MONÓLOGO A DOIS
JACOB PINHEIRO GOLDBERG
“Mentira, você é uma graça”.
Fanny Goldberg
( in “Minha Esperança”).
À memória de
meu pai, Luiz Goldberg,
embora e muito.
- Seleção de poemas e textos científicos e literários do autor, inéditos ou
publicados, anteriormente.
PARTE PRIMEIRA
CANÇÃO DAS CARPAS
- Canção das carpas. Expressão parisiense que se refere à relação dos peixes,
feita no silêncio, através dos olhares de cumplicidade. Afinidade eletiva, na
concepção de Goethe.
1. Charme Indiscreto
(Inéditos, 2000)
Diálogo com um morto.
As cenas mudas, fotogramas na
retina movediça.
Olho numa insana busca
e vejo distância, ouço o silêncio,
amarga impotência do
inconsolável.
Ontem
Antes-de-ontem,
numa distante lembrança,
se pudesse a
arquitetura da memória,
construíria outra estória.
Tería, carinhoso, dito para
minha mãe-sim, você é
uma artista,
embora estranhe seus pròprios versos.
E, para meu pai, no gélido saguão,
em que fomos exilados,
cantaría a gratidão de todos os
seus rastros.
E, impossível, resta agora o desespero,
de correr nos pesadelos,
atrás dos telefones ocupados, esquecidos,
silenciosos, os endereços ocultos,
fugídios.
O impiedoso, insuportável vazío.
Londres
Eu sei que,
algum lugar,
algum tempo,
havia alguém.
Numa esquina,
concerto, chuva,
estiou, num
relance, alguém,
que nunca mais.
Amanhã, em algum
lugar, no luar,
na praia ensolarada,
no deserto, no mar,
Um nome, sorriso, passos,
canto, encanto,
num canto.
Ou ninguém, no jamais,
um chamado no pesadelo,
a palavra que não foi
dita e que o destino,
ora, de que adianta, agora,
jamais.
De que adianta, o abraço
forçado, o silêncio,
o riso, a palavra, a
mudez, o alguém, o ninguém,
a orfandade, ausência,
o piano com as teclas
só pretas.
Ou só brancas.
Chove
Para acalentar, acalanto,
meu próprio sono,
chovo,
faço chover, na seca
noite.
Como se lá fora, raios,
trovões, água caindo, fossem
violinos, tambores, tangos, a
imensa orquestra que toca
a canção para mim,
ninar.
E, ao balanço da húmida
onda, no travesseiro,
agarrado, amparado, barquinho
no imenso oceano,
o sono e o sonho,
as nuvens da fantasía,
chove a tempestade que,
no contraste,
o calor das cobertas,
a cortina leve, diáfana,
que faz dormir, esquecer,
lembrar, que
entre as pálpebras,
chove.
Antes que chova.
Texto dourado
entre árvores,
ramos cinzentos,
folhagem amarela.
No céu, Deus se assenta ao lado dela.
Quando, quando
naquela sala
o dia se encurtou.
O vulto
saía como destaque
na penumbra-
“Um mundo se acabou!”
Os olhos do Infinito
disparavam o Espanto.
Um côro entoava o
Kadish* para sempre -
O Eterno é nosso Deus.
No chão, o cadáver da
minha mãe.
Um sorriso disfarçava
a dentadura que afivelou
suas ilusões, os romanticos
sonhos da moça de lábios
carmezins que um dia foi
Miss do Círculo Israelita.
Um filme de cinema
mudo em câmara lenta.
Eu era capaz de visitar
cada nervo da memória e
da atenção e informa-la
acabou.
Nunca mais eu sería seu
imperador.
Uma noite, meu filho perguntou -
Porque são tristes seus olhos?
Minha mãe morreu cega.
* Oração dos enlutados na religião judaica.
2. A Clave da Morte
(Editora Maltese, 1992)
De Propósito
Acredita-se que o mal-estar,
a cultura, se origina na informação
de que o homem é o único animal
que sabe da morte inevitável.
Engano.
O homem é o único animal que sabe
da eternidade e o mal-estar se produz
na incerteza, o estreito vagido entre o
ir e vir.
Morte
E se o arqueiro disparasse a flecha ao mar,
as ondas obedientes (seu ritmo sempiterno) e revoltas
(o incessante desassossego) conduziriam a flecha
(aparentemente inerte) para sempre, pois que (para
sempre) a flecha faria o seu papel (a flecha).
Imaginaria (sem horizonte) que a flecha, sem ele,
perderia a sua vida. Não. A flecha não mais seria
do arqueiro nem do arco dependeria. Mas, no mundo
do mar, seria, como nunca (antes), a flecha livre.
Após
Em grego, phaós (luz), phaiós (sombrio, luto);
portanto, as palavras, no significado e na vizinhança,
convidando à vizinhança e ao significado.
Estória
É uma longa viagem. Animal bípede, vivente no solo da
família dos primatas. Aprendera a falar e fabricar
utensílios reconhecíveis. No fim da primeira etapa,
aprendeu a usar o fogo, surgiu solitário, na sua classe
de animais. Era biologia.
Na segunda etapa, aprendeu a cozinhar alimentos e
fazer roupas quentes. Criou o arco e a flecha e
domesticou o cão para a caçada.
Melhorou sua habilidade.
Na terceira etapa, cultivou plantas, celebrou a cerâmica,
fez carroças, fundição do cobre, escreveu, carvão,
máquinas a vapor, comércio, imprensa, dinheiro, canhão.
Desgastou o planeta e a natureza sofreu.
Uma história de mais de um milhão de anos.
Aonde conduzirá esta aventura que começou com os
longínquos antepassados?
Saberemos combinar os dons e advinhar?
Ou, como macacos nas árvores, nossa visão será a de meros
sobreviventes, os que não puderam dar o salto que
liberta da angústia e do medo?
Enfim, relativizar a morte.
É uma longa viagem, que apenas começou.
Insólito
O A/caso e O/caso
Arc(h)anjo na hora do luto e de
despedida.
O c(h)oro que reza
e predica.
A glória da luz interrompida
que apaga, acende.
Separação
A culpa vem com o medo. O morto se vingará dos
nossos naturais sentimentos de hostilidade ou
rejeição.
Morreu por nossa culpa - algum sentimento recôndito?
A expiação depende da assunção. Somos culpados
e inocentes.
O outro é eu. Quando sobrevivo, o abandono.
Abandono necessário para que o outro, finalmente,
possa se distinguir / extinguir.
A morte enquanto distinção.
Segredo
O Golem, ungido pela santidade,
no final da linha mágico-mística,
o homem que, no robô, reverte a
maldição pós-Éden.
Sagrado
Um dia, voltaremos ao Éden.
E saberemos que a sedução foi a mentira da Morte.
Portanto, não fomos expulsos. E a Morte e a
Vida foram os pesadelos da Serpente.
Viés
Skópos (vigilante e mensageiro), que espia, pode acabar
em skía (sombra da fumaça dos mortos), e, mais uma vez,
o grego estimula a percepção e o imperceptível
se roçando.
Sempre
Atrás e futuro.
Doce ilusão das coisas passageiras.
O real fugindo e a briga repousa.
Dos astros, se ergue alto um
dom que o Fado cria, nem
Sorte, nem Azar.
Nada foi dado e,
por isso,
nada pode ser roubado.
Cremos - a mera espuma,
na praia, a dita - que,
entre o sol e a lua, há o
louco gêmeo da desdita.
Enquanto
A mariposa sabe ¾ luz e reluz ¾ que,
embora morta, vive nas chamas e
no Encanto.
Encontro
O morto é a invenção do vivo para
o inimaginável.
Partida
Nela se chega por caminhos ínvios, curvas estreitas,
um gato branco rajado em branco ou preto de manchas
brancas ou branco de manchas pretas.
O Duplo
O morto sepultado segundo o rito se transforma, conforme os
gregos, em eídolon (imagem); mas aquele que morre distante da
pátria ou cujo corpo desaparece é representado pelo “Kolossés”,
um duplo. Transforma a alma errante e anônima em eídolon que
chega até ser visível para os vivos.
Saudação
A morte ¾ o horror ¾ associação manipulada pela
vontade de poder.
O instinto de sobrevivência não explica os mecanismos
de pânico diante do desconhecido.
A proibição, o controle e o limite, artificialmente impostos,
forjaram sempre a cultura do luto, irmão siamês do sado-
masoquismo que inspira a sujeição e a imaturidade perenes.
A trans-visão do adivinho e do poeta, do cientista-investigador
e do aventureiro, abre a fresta do além.
E o terror é substituído pela aceitação das in/possibilidades.
No horizonte, as barcas se cruzam - a que vai, a que vem.
Saudações se celebram.
Timidez
A morte passa a ser privada, em segredo, em silêncio.
O velório, o luto na indumentária, o próprio choro
se restringe.
O morto é tratado como um desertor e a morte como
um fracasso.
Quando morre uma personalidade, a bandeira é hasteada
a meio-pau.
Mas em Dacar se decreta luto por cinco dias.
Aleluia
A celebração da morte toca o ritual da vida.
Bandeiras tremulam, as cortinas descem,
o show terminou.
O espetáculo e o artista se despedem,
em golfadas de ladrões, e as madrugadas anunciam:
o amanhã Revival.
A morte do vento
Ex/tenso, in/tenso, o vento percorre até a sangria
e a exaustão o seu destino.
E, findo, volta.
Em uma arte de expiação, paralisa o ar que,
exangue, res/pira pro/fundo
Morto-vivo continuará vent’ água.
Lobo
Entardecer, aurora,
a noite, o amanhã,
vespertino, a madrugada,
o matutino, o dia,
a meia-noite,
o meio dia, girando
os ponteiros do relógio,
ontem, o porvir,
hoje, outrora.
Cem velas para Diana/Ártemis
Os hinos desceram a imagem
e as estátuas irradiam a luz
do sol.
A lua, plácida, se inquieta.
Começa a viagem,
Diana, viajante.
Nos mares, os peixes se intrigam.
Quem é a
estranha passageira?
Águia
E as aves, sabedoria,
proclamam as
novi/antigüi/dades.
Céu
Em que dimensão habita o morto
quando, no sonho, vive autônomo
(independente do sonhador), embora
acordado, o sonhador, esquecido e
pretensioso, se imagina
regente do seu sonho?
Purgatório
Drama (li)turgia
Eu sou um homem da fronteira. Eu sou
a fronteira.
Entre o depois e o antes, uma sombra.
Uma sombra no espelho.
Um espelho n’ água, o tempo, que
desvenda todo o mistério.
Pega - Pega
Quando a criança, em seus folguedos,
brinca de esconde-esconde, se excita na procura
e se alegra no encontro que é, contudo,
um anti-clímax.
A morte é o “esconde-esconde” que Deus trava
com os homens no fugaz e na eternidade.
Horizonte
Para onde se encaminham as almas enxutas,
as sombras parciais e as nuvens
depois da chuva?
Infinito
O Tempo não passa. O Espaço espaça.
Não morreu. Extempou.
A virgindade da palavra e das verdades.
Finito
Base da filosofia dos índios maias, in lackech foi
traduzido para o espanhol como seu principal
conceito de transcendência, transpessoalidade:
“Tu eres mi otro yo; si te amo y respeto,
me amo y me respeto; si te hago daño a ti,
me hago daño a mi.”
Isto não impedia que os índios maias praticassem
sacrifícios humanos em festividades religiosas,
abrindo o peito das vítimas
no altar e oferecendo o sangue
a seus deuses.
A Trama
Os espaços arredondados, na marginal,
em contra-mão.
Feroz presença na curva silenciosa.
Raios e parábolas enamorando
o esperma que dispara.
O nascimento unitário, primeiro passo arcaico
da provação que se dis/solve.
Dança
Para os índios sanumá,
a Morte é uma realização do homem,
fruto do homem;
o que também ocorre
entre as azande do Sudão africano.
Doença e Morte ligadas
à intenção do homem.
Para os sanumá,
efeito das plantas alawali ou
espíritos saí de.
A proteção dos hekula (espíritos)
vem pelas drogas sakone e palalo
entre cânticos e compassos.
A/gora, o A/deus
Sua imagem refletida em fotos,
filmes, lembranças e retinas.
Agouros em despedidas, pétalas de/floradas,
oh sentimentos amargos.
Sorrisos embaraçados
embaraços e soluços,
convivências interrompidas.
Im/portância, intim(a)idade, in/capaz.
A estética pupila que encerra reflexos e floretas
retrata e reflete sonhos eslavos ou prosaicos.
Para onde se destina a possibilidade
não executada?
Em que escaninho se esconde
entre o “quem sabe”
e o “podia”?
A sombra
Eterniza o movimento e a paralisia.
O acompanhamento indelével recria
a estranha companhia que,
no jogo de luz e sombra,
extrapola.
O Rei de Copas e a Dama das Camélias,
de braços dados num movimento roxo.
O superlativo nas esquinas em que a
sombra cresce.
A figura desaparece.
Ilse Koch (apelido: cadela de Buchenwald),
fazia abat-jours com a pele de crianças
judias que assassinava.
No começo dos anos 30 do século XX, o acompanhante
paraguaio de um viajante europeu viu, entre as árvores,
uma mulher axé (indígena) e a matou a tiros. O europeu
castigou o paraguaio. Este, sem entender o castigo,
tentou reconciliar-se com o patrão dando-lhe uma bolsa
que confeccionou com a pele dos seios da mulher axé.
Mortalha,
passaporte de ida-e-volta,
fotogramas que desfilam
na rota da pupila.
Eu
Um dia, o baobá era uma pequena semente.
O cadáver, feito mineral, fertiliza a terra.
A história de um morto e um pedido
de casamento são palavras.
O som abstrato, um dia, será esperma.
Em uma noite, outra vida começa.
E, dentro do músculo cardíaco,
um coração dita
uma nova/antiga mental/idade.
O reflexo
A imagem duplicada, em um ciclone,
a outra dimensão.
Esta ampliação, expiação, espia.
A imagem que, o original (qual?) observa, ob/serva.
A ógea e a calhandra
A ave rapineira paralisa
a calhandra pelo medo.
Talvez a paralisia, além do medo,
esconda uma soberba indiferença,
sentimento interdito
de vertigem comprimida.
Adeus
Se o inferno não existe
e o céu é uma galáxia física,
talvez o inferno e o céu
projetem a internalização
da eternidade.
Para Deus
A miragem especular,
fênix, sombra em um labirinto.
O som, que no eco se dissolve e se repete,
infinito.
Renasce das chamas a miragem no deserto.
Habita na retina do sedento.
Oh! Deus!
O ontem, amanhã / amanhã
No exílio, o viajante rompe o segredo.
Na terra da proibição,
o estranho se aloja e inaugura
o espaço possível no tempo in/possível.
A paz.
Escrita
Quando uma luz se acende,
a morte se inclina.
E, outra vez,
a sombra das mãos
faz a caligrafia do sentido.
Fumaça
A sombra da sombra que,
na imagem se reflete,
se in/terroga
e des/aparece.
Nome
Com a imaginação e algumas revelações,
pode o vivente perceber o sublime infinito,
livre do corpo,
convenções ou medo,
e nunca mais apelidá-lo de morte.
Renome
Nem o medo nem a esperança acompanham
Um animal moribundo:
O homem aguarda o fim,
temendo e esperando tudo;
Muitas vezes morreu,
Muitas vezes se levantou de novo.
Um grande homem em seu orgulho,
Enfrentando homens sanguinários,
Escarnece da
Suspensão da respiração;
Conhece a morte a fundo -
O homem criou a morte.
Alusão
Em foices, os punhais da noite longa
alongam a longa despedida,
Vésperas,
do curto dia em que,
saturnais,
se enxergam matizes
trans-coloridos do tambor solar,
repicando, em bumbo d’alumínio,
o sono do menino que toca,
iluminado, meu sonho de papel,
a flauta, o flautim e a corneta,
embevecido no riso de cristal
algodoado, o saco de
algodão doce
que, entre cinzas e fogos, a/s/cende, apaga, in/cêndio.
Ilusão
O anúncio do nascimento
de uma criança ou da morte
de uma pessoa
sempre é acompanhado de certa
solenidade
A solene ressonância da eternidade.
Sim
A vida se inventa mascarada.
Um aqui, rico arranjado, sorriso de glória,
de um jato desembarcado.
Ali, uma cobaia, estirada em padiola.
Ainda aqui, um menino travesso atrás de uma risada.
Acolá um vigarista depondo no xadrez.
Porém, enfim, e, no fim, a cena muda se emudece
e as pálpebras cerradas encerram o cativo espetáculo.
Só então se adivinha que, por detrás da mascarada,
a nudez vestia o manto branco e preto
do canto e desencanto.
Em resposta,
Deus alude...
3. Segunda Madrugada
(Edição Cultura)
Bom e eis que êle não morreu
num quarto de hotel
Não morre a garganta e os trilhos de trem
arrancados
E o arrebol de uma noite de triste solidào
Os cadáveres da onda que estão crescendo
Atenção, estão crescendo,
estão crescendo.
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A Montanha que me viu nascer
O Grito do quarto cavaleiro velho é o medo.
O Acusado que num dia, perdeu a verdade da vida.
Nós somos homens do rio, deste mundo
louco e condenado.
Sôbre outras coisas
a aventura para ganha-lo,
O sol que espalha a rêde e a coragem cotidiana.
Nestes velhos retalhos de dez dias do ano.
E as visitas noturnas do fantasma.
Fala o Silêncio
Estão mudos os muros do mundo
Talhe na madeira,
os cristais de pedra,
Se for embora para não voltar,
e risque um voto de despedida.
Num mundo mudo.
Estão mudos os muros do mundo.
Brancas as dores e virgens as noites.
Limpas o Chôro das Almas
Tua visão ao largo da janela,
as gotas da chuva disparando
rosto -
Acredito que limpes o choro das almas,
A ordem das belas damas,
Eu não espero que o sonho demora.
Dá-se Leite para os Cavalos
Dê-me tempo!
E não salve minha alma tão depressa.
Não tão depressa.
Como vai sua filha?
Notas baixas na Escola.
E os negócios?
8% as acões da Dymamit; 15% da Oriental; 6,2% da Universe.
O viajante já morreu,
sem plantar ameixas verdes no quintal
E não passarei a vida cobrando dívidas.
Como vai sua filha?
Notas baixas na Escola.
E as mulheres?
Decotes nas cintas, nas costas, nos seios,
saias no joelho, pernas bem feitas,
açúcar, chá e simpatia.
E sua mãe?
Cresceu uma cerca no jardim do asilo.
E seu pai?
Não salve minha alma tão depressa.
Não tão depressa.
Dos muros caiados de branco,
De choro por Deus e por dor.
Nas histórias remotas, de cinema,
ou pelas minas atrás da montanha.
Das agonias últimas de não saber,
Na mesma hora de muito querer.
Anjo Levi Vem Me Salvar
Anjo ou Demônio,
Adeus solidão,
Num rítmo de loucura,
Os abismos e saltos do teu eu.
Essa batida de carros e de mãos.
Quem há de surgir atrás dos ombros do sol?
As trevas irá cavalgar.
Tendo que ao crepúsculo reinan os olhos das
frontes e os reis dos ladrões.
A Água que Parou o Esgoto
A chuva caía no asfalto, dos barulhos
embutidos.
Das cortinas que se fecham, do início da
loucura.
Eah, eah, eah, ahh.
Que esta não é a minha terra,
meu chão,
meu solo,
meu Deus,
meu lar.
Venho de cores sadías,
de risos abertos,
de peitos erguidos.
E esta é a cava sepultura,
de risos daninhos,
circunspectos,
volúveis,
amáveis.
Favores e desfavores,
guilandas e contratos morais, verbais, racionais, sexuais,
orais, escritos, jurados, juramentos,
todos,
pela metade.
O Trânsito Naquela Ponte
Jamais atravessei a ponte de Varginha
Nunca serei capaz de te contar os mistérios além da ponte.
Nas noites escuras de várzea adormecidas, nem de bruscas
rouquidões.
Quando escurece o dia, sei que me traí por nunca
atravessar a ponte de Varginha.
Seus andaimes e seus remendos são frutos de minha dor.
Quando nasce a aurora, um telegrama anuncía que
quebrou-se a ponte de Varginha.
Uma Viagem e Um Bilhete
Deus chegou num jato da Varig e desceu em Recife.
Apressadamente. Com sua capa de chuva controlou a
recepção que haviam lhe preparado e dirigiu-se até a
Planície.
Chegando ao menino contou-lhe os ossos e uma história
vermelha de pardais.
Que numa sombría noite de dores as coisas e o passado
traído caminharam contra ele e aniquilaram-no, no
meio da reconciliação.
E que no dia seguinte ele havia nascido.
Conversa de Dois Mortos
Deteve dois mortos que conversavam e pergunto-lhes o
passado.
Estavam prestes a caminhar. Eram a convergência de
suas culpas dilaceradas.
Ficaram os três imersos numa vela que se extinguia, aos
poucos.
Em derredor, as sombras e um silêncio enorme cresciam,
a cada instante.
Ato de Contrição
Ouviu a chegada de cada esfaqueado, traído, machucado.
De cada gente de sua vida pequenina.
Os passos atormentavam-no e faziam que êle chegasse
à beira da loucura.
Era como se cada centímetro comprimido de espaço
gritasse sua culpa e sua dor.
Pois tinha mil anos e sons satânicos.
Onde, nesta dimensão, a pureza e a alegria eram os
instantes maiores de crueldade.
Alí viu, estarrecido, esvair-se o sangue de uma criança
abandonada.
Ao longo da água que escorre pelas calçadas e leva no
seu tumulto barquinhos de papel sonhos e esperanças.
A Aurora Roxa
A aurora é roxa, de olhos amortecidos,
esmagados pelo
desastre do calor noturno.
Quem incendeia os andaimes,
e transforma em cinzas prateadas
o jôgo de côres da lua
que se rendeu
O fim da noite e a madrugada rebelde, que
esfria os calores tépidos, em ballet de
loucura.
