e aos nomes importantes que aí nasceram ou por aí passaram, deixando registro em crônicas, fotos, pinturas, memórias, biografias, poemas e histórias da cidade [1] . Chamada de “Atenas Mineira” por Artur Azevedo, “Manchester Mineira”, no auge do processo de industrialização, “Princesa de Minas”, entre outros epítetos, Juiz de Fora foi também, por um curto período de tempo, uma cidade habitada por imigrantes judeus. A presença de portugueses, alemães, italianos, sírios e libaneses na formação de Juiz de Fora, ao lado do grande contingente negro, vem sendo estudada e ressaltada pela historiografia local [2] , mas a presença de judeus em Juiz de Fora não aparece quase nunca registrada, fazendo parte dos “esquecidos” na história da cidade. Esse artigo é um modo de resgate dessa história ainda com dados insuficientes, a ser desenvolvida e acrescida de novas informações e testemunhos.
A notícia mais recente a esse respeito veio de artigo do escritor e médico Sagrado Lamir David, com o sugestivo título: “Onde estão os judeus de JF?”, onde se lê:
“(...)entre as décadas de 1930/1940, foi que a marcante comunidade judaica se estabeleceu em JF: cerca de 30 famílias de judeus provenientes da Rússia, Polônia e Alemanha, vieram para a cidade e se estabeleceram nas áreas centrais e comerciais da cidade: eram prestamistas, vendiam roupas, jóias, criando ao lado dos árabes, a tradição comercial da Marechal Deodoro”. [3]
Mas quem teriam sido esses judeus, e por que quase não há registro de sua passagem pela cidade? A primeira parte da pergunta pode começar a ser respondida segundo levantamento que fizemos a partir de algumas entrevistas e depoimentos obtidos sobre o tema [4] , acrescidos de informações fornecidas pelos textos e depoimentos do escritor juiz-forano, Jacob Pinheiro Goldberg, a respeito de quem falaremos logo mais. Quanto à ausência de registro pela historiografia local podem ser aventadas duas hipóteses: 1) o pequeno número de imigrantes judeus em relação aos restantes e 2) o fato de terem todos partido da cidade, como nos disse um dos entrevistados: – “Não ficou um só para contar a história”.
Mas esse esquecimento parece soar mais forte e menos explicável quando lemos no importante livro de Paulino de Oliveira, História de Juiz de Fora , a seguinte referência. O autor cita texto de 1914, de Inácio Gama, que, segundo ele, teria sido o primeiro cronista da cidade. Falando sobre as hospedarias e estalagens existentes na cidade, Inácio Gama refere-se a duas especificamente: a de Manoel Ferrrera Veloso e a de Francisco Gomes Ribeiro, e completa:
“a do Chico Luiz, de preferência procurada pelos viajantes, principalmente pela pequena colônia de mascates franceses-judeus, segunda imigração que tivemos, pois aqui, como em todo o Brasil, entre os estrangeiros predominavam os portugueses” [5] . (grifo nosso)
A citação é importante pois, como se vê, o autor considera, ao lado da
predominância portuguesa, a “colônia de mascates franceses-judeus”, como a
“segunda imigração que tivemos”. Podemos aventar uma hipótese sobre a
presença dessa “colônia de mascates” na cidade. Juiz de Fora , como se
sabe, nasceu, cresceu e se desenvolveu como decorrência da abertura de
Caminhos e Estradas, tornando-se importante centro de comunicação e passagem
entre a então capital do Império, Rio de Janeiro, e a Província de Minas
Gerais. Estudos recentes sobre a presença de judeus e cristãos-novos em
Minas Gerais vem sendo cada vez mais desenvolvidos [6] . Com os sobrenomes
de origem alterados, muitos judeus, na condição de cristãos-novos e marranos
se mesclaram com a população local no Brasil-Colônia. Esses mascates “franceses-judeus”,
cujos nomes não foram registrados, deviam fazer parte do contingente de
pessoas que circularam entre o Rio e Minas Gerais, passando e fixando-se por
certo período em Juiz de Fora. Sabemos que no Brasil Imperial registra-se a
presença de judeus vindos do Marrocos (como a comunidade que se estabeleceu
na Amazônia em 1820), e também judeus vindos da Inglaterra e da França, como
sintetiza Abrahão Gitelman:
“Os franceses vieram em duas levas. A primeira era de refugiados da revolução social de fevereiro de 1848. A seguinte, composta de alsacianos, que preferiram emigrar a tornar-se alemães, dada a perda da Alsácia e Lorena pela França, como conseqüência da Guerra Franco- Prussiana de 1870”. [7]
Quanto à presença de franceses na cidade, judeus ou não, refere-se Pedro Nava:
"Excelentes famílias de Juiz de Fora - Montreuil, Jouvet, Creuzol -
descendem de súditos franceses que se radicaram na margem do Paraibuna na
segunda metade do século passado. Entre eles merece ser destacada pelo seu
papel na educação e no ensino do Dr. Luís Andrés".