Nomes que desfilam, no cotejo de
horrores - Pedro, Paulo,
Carla e Godofredo,
avenidas, luzes, ônibus, gente,
vozes -
Amo, amas, não amo, não amas.
Pecado, fome.
Num Dia Reavido
Mãe, meu pai, meus amores,
meus sonhos de fervura,
esperanças e côres do mundo,
dias neblinados e dias de cinzento.
As horas perdidas em rito devaneio
e num pecado inocente.
Tudo enquanto não vem a dor da
descoberta.
Num dia reavido nos olhos de meu filho,
nos seus dedos que tracejam,
no ar,
seus desenhos de fantasia.
Imagem de Circo
O pé descalço do moleque distraído,
mergulha na poeira da matemática.
Que faz este lápis na minha mão, papel,
carteiras e professores.
Um filme numa tarde de mocinhos
e bandidos de pesadelo povoam estas lembranças.
As ruas infinitas das mulheres desejadas,
de imensos quadrís balançantes,
sucata de um futuro chatíssimo.
Para a vigésima participação
Uma imagem em negativo e o rosto com ternura,
quilômetros de praia e um óculos ray-ban quebrado
(aliás presentado a um banhista, se não me engano?).
Os compassos rítmicos dos cinemas de Copacabana, e
o automóvel perdido na caminhada noturna.
A final hora da partida no desaguadouro do quem
me quer,
quarenta graus de febre intermitente,
E o sobe e desce na cama deslocada, onde rios e
avenidas de mergulho desenham suas infinitas
compulsões que chegam até seu nome, olhos, bocas,
costas, pernas, nariz, cobelos (ah, os cabelos),
pés, palavras,
Uma oração com prece tão ardente numa igreja caipira,
e na maior catedral, ao santo vazio de dentro de cada
um, de cera, chorosinho,
por mãos espalmadas, e gente e alma dividida.
Cinza de origem e destino
Sou daqui- um traço no verso do papel-
e de Connecticut,
Paraíba do Sul, Cabo ou o ocaso de um brilhante
jamais.
Minha pátria é o dia do desespero e o arranco do
sempre quis.
Um sinal de partir e uma verde vertente
boquiaberta.
Os braços finos de uma criança pobre e
a muda dor da esperança finda.
De onde se espalha a luz e no túnel do carvão enriquecido.
Quando morrer
Quando morrer que será feito
dos ternos,
sonhos,
apetrechos,
roupas,
sapatos,
títulos.
Não das angústias de verão.
Que será feito das palavras gastas e
repetidas do turbilhão de sustos
e das máquinas que usei.
Das gentes aparecidas e desaparecidas.
Não das loucuras e vitrais do mal-querer.
O que me diz respeito
Um braço na tipóia,
caminho perdido nas estreitas frontes de óculos partidos,
um som atropelado,
o espirro de um adeus.
As belas frases, as músicas sombrias,
o enterro que passa.
A violência e o pecado desabrido,
torturado, como te conheço,
na volúpia de comunhão.
Os tontos passos infinitos que
desenha o solitário na movimentada calçada de
Copacabana.
Copacabana e a palavra mágica e mentirosa,
de noites mal dormidas,
de sonhos, drogas e pesadelos.
O copo d’água que mata a sêde,
e a coca-cola que
distrai o tédio.
As crianças e todas as crianças do mundo,
e uma certa criança que vive nos
olhos de todos os cartazes, de todos os muros,
nas telas dos cinemas,
no vídeo e no anúncio dos rádios.
E o pneu que derrapa na louca correria,
de si mesmo, numa fuga
desgraçada.
As varizes da velha encarquilhada,
me dizem, respeito,
os suores e um tumor antigo,
o triunfo e o resto da vertigem.
O quarto azul
Sou humilde e iletrado que me acabo nas
noites de servidão, rei e funcionário que
triunfo nos teus pensamentos.
Sou brioso e sem-vergonha,
tenho orgulho e sei rastejar.
Rastejo e me ufano em saltos de fantasia.
Quem sou, se sou Deus e o Diabo, numa pobre orfandade
que é jovem e apodrecida.
Se guio o teu olhar, a arrebento em estertores.
Se derramo tua lágrima esgoto meu dissabor.
Penetro no teu peito, nos teus olhos e
rimo a tua dor.
Que me acalenta e me diverte, tortura e faz chorar.
Estou andando e estou parado,
para a direita e para o alto- de dia e no anoitecer.
Rei ferido e
soldado desmaiado.
As trevas não chegam enquanto a cortina
de luz não fica no lugar.
4. Judaísmos (Ético e não-étnico).
(Capital/Sefarad Editorial - S.P. 1997)
Solilóquio do Faraó
A sedução deste mago ingrato,
carrega o povo maldito para o Deserto.
Abandona a segurança, a certeza e a
tranquilidade, atrás dum Deus da
Imaginação, sem imagens e sem figura,
Que estranho.
Povo maldito, que substitui o trabalho
e a disciplina por uma louca anarquia
que chamam liberdade, insubmissos e
polêmicos.
Povo maldito, errante pelo deserto,
atrás de ilusões e palavras.
Amantes do ritual e do teatro,
iconoclastas, sem reis e sem hierarquia.
Renegam todos os deuses e
adoram o Sonho.
Povo maldito que há de padecer,
na dúvida e na busca.
Moíses (I)
Lua de sóis, albaforte irradiante
sal dos pratos ofertados,
anel dos cometas,
Príncipe da eternidade,
Marinheiro do berço encalhado.
As areias ao vento,
erguem lábios que sussurram,
a estória prateada,
de rito e aluvião.
A paixão da travessia,
as noites sem servidão,
o escravo que se liberta.
Babel Poeti
Non siamo pesci
Sânscrito
Dastur parse
Pahlavi
Malcha Shali
i , etc - that is e
and so on
vades, moedes, shwestes, weduwe
hundert
Neifei, ningit, nivit, szezaiti, sznega
nepis
Par
dia
hayr - n
Ecbatana
Os prácritos
Ninda
i..
tosco
Shomer
Kiraene
* Italiano.
* Língua bem articulada.
* Sacerdote persa.
* Dialeto persa.
* Rei - grafia semita e leitura, pahlavi
* O mesmo fenômeno, do verso anterior - abreviatura
latina e leitura inglesa.
* Pai, mãe, irmã, viúva - em holândes.
* Cem, em alemão.
* Neva. Em grego, latim.
* Nuvem, em hitita.
* Igual, em etrusco.
* Deus, em celta.
* Sem pai, em armênio.
* Atual Amman, criada em 700 a.C.
* Dialetos.
* Pão, ideograma sumério.
* No tocário (Turquestão chinês).
* Herdeiro do antigo trácio ou do ilírico.
* Rainha, em húngaro.
* Guarda, em hebraico
Indivizível
No bem no mal,
tapetes do absurdo,
na Dispersão,
totem e tabu,
as pespectivas filogenéticas,
estátua no ar,
castelos de barroco,
O Nome.
Avenidas de obras,
pensamento e estatura,
o avanço e o recuo,
o eco do
Nome.
Vamos assim, e
na hipótese de chuva,
voltamos e, em cada
alternativa,
a pedra lascada,
gravado o Nome.
Aonde, jamais visto ou
imaginado, um realce, relance,
acréscimo, no skate da
caricatura,
interrrogação atéia, sumo,
rituais, de riqueur,
o interior sentimento,
diáspora, Galuth,
O Apelido.
_____________________________
Adão e Eva,
na comédia do paraíso perdido,
Alegoria da Queda.
Mito e mimese,
em que insensatez a Sorte reina?
Que o
Anjo da Memória
permita lembrar.
Que o
Anjo do Esquecimento
permita esquecer.
E que o
Anjo da Distração
Divirta o saber.
E No Campo Passeava
O rio que do Éden brotava,
Fison, Giom, Eufrates.
E no Jardim, Adão se indagava e
da sua boca surgiu o desejo que
Eva alimentou.
Culpada e triunfante, a serpente
exultava, dona pérfida em
destino atroz.
E das estrelas e das águas,
a serpente condenada, demonio,
a humilhação eterna, vagueia no rosto da ambiguidade.
Exaltação a Esther
E mataram Paisandatá, Dalfão, Aspatá, Poratá,
Adaliá, Anidatá, Parmastá, Arisai, Aridai e
Vaisaté.
Nem a pieguice, nem a hipocrisia, mas
o perfume discreto dos frutos mais pesados.
Éden
A fumaça revela a paisagem escondida,
a velocidade da infância povoada.
Um fac-símile alimenta o solo barrento
enquanto o avião sobrevoa a planície
de ódio.
Rios e campinas brigam no horizonte.
Da tele artesanal, souvenirs desacostumam
a consciência, porque a
mente no Paraíso,
voa cego/nhas e aero-sonhos.
E Enquanto, Kohelet (*)
No desconsolo e sono, a alma habita a demência.
Pés juntos e separados, marinheiros de rios curvos.
O limbo e o sujo na poeira noturna, a pista do pastor.
As perguntas que se inventam:
os olhos, no espelho, é hoje?
A celeste garupa alegra o cavaleiro?
O que vale a descoberta sem a invenção?
A paixão tem olhos ou brio a alma apaixonada?
Que som produz a queda do corpo?
Os rostos dos velhos pisam em chãos de flor?
Bamboleiam, hesitando, ou são nuvens de pastel?
Num riacho, os guizos convergem a enxurrada, o
comentário, a vergonha, a contradição, o sorriso entre-
visto, a infinita vaidade, milhares de indulgencias que
no prefácio soam inúteis.
Descalça a alma habita o paraíso,
Sem risco e padecer.
Enamorada, descobre, no rútilo vão, a Eternidade
(*) Em hebraico “pregador”. Refere-se à Salomão, filho de David
Cantos Davídicos
Amante das flechas prodigiosas,
Agiliza a pureza de sua alma,
no vir-a-ser,
atribui sentidos ao tremor e
pede a voz.
Habitante dos Mistérios,
esvoaça em êxtase e arrasta
o consolo e o amparo.
Kadish Para Fênix
E, o prisoneiro se interroga,
o algoz se culpa,
a fé desacredita,
acredita a crença na
eterna reconciliação.
________________________________
O Flamingo, ainda
no deserto, se alimenta
do “manah”.
___________________________________
De olhos fechados,
visito os sonhos de Jacob,
Com José e Benjamin,
enquanto, ao longe, Raquel
descansa.
A Outra Face de Caim
E depois Caim foi ao espelho
e, ao olhar-se viu a imagem
de Abel.
Percebeu que este seria o
castigo.
Riu-se e pensou: “Seria se eu
não fosse Caim”.
Rindo, quebrou o espelho.
Irmão
Quem me rouba,
cavaleiro alado,
o caderno e tenta
impedir a descrição
de paisagem.
Na Alameda Franca,
entre carros e ramos
verdes d’árvore,
um loiro anjo,
Kipá azul,
corre para o
ônibus da escola.
Meu Golem
As cinzas de Fênix,
as mãos de Maharal,
na sombra de hoje,
e Norbert Wineer, nos
projetos de cibernética,
o “robot”, a
palavra inventada. em Praga.
Intercessão dos não-mundos,
espelho oblíquo da eternidade.
As Pirâmides
Cegas e surdas,
imaginam as Escrituras,
mas nas suas grutas,
a luz se hipnotiza,
um aroma selvagem faz
a cadência da serpente.
Um anagrama vermelho
grita em azul
as pedras e os hieróglifos.
Sem alma,
a rosa recorta contra
o preto céu.
Eu vi que
Deus, ele mesmo, debruçado,
chorava, (não vi seus olhos), o passarinho
sangrando. (não vi o sangue).
Poema Para o Judeu Errante
Veio do outro lado do rio,
na difusa figura de Espinoza,
a saga de Suss,
A flama de Marx.
Saiu nos lapsos de Freud,
antes de mudar seu nome,
e pensou o mundo relativo nas
dimensões einstenianas.
Apaixonado dibuk ou golem,
Schlemiel ou Klienteltschik,
fertilizando com seu passo generoso
o cruento mundo pagão.
Meus Pais
Ao Modelo Icônico Dum Kadish (*)
Ela, Fanny, filha de Ana e Aron,
poeta ao luar, nas preces dum
gefilte fish (1)
Em versos de sabor.
A “idishe mamme” (2) que sonha e
Escreve um delírio mineiro-Ostrowiec. (3)
Ele, Luiz, filho de Chana e Alberto,
ao guidon da bicicleta,
o imperador dos sonhos do menino,
herói de dois mundos,
profeta e visionário, num balanço mineiro,
de mormaço e nostalgia.
Um Chaplin ensolarado para numerosa
freguesia.
Ao chegarem de braços dados para as núpcias no Céu,
os querubins declamaram versos e maravilhas querequexê. (4)
(*) Prece judaica dos enlutados.
(1) Prato de culinária ídiche.
(2) Mãe judia radicalmente bondosa. Título de belíssima
canção do folclore ídiche.
(3) Cidade natal de meus pais - Polônia.
(4) Segundo Ascenso Ferreira, bambus enfeitados,
compridos e roucos produzem sons roucos de querequexê
(“Catimbó
e outros poemas”).
Em Viés
Laibale, “seu Luizinho”
O poema poderia
terminar no início,
mas quem se lembraria do
guaraná na Cervejaria
José Weiss, e o selim
Da bicicleta e o ceno
do lenço branco na
estação ferroviária, e
principalmente, as
palavras - que de tão
pungentes e gratas,
eu não disse quando
deveria?
E meu pai recomendava:
Não deixe esquecerem sua mãe.
Despedida, Para Meu Pai, Luiz Goldberg
A última volta
O beijo ficou dependurado (para sempre), no ar.
Seu corpo balançou, caniço.
Fui-me emb/ora.
De longe olhei e vi o hassid, o samurai, o prestamista.
Adinhei o seu passo, até o Espaço.
Nunca mais haveria lenço balançando nas suas mãos, na
gare da Estação da estrada de Ferro, nem adeus (ah! Deus).
Só partida.
Só/L/uís.
Senhor (Senhora)
Esperança dos naufragados,
Memória das sensações,
Meu Rei, Minha Rainha,
minha razão.
5. Monólogo Do Medo
(Edição Cultural)
Pombagira
Essa estranha mediunidade
que vem dos ventos,
árvores,
morros
da minha infância.
Meu pai,
de bicicleta,
subindo,
um estrangeiro em terra estranha
e cavalos de alegria
de juventude
de fazer tudo seu mundo
sua gente
sua cerveja.
Uns pegadores de calça de ciclista,
pretos
os cartões de cobrador
numa cidade mineira do interior,
o sol batendo
as ruas descalças
de pedra e sal o vento
que desce na noite escura
de sol posto
e o pic-pic
de minha bola
assustada
centenas de jornais velhos (papel de embrulho)
li devorando fugindo as primeiras fugas
Os toques de mãos
e arrebatamento
de gente hostil e igual
os fundos do meu quintal.
As orelhas abanando
no colégio metodista
puro cristão certinho
hino todo dia
e volto ao forte das fortalezas
onde nunca se saí
prisão
paixão de dias e noites
no grêmio tribuna onde subi
e cratera imensa
as vitórias da rebeldia
uniforme com botões despregados.
Os compassos,
esquadros,
réguas,
cadernos,
lágrimas,
sustos,
surras,
bofetões,
bandido mocinho,
os pedais de bicicletas,
as longas avenidas (tão pequenas na verdade)
as “colas”
o MEDO
as perguntinhas da professora
eu
meu nome judeu
entre Silvas e Monteiros
a cor cinza de terra e malacacheta
do professor de geografia
os quilometros das estradas
os nomes dos rios
e as capitais da América
e as costas da professora
suas longas tranças de cabelos correndo
e a baba incômoda
do professor de francês
o desafio chato para a ginástica
e o jogo de futebol
a alegria encantada
da minha mãe
numa vizinha costureira
e costurando
seus inocentes jogos cinematográficos
minha irmã
de vestidinho
a correr atrás do gibi
na matinée
e da ciranda loira
comportada na
Escola e na ruinha.
Como o pano sai daqui?
Rasguei muitas vezes a folha de papel
Mas o canto que sai, mostra língua,
me convida;
Escreve e fala,
responde e me para, escuta.
O vento já se foi;
Numa chuva que molha os telhados
a água que escorre pelo asfalto
As verdades que buzinam
no menino japonês que
trocaram hoje o gênio.
Quem são estes médicos
Sentem de vida e da morte
sejam si não exame de
laboratório.
Litros e números que sob ter a
Ver com a dor, sono, sonho, medo
Como se medem, como se medem.
As palavras não ditas, o amor interrompido,
As caladas noites de vigília ao lado
de um berço,
Os passos deseperados para um passado.
Um brinde ao cálice vazio,
à procura do tempo perdido,
As vozes que interrompem os telefones.
Uma sombra que passa pelas paredes.
Sou um super-homem?
Ou um leve engano de endereço e cidade?
Um número perdido nos apelo das manchetes
que irradiam das poesias
Mortes, afogamentos, enforcamentos,
acidentes de trânsito, fome, guerra.
E o meu homicídio.
No brinde ao cálice vazio?
Mas cheio de sangue quente querendo presença.
Não Vá Tão Ligeiro
Os cirios de Nazaré
se apagaram e acenderam em Ponta de Céu
as marchas de meu sangue que subiu ao trono do
louco estival
Conta, um conto baixinho,
de 132 vozes, a pressa que está chegando
e subindo como se fosse uma onda que vai afundar os
submarinos
Mas os barquinhos empapelados ficarão na
cinta dos mares, pilotados por demônios
crianças e pescadores descalços
Este canto salgado
das mãos e pés separados e os fatos
dos ratos nos crânios mágicos
Subam as carpas sem reis ou cães negros.
O meu Dia da Manhã
Comer ao som de gordura e fritura
leite, café, ovo e pão
enquanto um espantalho na madrugada povoa
meus sonhos de rugidos e marés
Descer até o subsolo
da garagem onde encontro o monstro
pronto para disparar
e descendo até quase à terra onde não
piso mais, mole e dura, prá ser conquistada
e posuída e limpada com lágrimas e
possantes braços dos arsenais
de armas e desamor que
nela esconderam
Mas nunca com aspiradores de pó da
Steel que há - de crestar no inferno dos
orientes
Depois entre casas e armazéns
lixo e lojas vejo as filas dos bonecos
vestidos de homens andando em direção ao
mostruário de desfazer, sobre máquinas, as
máquinas com óleo, fumaça
afogando os cabelos loiros
as testas largas
os olhos abertos as
visões da esperança
E tudo ao som de palavras que
matam, fenecem e enterram as coisas prá se dizerem
nas nuvens de gazes que se levantam em
tiros de misericórdia nos imensos cemitérios dos cardeais,
guichets.
As buzinas e o Zum da siderúrgica,
tenta abafar o livre canto do
menino que chuta com sua magra perna,
a pedra do caminho
Mas suas pernas sustentam
as águas da vida, do dilúvio
global capaz de
jogar a mesa para o ar
fazer um buraco no céu e nele
cravar um afeto de amor.
O Espelho Das Terras
Seja da Espanha
Num sonho de cristal para respirar
Atravessando as ruas de toda a aldeia
na Abissínia
Um anti-herói de capa esverdeada
e luzes de crayon
Chaminés e água da chuva caindo
quero que seja uma terra molhada de esterco, nuvens e
rouquidão.
Não tem nome porque é suja como o vento da colina que desce
nos parabrisas dos caminhões da
estrada
Em alta velocidade,
o jato e o ferry-boat.
O aventureiro da guerra que carregou toneladas
de arroz para as corporações e os
presidentes
nas suas volúpias danadas de
marcas de caminhão
cachorro-quente, mortadela, pomada,
esparadrapo e
o Vazio das terras, cujos
nomes
não me dizem nada.
absolutamente nada.
Criança
Sei de um vale aberto onde o sol nunca se põe
e de escavadeiras nuas que
montam sonhos azuis
nos olhos das crianças numa terra
onde os bolsos foram pregados
depois do Polo perto das
flechas dos índios
nos caminhos da loucura
onde se escondem os raios e trovões
e lindas mulheres nuas
comem doces, vegetais ouvindo música de Beethoven.
Um Urro De Pavor
Onde estou eu?
Nada mais existe que esta pergunta?
Continuar a ver e olhar em redor como
o homem das mil lutas.
Este rio de água suja que emporcalha as
visões.
As paredes, os quartos, os traques, os
abraços, e a enorme latrina, tudo
a crescer, num lamento da dor, na máscara
inchada da infame.
Um vômito forte derrepente que
rompe o desmaio e leva o horizonte da tonteira
prá lá do horizonte da vida.
Para Vender
Flor de prata,
luzes azuis da madrugada viciosa, más
notícias de natal
coisas, coisas para vender,
trinta e três mortos e muito feridos,
as toalhas estão escritas e as línguas mortas
vão renascer.
Este silencio doloroso grita nos
seios e nervos machucados.
Flor de prata,
luzes azuis que vão nascer
Uma bota preta corre pelo mar e
os olhos tristes ficam enlouquecidos,
na solidão.
6. Psicologia e Reflexões do Inconsciente
(Edição OINA )
Se Você Fosse
Se você fosse... eu seria
Se você fosse a égua eu seria o arreio que roça teu pelo.
Se você fosse o apelido eu seria teu nome e o prenome, o
sobrenome.
Se você fosse bainha eu seria a espada.
Se você fosse o continente desaparecido eu seria o navegante,
o documento cartográfico, a rota do navio.
Se você fosse a estrela eu seria uma onda enraivecida do mar
iluminado.
Se você fosse ... eu seria.
A cabeça do amanhã,
os cartuchos na fechadura,
o olhor aparvalhado, assustado
que procura o sempre.
A resposta às perguntas do jamais.
Os nadas do futuro.
Um peixe eu seria se você fosse um tango argentino num
aquário roxo,
Eu seria a boca,
Você a guitarra.
Você uma cabrocha de olhos quadrados, eu os olhos que
vêem e não pelos teus braços de cigana,
os músculos das sombrancelhas
do meu arrependimento passo.
Anúncio
Precisa-se
Um alquimista
Um sirva-se à vontade,
Açúcar a granel.
Chaves do céu na gengiva vermelha da mulata desdentada.
Precisa-se finalmente,
de um aeroplano anfíbio dotado de três realejos - som, cor e
arrependimento.
E por se precisar de coisas tão banais se pede que sejam entre-
gues ao vizinho, em qualquer horário, menos de dia ou de
noite.
Precisa-se um homem
que toque bumbo, mulher
roleta e um astro de futebol.
todos na encarnação de uma criança chorona.
O Gato Na Madrugada
Quando um gato, pulando de um telhado,
cai numa tampa de cesta de lixo,
numa rua silenciosa,
na madrugada fechada, seu
miado apavorado (a tampa mal colocada não suportou o peso
do gato),
é a música da noite sofrida.
Língua estranha na rua apavorada
das solidões das tampas de
cesta-de-lixo (mal-colocadas),
solidões dos mitórios envidraçados,
nos bares desavergonhados, os velhos nos apartamentos
de passados,
os olhos das crianças (assustadas por causa das tampas
mal-colocadas, nas cestas de lixo), seu
salto, seu miado.
Tem Oitavas Em Pradarias
Nos jardins e montanhas
dos sonhos de minha infância
Deus vestia um babalao
azul.
Preto, amarelo, bronze, carmim,
olhe por baixo das simpatias,
por cima das antipatias,
um homem e uma mulher, nadando nas
águas do mar, da piscina, do rio,
numa queda d’água, mergulhando na sauna.
Aonde está o segredo, meu senhor?
Peça licença pra passar,
quando eu fizer 69 anos,
vou falar com você nos códigos do amor e da
ternura.
Queria tirar o teu medo dos meus sonhos,
e pairar por cima, de mãos dadas,
o mundo é pequeno demais,
o mundo é grande demais,
para tantas luas quietas, paradas,
os povos que nunca veem.
o espírito do som,
as gramas que estão verdes, cinzas,
das patas dos cavalos que correm,
devagar, palpitando, a trote, galope.
para anunciar.
Eu morreu!
E o enterro está sendo coberto por
música de negros, bailado de brancos
coros de anjos amalucados,
patas desgarradas, anjos salvadores,
centenas, milhares de ais,
Por baixo, por baixo,
coelhos, asas de águias,
asas soltas, no espaço azul,
asas soltas, no espaço infinito de trombones,
tambores retinindo,
orquestras martelando,
um hino de avatar,
sinos tocam festim,
sinos de aleluia,
aleluia, o tempo está chegando, o tempo está
terminando, o passaporte do tempo expirou,
expirou o tempo do passaporte,
meu tempo singular, o plural dos meus dias,
Eu preciso voar, numa xícara de chá,
de gramíneas amarelas,
dúvidas enternecidas,
Lições Práticas Para Ouvir Rádio
Em certas aldeias peruanas, os camponeses pobres costumam polir e pintar pedaços
de pedra imitando a aparência de radinhos de pilha. Sem dinheiro para comprar os
radinhos carregam as pedras consigo como sinal de status...
Os homens tem luzes nos dedos e
o seu tempo é uma alvorada,
nosso sangue é o mesmo,
branco como o trigo que alguns não tem,
salgado como a estrada,
vivo como o amanhã.
Às vezes quando o sinal de trânsito fecha,
eu vejo o desfile que não ouço no rádio,
e se percebe que o preço a pagar pelo saber de viver é
muito elevado.
Complacência.
tolerância,
compreensão,
bebidas gazeificadas e um regime alimentício intenso.
Com isto não se faz poesia,
nem com divisas escassas, frutas e hortaliças,
talvez um tratado nutricionista.
As aldeias e tribos do mundo me mandam recados, pelas
ondas práticas do rádio.
Como escrever a sua história,
se seus filhos e suas mulheres morreram, sem ajuda, mendi-
gando raízes e cacau?
Desligar o rádio, talvez,
a lição prática para ouvir o rádio,
diretamente, da consciência do bebê cuja desnutrição causará
lesão cerebral para o resto de seus dias.
Falo eu por ele,
você por mim,
eu por você,
ou ninguém, por ninguém,
num hino semiótico, estruturalista, de inferências marginali-
zantes, nas implicações sibilinas da imagística contemporânea.
Porque o que importa mesmo, não é uma sensação de viver.
É viver.
Para a Mulher Que Sonhei Num Matagal
Existem árvores que são irmãs negras que adivinham a verdade como uma laranja,
como uma laranja que é
azul e infinita. Deixe de conversa, irmão e vamos dançar, na dança de fogo da
praia de inverno, as praias da vida, que sabem dizer Não - Não - Não. No leste
tem fronteiras enlouquecidas, no leste tem irmãs que dormem juntas, que dançam
juntas, que rezam juntas, que comem juntas, que amam juntas, que sofrem juntas,
os joelhos juntos, as mãos juntas, as costas juntas, os sonhos juntos, os
perigos juntos, os poemas juntos, na terra longe do leste. Na terra longe do
leste todo mundo dança junto, uma dança estranha de mistério, terreiros de
macumba, em terreiros de umbanda, em terreiros de aleluias do Senhor,
O Senhor virá num Carro de Fogo,
no Milésimo Dia,
nos hospícios existem homens que passaram fome, beberam
nas vilas,
e que um dia viram,
a terra de leste, na pupila dos olhos e como músicos de car-
neiros, perderam o som e o sol, e disseram a sua amada, a
sua desamada,
É hora de ir embora,
é dia de ir embora,
é hora de som,
chega de trabalhar num banco, chega de olhar a cara do
patrão,
um dia,
eu hei- de me levantar,
deste estranho sonho de som.
Senhor:
Concentre-se e venha,
a salvação está esperando,
a tanto por hora,
no templo ou no psiquiatra, uma carta de consolo, o impor-
tante é fugir do perigo.
Mister:
Adiós às cartas marcadas,
aos cavalos endiabrados das corridas perdidas.
Volte, por favor,
eu estarei aqui sempre a esperar.
Você, nas dobras do caminho,
amada escrita em grego,
ou na lingua de Tupã, teu corpo morno, as costas cálidas, as
coxas gemendo quietas, quietas,
ei você,
sabe de onde eu vim para te procurar?
Dos infernos aonde nunca ninguém perguntou nada a
ninguém,
Tua boca com os lábios abertos (meu Deus nunca vi um lábio com vida sozinha, o
lábio inferior, grosso, pronto para uma mordida fatal, como este teu).
Casamento, amor, estes negócios todos ligados, numa teia que o machado vai
destruir. Maldita prisão que faz o sono parecer um pesadelo, o pesadelo um verde
fogo de chuva, a chuva a semente da morte, a morte, um desejo maluco de arrancar
essa mulher dela mesma e você entrando nela habitar a mais louca caverna que
teus nervos possam conceber, a mais silenciosa, a mais quente, mortal como a mão
que pega nos teus pés e sobe pelo teu corpo, procurando tua infância, teus
sorrisos, teus sonhos, teus medos, as trevas da tua noite, a morte do solitário,
a fome do miserável, a perna do paralítico libertado por uma agonia fenomenal.
7. Ritual de Clivagem
(Massao Ohno Editor - 1989)
A Morte e a Lua no Espello
Como vivem as estrelas que dos céus mergulham nos
mares?
Como vivem os peixes, aquários nostálgicos, profundos
mares?
Nosso corpo, frágil aquário, sereias coleantes, que nos
oceanos fascinam os viajantes e sabem...
Oh, se sabe que entre o tempo e o espaço cabe o cis-
mar dos deuses, na virtude, pecado e amor das luas.
O homem duvida que a lua no espelho seja o pálido
reflexo febril da lua no firmamento, e imagina que a
lua no espelho seja a lua verdadeira.
Pobre delírio, do pobre delirante. A lua verdadeira tra-
fega impávida entre os cometas cintilantes. Eis que nos-
sos olhos vêem a cartografia morta.
Talvez o nosso coração pulse pelo espírito que vai irra-
diar um sol ainda por nascer.
Entre os dois tempos, sortilégio, vai companheiro por
esta longa jornada. Na outra esquina e na outra virada,
nos encontraremos, cantando juntos outra vez o pul-
mão do amanhã, porque o cosmo, o homem e o som
de uma gargalhada não morrem jamais.
Por entre a fumaça de um sono e a vigília da aurora,
no descampado nu de todos os porques.
Quando Crescer Serei
Mentiroso ícone prateado. Príncipe Consorte da Rainha
de Bagdá ou a pororoca, que no Amazonas me deu 6
em Geografia. Corretivo penal para que depois, me fas-
cina, liberta, salva a minha alma puritana.
A pura contradição superficial, entre o ser e o parecer,
o parecer e o poder.
Inveja deslavada como de que não invejo. Narciso apai-
xonado ou um desengano hamletano que paira entre
o tudo e o tudo, cantiga de roda de Juiz de Fora, reci-
tando um pilpul* talmúdico.
Falante farsante infante fardado ficcioso, atrás das or-
gulhosas empregadinhas, frustado na conquista da Da-
le de flash Gordon, nas quermesses da Luz (esquina com
Avenida Tiradentes).
Herói da mamãe. Quem sabe, talvez, uma enciclopé-
dia casuística de fantasia dos talvezes.
Serei, quando crescer, o perfeito toque alvorada, do Na-
da.
* Forma didática de aprendizado Teológico Judaico.
Brutus Ao Matar Julio César.
Este é meu sonho, escolha. Meu erro, angústia, ledo en-
gano de rota. esquina, real traição.
Quando te vejo, sei que as águas correm por entre mon-
tes.
Netuno desponta no horizonte, e o barquinho é de pa-
pel.
Os sonhos são nuvens que nunca se abrigam, nas cin-
zas da esperança.
Sei que meu nome é um alfabeto, comandando a nave,
no azul imenso dos olhos que amei, numa ficção arre-
batada.
Vale o arrepio na espinha da palavra amiga que diz: che-
guei.
Vale chegar e ir, no sensacional bailado do êxtase má-
gico, alumiado, que diz ser o delírio irmão gêmeo do
querer, o querer, amante clandestino do estar, metáfo-
ra do não ser, freando e acelerando, nas avenidas do
amanhã, louco sortilégio do hoje, com o cortês.
______________________________________________
Por onde andará, oh Deus, minha sombra enlouquecida?
Aquarela do Pintor Incompetente.
Um gato, sombra ao léu, espreguiça suspiros, na paisa-
gem dormida.
Passos lentos, um tigre se devora, na fantasia mediana.
Vetores esvaziam e a paisagem se volatiza. O gato se
foi.
Ao longe, um assobio dura,
perdura.
Ode Cética
Nem violino, nem destino, sem nota, sem bota. Nem pa-
monha, maconha, bronha, fronha, galinha, d’Angola.
Começo, meio, fim.
Nem prosa, rosa, lado, véspera, rio, mar, cegueira, manga, parreira.
Sem data, rota, oca, porca, fé, martírio, sonho, vigílio.
Leguleio, pranteio, recreio.
Nem ascese, amnésia, esclerose, púrpura escarlatina.
A Rainha e a Corte.
A cega na janela não enxerga o aflito aceno.
Mas diz, por orgulho, que enxerga.
O seu escuro horizonte salpica duendes e elefantes.
O Deus Que Se Pretende
Estúpido deus egípcio,
irrompe na sua megalomaníaca
gramática de calor e energia.
Em perturbado monólogo mira seu
umbigo encandescente e repete,
miríades iluminadas, por que, por quem,
brilha no incenso dos mares espaciais.
Não por mim, não por mim, se lamenta,
grita e chora e seu choro, na praia
a nas montanhas colore a pele dos turistas.
No bru-há-há da vida que enternece, uma criança,
invernada aponta com o dedo a luz polarizada, e,
exclama:
Papai, olha o sol que eu desenhei, e na gravura,
uma careta caricatura, minimizada, esdrúxula,
sorri, dantesca.
Sou sim, sou eu, o rei nas trevas que ilumina,
o sorriso do pai deste fedelho e que, para isto,
no altar dos deuses, me fizeram, Akenathon.
Retângulo
Eu, dono de todos os sonhos dos outros, os mistérios
dos outeiros, o mergulho sem licença no inferno, madressilvas
nas janelas, corretas indginações. Quem sou, senão o Outro que me rompe,
arrebenta, arrebata, roubando a graça da madrugada.
Nas Curvas Estelares
Na minha infância,
imaginei a escrita da
lua que se encanta e volátil,
espreita o destino dos astros viajeiros.
Adolescente desenhei um canto bufo,
raconto atordoado em que a lua
benfazeja regava os olhos da
minha diva.
Adulto o pranto dos meus olhos,
molhou os véus da lua, o desencanto
dos meus sonhos.
Agora edito a lua e sei que foice,
ou réstia luminosa.
Nos olhos da aparência, respira sua
fria majestade, de todos os
meus enlaces
desenlaces.
Em busca de Cronos
Num ante-pasto na caverna,
O selvagem hominídeo espera
e espreita.
Foge a caça e foge o susto
da inquietante burlesca criatura.
Dores difusas flagelam sua
carne e tendões, maiúsculas perguntas
de enxofre e agonia.
Quando por nada, alça os olhos e
apavorada, enxerga a estática
figura da lua que observa:
Por abissal instante telúrico,
ambos se observam e aí se
contrata eterno descaminho.
Em suas fases, aquele se verá,
mesquinho pecador, e ela dionísica,
em suas faces,
arqueiro rebuscado.
8. O Feitiço da Amérika
Jamo Panka Pixipre Jamo - (1991/1992)
A Mágica do Exílio
Ao contrário do que se concebe, a verdadeira maravilha,
o Espanto, o Escândalo, o Encanto são filhos do Desterro
e não do Encontro.
Por isto, para mim, mergulhar nos fantasmas da Amérika e
adivinhar suas palavras mortas foi também um
re-Encontro com o Desencanto.
Em Hokan-Coahuiltecan
Antes dos espanhóis e de Portugal, havia um mundo nas terras da Amérika. As
nossas palavras e a nossa mente não podem traduzi-lo. Mas podem chorar por ele.
Este mundo tinha, em 1492, entre 2.000 e 2.200 línguas faladas. Choremos e
oremos. Estão mortas como os desertos costeiros do Peru e do Chile. Mas uivam
nas lembranças como os povos que riram, sonharam, caçaram, amaram e foram
traídos.
Ou em asteca-tanoan, otomangean, chibcha, iroques, cadoan,
jicaque
ou cada susto, osso ou marfim, pedra,
as casas portáteis para viajar,
se pode contar tua saga guerreira,
na voz do xamã.
Vamos seguir o caribu
na rota selvagem,
com tobogãs, arcos e flechas, pinhões,
cactos, raízes e salmões.
No Chile de então,
comer mariscos e mais embaixo,
caçar guanaco e a ema,
mandioca na floresta tropical,
nos Andes meridionais,
com os atacamenos e diaguitas no norte, e os araucanos no sul,
uma corrida para as canoas
em troncos, com figuras verticais.
No útero de Tamaulipas e Tehuacan,
moram ossos de veado, antílope e uma
raça extinta de cavalos por quem choram
malhos, cachimbos tubulares, gorjeiras, socadores e pilões
dos Salishan.
8.000 anos antes de Cristo,
nos Andes havia pontas lascadas, raspadeiras e
um garoto travesso brincando com o osso de uma lhama selvagem.
Nas savanas de São Paulo e Paraná,
pedra e osso, cerâmica tupi, machados de pedra lascada
são os embriões de um
salto na escuridão.
Em Wari, milhares de casas
encheram os horizontes
como o Império Inca podia calcular
pelo quipu os horizontes de cada um,
nas ordens do
Sepa Inca.
E para concluir uma garganta
gemendo sem norte, com cogumelo,
as gentes e suas falas
(porque, um homem sem fala, morreu).
Os atacamenos, os diaguitas,
o temível Topa Inca Yupanqui,
o atlato dos Anasazi, os ornamentos de
conchas, por que acabaram,
Senhor?
Por que o braço teve ódio,
os dados foram mortalha do povo, Senhor?
A água, proibida,
o sangue escorrendo, o orgulho escarmento
uma dor lancinante, um enterro sem glória,
um desterro maldito, uma virada felina,
a brasa purificadora, em nome de quê?
Do dono da terra que veio de longe
aqui massacrar,
rezando e matando,
levando a prata, o sonho, a quimera sem nada deixar.
Deixando ataúde, jejum e jejum.
Em nome de quem, Viracocha, em nome de que, meu Senhor?
Amérika
Sempre desconfiei que você é a casa que cada um carrega
nas costas,
cabeça, sol, som e vento,
como que carrega o filho querido,
por entre a tempestade.
Uma lembrança que alguém perdeu,
de um martírio visionário,
longas terras, de liberdade,
cavaleiros cavalgando,
sem Juiz e sem Rei.
Jovens e crianças delirando um delírio grandioso,
festa de amor, dança, febre, sexo,
velhos rindo de costas ao sol,
em paz com o que foi,
com o que acontecerá.
Um pandeiro,
aromas de comida proibida,
pernas compridas, desfilando anseios prolongados,
por festivais de anedotas e trégua.
Martí, Bolívar, Colombo,
um desafio seco à maldição,
Tiradentes, um dentista enlouquecido pela festa da cor,
vida, emancipação.
Um cholo deitado,
nas cordilheiras,
um índio navajo espelhando na água
sua crença num amanhã
de paz.
Uma garota saborosa
de tranças, trançando uma transa de bilhetes
no recreio da escolinha mexicana,
lendo, às escondidas,
ouvindo um apelo de amor
do moleque francês do Canadá.
Uhm, uhm, uhm.
Que sons terríveis se ouvem no chão da Amérika,
gente.
Peladas e miseráveis, populações sugadas pelos donos da banana,
do ouro, do açúcar,
a indústria de querer vestir à européia.
Mas não são sinos de finados,
são sinos de alerta que eu ouço
no assobio da invocação
(existe outra palavra mais brava, mas não cabe no jeito mineiro)
que percorre,
como calafrios de esperança,
as minas de estanho,
os gemidos da gravidez desta terra curtida
por homens que caminham descalços,
com cargas de burros.
Paraguai de Élvio Romero,
Assunção,
pátria idolatrada,
onde se cambia dinheiro e alma pela praça,
mas se fala um troco guarani,
por trás dos móveis quebrados.
No sul, norte, leste,
sei lá os pontos cardeais,
o coração tem pontos cardeais?
Reside um filho de asteca, maia,
num Peru ou Uruguai,
de estradas atômicas, num mundo de arrebóis.
Vou lamber suas feridas, Amérika,
desastradas, infelizes, empobrecidas,
de gente sofrendo, doente, morrendo,
numa guerra por engano,
como um cão leal e raivoso.
Os leões virão com os negros
pelos mares para esta terra,
com o desejo do sexo do branco pelo negro,
o erotismo desperdiçado de corpos enganados,
na prosa de Faulkner,
numa fazenda do Sul.
Jerônimo,
Ave Pelada,
Touro Sentado,
Nego Pai João!
Palma, Pau, Terra Cacique, Mulher Antônia.
Zero à esquerda no balanço,
uma palavra pela outra,
um horizonte por uma raiva,
eh, beliscão no opressor,
eh, beliscão no guardião,
um cavalo, um avestruz, um garanhão, uma águia,
um canal de frustrações,
Amérika nos nossos pés; nas nossas mãos.
Michabo, Jockeke e Manabocho.
Fair Antigua and Barbuda
1493 e 1532,
os ingleses em Barbuda.
Tabaco e cana-de-açúcar,
1981.
Suaves brisas tropicais,
ventos alíseos que balançam
o triângulo isósceles,
os raios e o sol nascente.
Nguillatuñ
Argentina ¾
tu és como Martin Fierro,
yo he conocido cantores que eran un gusto al escuchar,
más no quieren opinar y se divierten cantando
pero yo canto opinando que es mi modo de cantar ¾¾
pulmão da Amérika,
que fala por um mapuche, que tem bombachas, fala em abril,
quando virá a nevazón.
Um norteño não tem medo,
palavra proibida em Tucuman,
o mar em Mar del Plata, suas ondas
dizem ao santiagueño que as
plantas de los invernaderos necesitan
el calor para no morirse.
Esta terra é assim, como diria eu,
vamos lutar em todos os invernos, nas brumas,
com arte e com cachorros,
na zona desértica de La Pampa,
corre uma presença de olhos amedrontados,
amendoados, fascinados, enfeitiçados, por Valentin, Rojas,
gritos, danças, trompetazos,
que descem furiosos a cordilheira,
atrás da água de um pozo para todo el santo dia.
Hacer la juventud,
la vida,
senhas que se transmitem de um lado a outro,
no tango de Carlos Gardel.
Será o gaúcho uma loucura outonal de Borges?
Será a multidão que canta um pastel colorido
de um pintor apaixonado?
Ou será toda a Argentina a invenção de um apaixonado cavaleiro
una vida ajena?
Papá,
dizem as crianças nesta estância,
pelea por una mujer, nos turnos de un peón.
Com febre, saltos, água doce, impostos pesados, beijos
e a notícia de la rádio se faz a história desta nação.
Una discusión con un tipo,
marca o ritmo desta pátria,
yo no tengo nada, yo no tengo trabajo, yo necesito trabajo.
Este tipo no hace nada.
Faz. Faz um ritmo e um calor,
y ahi mientras toma mate,
uma inspiração, una hazaña e os versos de los criollos.
Ha gustado la guitarra para cantar milongas,
para cazar al zorro,
e voar como o cakuy às árvores do norte.
Um cacique se compra com cavalo, mate, tabaco e sal,
e as cabanas trazem de volta
o rodeio, a fiesta e o gaúcho.
Guanaiani
40.000 expulsos para as minas
da ilha de Hispaniola, pelos espanhóis.