[8]
É possível pensar que parte dos sobrenomes de pioneiros na formação do povoado, depois vila e então cidade do Juiz de Fora, fossem remanescentes e tivessem ascendência cristã-nova ou marrana. O “esquecimento” desse passado pode ser aproximado do mesmo “esquecimento” que atinge a história dos desfavorecidos e excluídos da historiografia oficial até pouco tempo atrás, seja por pobreza, origem escrava ou, como parece ser o caso aqui, dos cristão-novos que, por um processo de assimilação, não têm os seus nomes primeiros e seu local de origem registrados, fazendo parte assim do grande contingente dos “sem-nome” ou dos “homens infames” por oposição aos “homens ilustres”, os quais, como mostrou Michel Foucault [9] , só passam a ser conhecidos a partir de denúncias dos “crimes” cometidos e registrados, seja pela crônica policial seja pelos registros inquisitoriais.
Passemos então ao que encontramos como registro e lembrança dos judeus que efetivamente viveram em Juiz de Fora no século XX, entre final dos anos 20 até cerca de meados dos anos 50.
Em nossa pesquisa, entrevistamos pessoas da segunda geração de sírios e libaneses, filhos dos imigrantes que se estabeleceram no comércio de tecidos na rua Marechal Deodoro, e conviveram, quando crianças, com os filhos dos imigrantes judeus, cujas lojas e comércio situavam-se, em geral, na parte baixa da mesma rua. Os depoimentos são fragmentados e por vezes contraditórios. Uns dizem que havia muito poucos judeus na cidade; outros, mais entusiasmados pelas lembranças, aumentam esse número dizendo que houve sim uma comunidade importante de “muitos judeus” em Juiz de Fora. No entanto, instados a citar nomes e números, lembram-se de no máximo uma dezena deles e, no geral, apenas dos primeiros nomes, quando muito. Desses depoimentos, registramos aqui alguns dos citados, tal como nos foi transmitido:
- Sr. Felix e Sra. Anita, da “Casa Felix”
- Sr. Bernardo, da “Casa Wally”
- Dona Regina e Sr. Jacob
- Sr. Jacob e Dona Carmem, da loja “Conveniência”
- os proprietários (?) das lojas “Moda Elizabeth” e “Magazine Holliday”.
Segundo um dos testemunhos, apenas um deles, de nome Efrain Don, teria passado por campo de concentração, chegando à cidade portanto em tempo posterior à Segunda Guerra.
Em pesquisa no Instituto Granbery, onde os filhos da comunidade judaica estudavam, obtivemos os seguintes nomes de alunos matriculados em início dos anos 50 [10] :
- Daniel e Moisés Chojniak
- Sprinca Frima Sonia Sztarkmam Shainberg
- Miriam, Jacob, e Davi Grinberg (filhos de Adolfo Grinberg)
- Raquel Sinivskovski
- Neil Bacha.