Na Fartura e no Tempo de Necessidade
Africanos pretos como seu açúcar branco
almejam, a cada ano de 1834,
faixas verticais
em azul,
ouro e azul,
com um tridente preto
centrado na faixa dourada.
Ananás
Na forma de
um ananás maia,
os ameríndios em
Turneffe.
Os irmãos
Guatemala, México, Honduras.
Província Unida, Liberdade Unida,
Esperança Unida.
Sua madeira para plantar
seu boi, no Mar das Antilhas
Koa
Para um ritual de ch’alla
estendo de cá minha mão, invocando
boca a boca
Pachamama,
que ajude nesta história,
que afaste o Tio da minha mente,
ouvido, coração.
O inferno de tuas minas,
segue a vida e a fortuna,
como um hankañawi fere de morte o mineiro miserável.
Tua escola foi o massacre de San José:
adianta trocar 800 mulheres
por máquinas que concentram material?
La Paz,
la guerra,
Desde a t’inka até o Carnaval,
teus mistérios são fantasias de estanho,
e pedra que sirva a gente.
Um acidente, um tiro,
um capataz,
me cuido de te dizer:
Bolívia,
não vás morrer agora,
tu também podes do mesmo modo.
Não canses de tua vida.
Um dia tua festa será de
banderines, mistura y serpentinas,
vámonos, de alli en adelante
cada uno hace lo que se le antoja.
Bolívia,
lo hago madurar.
Quebrem os dentes da dor,
vestidos com un chaleco de lana, una capa y botas.
E que nada de mal nos suceda mais,
o brinde de chicha,
que te manda um venezuelano.
Ai, ai, menina querida do cholo de Oruro.
Sangue e neve,
choro e compulsão.
Um poste que serve de forca para um tirano
e uma feira colorida de Assunção,
Bolívia de braços abertos,
nas serras e traços bons,
Bolívar e não o Alto Peru,
o fantasma de Melgarejo,
num pesadelo criollo.
Bolívar, Bolívia, o nome de inscrição.
Rit e Une
Para falar deste país,
queria beber cauim de milho,
ou mel de abelha silvestre.
Como se fala da terra em que se nasceu,
se ama,
se chora,
sofre,
rim, estômago, nervos, cérebro, fantasias,
doença, perda, dor, martírio, fé,
crença, ideologia, olhos.
Só uma takuára pode cortar o cordão umbilical.
Brasil é feito de samba e de luzinha escura no cinema,
perdão e crime,
Volta Seca e Lampião,
um auto de amor e uma curva espinhenta na estrada da desilusão.
Tem duas almas esta terra que eu amo,
como os Kayová,
o ñee e o anguêry,
grandeza e miséria, companhia e solidão,
Mato Grosso, Minas Gerais, um choro de emoção,
um terreiro de Ogum, Orixá, um canto de Iemanjá
numa noite aflita no mar (se lembra?).
Eta zabumba meu boi,
numa solidão desgraçada,
numa noite de carnaval,
Foi em Poços ou no Rio,
na avenida ou no salão?
O samba do crioulo doido
de mistura com mil palhaços no salão,
um prato de feijão com arroz,
a marcha de 32 quilômetros.
Nós somos estes infantes, cujos peitos amantes nunca temem lutar.
Vivemos, morremos,
gritando um nome
qualquer,
num comício em praça pública
o coro monumental,
1.2.3.1.2.3.
1 vidrinho 2 cruzeiros, três por cinco, cavalheiro.
Uma só razão, um só pensamento,
um beijo procê gigante e anão
Noel Nutels,
Orlando e Cláudio Villas Boas,
Tiradentes,
aqui não tem vez (por que será?)
um corso napoleão.
Uma soma multiplicação,
um botequim carioca,
uma rua de Natal,
um bronqueado metalúrgico,
Uma avenida de Osasco,
os Suiá, os Txkão, Kamaiurá, Trumái,
uma notícia redonda de gás neon
informando que Carmem Miranda ressuscitou
nos discos da minha mão,
que o coreto vai ficar
inundado de catinga e rouge-batom,
um riso de cumplicidade
para a canoa descer um rio de petróleo azul,
enquanto o urubu se afasta
na festa do uuatsim.
Uma chaminé envernizada
de fé e tropical
uma feira em Santana,
uma saudade em Curitiba,
um frio no estômago em Manaus,
bicho-preguiça,
para te descrever, só uma noite de Juízo Universal,
um pajé sugando um mapa-mundi,
Mãe Menininha de Gantois,
tudo que quis, quero e hei de querer,
ausubá
Deus de mim
por querer mbaé r-enduba
a voz do meu Brasil,
que diz num ritmo de cavaquinho
kûarasy e-í!
Não me engane, Pai João e Índio Velho,
embaúba, cataúba, guaraná.
Capoeira, mau-olhado, bem-olhado.
co yuy nande retama,
de dia,
de noite,
no frio calor,
nos morros sem fim,
no céu de anil,
de cimento,
tim-tim.
Branco e Vermelho
Num tecnicolor
como as neves do seu frio continental,
violado pelas
lontras, arminhos, castores, visões, raposas, esquimós.
Como um barco viking de Erikson
é vermelho um painel de
hurons, andastos, tuscarins e senecas ou
moicanos, abenaquis, micmacs, montanheses, ilinois e miamis.
Teus coureurs de bois avançavam,
montados em aventuras e animais,
o Ottawa Pontiac rezava os terços pela nação.
Comme l’Oiseau,
Over Prairie Trails,
Tout n’est pas dit,
e os filhos dos teus esquis,
ainda celebrarão,
a missa final,
junto ao
lago Beauport, de doce comunhão,
agreste sentir.
Copihue
No Ihama, os atacamas
descem pelos changos
até os araucanos,
até os omas e tehuelches,
e às margens do Mapucho se plantam
minhas desamparadas paixões
e desolados beijos,
na voz doce dum sefaradi.
Enterrem meu coração em Chiquicamata,
ao lado de Gabriela Mistral,
e os sonhos das águas,
que molham os pés do menino em Calle-Calle,
inundem Punta Arenas,
Valdivia e Antofagasta,
em berços de fé,
mares de esperança,
mares de serpentino cochayuyo.
Embebidos de chicha
se vão por pássaros
largos e azuis
os encantos da terra chilena,
montanhas enlouquecidas
por partos prematuros.
Mergulho as aflições, na mesa,
com charquicán chileno,
cazuela de vaca,
choritos al limón
e platanos com miel.
Cair os muros
da gelada Tierra del Fuego,
nos sonhos de Machu Pichu,
pelos ombros, os seios,
os túneis de uma esperança,
a cálida canção,
a ruiva amada,
o cachorro sentido.
Ballenato
Solidão,
capital Macondo.
Descendo o Caoca
você encontra uma terra
onde se comem caranguejos e mexilhões
e existem homens
que não têm corações.
Quando nascem são feitos enxertos de tecido de cheques
para substituir as veias.
Ah, terra de mariposas coloridas,
de Gabito Garcia Márquez.
O pânico habita estes trilhos de estrelas
que vão de Magangué a Cartagena,
de Zapata, Palmarito, Cucharal.
O pânico e a glória da machidez.
Aracataca.
Palavras sonoras
que descrevem fantasmas,
plantações de arroz e bananeiras.
Enchentes e Sucre,
bilhar e futebol,
1.138.338 quilômetros quadrados dos Andes,
meu Deus, até os caribes,
os panches, pijaos, os chibchas,
na festa do El-Dorado.
Maldição para Jimenez de Quesada,
Federman, Belalcazar.
Rezo pela volta de Nariño ajoelhado em Medellin,
pensando na volta do teu café,
petróleo, banana,
fumo, açúcar, platina.
Colômbia, que carrega no nome a cumplicidade querida,
Cristóvão, meu coração,
barco de iguanas,
numa guerra sem fim.
Hoy por mi, mañana por ti,
senão um encontro marcado nos llanos, senhor.
Um Sonho Habitado
Oposi,
Rincón de la Vieja,
Irazu, Turrialba,
Barba, Paos, Talamanca,
Cerro Chirripó Grande.
Um povo tem vulcões no sangue,
e a indolência esconde
medos e arrebóis,
teus índios
desapareceram nas florestas,
para atormentar o café,
abacá e cacau.
O sal da tua terra
deve ser uma lágrima velha
de índia
derramada na lassidão
em Puntarenas,
o ouro
nos Montes de Aguacate,
Tilarán, e Abangares, um escarro
nas ganas e desventuras.
No Clube União,
se espera um vulcão
a acordar,
ao compasso de um sonho
e um tremor de terra avacalhado.
Na vitrine de La Vaca,
Punta Burica,
pingentes de ouro
circulam recordações.
Fernandina, Juana, Cuba
Marianao, Santiago, Camaguey,
Santa Clara, Mantanzas, Guantánamo.
Fumo, cana-de-açúcar.
A dança dos seus coqueiros, palmeiras,
limoeiros, laranjeiras.
Ah, ah,
seus cães mudos,
suas tartarugas marinhas.
O caranguejo que sobe ao
coqueiro para comer fruto.
Fernandina, Juana, Cuba,
Cuba, Juana, Fernandina.
71 brancos, 12 negros,
15 mulatos, 1 chinês,
falando espanhol.
O doce amargo da
América, correndo a tua espinha,
teus longos canaviais
Papagaio
Campo verde, listras amarelas,
brancas e pretas, disco vermelho com um
papagaio.
Layou, Clyde, Roseau.
Frederick Newton não é papagaio.
Los Valientes
Os pipiles
habitam o porto de la Libertad
e por Acajutla
correm tua cana e teu café.
Por onde chegam os aluviões do Lempa,
as águas de Coatepeque,
Zapoticlán e Tecapa,
embarcados nos aviões
em Ilopango.
São de quartzo,
são de ouro,
são de ferro,
teus criollos, índios,
Pedro de Alvarado.
A volta
à terra prometida
será feita
até o lago Guija,
pelo chefe Tupilzin Acxitl.
Sierra
De todos los diablos,
cañaris, caranquis e panzaleos,
ressuscita el mejor de los mundos,
herança de Atahualpa,
chapéu de palha e cacau,
o líquido, chamado petróleo.
Um rio carrega teu nome,
Aguaripo, Napo, Guayas
e Quito tuas vertentes,
saiam os espanhóis solteiros,
exigem os quitenhos,
porque se monta na cavalgada do desejo,
o conquistador.
Uma consciência queimada se forja,
Antonio José de Sucre, um cavaleiro americano,
o filme em disparada,
das Alcabalas e dos Estancos,
sem tempo, sem cor e sem espaço,
de todos cantos se ouve,
a linha equatorial,
a voz arquitetada de Bolívar e San Martín,
que virão apagar
o huasipungo e o cuartelazo.
Tajumulco
Você vomita o fim de um sonho
ou explode a dor de uma esperança,
as cinco terras tropicais,
um Império em flor.
Costa Rica, Salvador,
Honduras, Nicarágua,
Guatemala.
Nunca vi suas costas,
mas perambulei por seus infinitos sofrimentos,
de bananas, de lavas encandescidas,
Império Maia,
de gente maia e quichua.
Quezaltenango, cabelos pretos,
Cobán, olhos amendoados, tristes, ardentes,
Zacapa, nádegas bamboleando,
Mazatenango, um oceano nas coxas estremecidas,
Antígua, seios empinados de mulher sofrida,
índia maia.
Eis aí, como um estrangeiro vê,
deseja, para uma terra-mulher,
um cavalo de força,
um torrão,
Províncias Unidas del Centro de América.
Um escravo se faz com pele,
ossos.
Um senhor se faz com pele,
ossos,
sangue índio,
braços, olhos,
loucura tropical.
Da Índia para os Waiwais
Trouxeram da Índia,
África e ilhas portuguesas
mãos para trabalhar,
suores ardendo pelo fumo e algodão,
nos teus ranchos e invernadas,
mandando manganês para a Noruega.
Teus arauaques e a terra,
ao longo do Demerara,
rezam flores de liberdade,
nas tuas florestas,
montanhas e savanas do Equador,
nas cascatas de tuas chuvas
de abril a fevereiro.
Negros, hindus, chineses,
soltam os rios e cachoeiras
e descansam em Rupununi,
iluminando com seus olhos de diamante
o ar que respiram.
Gourde
No túmulo do “tonton-macoute”
corre o Rio Artibonite,
corre o Rio Trois,
e suas águas não levam a perfídia,
não lavam a raiva,
os ritos de dor, os ritos de desamor,
da loucura tropical.
O negro da tua cor,
princesa negra,
combina com o teu negro calor
que pertuba uma África ardida
pensada da Amérika.
Na pele serena
das pernas meninas,
passa a saudade arauaque,
caribes violados pelos piratas
no Mar do Caribe.
Vou perguntar ao cadáver de Henrique I
por que sua terra exposta açúcar,
café e sisal
e importa remédios,
e, se ele não responder, no mato voodoo,
atuado por álcool
fumo e saber,
eu vou perguntar a Ogé e Chavannes,
num mato voodoo,
em língua créole,
num rito voodoo.
De Caratasca às Savanas
Da serra de Opalaca
à Cordilheira de Montecillo, de Merendón,
Agalta e as montanhas de Colón,
suas chuvas e seu calor,
tierras templadas e frias,
suas savanas,
Tegucigalpa, San Pedro Sula,
Yoro, Nacaome,
junto ao Império Maia ¾
Salve,
teus caçadores e pescadores,
perderam a partida para as minas de prata,
a cobiça.
Pela Taca,
as notícias vêm rápido e voltam devagar,
de Caratasca às savanas,
Honduras,
Província Unida da América Central.
Queimaram teus templos maias,
despedaçaram as frisas,
os registros sacerdotais,
extirparam tua cultura.
E Tigre não era animal,
mas ilha cedida.
Teu ouro te serve?
e o cobre, a borracha e o café?
A gente não fará mais guerra,
por causa do futebol.
Pai Eterno, Abençoai Nossa Terra
Os espanhóis no início do século
XVI.
Em meados do século XVIII, os arauaques já
não existiam quase...
Pelo Black e Minho,
africanos, chineses, indianos,
até Kingston, Montego Bay e Spanish Town.
Com açúcar, rum e melaço se faz
bauxita, gipsita, silica.
Pai Eterno, abençoai nossa terra
numa segunda vez 1883.
Teonanacatl
Se faz dois animais duas Américas,
o lobo, coiote, búfalo, urso,
castor, jaguar, puma, macaco.
E teus vampiros não são de ficção,
matam cavalos.
Palanca e nayoca correm o corpo mexicano,
dos Tarahumares e Huichols.
O silêncio e o murmúrio,
o medo e a loucura se casaram
no orgulho de Cuauhtemoc e Montezuma
numa visita que fizeram a Tlalocan para benzer
as praias de Caletilla e Caleta.
Um hombrecito num ejido pensa, matutando,
coçando seu coração,
ombros, a ginástica de seu passado,
maias, nahuatl até Teotihuacán,
seus sonhos virando prata em Zacatecas,
Guanajuato e San Luis Potosí.
Já deu teu perdão aos gachupines?
Seus homens são Porfirio Díaz e Juárez,
mas também Zapata, Pancho Villa e Carranza.
O altar do teu futuro está florindo como o Xochimilco,
hombrecito que sempre procurou o Eixo do Mundo em Mitla,
o sol Deus furioso de alegria, calor, fé.
Queria, queria,
nos navios dos teus povoados,
Monterrey, Tijuana, Chihuahua, subir aos céus,
que é o porto das tuas nações,
pôr um sombrero no sol, dividindo o horizonte,
nas tuas zonas de tierra caliente,
tierra templada,
tierra fria.
Plantar henequén nos teus amores,
uma roda para sustentar o jaguar,
um jaguar para o teu destino,
uma flor de cor morena, cor vermelha,
cor maia,
cor asteca,
um sol deus,
um sol escravo,
um sol moreno, vermelho, maia, asteca.
México, campo livre de magueyes
que doblará las alas sobre mi corazón,
numa plantação de chiles,
em Rodeo, Durango.
Nicarao
Triângulo
de cujos vulcões
se arrancam os olhos das canas,
dos negros,
dos índios da Costa dos Mosquitos,
os bananais, feitos de caraíba,
astecas e muita garra
pelos selvagens Ometepe e Madera,
a dança, a pança, o riso,
a raiva, o luxo, a dor,
o ódio, o amor,
León, Puerto Cabezas,
um espírito em Granada,
Masaya e Chinadenga.
Afastem os mosquitos
das costas de teus negros,
dos mulatos da Jamaica.
Con una Guitarra
Vamos a cremar el banano
ya que vale tan poco.
Vale, vale muito,
vale sangue,
vale ouro,
vale, vale,
tua banana,
órfã americana,
Panamá,
vale amerikano,
banana que atravessa o oceano,
como um barco enlouquecido de Colombo,
um barco de sonho,
esperança, frustração.
Um barco cheio de amarelo,
doce, rouquidão.
O barco que atravessa teu Canal
feito de água,
banana e lágrima.
Serra de Chiriqui,
vulcão na Cordilheira de Veraguas.
Chego num telegrama a Tocumén
para remar
com teus índios pescadores,
num barco sem vela e sem destino,
de um capitão espanhol.
Tem que se repor
em San Blás
a pesca dos cunas
por cima do deus-crocodilo,
do Sítio Conte,
província de Coclé.
Paloma Herida
Tierra de brasas,
em Assunção senti
que vim da terra do Nada
para o País de Ninguém,
Chaco, Concepción,
Pilar, Encarnación.
A música guarani,
o índio guarani,
ouvi falar em voz baixa,
em um balcão varejista
tua língua de índios.
Onde enterraram El Supremo,
se seu espírito percorre
meus olhos nus
como uma boneca de sadismo
arrepiando as visões de Yegros,
Iturbide e
Caballero?
Me lembro, às vezes,
quando em meio à erva-mate
urandaí, timbó,
lapacho e carandaí,
o quebracho do Chaco.
As reduções e o cunhadio
dançam
e bailam
suas tenebrosas lembranças.
Eu quero de tua terra
un deseo de tierra buena,
un palmo de tierra,
tierra viva.
Sombra y palmera,
verde o roja,
tierra propia,
tierra descansada,
el cruello de las bestias,
tostada tierra ajena,
de Yegros e Villarica,
hombre del pueblo paraguayo
No altar da Amérika se celebrará
o casamento das índias makás
e os índios ayoreos,
numa festança no Chaco,
ou num banho em Apipé-Yacyretá.
Viracocha
Piru,
Terra do ouro e do sol,
o solo índio, o negro e o trem do espanhol,
sete cores do espectro branco europeu,
moreno criollo,
vermelho índio, oliva cholo,
o negro negro, o gris mulato,
o chocolate zambo, poncho multicolor,
na cara oval, o nariz de águia,
os lhos oblíquos do quechua,
altivo, mineiro por condenação,
adorador dos astros,
reduziu-se a um só astro.
Doçura, melancolia, resignação em Callao e Lima,
a música que desce
de Arequipa e Cuzco.
Como dar,
ao Corregedor o Reino de Atahualpa,
o quinhão inca?
Juan Santos, em Chanchamayo,
soube que as noites de verão são de espada,
cara de anjo,
espelho e vozes baixas.
Teu ouro foi tua maldição,
paga com cavalos, tortura.
De prata e mercúrio foi o cemitério índio.
Huancavelica, tumba de um povo,
morto como as mulas,
arrebentadas de trabalhar,
sem pasto e sem água,
nos altos das montanhas.
No outro dia, eu li, num sonho,
que uma estrela se dirigiu aos olhos de Perricholi
e cantou uma canção de memória e coração,
por Viracocha-canção.
Ao Sul do Norte
Num tronco de ceiba,
Colombo amarrou suas caravelas
e, no forte de La Navidad,
um sonho de liberdade
se deteve.
Trujillo morreu
nos açúcares de um poeta,
e seus versos enterraram
em Vegal Real
e Valle de Constanza.
O tormento negro,
mulato,
índio, espanhol,
celebrado nos barrancos do rio Ozama.
Negros e Mulatos
Mais de 85% da população são católicos,
e anglicanos, metodistas, batistas,
pentecostais e adventistas.
A nostalgia africana dialetal.
Nevis
261,6 Km2, 46000 pessoas.
Nossa terra de beleza,
as nuvens sobre as montanhas,
1983.
Azul, Amarelo e Verde
Nas antilhas,
sobre um vulcão
os olhos miram o
Parque Vitória em
Kingstown, onde
florescem suas bananas
e sua gente.
25 de Novembro
Arauaques, tupis e caraíbas foram
encontrados, sob 2.300 mm de chuvas anuais,
com a água do Suriname, Courantyne e Coppename.
Que se fala em holandês, sranang tongo,
javanês, chinês e hindu.
Seu criollo, idiano, javanês,
em cima da bauxita farão de todo o ano o
25 de novembro.
Duas Meninas Vizinhas
Sua terra é marrom,
quente como a liberdade,
e se banha junto ao Orinoco.
Caucho, rum e melaço
fazem tua fome,
de negros
num asfalto
que é negro
como a veia é negra das ondulações de tua terra.
Cai chuva
e lava minhas ilhas pequenas
que Colombo me entregou,
passaporte negro para Amérika,
num quadrado de papel,
menina marrom,
menina vizinha,
dança uma dança de coqueiros,
braço negro da banana amarela,
fetiche tropical,
dos bananais,
da febre amarela,
de sua leveza
que chamaram indolência,
os indolentes comedores de banana tropical,
negro-amarela,
banana tropical,
tropical.
Mississipi
Que este seja um pesadelo,
uma viagem atormentada de Sinte Galeshka,
o fim da história, de um coração despedaçado,
um rio navajo, o passeio pelos versos de Ema Lázarus,
o sonho generoso do ouro e do amar apaixonado.
Os olhos singulares da pistola de um xerife,
um bandido, um caçador, um pastor luterano,
homens mortos no saloon.
No desfile de Holywood uma mulher arapaho,
uma mulher cheyenne,
nas plumas de Marilyn Monroe, num copo de sedativos,
na ânsia da sofreguidão,
dólares, agonia, um conflito negro, nos arrebaldes do Harlem,
um dialeto Ydish,
uma bala perdida para Kennedy.