Em geral, os depoimentos são unânimes em afirmar o motivo da saída dos judeus de Juiz de Fora para as grandes capitais do Rio e de São Paulo, levados por motivos econômicos, em início dos anos 50. Importante pela indústria têxtil, com cerca de 600 malharias, Juiz de Fora, durante a Segunda Guerra Mundial, tornou-se centro de produção e exportação de uniformes. Na época, as fábricas chegavam a trabalhar em três turnos. Após o fim da guerra, suplantada pelas grendes capitais, há um declínio na produção industrial na cidade, e é nesse período, que coincide com início e meados dos anos 50, que os judeus teriam partido da cidade.
Mas teria sido apenas por motivo econômico que os judeus teriam partido de Juiz de Fora? Ou encontramos aqui, novamente, a recorrência do estereótipo que atribui aos judeus o interesse predominantemente pecuniário? Sabemos que os movimentos migratórios são motivados por razões várias, entre as quais, a mais recorrente seja por questões de ordem econômica, com o empobrecimento e conseqüente procura de novas oportunidades, mas também por perseguição religiosa, ou por inadaptação, entre outras causas. Levantamos outro motivo importante para a partida dos judeus de Juiz de Fora: o fato de ser uma pequena comunidade vivendo em uma cidade onde não havia, como no Rio e em São Paulo, instituições judaicas importantes, desde a presença de uma sinagoga, onde pudessem realizar os cultos, escolas judaicas, onde matricular os filhos, cemitério judeu, onde enterrar seus mortos. Próxima do Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo parece bastante provável que os judeus tenham preferido, após conseguirem os meios de subsistência, mudar-se para essas cidades em contato com a comunidade mais numerosa e melhor estabelecida.
***
“Nasci em Juiz de Fora, entre montes, Minas Gerais, geografia dos meus limites horizontais. Transitei, intransitivo, assembléias metodistas do Instituto Granbery ouvindo missionários yankees. Mas meu coração estava ancorado em terras não palmilhadas”.
(Jacob Pinheiro Goldberg. “De Frente e de Perfil”, In. Ritual de Clivagem, São Paulo, Massao Ohno, 1989)
Jacob Pinheiro Goldberg, filho de Fanny Elwing Goldberg e Luis Goldberg, nasceu em Juiz de Fora, em 1933. Hoje, psicólogo reconhecido, vivendo em São Paulo, Goldberg é autor de uma produção literária pouco conhecida mas intensa. Seu primeiro livro, Ritmo Esquerdo, foi publicado em 1952, e o último, Monólogo a Dois, em 2002, compondo assim uma obra escrita em prosa, poesia e prosa poética que percorre 50 anos de atividade. Além disso, Goldberg, escreveu e escreve grande número de artigos para jornais e revistas, e, como psicólogo, participa de debates e entrevistas na televisão e no rádio, onde é freqüente a referência a sua vivência em Juiz de Fora. Sua produção escrita está sendo organizada para uma antologia de textos e análise dos mesmos [11] . Adiantamos aqui alguns dados específicos no que se refere a Juiz de Fora, como contribuição à história das letras e à presença dos judeus na cidade.
De Ostrowiecz para Juiz de Fora.