Os esconderijos ao longo do Little Colorado,
um filme às avessas no Canyon de Chelly,
a vontade de esquecer, uma bailarina de Al Capone,
haverá lugar nesta para um bosque?
De Manuelito: Meu Deus e minha mãe vivem no Oeste e não os deixarei.
Nunca, nunca
deixar o corn belt, o cotton belt, Rhode Island,
Delaware, Michigan, Minnesota, Buffalo, Newark,
num jato condicionado, Duluth e Milwaukee,
um hamburguer quente
um motel de Street-car, named Desire,
a angústia de Faulkner,
o erotismo apaixonado de uma
velha rejuvenescida pela Avon.
Os supermercados dos Montes Apalaches aos Aleganis,
Senhores, dakota, sioux, navajo e apache,
estourar as reservations,
numa cavalgada de cowboys, nas mãos de
Tatanka Yottanka.
Acabaram com os redskins para fazer filmes de mocinhos.
Os peles-vermelhas, artigos de exportação.
É dura a vergonha, é dura a lembrança,
uma bíblia na mão, a espingarda no ombro.
Uma retirada por um canyon de gente, cachorros, ursos, antílopes.
Um aleluia negro de Nova Orleans,
um jazz dançado por teus corpos suados,
o réquiem, o avatar, a morte, o nascimento por
Mato Gleska,
Shunkaha Napin,
Mawatani Hanska,
Kangi Wiyaka,
uma dose de wiski, yes sir,
sem gelo, Jim das Selvas, Tarzan, Louis Armstrong,
Haleluia, coca-cola.
Quero comer tua terra,
tocando um cavalo com Joan Baez,
pelas estradas afora,
num ford desmontado, o cavalo do xerife,
mocinho.Os peles-vermelhas, artigos de exportação,
o tempo do gás neon.
Cuchillas Feridas
Me chegam cartas
das alturas de Maldonado e Lavalleja,
cartas que nunca abri,
de palavras misteriosas
por caminhos de água:
Arapeu, Quaraí, Santa Lucía, Pintado,
Lagoa Merín, Yagarón, Cebollati.
Sinto o frio pampero,
quando sei que seus índios não existem mais,
extintos e são fantasmas em Paysandu, Salto, Durazno.
Mas lembra os criollos e Artigas
e um dia, à margem do Uruguai,
será construído um cais diferente,
um cais sem igual,
para barcos de toda época,
de toda história,
em cuja carta-de-entrada
estará lavrada
uma senha do destino:
o homem dominará as pradarias
que serão a casa
do terutero,
som do homem maior,
vontade e libertação.
Terutero, terutero.
Nos horizontes, desde Tranqueras até Colonia de Sacramento,
de Fray Bentos até o céu infinito,
de glória e sem paixão
num boliche del Puerto “altamar”
na canção da Rádio El Expectador,
terutero ¾ terutero.
O Quebracho foi teu hino de aventura e história,
um terutero no espaço infinito,
no espaço do tempo, primo, irmão.
Oro Negro
Para combater os índios,
os espanhóis trouxeram matilhas de cães
ferozes
para a Amérika.
Um desses cães ficou famoso.
Bercerrico.
Ainda hoje,
seus descendentes são muito valorizados
nos canis
da Amérika do Sul.
Arauaques e caribes em La Guajira,
encarnados nos guapiros,
dançam o murmúrio do Salto do Anjo,
uma dança esquisita,
que lembra Veneza Pequena.
O deus dessa dança tem pés cravados
desde o Orinoco até Calabozo,
seu coro repete uma cantilena violenta:
“todo verdor perecerá”.
En La Charneca,
Ultimo Tiro,
El Guarataro,
Mont Piedad, Gato Negro,
Bajio Ajuro,
se vêem anúncios dos relojes Tissot,
blue jeans,
e o pesadelo de Gómez,
atormentando Maracay,
escapa de um cinema.
De los enemigos,
como de los muertos, no se bebe hablar.
Ni bien, ni mal.
Mamá y salchichas,
ranchos y cerros, opulencia y pobreza,
Venezuela, planta insolente de Amérika.
Pelas Terras da Amérika
Anguilla
Antilhas Holandesas
Aruba
Bermudas
Groenlândia
Guadalupe
Guiana Francesa
Ilha Juan Fernández
Ilha de Páscoa
Ilhas Cayman
Ilhas Malvinas
Ilhas Turk e Caicos
Ilhas Virgens Americanas
Ilhas Virgens Britânicas
Martinica
Montserrat
Porto Rico
Saint Pierre e Miquelon
Faixas, manchas e
perdidas, achadas ilusões.
De paz, independência, terra.
Nunataks
A foca, bacalhau, tubarão, camarão,
as mulheres esquimós,
os homens dinamarqueses,
a mestiçagem nórdica.
Os peixes imigrando para o
Norte.
Cana Caiana
Os escravos dispersos,
a Ilha do Diabo,
o exílio de Dreyfus.
O El Dorado de mentira,
a cana caiana e a palmeira
imperial.
Rio Grande de Loiza
Teus ventos
sobre teu calor
fazem a vida
chapéu de palha
sobre rum,
açúcar sobre Toa
e o Culebrinas.
Queimarás um dia
teu cigarro
numa bandeira
independente,
tremulando em Ponce,
Mayaguez, Arecibo,
Guayama e Humacao,
uma bandeira da Amérika
tremulando
na Serra de Cayey,
na Serra de Luquillo,
na Cordilheira Central,
de Bayamon
até Aguadilla.
9.Cantata para o Brasil
(Edição OINA)
Congada, Eh,Eh
Dançando vem vindo o
Rei Congo, eh, eh,
por entre os ternos do Congo,
soam as caixas e as violas,
sons de dor e sofrimento,
as caixas, trombones, sanfonas,
os pés batendo no chão,
os foguetes pro céu,
a congada vai passar,
a congada vai
passar.
Eh, Rei,
São Benedito,
Senhora do Rosário.
Do cemitério, da zona,
gente rezando,
o nhambu, o nhambu,
uma saia colorida, o pandeirinho,
as velas acesas,
gritando, cantando,
o Rei, de espada em punho,
dança, congada, dança.
Repicam os sinos da igreja,
o vento agita as flores,
os olhos d’água do povo,
ave-maria,
eh, eh, eah, eah.
Deus da Tristeza,
do cateretê,
bate com força,
pro Rei poder passar.
Dança
No Amazonas,
os pássaros,
o chefe dos cangaceiros,
a despedida do rouxinol,
o gavião real, o currupião,
amo, macumbeira,
princesa e canjerê,
Boi-bumbá,
todas de saudação,
pai do campo, canarinho,
urros do boi,
Manaus.
Canto das índias,
pajé e caçador,
guaranis, briques,
quadrilha sertaneja,
Ju
a Gringo de Alencar,
desfeiteira,
caboclinhos para dançar.
No Pará, pássaros,
tem-tem,
Estrelas de Ouro,
boi-bumbá,
xote paraense,
quadrilha,
lundu e castanhola.
Pastoril do Morro Branco,
no Rio Grande do Norte,
parte da mestra,
parte da contra-mestra,
boi-calembá,
bambelô,
congos de saiote.
Fandango do bairro do Alecrim,
Nau Catarineta, Chegança e Embaixador.
Nas Alagoas,
guerreiros,
samba pagode,
abaianado,
cantiga de Xangô.
Coco e Pastoril da Catedral,
Jornada oficial do Cordão Encarnado,
Torcida dos dois cordões.
Chegança de Maceió,
baiana do tabuleiro do Martins,
tema de caçada,
roda balanceada,
aboios de vaquejada,
toadas de boiadeiro.
Capoeira de Mestre Pastinha,
na Bahia, destque para Berimbau,
pandeiro, reco-reco,
cabaça,
cantigas de capoeira por Mestre Canjiquinha.
Candomblé,
festa de Ogum,
no terreiro de mãe Constança,
Oxóssi, Nagô, Iansã, Oxum, Ogum,
Cabloco Eru,
chegada dos erês,
caruru e aruá.
Maculelê,
grupo de popó,
balaio,
samba da Bahia,
palmas, palmas,
sambas de roda,
festa da Ribeira.
Desfile de frevo,
escolas de samba,
no Rio de Janeiro,
Acadêmicos do Salgueiro,
Portela,
Batutas da Cidade Maravilhosa.
Na minha Minas Gerais,
catira de Frutal,
Ituiutuba, Campina Verde,
Iturama e Pirajuba,
o recortado de Frutal,
corta-jaca e chula.
Folia de Santos Reis,
Tambu, Quijenge e Matraca paulista,
eta fandango de Tatuí,
bate-pé e palmeio,
viola e cateretê.
Toques de berrante
por ponteiro de boiada, em Goiás.
Toque grosso para chamar boiada,
fino para chamar peão.
As danças indígenas,
o javari, dos xinguanos,
Mariddu, dos bororos,
Mengrune e Toroti, dos txukahamãe,
bacururu, também,
anaiá dos velhos txukahamãe, aruerê, dos bororos,
Jacuí, dos xinguanos,
barucaíra, canto do milho, das colheitas,
o Iabarãe, o Aroi, dos bororos,
o Hino Nacional, brasileiro.
Do Mar
Nas entradas da barra de Camamu,
palmeira de dendê,
o saveiro andando como um pássaro,
amarelo, envergado ao
fogo, os braços e a quilha da sucupira.
O chapuz e os cabeços da jaqueira,
o convés de jataipeva, as cavilhas do
pau d’arco.
Arraia, o peixe brigador
pesca miúda de arrebentação,
os pássaros pescadores à procura de
cardumes,
o arrastão na restinga,
na Lagoa dos Patos.
o índio guerreiro em Itaparica,
o carro do cabloco,
envergando um arco,
montando um dragão.
Os guerreiros tupinambá.
Em ponta de Areia,
o terreiro,
os axexés, oferendas aos
babás.
Iansã, a rainha dos mortos,
um balé do bode e da galinha,
do galo e do porquinho.
O candomblé quieto em
Gameleira,
o babalorixá jogando búzios
para curar o mal.
Os coqueiros e os pescadores,
os arrecifes de Pinaúnas, Aratuba,
Armação de Tairu, e, num salto,
Bertioga, Ilhabela, Ubatuba.
O barraco em Itamambuca,
pescar o pampo, de noite as
caranhas, areias brancas,
no fundo, a Serra do Mar.
Os guaiamus preto-azulados.
o pito, marisco, mexilhões.
Comer o “unha-de-velho”,
vieiras, a ostra fresca,
o ouriço, em São Paulo.
A lula, o polvo, o sernambi,
na Bahia, a agulha, o peixe-espada.
Beber o “pulo do gato”,
encorpando a bebida,
para neutralizar o
coco e dendê.
Do mar se vê que o Brasil é
feito de ocre, goiabada,
massaranduba,
cera de carnaúba.
Jati
Sou com’o Jati
uma graúna no mundo branco,
procurando o meu ipu.
Sei ser tabajara que
nem a oiticica, na terra ou no ar.
Ara ou Gará.
Pego no meu uru, de homem ou de mulher,
e busco bem buscado no crautá.
Ainda ontem juçara,
uiraçaba, numa igaçaba para jogar no
jaguaribe.
Ver e matar uma boicininga no Acaraú
ouvindo o oitibó, tocando boré,
sentado na ocara, enquanto lá fora se
ouve a pocema, juntinho, juntinho da
andira, num aracati, sem medo de anhangá.
Sei, e se sei, que um dia irei prum
camucim, enfrentar o jurupari, mais do
que na terra ouvi a jandaia, a inúbia,
o guará, como se fora um inhuma.
Vou comer abati,
caçar jibóia, com ubiratã.
Ser maracajá, caititus ou anajé,
num acordo intimorato com acauã.
Minha mulher saí,
até jací pra mim abaetê.
Limites desta Terra
Esta terra tem um limite,
um quadrado só,
num ponto de umbanda,
Omulu, meu pai Oxalá,
macumba,
vou cumprir meu destino, meu dever.
Um pau d’arco,
a sombra engalhecida,
as vozes do coração
um mutum que mora no sertão,
descer sozinho o Araguaia,
com um índio
na praia rir do mutum,
benzendo a
rede ensolarada
ao som de violão, a mulher
que eu amo,
meu filho, o queixume, a cascata de não
dormir.
Uma canção de ninar na voz
de uma pizza do Brás.
De preferência,
com uma batida dos Beatles,
sim, meu sinhô do
Bonfim,
escute as vozes e reze, de dia, de noite, por mim.
Um Som do Chão
Negro como o quicumbi maldito,
o lamento do terço chorado,
as lágrimas do terno de reis,
a cacheta, viola, rebeca, adofe
do fandango.
Uma dança,
sapateado, com tamancos de madeira,
Ribeirão da Ilha.
Galponeira, gaita,
canto e roda de mate.
Santo com violão, gaita,
pajadas, xote com cavaquinho,
flauta com bambu.
O boi vai ser morto,
os homens de preto.
Negro, a cor negra do meu Brasil.
Negra, cor brasileirinha,
sim sinhô, as sete estradas,
de pau,
choro do marfim.
Paneplano
De 200 a 1100 m,
rochas cristalinas pré-cambrianas, arenitos
mesozóicos.
A Serra dos Pireneus, a Chapada dos Veadeiros,
cúmulos, o céu limpo, a mata e o cerrado.
A barba-de-bode, os bandeirantes paulistas,
o Distrito Federal.
Juscelino Kubitschek de Oliveira
Programa de Tiradentes, a Inconfidência
Mineira.
Hipólito José da Costa, pelo Correio Brasiliense,
imagina a nova capital.
Em Jataí, Juscelino, e do índio, a flecha,
quatro setas partidas ao centro, rosa dos
ventos,
Venturis ventis.
Gwa Ya
Terra de Anhanguera,
sertão dos goiases,
congado, cururu,
marimbondo, quebra-machado,
recortado.
Nação dos Araés,
Bueno feiticeiro,
feitiço das águas, do fogo,
do sopro das bandeiras,
que assoprou
até Brasília,
a terra do ano dois mil,
o sopro do fogo
do Brasil.
Terra Cabocla
Dos tupis, jês, tapuias
nuaruaques, bororos,
nhambiquaras,
terra banhada pelo
Tapajós, Xingu, Araguaia.
Em ofício de tatu, as
garras do jaguar,
aldeia arrasada dos coxiponés.
Arrimar bastões,
largar ginetes,
deixar alabardas,
morrer,
gemer e chorar,
atrás do ouro sonhado.
Até, até
Cuiabá.
Ofício de Tatu
As garras do Jaguar,
o nomadismo predador cedendo
ao garimpo.
Viestes buscar ouro ou buscar mel?
No Caminho do Nordeste
A mata,
o sertão,
o agreste,
os terrenos cristalinos,
subindo as serras, por entre
dunas, restingas, lagoas, maçaiós,
os mangues, os carnaubais.
O vaqueiro, monarca encourado,
ao boi, amansar, amansar,
as palafitas, casas de palha de coqueiro,
o planalto da Borborema,
chapada do Araripe.
Os mandacurus, os xiquexiques,
umbuzeiros até a majestade do açude,
e lamber a areia branca,
na beira das praias verdes,
o jangadeiro a pescar.
O perfume das jaqueiras, uma
aléia correndo, madura, roçado
o santuário.
Juazeiro de meu-padim-Cirço,
Pirapora, Canindé.
Tirar da terra o cambão,
foro, terça, meia, barracão.
São José,
fazei chover,
um décimo-nono dia,
chuvas de rama,
chuvas de caju.
o céu vermelho,
o chão gretado,
barriga estufada,
peito encolhido.
No céu, viaja uma nuvem
para a zona da mata,
molhar os canaviais.
Só resta comer macambira,
de boi ou de anzol, o faveleiro,
mucunã.
Montar livre o cavalo,
transpassar a caatinga
na cola do barbatão.
Rezar nos candomblés,
xangôs, catimbós, torés e
pajelança.
Olhar nos olhos dos cabeceiros,
na gente-da-areia, sem eira nem beira,
comedores de mariscos, que vão
viajar.
Calumbi, Afogados da Ingazeira,
Catolé da Rocha, Seridó,
Cruzeta-Acari,
Bonabuiu,
Boa Viagem, Fortaleza,
Quixeramobim.
Água para Itapicoca,
Pacajus, Acaraú, Açaré,
Antonina do Norte.
Sarampo em Cerro-Corá, Jaçanã,
Monte das Gameleiras,
estiagem em Atalaia, Quebrângulo,
Minador do Negrão.
Varíola em Carrapicho,
Poço Redondo, Garaú, Malhada dos
Bois, caxumba em Caicó.
Salve, Orós,
caçar os caranguejos, camarões,
sair dos mocambos dos alagados,
cochicholo, assoalho.
Plantar cebola, tomate, batata,
legume, uva de mesa, alfafa,
milho, algodão.
Fazer de cada candango ardente,
a Brasília,
do agreste,
da mata,
do sertão
Curvo os ombros, a cabeça,
a pena para o cordel,
cangaceiro, cabramacho,
coiteiro da cabroeira,
com o chocalho no pescoço,
ficar por aqui.
Salvador, Bonfim.
Ecos Rústicos do Banguê
Comer rapadura, ouvindo o apito do engenho,
nas águas derramadeiras,
correr cavalhadas, dançando coco,
olhando o quilombo e as jornadas do pastoril,
azul.
Verde ou azul, a bagaceira do engenho,
o cavalo de serra, o carro de boi?
De que cores se faz o reisado, a
vontade de Luiz Libânio de Lima,
de Santa Efigênia, Esmerita da Silva?
Tem cor a vontade, o passo, o bailado?
O reisado que vem do Sabalangá, o apoio
dos Mateus, os maracás,
trinas e galões dourados, chapéus e fitas
multicores, cantando a marcha, rezar o
Divino, rezar o Santo Cruzeiro.
O Guerreiro é composto de Mestre,
Rainha, Lira, Indio Peri, Rei, Mateus,
o guerreiro é um brinquedo do alfabeto
de Deus Brasileiro.
Alfabeto que se lê nas fases da Lua,
as páginas ensolaradas.
Bumba-meu-boi, caboclinho,
fandango, chegança, presépio, pastoril,
maracatus, taieiras, baianas, caboclinhas,
quilombos.
Nessa enciclopédia de sonhos,
as cavalhadas, o coco de Alagoas,
cantado pelo negro Joaquim Salustiano,
e o Jacu do tranquiado.
As morenas de cabelo preto, os cachos
arrebatados nas mãos de Manoel Nenen,
Severino Pinto,
cantadores de viola.
O hino alagoano tem gente,
tem paixão, arrebite, minha gente,
nas palmas de minha mão, os versos
coloridos, das cores do seu céu,
sua mente,
seu chão.
Pela Cor Negra de Sol a Sol
Foi metido no tronco,
supliciado com o viramundo,
castigado com o cepo,
maltratado com o libambo
torturado com a golilha, a gargalheira,
chicoteado com o bacalhau,
açoitado e salgado.
Habita desde as atalaias das casas,
o tempo dos Palmares,
dançados nas Alagoas,
com plumas de palmeira,
folhas de bananeira.
O Rei negro,
de gibão, calções brancos,
manto azul,
coroa na cabeça,
espada na cinta.
Os caboclos,
de arco e flecha,
tanga e cocar de penas.
O combate com adufes,
mulungus,
pandeiros e ganzás,
o desafio dos contendores.
Os sinos repicando,
foguetes no ar,
a venda dos palmarinos,
o quilombo destruído.
Nos negros delírios,
um sonho de terreiro,
um terreiro bendito,
de Mané preto,
feiticeiro.
Desce,
preto velho,
no barco de sexta-feira,
num cavalo arredio
para contar o futuro do Brasil.
Por Jangada e Ubá
Descendo pelo mar,
subindo as montanhas,
no cocuruto da vaga,
no meio do vendaval.
Comendo peixe,
comendo caju,
fazer mocororó
vento da terra,
vento do mar.
Ubá de guapuvuru,
lançar a rede no mar,
perna de moça, cambucu,
brejereba, sardinha, caratinga,
minha mãe, meu pai.
Pescar o xaréu,
nas parias de Armação,
chega-negro, carimbamba,
cantar para a Rainha do Mar,
Iemanjá, Princesa de Aiocá,
Oloxum, Janaína, Inaê,
esposa de Oxalá.
O saveiro na Bahia,
as velas de alto-mar,
o desenho da sereia,
um poema pro vento,
pro barco de Iemanjá.
Siará
Siará Grande, Siará mirim,
a relação do Maranhão.
O charque, a carne do Ceará.
Soares Moreno se despindo,
pintando de jenipapo, o rosto raspado,
com arco e flecha.
Martim, guerreiro branco, e Iracema, de
José de Alencar.
Bem-vindos os flamengos, um sonho de
Mathias Beck.
Terra das Palmeiras
Fróes de Abreu, Claude d’Abbeville,
Gonçalves Dias.
Juçara, buriti, bacaba.
M de mentir, mentir à imaginação,
a tradição, bumba-meu-boi, folias
do Divino, reisados, lapinhas, veludos e
miçangas,
o totem.
O arroz-de-cuxá, casquinhas de caranguejo
com farinha d’água, frigideira de camarão,
queijo de S.Bento, bacuri, buriti, murici.
O índio comia um boi, o fazendeiro matava um
índio. Aldeia Chinela, terra de Nina Rodrigues.
Terra de Diogo Dias
Sesmaria na várzea de Goiana,
o mameluco de Olinda, em Capaoba,
seduzindo a filha de Inaguaçu.
Pu’Ka
Não à Nova Lusitânia.
A altivez dos visgueiros,
os cajueiros, na terra,
Holanda e Portugal.
Leão vermelho sentado,
embriagado pelo
aroma das grandes caldeiras de mel.
Rio Mau
Indio sem eito, vaqueiro de cavalo.
Guegês, tremembés, acoroás, arais.