Seus pais, Fanny Elwing e Luiz Goldberg, nasceram na cidade de Ostrowiecz, na Polônia, onde viviam no “shtetl”, a ‘cidadezinha’ reservada aos judeus, como uma espécie de gueto. Sua mãe, Fanny, veio ao Brasil aos 14 anos, acompanhando os pais e mais nove irmãos, estabelecendo-se no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, em meados dos anos 20. Luiz Goldberg veio sozinho pouco tempo depois. Ele tinha 18 anos e chegou no Rio de Janeiro vindo no navio cargueiro argentino, Valdívia. Segundo depoimento que teria dado a seu filho, ao desembarcar, sem falar uma palavra de português, Luiz Goldberg ficou andando de um lado para o outro falando em ídiche: “Quem é judeu? Quem é judeu”? Até que lhe encaminharam para uma hospedaria, onde ficou sabendo que havia uma cidade, de clima ameno e com possibilidade de emprego, chamada Juiz de Fora, para onde então se encaminhou. Uma vez casados, ele e D. Fanny estabeleceram-se na cidade, onde seu pai ficou conhecido como “seu Luizinho”. Trabalhando como prestamista (aquele que vende a prestação, também conhecido pelo termo “clientlchick” ou “mascate”), ele comprava mercadoria dos lojistas e vendia de porta em porta, atividade não poucas vezes hostilizada nos livros que pregavam abertamente o anti-semitismo na época. É o caso, por exemplo, do prefácio escrito por Gustavo Barroso, fundador da Ação Integralista Brasileira, para o livro A Questão Judaica, do Padre J.Cabral, lançado em 1934. Para defender a seleção e restrição imigratória aos judeus, Gustavo Barroso diz: “Como se não bastassem os vagabundos, desordeiros, usurários, prestamistas e desocupados que enchem nossas melhores cidades...” [12]
Em pesquisa a respeito da história da imprensa em Juiz de Fora, encontramos, no estudo de Almir de Oliveira [13] , referência à presença e circulação na cidade do jornal integralista O Sigma, no período de 1934 a 1936.
Com a guerra de 1939 a 1945, os doze primeiros anos de vida de Goldberg coincidem portanto com a ascensão, a guerra até a posterior queda do nazismo. Essa realidade atinge o menino que teve os familiares paternos mortos nos campos de Varsóvia, enquanto no Brasil, a posição dúbia do Estado Novo, a ditadura de Vargas (incluindo uma tia sua que teve o visto negado para entrada no Brasil, pelo Itamaraty). Esse era o clima do período, como explicita Goldberg, nesse texto:
“A coletividade vivia sob a influência do nazismo europeu então vitorioso e sua repercussão no integralismo brasileiro. Freqüentemente, o tosco anti-semitismo infantil, repetia para mim, na rua e no colégio, o secular brado discriminatório: “Judeu, vá para a Judéia”. O então menino não compreendia a raiva gratuita, fruto da cólera, obscurantismo e falsos conceitos teológicos dos adultos, que o perseguiam” [14] .
O Nome
Jacob Pinheiro Goldberg nasce então em 1933. Seu nome é uma homenagem ao tio, Yaakov Pinchas, irmão de seu pai, que chegou ao Brasil vindo da Polônia, por volta de 1920, para trabalhar no Rio de Janeiro, e morreu aos 18 anos de idade. Jacob deveria então se chamar Jacob Pinchas Goldberg. O “Pinheiro” ele explica pela tradução que foi feita a pedido do tabelião que fez o registro e estranhara o nome, atribuindo-se um sobrenome que, como Oliveira, e outros, assinalaria uma origem cristã-nova. Fonte de indagações constantes, o sobrenome Pinheiro indicaria para a comunidade judaica e para a comunidade brasileira que ele não seria um judeu legítimo. Em Juiz de Fora, duas pessoas entrevistadas, referiram-se ao fato de ele ser “meio-judeu”, como filho de mãe brasileira e pai judeu. A mesma associação deve ser feita por boa parte da comunidade judaica. Sendo efetivamente filho de mãe e pai judeus, Pinheiro Goldberg passa a viver e incorpora a situação ambígua e difícil do entre-lugar ou sem-lugar como a que é associada à situação dos marranos - nem totalmente judeus nem totalmente católicos. Filho de imigrantes poloneses pobres, deslocado na sociedade brasileira, Goldberg sente-se também como deslocado em relação à comunidade judaica mais tradicional. O sobrenome Pinheiro teria acentuado esse deslocamento e essa posição de fronteira. Assim, o Pinheiro ao invés de Pinchas alterou a situação biográfica de Goldberg ao associá-lo aos cristãos-novos, sem ser. Anita Novinsky, em artigo recente, discorre sobre o conceito de “pós-marranismo” desenvolvido por Edgard Morin, que ela cita:
“(...) Morin diz textualmente: “o que me atraiu no marranismo foi a experiência psicológica complexa que traz consigo uma dupla identidade, dilacerante e eventualmente criadora, fermento da superação dos dogmas das duas religiões, resultando numa postura interrogativa e crítica em Montaigne e na busca de novos fundamentos em Spinoza” .