Apesar de D. José I, os herdeiros são
os sesmeiros.
Pi aú, estrela de prata, tucum,
buritizeiro, seringueira, caroá, angico,
cajueiro, oiticica.
Capim mimoso, xerém e baio.
Cirijipe
Ferrão de Siri, gy-pe,
caranguejo.
Entre águas, as dunas de areia,
Aracaju, lugar dos cajueiros,
cajueiro dos papagaios.
Cariris
Caicós, juremas e
panatis,
avôs dos vaqueiros,
cantadores, nas vaquejadas do
sertão.
Irmãos opostos dos mulatos,
cabrochas, mamelucos,
caboclos, crioulos, dos veios
que vieram
dos paiacus, paiins,
monxorós, pegas, caborés,
icozinhos, panatis, arius,
janduis, potiguares, da
terra de Natal, Rio Potengi.
Terras das guerras do
Alecrim e da Manjerona,
de poeta, de jornal,
do cangaceiro gentil-homem,
Jesuíno Brilhante, valentão.
Terra onde se defende o Brasil,
Fortaleza dos Reis Magos,
salinas,
jangada a velejar.
Para os olhos
saciar, acaçá, alambica,
aritica, aluá.
O-E
Dos Andes ao Atlântico,
cortado pelo Equador.
Seringueira, caucho, balata,
piaçava, patauá, guaraná.
Extensas no Rorairama, aproveitadas no Trombetas,
na Ilha do Marajó.
Deserto, japoneses, tupi,
caraíba, nuaruaque, jê, pano, tucano, mura,
catuquina:
Orellana até a foz do Amazonas.
O Grão-Pará, o conhecimento pelas
tropas de resgate e os droguistas do
sertão.
Uwakuru
Pelas águas,
as gaiolas,
o Eldorado da borracha,
Tarauacá,
madeira,
castanha-do-pará.
O Purus,
o Juruá,
a nascente do Javari,
José Plácido de Castro,
seguir o curso dos varadouros,
mata adentro irromper a
Expedição dos Poetas,
versificar
a grandeza do Brasil.
Terras Baixas
O calor e a chuva,
a hiléia brasileira, o
cerrado, as gramíneas e manguezais.
A borracha, a cana-de-açúcar, a
mandioca, a castanha-do-pará.
Serra do Navio, Porto de Santana,
Macapá.
Por um Rio Chamado Amazonas
Descem tuas águas os cambebas,
manaus, muras,
munducurus,
um paraíso de terra,
floresta,
mandioca,
borracha,
petróleo,
madeira, guaraná,
juta,
arroz, feijão.
O caboclo cativando em maués o guaraná,
tua casa palafita,
de palha,
tapada de madeira,
é filho do cabano Maparajuba e Bararoá,
concebido pelos Autazes,
barganhado pelo regatão,
bisneto dos muras,
açoitando o Vale dos Purus,
as águas dos paranás,
pelas montarias
os arigós.
Amazonense,
feito de juta e pau-rosa,
que extinguiu a escravidão em
homenagem à pátria e à civilização.
Tua água se ilumina pela meia-lua,
tua alma se incendeia por uma gaiola,
teus suspiros têm batizados,
Ucayali,
Marañón,
Negro,
Caquetá.
Tuas mãos são como firmes,
teus olhos pretos como a várzea,
olhos que navegam como as marombas,
na solidão,
solidão imensa das várzeas
e dos igapós.
Par’á
Na boca do Nhamundá,
Orellana se encantou com as amazonas,
das terras dos pacajás.
Os vasos dos marajoaras
cantam histórias de arrepio,
que ainda enfrentam os olhos
no Círio de Nazaré.
Pimenta do reino, Major Barata,
figuras de bem-querer,
tacacazeiras de esquina,
bandeirinhas de açaí,
almoço de maniçoba,
pirarucu assado,
cabeça de peixe no tucupi.
Noites no Guamá,
um pé de tajá,
na porta da casa,
beber açaí para
ficar no Pará.
Cândido Mariano da Silva Rondon
A ipecacuanha, a cassiterita, a borracha,
os seringais, os espanhóis, gregos e bolivianos.
Na “língua de Mariano”,
morrer se necessário for, matar nunca
Entre 24 e 26 C
1500-2000 mm de chuvas,
arbustivas e herbáceas, campinas e
cerrados.
Do Monte Roruimã ao vale do Rio Branco.
Na Foz do Tacutu, Manuel da Gama Lobo,
subindo a Urariquera até a foz do
Araricapará.
Boa Vista.
Uru
S-N, das Almas, do Sono,
Serra dos Pireneus,
Rio Pará.
Tubarão
O ferro que se escoa,
as minas das Gerais,
Canaã de Graça Aranha,
Guanabara,
favela, Central do Brasil.
Glória
Entre Moreno e Palmeiras,
a terra capixaba
que, em Retiriba, Anchieta
escreveu
De Beata Virgine Dei Matre Maria
e escreveu
De Gestis Mandi de Saa,
a luta do rio Cricaré.
O ferro de Tubarão,
o café em Linhares,
Graça Aranha, em Leopoldina,
escrevendo Canaã.
Cachoeira Iracema e
Lagoa Mãe-Bá, em
Guarapari,
Cachoeiro do Itapemirim,
de Rubem Braga,
Carta régia para
deter pela força os
botocudos,
Insurreição dos Queimados,
façanhas do alardo,
dança do esquinado.
Correr Pedras, Secar Cascalho
Uma terra,
a terra onde nasci,
tem o perfil de um nome,
o nome da liberdade,
tem o nome de
Joaquim José da Silva Xavier,
o Tiradentes, mas também de Silvério dos Reis.
Ouro Preto,
Diamantina,
São João del-Rei,
Sabará,
Pitangui,
Lobo de Mesquita.
Antônio Francisco Lisboa,
o Aleijadinho,
barroco universal,
doze estátuas,
talhadas em pedra sabão.
Manchester,
Juiz de Fora inglesa,
Libertas quae sera tamen,
dois ramos de fumo,
dois ramos de café.
Vamos convidar,
em Minas Gerais,
o chibamba
para comer tutu-de-feijão,
dançar na Festa do Divino,
correr pedras,
secar cascalho.
Guanabara
Indios guaianás, tamoios,
goitacases, terras de Ararigbóia,
onde se planta Magé,
Inhomirim, Iguaçu,
Angra dos Reis, Parati.
Jogar futebol no Maracanã,
bola em Caio Martins,
marchar em Agulhas Negras,
tomar banho em Icaraí,
um bronze de Copacabana,
saudade do Mengão.
Baía de Jacuecanga,
perto de Angra dos Reis,
o sal de Cabo Frio,
comer o olho-de-sogra,
a goiabada-cascão.
A vista do Pão-de-Açúcar,
um romance clandestino,
no norte ou na zona sul,
Catumbi, Rio Comprido,
Catete ou no Leblon.
A veia desta cidade,
os faróis,
na Avenida Brasil,
de onde se ganha o mar,
se perde a Perimetral.
Terra de Tibiriçá
O sague de Araraí,
o braço dos guianás, tupis e
o cacique dos guaianases,
os tamoios, a aldeia de Iperoig.
Os bandeirantes paulistas,
Araçatuba, Araçoiaba da Serra,
Anhembi, Arandu, Araurina,
Araraquara, Angatuba,
Apiaí.
Para os sul de Cananéia,
os tupis-guaranis,
Moóca, Belém, Brás,
São Paulo, colégio para amansar índios.
Pro Brasília Fiant Eximia,
Saci-Pererê,
negrinho com uma perna só,
cavalo de três pés,
bate-pé, caiapós, corriola, cateretê.
A terra do automóvel,
um café, de gente de toda parte,
um café de Paris numa pizzaria do Brás.
Brasileiro, capital paulista.
Congadas de Atibaia, Folias de Reis, Guaratinguetá.
Terra de Cassiano Ricardo,
passear
no Viaduto do Chá.
A guarda dos bandeirantes,
em cima dos arranha-céus.
Até Onde Sopra o Minuano
Vento verde,
sem nome, sem rumo,
vento manso, vento bravo,
de gente brava
que se banha nas águas
dos cincos rios
de Porto Alegre.
Erro na geografia,
nos contornos deste vento,
que venta mais que o seu sopro,
até os confins de Manaus,
aonde vai a montaria,
de um sonho brasileiro.
Pulo oitenta metros no salto de Santa Maria,
nos saltos de Iguaçu,
gritando na Garganta do diabo,
correndo pelos castelos
dos fantasmas de Vila Velha.
E posso também esquiar nas dunas brancas
catarinenses,
um salto no rio Negro,
escondido no
Parque das Pedras Brancas.
Vento maluco, terno,
que visita pastagens e invernadas,
nos olhos dum Hereford,
Devon e Charolês.
Dançando no ritmo das gaivotas,
no balé gusano,
no balanço dos arrozais.
O trigo que se estende,
desafiando a geada, o frio,
numa aliança repentina com
os plátanos queimados,
o vigor da gente adulta,
miúda,
grande, pequena,
que bebe “schnaps”,
cerveja,
no rito do álcool, de soja,
café.
Depois do mergulho em Camboriú,
Torres, Cabeçudas,
e pesca na Lagoa dos Patos, Lagoa Mirim,
o casamento do Gravataí com o Sinos e o Caí,
do taquari com o Jacuí,
mirando a mirada do Vale do Itajaí.
Sentar-se à mesa farta,
da serra gaúcha,
para beber com canela,
o café colonial.
Na roupa, a terra roxa,
mais forte que a geada,
ouvindo gemer o silêncio do pampa gaúcho,
irmão legitimado dos chorões da praia de Belas,
irmão assemelhado do poeta Augusto Meyer.
Até onde sopra o minuano,
mi,
nu,
ano,
vento que venta forte,
nos ventos deste Brasil.
Para Nã
Nhapecani,
um falcão paranaense,
de asas estendidas,
da sua cor.
Porco preto,
ninguém sai de
casa em noite escura
sem encontrar
para comer o barreado
sem desgostar.
Caririba, Pien,
Piraquara, Peabiru,
em Paranaguá,
Hans Staden, enseada
em Superagui,
as impressões do Brasil.
O loiro café,
o território que se inicia
na
Serra da Esperança.
Mu
Jê, tupi-guarani,
guaicuru.
Os catecúmenos fundaram
os Sete Povos das Missões
Orientais.
O gado opulento,
na Vacaria dos Pinhais.
Usar o chimarrão,
comer churrasco,
manejar o laço, a boleadeira.
Render homenagem em
Caiboaté a
Sepé Tiaraiú.
Ouvir o Vale do Rio dos Sinos,
a imigração alemã.
Terra gaúcha,
em cuja bandeira se escreve,
Liberdade, Igualdade,
Humanidade.
Caibaté, Camaquã.
Cacequi, Cacique Doble,
Cangussu, Carazinho,
Caiçara.
Não esquecer Júlio de Castilhos,
no barco de Melancias,
o medo do negrinho do pastoreio,
os tesouros da salamanca de jarau,
dançando bambaquerê.
Melhor Gentio Desta Costa
Manso como os carijós de
Juriré-Mirim,
essa Ilha dos Patos,
mansa barriga-verde.
Gente de Araguari,
Araranguá, Botuverá,
Campo Erê, Cunha Porã,
Joinville, Blumenau.
Cruz e Sousa,
Anita Garibaldi, de cal e pedra
plantados em Florianópolis,
nas veias de cada um.
Gente que dança o pezinho,
pares em roda,
de mãos dadas,
adiantando o pé direito,
a ponta no chão.
Comer bijajica e rezar
na Festa de São Sebastião,
o banho nas praias de
Jererê, Sambaqui,
Cacupê e Canavieiras.
As cores de Vitor Meireles,
nas telas deste Brasil.
Criciúma, Uruçanguá e
Aracanguá, um ramo de trigo,
um de café.
10. O Dia em que Deus viajou
(Editora Clássico-científica, 1974)
Planetas
Nos traços do céu o avião e as veias do cérebro cortando
as luas do mar.
O cheiro do café queimado pinga as gotas de chuva,
Enquanto o ovo está fritando, na frigideira.
Pelos quilômetros de distância os calções largos do menino
magrinho.
O balão ruge, o balão solta, o sorriso que se faz para a
abertura das janelas do automóvel,
preso no sinal de trânsito.
O balançar das ondas.
E os ovos que ficaram prontos.
11. A ÓGEA E A CALHANDRA
(Capital/sef@rad editorial, 1997)
Síndrome da Ógea e da Calhandra
(Uma Teoria Sobre o Medo)
Numa observação etológica, a ógea, ave de rapina de pequeno porte, às vezes,
usada na altanaria, paralisa, com sua presença, pássaros como a calhandra. Eis
na correlação da Natureza, Caim e Abel. Na vida individual, o sujeito imobiliza,
com um esgar de ódio ou até um sorriso hipócrita, o Outro. Às vezes, o parente,
o amigo. Uma criança, na hipocondria, mobiliza toda a família, que passa a girar
ao seu redor. No final do espectro, a face monstruosa de Hitler, na histeria dos
shows e desfiles das cervejarias, desembocando em Auschwitz. Meia dúzia de
militares, na América Latina, sufocam a liberdade da nação, paramentados com as
máscaras do horror. Um guarda, com a arma solitária, mantém a multidão presa ao
fascínio hipnótico do cano do fuzil. É o intercâmbio de papéis. Agora, a
Onipotência: depois, o Pavor numa sucessão de alternativas e variáveis. Os
chefes e sub-chefes, os escravos e os sub-escravos. No cosmodrama, as multidões
que se inclinam ao êxtase da posse consentida. O touro e o toureiro. O mistério
do Olho, num fluxo de Sagrado e Profano. As religiões e os mitos que se iniciam
mansos, o Cordeiro, e, ao se fortalecerem, arrancam o manto. Surge a Inquisição,
o Demo que, no imaginário, no simbólico e na fantasia, povoa o pesadelo do
infante que, assustado, congela-se em seu berço e não se mexe. Não se mexe, pois
a Bruxa vai pegá-lo. A paranóia é a gênese da megalomania. Na imprensa, o
reflexo do Perigo: incêndios, morte, destruição, sangue e sequestros. O recado
sibilino do Caçador: “Fiquem quietos, dentro de casa, que cuidaremos de vocês” e
a meta: linguagem ambígua e insconsciente que caracteriza o fascismo. O
seminarista Stalin rouba a Utopia da Libertação e promove a ideologia do
achatamento silencioso e concorde. É preferível errar com o Partido do que
acertar sozinho. Internalizadas as figuras no registro selvático, habitam o
verso e o anverso da personalidade em um jogo especular que nunca se demitifica,
sendo capaz de trair as mais generosas ambições da metanóia. Os hinos, as
festas, o funeral e a saudade, o ritmo e o descompasso, o riso e a gargalhada, a
lágrima e a filosofia. No todo, o pulsar dualístico.
Sonho
Repousa
o sonho
na janela
Late vento,
mesmo que
ausente.
A pomba
pobre, fantasia
o fogo e
delira
De longe,
renasce
____________________________________
Morreu. Viajou. Foi-se.
Terminou. Acabou.
Mas, naquele instante só o
Ausente é presente.
Castigo
Orfeu desce ao Hades
para se resgatar de Eurídice.
Mata a mulher que ama,
desobedecendo Perséfone.
E mata sua sombra,
porque aquele que desce
ao Inferno mata o seu amor.
Inteligências do Azar
O lento rei se acautela e ouve
o ardiloso Bispo a intrigar o
Cavaleiro à Rainha e aos peões
na torre ameaçada.
O ás de copas vê derrapar o valete
desastrado na ladeira e observa
o coringa, maquiando, maquinando.
Pôquer e xadrez, os jogos,
damas e cavalheiros giram a roda,
outra vez nos dados, no Cassino.
Eternidade
O Deus Pã morreu sim.
Não obstante Rimbaud e
Fernando Pessoa,
todos os deuses morreram.
Mas um só não morre,
Porque não nasceu.
Mudança
Dest/arte,
o aedo transforma
a vigília
em aurora.
Reprodução
A sonata se
ata entre Cézanne
e uma foto engarrafada,
nas ondas do vai-e-vem,
de um neurônio que
naufraga e flagra a
délivrance daquilo que jamais jaz/mim.
Alla Tie Moi Tanta Philos Dielexato Thymos?
Com medo, Ulisses,
Menelau,
Agenor,
Heitor e até
Aquiles.
Assusta a alma o monólogo consigo mesma.
Céu
Se dois souberem, não mais será
segredo.
E se três andarem, se faz algum
engano.
Se um olhar, quatro ouvirem e
cinco falarem, Babel, que
será de ti?
Babel? A mentira vertical. Ai de ti.
Bashô
Um haicai, literalmente: “Do pai e da mãe/nostalgia absoluta/diz o faisão”.
Transcriei: “Somos, e até o faisão, a infinita lembrança dos pais”.
Oriente
Dô,
Bushidô,
Kadô,
Sadô,
Butsudô,
Desespero
A alma,
a Vergonha,
a Temperança,
timídas donzelas
que o desespero contempla.
Enigma
Adão e Eva,
na comédia do Paraíso Perdido,
alegoria da Queda.
Mito e mimese, em que isensatez a Sorte reina?
Jogo
Este livro foi composto em duas tábuas:
preto e branco, como no jogo de damas,
vogal e consoante,
ponto e contraponto,
ato e ante-ato.
Inocente ardil.
Rua Santos Dumont
No Carnaval, no bloco sujo,
de vassoura na mão (espada?),
tocando tamborim e reco-reco.
A tarde, a fantasia de “cow-boy”,
o Zorro, o primeiro revólver,
inútil, na cintura.
A Estrela In/significante
Que importa sua luz morta ou distante,
fria e ausência de estradas, e nuvens de
linho,
Num caderno empoeirado um vate adormecido
imaginou seu estrelato, e
no firmamento, riscou seu nome,
num desenho.
Estrela abandonada,
por um o/a/caso
qualquer,
Em memória iletradas.
As noites
em que,
a insônia
faz acordo com os inimigos,
e
o sono,
o império do matagal.
A busca
Um olhar, o sorriso com aquele
aceno,
a dolorida consciência dos
aquens,
a procura retentiva do passado,
talvez o sono na espreita
dum sonho maravilhado
que recomponha, que ressuscita.
A Despedida
O instante da ida, percepção
final, quebra da rotina,
o hábito encerrado.
Encontro entre a fatuidade
e o eterno,
o vácuo, a memória do
poderia ter acontecido.
A memório que irá
reinar, doravante, como
único obstáculo ao fim.
Em Letras de Sonho, Escreveu Fanny
Quisera pagiar o
teu choro,
para secar tuas almas,
e com meus dedos trêmulos,
falar de nossa derradeira
despedida.
E pode dizer-te, agora
que o limite se encerrou,
e nenhuma palavra, jamais
será ouvida,
minha mãe,
que só pelo silêncio,
as turvas imprecisões, e
essa infinita distância
que inaugura você, no
meu útero,
quiçá,
não seja mais
preciso palavras porque
em paga de antes,
agora te carrego, para
sempre, na carne da
memória.
________________________________________
Porque nós não
somos gatos, não é?
O Olhar Do Geólogo
Na cratera lê uma fratura
do tempo e define a ondulação
de priscas eras.
O Cavalo E Eu
Extasiado fiquei olhando os
olhos do cavalo. Mas enxergava
mais o êxtase que os seus olhos.
O cavalo, porém, me olhava e
(parece) me enxergava.
E assim, ficamos tão perto nos
olhando, e, no entretanto, as
infinitas distâncias,
sei que jamais o enxergaria.
E, ele, o cavalo, quem sabe,
pudesse, realmente, me enxergar,
como eu mesmo, jamais me veria.
___________________________________
Vento, insano viajante,
Impaciente criatura,
que notícia, brilhantes
ausência, desgraças iminentes,
eminentes.
Presente na saga de Nimrod,
no sopro da Criação,
na cavalgada de César,
na mulher de Putifar,
no enxerto de Xeréu,
nas axilas de Elza ninguém,
Júlio-qualquer, Ricardo que não sabe nem viu,
as fragatas de Nelson,
bandeiras em funeral,
adeuses de lencinho.
A hora da angústia vaga,
a luz dos olhos presos,
e as coisas que esconde,
em respostas incoerentes.
Vento, inconstante soberano de
reinos fugazes.
Chovendo, ou
sol, outono, inverno,
que folhas são essas
que caem,
na cesta ávida de lixo?
“Maddadayo”
(ainda não) suscita a
resposta, ao jogo esconde
-esconde infantil japonês -
“Mada Kai” (já esta
pronto?), de que
ainda não é a hora do Messias.
Dual
O Exílio encontra o Paraíso,
Ventura e desventura se roçam na
Primavera que,
Segunda mentira,
se estreita na larga emboscada.
O verde e o vermelho, em plantel
de sons, ao surdo arrebatam seus
olhos de coral.
Exclama o grito na esquina,
tirano suave que encanta.
Quem sois, quem sois, os menestréis de
ontém.
Voilá!
O amanhã se doma em artes
marciais, piquetes peregrinos.
O Cavaleiro do Fagote
São arrepios em sons que,
inter/escalam.
A voz morta que buzina
a fotografia,
o pássaro renitente que
sacode o fio dos cimentos
em luz apagada e,
nunca,
finalmente,
ao fundo e baixo,
o disco conversando com
os apitos infantis que deslizam,
sobre o patinete,
meu,
inacreditável elevado.
O Gato de Jade
De minha estimação.
Na cabeceira decorativa orna
o inquieto mutismo e a
vaguidão.
O Avesso
Entre consoantes em sânscrito,
paliçadas desarranjadas,
eu (ou) quedo enfumaçado.
Sibilas ardorosas teimam as
noites e a Vesper indescente.
Nada se encontra, neste
floral extinto.
Nem pegadas, vestígios, pistas,
sinais, insultos ou rezas.
É o avesso libertino que
impera muito fortuito.
Um Gênio
Sem tolerar a vulgaridade,
pronto ao pacto demoníaco que
ri até das últimas proezas.