Ao que ela comenta:
“Mas Morin foi mais longe ainda e estendeu sua concepção de marranismo até Karl Marx e Sigmund Freud, mostrando que esses judeus, como os marranos, viviam num mundo ao qual não podiam pertencer. A experiência marrana pode assim ocorrer com os judeus, em qualquer tempo e em qualquer lugar”. [15]
A experiência de Goldberg parece corresponder a esse conceito, próximo ao que ele escreve a respeito da sensação de um “coração... ancorado em terras não palmilhadas”.
Os Jornais em Juiz de Fora
Jacob começa a escrever influenciado pelos textos jornalísticos. Ele vivia, como ele mesmo diz, “na paisagem mental do shtetl”, “a cidadezinha”, referindo-se com esse termo, tanto a Ostrowiecz, cidade de origem de seus pais, como a Juiz de Fora, cidades que nos seus textos e poemas aparecem freqüentemente mescladas, e encontrava nas pilhas de jornais velhos que seu pai usava para embrulhar mercadoria a porta de saída para o mundo, com as notícias do que ia acontecendo.
Havia quilos de jornais velhos na sua casa, remanescentes que sobravam nas bancas (portanto eram jornais de menor vendagem - ele se lembra de dois especificamente: “A Vanguarda” e o “Diário de Notícias”, do Rio de Janeiro). Jacob lia sentado dentro dos caixotes de compensado, usados por seu pai. Esse caixotes eram sua “caverna de madeira”, e são citados em vários poemas.
Em 1946/47, passa a escrever de fato uma “Coluna Judaica” no jornal Correio de Minas, dirigido por Osmar Silva:
“Era época que na então Palestina começavam, através do movimento sionista, os movimentos em prol da criação do estado de Israel e esses jornais foram elaborados nesse período. Imagine isso em Juiz de Fora, uma das cidades mais católicas do estado mais católico do Brasil que é Minas Gerais, aonde não havia judeus. Juiz de Fora devia ter dez ou doze famílias de judeus, coitados, perdidos, imigrantes pobres, deslocados. Nessas condições, tinha um jornal chamado Correio de Minas, — tinha vários, a Folha Mineira, A Tarde e a Gazeta Comercial, e eu acabava escrevendo em todos eles. Mas no Correio de Minas, eu conversei com o jornalista, que era um visionário, uma figura folclórica do interior, curiosíssima, e eu criei uma coluna judaica no jornal. Coluna judaica pra que, pra quem? Não tinha judeu na cidade. Os doze pé rapados não sabiam ler português. Quer dizer na verdade eu estava escrevendo para mim mesmo, para variar”.
A partir de 1950, já com a carteira da Associação Mineira de Imprensa, passa a escrever artigos e crônicas diárias para outros jornais e revistas locais, principalmente em a Gazeta Comercial e A Tarde, dirigidos por Paulo Lenz, líder do Partido Socialista Brasileiro. São artigos que fazem uma espécie de pout-pourri de assuntos variados. Neles, ele revela sua participação na política estudantil, nos movimentos culturais locais, a importância do cinema, que o leva a escrever panfletos contra o aumento do ingresso, “atentado à economia popular!”, conclamando uma greve geral contra a Companhia Central de Diversões, enfim toda a realidade do período vai aparecendo nesses artigos que comentam desde o sarau do Colégio até, por ex., alguma observação sobre literatura canadense, e muitos comentários da política nacional [16] .
Em 1953, ele cria o jornal “O Volante”, semanário de distribuição gratuita, do qual ele era o Diretor-redator-chefe, e Jacob Grinberg, o Diretor-secretário. A “redação” ficava na Rua Batista de Oliveira, n. 693, sobrado onde trabalhava seu pai. Hoje, encontram-se em seu arquivo pessoal, dois exemplares desse jornal, de cunho estudantil, com notícias sobre os vários filmes e diversões da época (incluindo textos de sua irmã mais nova, Clarinha Dinia Goldberg), de teor popular ( como se vê no artigo sobre uma futura Universidade do Trabalho Getúlio Vargas, oferecendo ginásio gratuito para filhos de operários; ou sobre a Carriço Filmes); e também de caráter partidário (com campanha a favor do vereador Wandenkolk Moreira). O jornal dura apenas alguns números, e os dois exemplares em poder do escritor constituem importante documento sobre a história da imprensa em Juiz de Fora [17] .
O cinema é uma constante na vida e na literatura de Goldberg. Na adolescência em Juiz de Fora o cinema era o local da fuga, da fantasia e dos encontros ou desencontros amorosos, em meio à escuridão que podia ser protetora:
Goldberg, como outros filhos de imigrantes judeus, estudou no Instituto Granbery, fundado pelos pastores metodistas norte-americanos. Cantando os hinos cristãos diariamente, o Granbery aparece nas reminiscências de Goldberg, louvado pela abertura e compreensão de boa parte dos professores, mas também como lembrança das disputas entre os alunos, sempre defendido por Mr Walter Moore, como narra neste texto:
“(...) Mês depois, voltei para Juiz de Fora, para o Instituto Granbery, colégio metodista em que estudava, dirigido por exaltados missionários norte-americanos. Depois da Sexta-feira da Paixão, os coleguinhas de classe resolveram me escalar para o Judas judeu que tinha traído Cristo. Tentaram descontar com pedaços de pau. Medroso, me refugiei no banheiro da escola, ouvindo os gritos: “Matem esse Judeu que matou Jesus”. De repente, ouço a voz tonitruante do Mr. Moore, Walter Harvey Moore, o reitor, discursando: “Vocês não sabem que Jesus era judeu? Suave, bateu na porta do banheiro e, em hebraico, disse algo carinhoso. Respondi-lhe que não entendia hebraico. Ele, quase irritado, com ardor protestante ianque: “Precisa aprender, meu filho, é a língua de Deus, você nem parece judeu”.
(“Deus que me Perdoe”, In: Folha de São Paulo, 1998)
E também neste outro:
REIS
Meu professor de história, no Ginásio, durante uma de suas amplas digressões que iam desde questões de sexo até alta metafísica, informou à classe que os judeus crucificaram Jesus. Com um amplo sorriso me pediu desculpas sobre a alusão, como se estivesse contando algo de feio que minha família cometera mas que era de seu senso ético denunciar...
Isto numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, aonde a noção de “ser judeu” lembrava conotações, vagamente, demoníacas.
Com 11 anos de idade, magro e sozinho (na cidade deviam morar, no máximo, 15 ou 20 judeus), não foi fácil, durante o recreio, enfrentar o desprezo e a indignação dos meus colegas de turma, indignados com minha cumplicidade, no deicídio.
(....)
(Em O Dia em que Deus Viajou, 1974)
No Granbery, ele estudou dos 8 aos 13 anos (de 1941 a 1946), fazendo o primário e ginasial. De 1947 a 1950, seus pais mudam-se para São Paulo, e ele estuda no Colégio Rio Branco, retornando ao Granbery para completar os estudos do científico, em 1951 e 1952. Mr. Walter Harvey Moore, personagem louvado em seus textos, era reitor na maior parte dos anos em que Jacob aí estudou, acompanhando-o (de 1941 a 1943 e depois em 1951-1952)
Quando completa o científico em 1952, aos 19 anos, Goldberg edita seu primeiro livro, Ritmo Esquerdo. Nesse mesmo período, serve o exército, primeiro em Juiz de Fora, depois em São Paulo, onde vai chegar a comandante de infantaria, sob o comando do general Euryalo Zerbini. Junto com o exército, forma-se em advocacia e depois cursa o Instituto de Serviço Social, a partir de 1956, onde apresenta trabalho sobre Serviço Social no Exército Brasileiro.