O impulso da fala empoeirada,
no fortuito condescendente.
Ator picante no riso
alegórico, de calma integridade.
Caem os anos ou os galhos
das danças na velhice,
Como um pássaro de pé quebrado.
Nenhum roteiro ou trágica
moldura.
Nada que não seja a
cinzenta dama do deserto.
De pé, de frente para o sul,
exclamava comovida:
“Quem vem lá?”
A interrogação se perde nas
trilhas apagadas.
E o nominativo registra
um número qualquer
414.
O número do apartamento,
do bilhete de loteria, da
sepultura ou do registro de nascimento.
_______________________________________
Quem enganou,
o
ponteiro do relógio.
_________________________________________
No mar,
enxergo sequóias assassinas,
em texto de ciganos. Por entre a prata
matizada, arrecifes e arrebentações espelham
lutas do porvir
Marinheiros embriagados, sóbrios, semi-embriagados,
luzem fantasmas de prôa.
No porto enraivecido o travestido lilás
se dança nos vestibulares eternos.
E que eterno? E que vanguarda? E que irradiância?
Tudo mergulhando em ondas do acaso.
Os encontrados acasos que velhos diários
registram nas marés.
Marés.
Marés, rútilo passeio que ponteia
os ângulos de sombra e luz, horizontes
apalhaçados de cismadas
alusões.
Viagem
Num carrinho de super-mercado,
ele viajou,
glorioso,
comandante de mil espaço-naves.
O irmão,
indiscreto, na
fraterna/idade.
Na hora de
ir embora,
ora e uma
lágrima se dependura
na pálpebra.
Olhar triste, humilhado, irritado,
sem entender,
a tristeza de ir emb/hora.
_____________________________________
Em alta madrugada,
o Passado e o Futuro,
de braços dados roçam
nos espaços ao som
de pássaros de outra
tarde.
______________________________________
Os sonhos,
amarrados nas
praias do passado,
se negam viajar.
_________________________________________
A certeza é
o deserto.
_________________________________________
Tal o “aedo” que ao
ler o poema, sente o
ouvinte e altera o “pathos”. E assim as estórias
se transformam e um dia
se transforma em noite.
Seu Lar
Por entre raios e trovões,
a orgulhosa arrebentação
da sina favorecida.
Cores flamejantes - vermelho e turquesa
à receita, prata e sinergia à
esquerda.
Se os rouxinóis soubessem
e as pragas no deserto, que
a liberdade é a fonte das
azaléas.
Ao entrar e ao sair,
o destino livre do puro
impulso.
Habitar outros sonhos,
outros sonos.
A História de Ruth
Marrecos e peixes pintados,
e convicção de esperança,
pincéis que tracejam na praia.
A cronologia contra os dias
e romances de luzes recalcadas,
em fogos que se apagam,
chamas de vitórias.
Tratados harmônicos em nobres
diatribes, diabruras, enlaçam
laços de sonos que convergem
para a própria cinza,
Fênix adormecida,
e/namorada
Iconologia fantástica.
A Saga Hibernal
De era a hera,
quem sabe, era.
Andrômeda em ruínas de marshmellow,
súcias espreitam os tempos.
A sede na colina, sobe e sabe.
Tudo no 3x4 da ruína
que passeia.
Dois meninos se encontraram,
e o desastre acontece,
pois um queria jogar
bola e o outro também
não.
E ali ficaram, por uma vida
a fora -
um olhando em dentro,
outro olhando em fora.
Um rubro dia, o espelho
se encolheu, e os dois
meninos se acolheram.
Um se percebeu, e o
outro viajou. E aquela
vida - pobrezinha, ali se acabou.
E, naquele instante,
quel Fênix, a alma
a encantou.
E agora, nas tardes de
lua cedo, o menino,
com saudade, se lembra
de então,
daqueles coitados, seus
(Filhos, pais?), irmãos e
corre de berço em berço,
esperando, quem sabe,
algum milagre, e
num mágico espelho,
a profunda reflexão
(revelação?) -
aonde se esconderam
as silhuetas
que enxergavam
as tangentes,os
deslizes, o lento
desbordamento das encostas
da montanha.
Suzana,
de nuvem e chuva,
das amarelecidas páginas,
dos filmes de Zorro,
a linda menina, vem,
cavalgando.
E nos lábios a romã.
Minha filha,
meu sonho, o mais
delirante imaginado.
Roubo da fantasia,
flores,
pingos de chuva.
Horas de sono,
a rua que acende
asas, pássaros.
____________________________________
Gol do Fluminense, nem que
seja de mão,
escanteiro,
scandiare.
_______________________________________
O crime por telefone, o amanhã
que será uma pena, se Deus
quiser,
você virá até
the end of the year.
_______________________________________
Uma só confusão, que assim
será logo, logo, a infância
acaba e a ponte se rompe,
Good-bye, Good-evening, sciau
shane dank.
Então era isso?
_________________________________________
Lilás
Escrevi o lá, o sol e o
dó. Que dó do lilás, a
fumaça afogueada fugindo
apavorada, do fogo da
moita, à beira da estrada.
Lilás, o cego adormecido que
no sonho atribulado enxerga
o Lilás de sua cortina
impenetrável.
Lilás, o canto enevoado que
sai da boca da mãe arrependida,
do passo que não deu. Ou deu.
Lilás, os lilazes da amora que
range na saudade enegrecida (
de outro fogo amendoado, quadrado,
geométrico, germinado), duma certeza nihilista.
Poderia ler cás o agora que
aqui, no plural implora
outra cor, qualquer - violeta,
jade tigrino, cinza gatuno,
preto do ontém,
mas não.
________________________________________
Pobre verão,
só com a
terra e o céu.
__________________________________________
Exceção
O latido no cão,
a ovelha em seu balido,
no pássaro as vestes matinais,
a água que se resolve no
mar,
dos céus, a chuva caindo, grave
tempo,
porém, o homem, cruel desalinho,
corre e percorre,
em vão.
A sua falta, e, auto-remendo,
machuca sua estirpe e a natureza,
coração,
agravado.
A Outra Revolução
Uma estética escaldante, no
limiar-begin,
os dramáticos anjos em frias
ruelas.
Máscaras, labirintos, que
simulacros sonolentos,
os pássaros fogem e
as almas fulgem.
No inferno-strasse-
as asas do desejo,
um visto no passaporte.
Que apoteose barroca!
O suspenso horizonte futuro.
______________________________
Habitante
da
morte ou do sono -
quem saberá?
Mistério
inexprimível da vigília.
Passagens
ilha e mar,
vôo,
beatitude e vento.
Talvez nunca mais
ou, talvez,
retornar,
à Terra Desconhecida.
___________________________________
Nossas sombras,
em algum lugar...
Zig-Zag
De jipe ou a cavalo,
as juras de sempre e
nunca mais.
___________________________________________
Tanto a noção freudiana de pré-determinação
quanto o fractal, e a Teoria do Caos, fazem
ressurgir, a única pergunta.
_______________________________________
Para cima não existem bosques,
Nem para baixo, rios caudalosos.
Assim, pergunta-se,
como escrever com a
mão esquerda, sobre delicados
prados, ou luas visionárias.
_______________________________________________________________
A tribo corre sempre na mesma direção. Mas para ineludível decepção,
a beleza caminha em marcha-a-ré.
___________________________________
Chovem as águas do
rio que se distrai
na rasteira fantasia.
Horizonte Possível
Por entre a fresta na cortina,
sóis em lâminas descrevem
viagens.
Sugestões absurdas em que os
olhos desviam o pensamento
do mar, paisagem na aquarela
quieta.
Resignação
Me faça, faça de mim o que quiseres,
uma ponta na pedra,
ponta de pedra, um suspiro de cobre,
um biltre encanecido.
Que adianta o cavaleiro angelical, e
a corrente no mar equalizada.
Sabemos, ou ligeiro duvidamos, que
todo amor, no fim, triste pena,
irônico dolência, tudo se dissolve
numa
lata de refrigerante, ao
lixo, reservada.
Pensava, e me fazia, enquanto
defronte a vitrine, promete ao
transeunte:
E garante o campo do
inimaginável“satisfação garantida”.
Portanto, amor, faça de mim o que
não quiseres, para que me expatrie
da vitrine, sem satisfação ou garantia.
_______________________________________
Às vezes, poucas léguas
são o mundo todo, e
às vezes, ora, às vezes,
o mundo todo são
tão poucas léguas - para
o fugaz cavaleiro.
________________________________________
Inspiração, imagem,
sou o que não sou,
e um flamingo
perturbador alcança
as frestas, da porta
fechada.
Cenário Irrecusável
Ao Sol do inverno,
o gato-rei, senta
no toco d’árvore.
A metrópole indecisa planeja
um programa vespertino de Tu
No céu, nuvens embriagadas
caçam a Arca ou
um tesouro.
Já.
O gato salta e mia o
acorde de qualquer ribalta.
______________________________________________________________
No haibun, gênero literário japonês, a prosa segue e acompanha os
poemas - haikus.
Matsuo Bashô, segundo Donald Keene se leva a indeterminação na arte japonesa;
“Galho seco
e, nele pousado, um corvo:
tarde de outono.”
Sobriedade e sutileza se compõe a travessia.
Transcrevi:
“No galho morto,
o vivo corvo,
outono
vespertino”.
Sim, Claro, Jamais
Errantes nas sombras
o nada febril,
sentir o sopro da morte,
o nome, humor.
Uma ilha de paixão, mão chão.
A ciberocracia instala outra
ordem de poder - a democracia
massiva, o gosto medíocre
Os avatares irônicos simboliza
frequências que combinam vogal -
consoante - vogal.
Se você fosse você,
como seria sua vida?
Uma rede de intrigas e
possibilidades, engano e facilitação.
Vagarosa, mas firmemente você
conseguiu o que menos queria.
Viveu o Outro
Mas o Outro não viveu você.
E, assim, na perdição você se
encantou e não viveu.
E Hoje, Amanhã, Será o Ano Passado
O ano passado,
todos os ramos estavam, em
alegres posições,
as frutas, em madura cor,
o sabor, alerta e indormido.
Os anos passados,
agora, a lembrança que pode,
a qualquer momento,
surgiu num derradeiro
estímulo de luz, cor,
som.
O ano passado,
memória a evocar,
qualquer palavra, um gesto,
sorriso, riso.
Os anos passados.
Na Manhã, Ainda Virgem
Virgens pássaros,
na recordação
entoam rouxinóis de
vinhos amendoados.
Debaixo das cobertas,
o calor contrasta o frio cortante,
da madrugada.
Águas serenas de rios antigos
percorrem, gentís e caudalosas,
as veias, músculos e tecidos que
se alonga e distendem.
Assobio cantos luzentes, ao
coro do presente “bem-te-vi”.
E, entre o Tudo e o Nada,
reclino, sossegado, pois
Ele conforta.
O Sonho dos Corvos
Atrás, um sol de chumbo,
por entre as chuvas, de pretas em
ouro.
Solstício, enluaradas pausas invernais,
pássaros de renhida plumagem.
O monte vermelho, inteiro de mortos,
as árvores e os pêssegos, a
nevasca e o
arco-íris.
A Gralha do Outro
O anjo em amarelo,
viajando de céus em flor,
inspira um pedaço de jornal.
Quem, a gralha outro,
a face rosada, em flor,
nos lábios,
três coelhinhos.
__________________________________
Porque azul é o
céu e os promontórios
são terrosos.
Porque o imã não
atrai a empatia e nas
colinas imberbes se
escondem espiões.
Kuk (1)
A idolatria que
rezava, o canoro
céu, o ícone angelical.
Kacupacal (2)
Nos espíritos dos tempos
se abre o caminho
para outro
ah miats (3).
(1) - Pássaro quetzal, assim chamado pelos mayas que o usavam em seus ornamentos
plumários.
(2) - “Escudo Ardente”. Nome do grande chefe maya, em Chichén Itzá.
(3) - Homem sábio e culto (maya)
Vela
Não creio nas primeiras lembranças,
que fogem e fuligem.
Mas alguma luz na tela permite
imaginar (lembrança),
o corre-corre, minha
mãe aflita - A luz queimou!
E meu pai, sereno, acalmando-a,
- Vou acender as velas.
Distribui mágico, pela casa,
de luz - tão mais fortes,
hipnóticas que a gelada luz
da eletricidade.
Pontos gentís, humildes, mas
translúcidos, inquietos, combativos.
Agitado e paralisado, corro
de ponto a ponto, acompanhando
a romaria paterna (da cozinha ao
banheiro, aos dormitórios)
plantando luzes, poderoso.
Cativado, me detenho entre as
estações, em extâse, diante do
cristal em brasas, a chama que
se ergue, a fumacinha perturbadora
e feia.
Quando, anti-clímax,
o depósito de gordura que
se esvai, ameaça
com a
escuridão.
_________________________________
Uma ave estrangeira,
ocupou, nessa madrugada,
o lugar do bem-te-vi.
Embora suave, seu canto
invadia um território alheio.
E, por toda a manhã,
outros pássaros adivinhavam,
com som triste,
o deserto da flauta mágica.
_____________________________________
O trinado tenebroso
revela os sete
nomes dos endereços
da indentidade.
Os canais da loucura
revelam o fracasso,
em sua face.
Oh, Rei macabro, com
medo do escuro e
de portas abertas,
cinematografando os outros.
Fanes
E Pan se diverte e corre, entre os mares das
estrelas,
Cometas e ursos,
perpassam as nuvens,
enquanto Centauro mergulha
em notas de arrepio.
E Esta Escrita
Saga, no islandês hodierno é qualquer narrativa em prosa. A palavra se origina
de segja (contar). Modernamente se faz distinção:
_ Saga (estória)
_ Lygi saga (Aventura extraordinária)
_ riddara saga (Heróica)
_ islendinga saga (Familiar).
A proximidade das Idades Médias à Islandia, nos séculos seguintes à Idade dos
Sturlungs, fez com que o impulso criativo fosse aplicado e esgotado nas sagas
familiares.
Sem expressão os riddara saga e lydi saga, se perderam naqueles séculos de
sombra e medo.
Vida Provisória
Regar planta, após a
chuva noturna, e
ouvir o canto passaral
que se afasta, a
difícil luta indormida
entre o sol que se tenta
e a sombra da última
neblina.
Palmeira - do - Ceilão (*)
Só, o mistério do amor, rega
os cachos que,
na chuva de flores,
molha a mentira,
solidão.
(*) - planta díclina - suas flores masculinas polinizam as femininas no mesmo
pé.
_________________________________
Pio de coruja,
a pieguice da orquídea.
____________________________________
Apressado e solitário,
se retira o fantasma
No seu rastro o
perfume, âmbar e geléia
de jaboticaba, jaboti,
esquiva ruiva de jaguatirica.
E se as violetas falassem
que nos ramos silvestres,
falanges, no orvalho roçam
e rezam a roça e segredam
doces altares.
________________________________________
Sons na estética,
ou a distinta impressão
de chuva no ray-ban,
ou um ruído esquisito de
alguma memória perdida.
_________________________________________
Quais mascates
-ao fim da feira -
procuram-se palavras -
e - talvez -
sentimentos.
Quem sabe - Eu sou
filho de Marte e
Saturno, estrela
cadente em alto
mar, quem sabe,
procurando dervixes,
que só se encontram
em areias no deserto,
quais mascates -
na pré-feira
Eu Nunca Irei prá Donde eu Vim
O azimute estava no curral,
o curral no alambrado,
o alambrado desapareceu,
o cachorro comeu,
o gato roubou.
Por tudo isto e,
muito menos,
eu nunca saí de onde
eu fui.
________________________________
Pelo menino que chora
lágrimas-marrom,
ata e dasata os cadarços
do sapato até o limite
do deserto.
A menina que, na banqueta
do piano desenrola a TV e
grita exasperada: Gol, gol.
Sem saberem que a
menina ata e desata e
o menino corre na trave
do goleiro.
No paradoxo, o bafejo do Além.
Marrom-Glacê
Fotogramas do passado,
desfilam nas pupilas.
O sono,
raconto sublimado.
Acordar, drama na
ressureição.
Sob a ponte,
aniz e mortadela.
___________________________________________________
Quando as nuvens-cantadas pelo cantador,
no topos - irradiarem os inaudíveis sons do canto passarinheiro,
entre o homem e o gibão
a eorla dream (*), o herói descerá ao Inferno
e os topoi serão do deus ressuscitado
e da indigna indiferença.
(*) Fórmula anglo-saxã do meio verso, “descrição do prazer de nobre partidário”.
Close-up
A fala, do retrato assentava numa
face esgotada,
Rico, formoso e sábio, seu gênio dócil
e nobre enxergava o futuro.
E nela, a saga,
verificava, no futuro, “com olhos de
tudo que em vão, no ímpeto se perdera.
Terça Vera
Acanhada montanha aonde
se adivinha a flor da
estação, primavera.
O barco milagroso ancorado em
outra estação.
Nas vestes tumulares, todos os
gemidos da passada estação.
Nas galeras estreitas em que se
escondem os frutos da próxima estação.
Os pássaros e as conversas de pássaros,
sobre o inverno, outono, aquela antiga
estação.
Nos olhos das velhas, nas mãos sem linhas do
infante, no arqueiro destemido.
Em desfiladeiros quase tortuosos e em noites
em que a depressão visita a melancólica agonia.
Até nas lonjuras desafinadas de coros invisíveis
que entoam ladainhas esotéricas,
os “inhos” de caminhos, os bigodinhos odientos,
a estação Seconda vera.
__________________________________________
Risque, num desenho,
uma semente no chão,
e suba na árvore,
nos degraus do tempo.
____________________________________________
Espiões
sem passaporte.
Os sonhos invadem.
O mana do polinésio, o pneuma
A Culpa
Sombra da sombra que me desacompanha,
desacordo descompasso à deriva.
Luzes no escuro labirinto de
fantasmas e esqueletos
Poeira estelar de espaços inconclusos,
sórdida aventura de lembranças através
de cortinas poluídas.
Urubu amargo que espreita, peita,
dândi enfatuado num sistêmico
e atroz trabalho, os olhos esgazeados
que exclama, lacrimejantes!
Sua dívida, culpado, e mais o
troco pelo nada. Venha, desgraçado
e confesse sua inocência!
_______________________________________
Assobia o
vento, e
ontem, o
menino
__________________________________________
Miserável,
como se atreve o barco,
cortar o mar,
o verso, romper o branco virgem
da praia,
o pássaro
que faz
ninho, nas nuvens.
_________________________________________
O estilo sem o parênteses,
O pecador, lágrimas amarelas,
O inocente, sorriso verde,
E o cético, tosse renitente,
O estranhamento em que a ostra se percebe,
Cenas do alegre cometa azul.
___________________________________________
A vida,
a gente,
conta,
grande.
____________________________________________
Randon Acess, -
Channel Surfing,
Madrugada
Distraído (ou brincalhão), o
gato pula na tampa da
lata do lixo.
O assustado mia, no
escuro da noite, a
surpresa.
______________________________________________
A Tampa, mal-arranjada,
cede e grita.
O gato salta em direção ao
infinito e, frustrado,
Cai, não sem antes, verificar
ao derredor se alguém testemunhou
a fracassada aventura.
O Senhor Das Marés
Os barcos de papel que deslizam
ao vento,
sonham com planetas, visionários
e patos avermelhados.
E quem, navegante amedrontado,
mergulha seus sonhos em
pendões e olivais, trigais.
Penso que sim penso que não,
a dialética, multiclética
em forte bria-a-brac.
Viagem
Outono (ou-tonus),
num trem d’anil,
vagões cinzentos,
lenços quase,
silvos longos,
silvos curtos.
Outra Despedida
Para Laibale (meu pai, Luiz Goldberg)
Na gare da Central,
o aceno, o lenço, enquanto e
quanto o trem se afasta.
Seus passos e o sorriso, até o
trem perdido na
pai/sagem.
o choro na garganta,
o conto, o canto,
encanto, eu/conto,
em que canto?
___________________________________
A gota,
só a chuva de
inverno,
só a chuva de verão
chuva que
inventa o menino.
Um tambor,
pausa, toque,
o tempo,
toque,
a espera,
toque.
_________________________________________
Ela taxiava no sono.
___________________________________________
O homem, algoz do
próprio destino.
____________________________________________
Pontualmente, às mesmas
horas.
_____________________________________________
Quando eu Te procuro, eu
Te encontro.
Quando eu não Te procuro, ainda assim,
eu Te encontro.
Chuva
A água escorre,
no barulho dos carros,
vidraças, gemem na fumaça
do vento.
Água e ruído
disputam as atenções do
pássaro escondido que exclama.
No peito uma saudosa
voz orgásmica reflete
martelos sagrados.
Água encharcando em
luzes caindo, cachoeiras
que bailam.
Os nervos adormecem
na doce ilusão duma
chuva perene.
A resposta do vento.
Outeiro Verde
São verdes os sonhos fechados
e os sonhos abertos.
São verdes as madrugadas lisas
e verdes os descaminhos de
alma e verdes os reinos da
ira.
Verdes as luminárias acesas e
as velas apagadas de outrora.
Mas são verdes, também, as maças não colhidas.
O Tecedor
Entrelaça a brisa e
um ensaio filosófico sobre a
relativa dimensão do tempo.
Nas correntezas d’água que
as nuvens despejam, enxerga
e entrejusta imemoriais
lembranças de barquinhos de
papel, que interpõe nas suas
folhas dobradas esotéricas
visões.
O Pacto
De te amar enquanto
aninhada, espera o
útero alvorecer.
Campainhas e ôbras cercarão
seus passos felinos e eu,
agreste, rodo original.
As Partes Que Se Brecam
Os breques nas suaves colinas,
os amanhãs de aclives, em outro
dia, bárbaras lembranças de memórias
sonoras.
Ao toque levantino do começo.
Jogos
A rainha e o valete, a torre,
os cavalos,
combinam o xeque-mate.