Deixa assim de viver em Juiz de Fora, a partir fim dos anos 50, estabelecendo-se em São Paulo, onde irá advogar, a partir de 1960, data de seu segundo livro, História que a Cigana (nua) me contou, quando também se envolve ativamente na vida da comunidade judaica local, escrevendo para a Revista Aonde Vamos, o jornal de tendência anarquista, Dealbar, entre outros.
Podemos dizer que há muitas Juiz de Fora, de acordo com a visão que dela manifestam seus escritores. Assim, do mesmo modo que a - “Juiz de Fora de Murilo Mendes (em A Idade do Serrote), por exemplo, é de tonalidade fantasmal num espaço onírico (...)” (p. 22), encontramos nos textos de Jacob também esse resquício “fantasmal” enquanto memória registrada de uma vivência, que ora assume tons oníricos, como um sonho distante, tempo e espaço perdidos, ora tom de agonístico pesadelo, o qual deve ser compreendido a partir de sua experiência de judeu, filho de imigrantes pobres, deslocado, estranho em terra estranha ou estranho no ninho, como nos disse. Aproveitando o nome Juiz de Fora, encontramos em seus textos uma Juiz de fora de dentro, espaço imaginário, e uma outra, de fora, alheia e estranha, assim como uma “Juiz de Fora – fora do juízo” (como o título da peça de Oscar da Gama, encenada na cidade em 1897).
O número de textos, poemas e entrevistas sobre sua vivência em Juiz de Fora é grande, não podendo ser aqui inteiramente abarcado. Terminamos então citando apenas dois que revelam tanto a contestação e recusa da província como a ambiência e duplicidade de afeto e nostalgia mesclados. Leia-se, por exemplo, o seguinte texto de sua autoria, intitulado “Origem e Destino”:
“Quem nasce em Juiz de Fora, Minas Gerais, ainda mais em 1933 (ascensão do nazismo na Alemanha, moda integralista no Brasil — Plínio Salgado, anauê e tudo o que significava), judeu, filho de imigrantes poloneses, estudando em Colégio de missionários protestantes norte-americanos, tem duas alternativas na vida: ou ser pelo menos três vezes melhor do que os coleguinhas racistas ou ser pelo menos três vezes melhor do que os coleguinhas racistas.
E, depois de passar uma vida, tentando concretizar uma das duas alternativas, descobrir que as duas eram falsas. Que Juiz de Fora não existe (era uma ficção), que o colégio não existia (era outra ficção). Finalmente que você não existia (mais uma ficção).
E só então poder voltar para Juiz de Fora e viver uma só vida.
A sua.”
(Em Psicologia e Reflexões do Inconsciente, 1978)
Um dos mais tocantes de seus textos em prosa poética a respeito de sua vivência em Juiz de Fora, condensa e dilata o “tempo-espaço”, como espaço na memória, que retorna, como aquarela, ou “retrato na parede”, lembrando a Itabira, de Drummond:
“A tardinha avançando, a noitinha caindo: como lamparinas em aquarela japonesa, as janelas nas casinhas, no morro.
Êta nóis!
Alto dos Passos, Poço Rico, Costa Carvalho, Rua Santos Dumont.
Aquilo que dava no peito e mais tarde descobri que se chama ante-visão, uma
adivinhação prévia da saudade. Quem sabe a nostalgia por uma dilatação
maluca do tempo-espaço.
Ai, meu Deus, se soubesse que então seria jamais, olharia pras luzinhas e chorava até derreter o futuro e as ilusões, e ficaria, pra sempre ali, parado como estátua erguida em nome da sensação”.
(Em A Ógea e A Calhandra)
[1] A respeito dos escritores e cronistas que escreveram sobre Juiz de Fora, cf. Leila Maria Fonseca Barbosa e Marisa Timponi Pereira Rodrigues (org). Letras da Cidade Juiz de Fora, Fundação Cultural Alfredo Ferreira Lage – Funalfa, 2000
[2] Entre os estudos mais recentes, cf. Celia Maia Borges (org.) Solidariedades e conflitos: histórias de vida e trajetórias de grupos em Juiz de Fora. Juiz de Fora, MG, EDUFJF, 2000
[3] Sagrado Lamir David “Onde estão os judeus de Juiz de Fora?”. In: Em Voga, História JF 150 anos. Juiz de Fora, MR Publicidades & Promoções, ano XVI, n. 139, junho 2000, (p. 23).
[4] Entrevistamos Sra. Neide Haddad e Sr. Jamil Haddad, Dr. Alberto Arbex, da segunda geração de imigrantes sírios-libaneses e Maria Helena de Azevedo Nogueira Terror, da Academia Granberyense de Letras
[5] Paulino de Oliveira. História de Juiz de Fora. 2a edição, Juiz de Fora, 1966, p. 20
[6] Cf, por exemplo, Marcelo M. Guimarães. “Os Judeus em Minas Gerais”. Em: http://www.ensinandodesiao.org.br/Abradjin/0302.htm; e “Algumas famílias Mineiras, Tradições e Costumes”, em http://www.ensinandodesiao.org.br/Abradjin/museu.htm
[7] Abrahão Gitelman. “Protestantes e Judeus: alguns paralelismos em suas trajetórias no Brasil. Boletim Informativo. Arquivo Histórico Judaico Brasileiro. no. 22, maio de 2001. Cf. também Nachman Falbel. Estudos sobre a comunidade judaica no Brasil. São Paulo, 1984
[8] Pedro Nava. Baú de Ossos. Memórias. Rio de Janeiro: Editora Sabiá, 1972, p. 265
[9] Michel Foucault. “A vida dos homens infames” (1977) in O que é um autor?. Trad. Antonio Fernando Cascais e Edmundo Cordeiro; prefácio: José A Bragança de Miranda e Antonio Fernando Cascais. Veja, Lisboa, Portugal, 1995, 2a ed. pp.89-128
[10] Entrevista com Maria Helena de Azevedo Nogueira Terror, do Instituto Granbery.
[11] Parábola e Ponto de Fuga – a Poesia de Jacob P. Goldberg. Análise e Antologia. Tese de Doutorado a ser apresentada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, da Universidade de São Paulo, em dezembro de 2002, por Marília Librandi Rocha.
[13] Almir de Oliveira. A Imprensa em Juiz de Fora. Juiz de Fora, Imprensa Universitária da UFJF, 1981.
[14] In “Judaísmos- Ético e não étnico” (1997).
[15] Anita Novinsky. “A nova historiografia sobre os judeus no Brasil: perspectivas para o século XXI”. In: SEMINÁRIO DE TROPICOLOGIA: o Brasil e o século XXI: desafios e perspectivas, Recife, 2001, (Anais... [prelo]. No site: http://www.tropicologia.org.br/conferencia/2001nova_historiografia.html
[16] Em 1953, sai candidato a vereador impugnado por ser menor de idade; depois se candidata a deputado estadual, em 1962. Não venceu nenhuma eleição, fato do qual irá se orgulhar posteriormente. Episódio a ser abordado futuramente é o da sua candidatura à Academia Brasileira de Letras, da primeira vez, a sério; na segunda apresenta-se como “anti-candidato”.
[17] Exemplares de “O Volante”, no Arquivo pessoal de J.P.Goldberg: Ano 1, 18 de junho de 1953. Juiz de Fora, n. 2; e o de 25 de junho de 1953, Juiz de Fora, n.3
[18] “Meu Papel no Filme da Minha Vida?”, em Memórias do Abismo (1972).