Que fazem os jogadores,
ao azar,
se as cartas e as pedras
se movem
de posição
Olhares perturbados, os jogadores
sabem (e como!) de sua
nulidade.
Impermeáveis e invictas, as
peças traçam seus destinos (desígnios).
Pétreas, céticas.
Pretexto (ou Álibi)
Escrevo para não escrachar,
ou por escrever o ato da soltura,
quem sabe uma escrita gongórica,
que se goza em si mesma,
em escrever gago ou mudo que
se engana de endereço,
uma palavra retilínea de
curvas intenções.
A caneta apócrifa que verseja
mentiras enfeitiçadas,
uma escrita surda de gemidos
audi-sonantes,
enterro autocrático em que,
rebelde, me achego de larvas
encarecidas.
O grilo amassa a ira da
lua, a lira da pálpebra,
lágrima
Dor
Bem vinda, viajante entre as nuvens,
anunciante da primavera ,
dourados botões, queima a
cálida esperança.
Ri de sua vítima quimera e
nos Estatutos de horror
alude ao ontem do amanhã.
Poeta
Rude o albergue de mentiras,
abriga a raiva e a tonteria.
Em escaninhos da memória
trai e mente, entre vogais e
pergaminhos.
Leonardo
Com o riso de quatro dentes,
encantado,
rima o riso e aventura,
por quais romances
estivais e piques de
auroras, horas, ora.
Infinito
Preso nesta janela,
inconstante e fria,
o fantástico herdeiro
brota do cotidiano.
Silêncio mudo e nú,
Lua -
esta combinação de
Castelo na tela,
que se esconde,
pudorosa ou maliciosa
atrás de nuvens -
frias, inconstantes,
pudorosa ou maliciosa
atrás de nuvens -
frias, inconstantes.
Vent’Água
O quadro negro das lembranças,
na percussão peninsular.
Dim-dom, se João nascesse em Aveiro,
seria banhado pelo
porém se João lesse
o Mahabarata, conheceria as proezas
de Crishna e
Scapa un punto, bivrás un mundo (*)
sintetiza, avô, pai e filho,
dom-dim, é mais fácil escurecer
do que clarear uma cor.
Comece sempre do branco, até
o tom que desejar.
Se João fosse Manuel,
murmurava Sonia Mariana,
o amor não era tédio,
e a subversão sentiria luto,
na harmonia de outras
versões.
(*) - Em ladino - “Escape de um ponto de perigo e viverás outra vida”.
___________________________________________________
Pantoun da Malásia (*)
um conto crioullo, da
Martinica, a lua
sozinha fazendo graça,
ao luar,
castelo para que as
palavras não se asfixiem.
(*) - Forma poética.
Didjerindoo (*)
Mestre do som que
mexe o interior das
vozes que o vento
cruza em ocas
paisagens e anunciam
os espíritos quietos.
(*) - Instrumento musical dos aborígenas feito pelos arpins das savanas
australianas que comem o interior dos eucalíptos.
“Segue”
Interpretar a música de forma diferente. Póspor uma antevisão que provoque uma
outra escuta. Em “Outro Poema dos dons”, Borges reza no verso final: “Pela
música, misteriosa forma do tempo”.
Pranto Para um Poema Rasgado
O indelével proibido exige
que as palavras sentidas se emudeçam.
Contra-Parto
Lá fora os tempos e os cães emnraivecidos,
Aqui dentro, asas de anjos, sons harmônicos,
uma linha diametral que traça os
ontens e os múltiplos talvezes.
Monodiálogo
Eu,
Quem, si mesmo, ousa realizar meus secretos sonhos, e, supremo ultraje, adivinha
os meus desejos ocultos.
Este dragão-demônio que se inspira em Abel, refulge até a plenitude?
Pois hei-de assustá-lo e, se não desistir de seu maligno destino, vou
destroçá-lo.
Eu não me conformo e não sossego. No dia trabalhando, o desgraçado me mata, aos
poucos, de inveja.
Usa meu nome, meu rosto, meu corpo, minha energia, minha vontade, minha
identidade, minha alma.
E até proclama, atrevida, infame criatura que é Eu mesmo!
Pois vou desmascará-lo e, Caim, depois enterá-lo, ainda que ao custo de um
suicídio enraivecido.
Inimigo atroz, só assim, poderei descansar minha inveja,rancor, por sua
galhardia que sempre tentou se alcançar.
Sim, sim, mil vezes sim eu, ele, tenho razão.
Sou um crápula, de todos os crimes cometi e se não, ao menos, imaginei, a
própria autoria.
Não existe infâmia que não tenha sonhado.
Mas será que mereço tão, drástica sentença? Matar-me e esquecer-me, trair a voz
que, íntima ordena seguir?
Ou, este estranho que habita minhas entranhas deverá ficar aprisionado, invejosa
serpente, e assistir, em funeral, a glória de si mesmo?
De polo a polo, em todo o universo, errante, encontro o meu caminho, e num
cometa, distraído, risco meu nome, e o seu no céu distante.
Louca bravata, visão divina, no entretanto, serei Eu mesmo.
Eu,
Se o mundo todo sentir que me ama, só eu sei a verdade. Sou a farsa
bem-sucedida.
Eu,
Convicto, que importa o juízo alheio. Inzone, vejo no espelho, a rútila
esperança e Adão, juro que seduzi Eva, e o fruto é nosso: Vou-me embora do
paraíso, mas um dia voltarei, e a viagem confirmará que de mim, nunca saí.
Fiel da Penumbra
Peregrinando em todas intersecções,
possível nos intervalos,
de aflitas interjeições.
De prata, as inventivas,
de outro, os interlúdios,
Gatunos em oásis, flagrando
os bandidos que usam anel
de caveiras,
orgulhosos mensageiros da morte.
A Perspectiva
Do alto, enxerga o banco,
num rasgo da floresta,
o bicho pula, desengonçado.
O Espelho Das Águas
Suas asas e seu bico,
mexilhões, cores
produzidas por lápis-lazul,
e o horizonte in-finito
_________________________________________________________________________
Ao imaginar que sânscrito significa língua bem articulada viajamos até um
desconhecer.
Faremos um descanso do Auesta, no pahlavi, sabendo que Malcha podese ler shali.
Andante como mepis para o hitita.
Num barco que penetra n’água neutra e as águas sagradas o conduzam.
Visto com o olho de Mitra
_________________________________________________________________________
Os thulis até os anos 100 da Era Comum repetiam os poemas - Kenningar,
da Islândia. Eram os recitadores anônimos de textos repetidos.
Depois surgiram os skald, que diziam seu próprio cantar.
Hoje, o ciclo dos thulis renasceu e os skald são clandestinos em cio.
_________________________________________________________________________
Ficar sentado, imaginando que sou
o capitão dum navio (submarino?)
que destrói a Armada nazista.
A chuva lá fora continua.
A tarde cinzenta da Rua Santos Dumont,
na Rua Espírito Santo, o barulho do
bonde que leva os passageiros para
as praias com o
Super-Homem.
Imagino Dale, e quanto, eu
Flash Gordon, esqueço as humilhações
dos moleques que, gritando Dumbo -
orelhas de abano -
me obrigam a me esconder no banheiro do
Instituto Grambery de piedosos pastores
metodistas que não me deixam esquecer
que os
judeus - eu - mataram Jesus - Glória,
Glória, Aleluia.
Com as mãos e a imaginação, sou também
o herói da mamãe, cantando com a
voz, já sedutora, Oh Suzana,
não chores por mim, quando eu for
pro Alabama vou tocando bandolim.
Mas o maldito violino, não consigo sustentar
com os bracinhos magros e o professor
proficiente, pedajoso, empurra o arco e machuca meu
queixo.
E por causa do professor galinha-verde,
Nunca, nunca serei Heifetz,
mas também não Iehudi Menuhim.
Porém, um dia, alguém há-de-filmar
sete homens e um destino e eu serei todos
os samurais, na roda do tempo, no
Cine Para-todos, assistindo Casablanca.
O que será, será, aquilo que...
por entre braços e pernas, saio
incólume para outra vez.
Au revoir, por entre lágrimas e
riso
Uma bela legenda para a aula de latim,
no gibi:
Vim, vi e empatei.
Yeah, yeah, yeah,
a loiríssima cerveja, baby,
na Cervejaria José Weiss,
Mariano Procópio, Juiz de
Fora, o Corinthians,
a aliança que vara séculos,
os desatinos e as indefinições.
O bico do seio da minha ítala paixão,
o branco de Leonardo, no
contraste com o black,
os passos de Flavinho,
a música de Elvis,
o aquário de faz-de-conta da
Suzana
um gato de pano arrastado pela
sala miando desesperado num coro
de Brooklin -
Preciso, urgente, aprender inglês.
E deste início, ou fim se instala o
meu processo -
tragédia ou absolvição,
a mandala vítima
mais do que uma cancela,
uma bala de canela, o gomo
da mexerica, o preto da jabuticaba,
meio-quilo de uva, de que vale
o sucesso, camarada, no velório de
um homem, de todas as chances,
guirlandas,
assobios.
_____________________________________________
Desperta, esperta,
Maldosa, espeta.
________________________________________________
Ilhas na banheira,
quem sabe penínsulas,
e o menino mergulha
e socorre o peixinho
imaginário que, aflito,
se encerra na
lata de sardinha.
________________________________________________
Criança, ser duende,
que os tradutores
alcançam em rimas,
e, nas, palavras sacralizam,
penas de pavão.
Acontece que pavão não
é o ser duende,
mas, quem sabe
cavalo-marinho,
e criança que se gera, gesta.
________________________________________________
Posteridade, essa
madrasta dos
fatos
_________________________________________________
A alma que dança
e se encanta, se pensa
liberada, ora, as curvas
que se espraiam, não
são outras que,
má sorte,
o vento se apaga e,
traça por entre
altiplanos e marés.
_______________________________________________________
Se o corpo e o espírito querem voar, o que flutua.
Deus não Gosta de Rute
Rute ganhou de presente uma passagem.
Quando, na escola, a professora perguntou-lhe se era limpinha.
Ao casar-se pensou que os cegos descerram as pálpebras.
Apurada entre uma e outra, acabou por decidir-se.
Olhou para o céu e viu Zoroastro. Surpresa, nuamente.
Suspeitava que as noites se adornam em colibrís e, arrebatada prostou-se.
Multi-vezes teceu uma rede entalhada em cristais e, inacreditavelmente,
acabou por reencontrá-la.
Realmente Deus não gosta de Rute.
Mas gosta muito de salmão defumado.
Triângulo
O Louco Amor
No solilóquio, Ovídio faz dizer “Um cabrito faz sexo às cabras que procriou... O
que a natureza permite, negam leis exclusivistas... a devoção dos filhos
aumentaria com o duplo amor”...
“Quia iam meus est, nos est meus”.
O conflito do amor e da proibição no interregno fantástico entre a volúpia e a
contenção.
12. Tempo Exilado
(Edição Cultura)
Enquanto se escreve
Alguém procura
um assalto na televisão
e um frio entardecer
empalidece.
uma linha de chumbo se esgota
e um aluno reprovado se arrola.
Um borrifo de água suja percorre o cimento armado
e um viva de aniversário se comemora.
O agonizante geme
e um recém-nascido limpa sua capa esverdeada.
Enquanto se escreve
uma cicatriz reabre seu ferimento
e uma viola plange
a sua rústica mensagem.
Um homem trai
e é traído.
Um berço se desfaz e uma coroa se arroja,
um eu se tinge e um teu marrom se constrói,
enquanto se escreve.
Na suave mentira da pena que se vende,
da pena que se compra,
dum sentido que se afirma,
da alma que viveu um dia.
Enquanto se escreve,
uma suave ilusão se apaga,
da final trama que se
conspira.
_________________________________
Sou vizinho de todos os mistérios,
das cristas das garrafas,
que atravessam mensagem no mar.
Da cobiça
que empolga e empalma,
os desejos tortuosos,
de todos os reclusos,
nos portos de cada um.
Da triste face borboleta
que mira a rua,
pela janela da fábrica,
e reveste de agudos,
seus pequenos teares.
Que se enterrem
os mitos e heróis,
nos postos de gasolina,
vidros que estilhaçam,
a guitarra esquecida, na bôca em férias,
o zig-zag do ray-ban,
tingindo o registro de cada esperança.
Nas cadeias de polícia,
no morgue,
nos postos de gazolina.
___________________________________
Descarrilhado, em ode verde,
caminha-se.
Vagão aberto à chuva,
descarregando milho.
Matraquear incessante de barulho,
ruído,
pedra,
som,
gemido.
Turno diurno de
abertura ao
romance,
sexo,
poesia.
Na repentina dobrada de
luz,
que violenta a
madrugada
virgem.
Dedilhando a música
eterna,
divina,
do ronco azíago do
pássaro
exilado.
Exilado, dentro,
Exilado, fora.
Votos.
Que os cativos jornaleiros,
alegres mensagens,
anunciem aos berros e prantos.
Que os coveiros se foram,
nas flôres que se partiram,
das pétalas que se amaram,
demasiadamente.
Inundadas por fogos floridos,
as mornas e sujas esquadrias que iluminam,
êstes grandes, imensos, mausoléus, destas grandes, imensas cidades,
que me provocam grandes, imensos desassossêgos.
Em suas cores desbotadas
em que encarnam,
frutuosos nadas,
erguidos à muito custo,
com vero esfôrço,
tenacidade imensa, lucros contabilizados,
em ardentes secretarias,
de febres contidas e dobradas,
de matemática proibida.
E disparando,
por ervas e matagais,
risco hino de saudade,
da infância que já se foi,
num reservado paramentado,
de deuses e cowboys.
E você envie um recado
à João e Maria,
contando nossas atribulações que arrebentam trincheiras,
no Oriente,
e fazem subir as cotações,
nas bolsas das capitais.
Que descem em Praga, Varsóvia e Missouri,
os delírios de Passa Quatro.
Corte os cabos telefônicos,
dos olhos de Buchenvald, instalando
discos de Bach, Vivaldi e o canto de Ginsberg.
Ressuscite Maiacowski,
naquele quarto de hotel,
e desloque do campo os jogadores de futebol, atrás da bola tonta,
sem hora e sem destino,
nos horrores de uma prisão,
de um lar abandonado,
dos títulos financiados,
a formidável estridência galopante.
Das barras de aço convertidas em linotipo,
das .30 arrebatadas da batalha,
para os museus religiosos.
Relate, item por item,
os desencontros dos namorados, beijos e abraços,
amores encantados,
sentidos e guarnições.
A alma de um homem, o corpo da mulher que se esfriam,
nos desenhos estatísticos dos cálculos e
viagens transatlânticas,
Interrompidas por uma greve geral.
___________________________________________
Esta menina de treze anos que
faz a vida,
que mentira,
na Rua São Luiz.
trotando um trote verdadeiro,
de carnes, dores e seios.
Esta menina baiana,
de olhos pretos, cabelos ralos,
pai morto,
sem terra e sem casa.
Que hoje tem um quarto de hotel,
na Consolação,
por hora ou por noite,
ao gosto freguês.
Comida com picada e fumo maconha,
enquanto desfila
sorriso desdentado,
para os grandes cartazes,
da grande cidade.
Carta azul à revolução.
Derrame a desordem na rua,
onde os formigueiros repelem,
a ordem mal querida.
Nos seus dias festivos de galas,
deite no leito teu brilho e meu credo.
Feche,
uma a uma, as portas da mentira,
e prenda,
em jardins, os donos das verdades, junto com seus companheiros,
animais soltos dos zoos e do álcool.
Arrombe todos os cofres,
dos trilhos de bondes,
e que cada motorneiro ou moleque arrependido,
dance as marchas triunfais,
nos canhões aposentados.
E leve um recado, para as noites de insônia,
dizendo,
em rubras lamparinas,
que existirá fartura de sorrisos, justiça
e gente decente.
_________________________________________
Passa a noite de sexta-feira
e condeno os dias da desesperança
Erguem-se os pentágonos fortes
que rodeiam a terra
de permanente oscilação.
E é assim
como se se pudesse arcar com as últimas definições,
nos momentos vivos ou nos momentos mortos.
A ruidosa cantilena faz a música-de-fundo,
pano rôxo e atrasado dos céleres aviões,
das companhias especializadas nas
pressas passageiras.
Cultivam-se sensações e competências inúteis,
para uma feira nundial permanente,
de asneiras e rouquidão, aonde ocupa lugar destacado,
a pílula anti-concepcional,
as orgias dos cartazes e
os discursos nas igrejas.
Em comum,
e em comunhão,
com os chefes de malta, que conduzem seus sicários
para o exercício de morte e de morrer.
________________________________________________
Uma certa censura proíbe que se mate
nas vielas escuras e nas salas-de-jantar,
ao som do arlequim ou de programas
dominicais.
Que o teatro fica proibido e se fechem os cinemas,
fuzilando Bergman na forca de Antonioni.
Todos os atores, em compensação,
recebem duplo cachet para desfilarem na Quinta Avenida,
pelo Exército da Salvação.
O balé será punido pelo Código Penal e
substituído pelo salutar esporte
da esgrima, no qual a poesia será
ensinada aos velhos de vida provisória.
Nas caixas dos grandes bancos se
uma certa censura permitir fantásticos
bilhetes distribuirão ingressos privilegiados,
de acordo com a conta do freguês que esta sim,
é uma certa norma de censura,
para assistir à vida, sem sustos e sem escândalo.
____________________________________________
Estou sentado, esperando,
no Ponto de ônibus,
da Estação Rodoviária.
O ônibus que nunca virá,
que não saiu da Estação Primeira
e jamais há-de partir.
Seus passageiros,
prêsos ao guichet,
no Sheol deserdaram seu motorista.
Enquanto se apaga, esta luz apagada,
sob a qual leio, conformado,
o último roteiro de sua linha,
que hei-de trilhar.
Pelas elevações em que se faz
a última viagem.
Conduzido num ônibus,
sem linha e sem horário.
______________________________________
A sombra da erva
para acompanhar o teu passo,
passo a passo,
cada dia nessa mesma impressão movediça,
que a água não apaga,
que a reta desafia,
da galeria sem comêço
e sem fim.
Corre inútil e velozmente,
nadas em rodas de virabrequins e gasômetros.
Estas dúzias de rodas e viadutos,
que os caminhões ensombrecem,
nas baterias que reduzem, seu pulsar.
Às margens da rodovia,
onde vi escrito,
num dia,
num placar luminoso,
as letras opacas de teu nome,
da tua alma,
da tua vida,
que a memória sepulta na cava de sua matéria.
Mais fácil de refletir que o minuto que já passou.
Nessa estrada
de mão única,
sem curva e sem retôrno.
Música de fundo
Somos,
neste dia de pedra,
ilhas.
Sombrio dia.
Conto, estremunhado,
as cartas não enviadas.
Aflições noturnas,
sem luas.
Irmão batido,
o fruto colhido.
Por tudo,
havido e não havido,
desejado.
Somos,
neste dia de pedra,
ilhas.
_______________________________________
Em silêncio cúmplice da lúgubre madrugada,
partem lamentos caninos,
enquanto velhas e trites proposições infantis
invadem atormentados olhares.
E estas escalas, colunas, rádios de pilha,
que fitam, quietas e estúpidas,
sua invasão consumada.
As vias laterais, colaterais,
de silêncios clamorosos.
Receio que os aviões e pássaros,
despenquem nas ilhas de minha imaginação,
sementando raízes profundas que os anos
carregarão.
Quisera que águias velejassem em
translúcidos oceanos,
sem nunca pousar.
Que a mentira da morte fôsse acertada,
que se voltassem os diários
e as filhas das fôlhas,
dos passados desentendidos.
Que as horas voltassem,
num plano alegre,
daqui e dagora.
Por entre velocidades imensuráveis
No correr da auto-pista,
asfaltada,
pigmentada,
recheada de animais vadios.
Atropelhando-se acidentalmente, um
ao outro na escala zoológica,
no Km 283, as paredes caiadas,
dos nus abstrados,
de vão recheios infiltrados.
No lugar aonde são detidos os
motoristas, para o almôço.
Os escolhos,
na escalada,
da Estação Rodoviária,
refletem armadilhas de enfartes e edemas.
E pescoções e palmadas,
pelos grandiosos berimbaus,
deixam de afirmar a humana dimensão.
________________________________________
Vou dormir
meus sonhos de menino,
no filho que já fui.
Naquela planície, onde, numa noite brumosa,
vi nascer um circo
e um farol
Por entre apitos de trens, na varanda daquela casa.
Onde você disse
que os cabelos brancos surpreendiam seus
primeiros medos
e salvaram minhas derradeiras decepções.
Quando surpreendi
na sua voz lacrimejante,
outra vez,
minhas certezas.
No seu olhar aceso, meu passo trôpego que,
por você,
retomo resoluto.
Na respiração a tua revolta
que olha para o lado as ganas de não sofrer.
Quando, juntos, sentamos numa calçada abandonada
e choramos a milésima separação.
Os passos que, junto, caminharemos
até que te entregue a palavra final
por cima do inferno e dos jardins fechados.
________________________________________
Desta feita, nesta calçada tranqüila,
saltam as rãs e rouxinóis,
um terço de feriado para os silêncios pedidos.
Abraço um telefone e
apetece a mensagem que rima os deuses da chuva e do
vento.
Expurguem as fechaduras e as
grandes escadas.
Não arrasem as flôres,
nem se minta às crianças mais do que
o menos que se mente aos
deuses do vento e da chuva.
As máscaras faciais serão de cimento
armado,
e aos deuses do vento e da chuva,
ficarão os passos lisos das damas curvas.
_______________________________________
Somos, em cada instante,
os embriagados
companheiros da morte.
Cada tormenta infeliz é o ninho
dos agravos reprimidos.
Vê-se, na geração afivelada,
um compromisso de extinção.
As vozes da poesia e o canto dolorido
poderão estancar o leito tortuoso,
das mansões invadidas.
Tendo que somos,
em cada instante,
os embriagados e desconsolados
companheiros da morte.
_______________________________________
Suores acumulados,
nas entradas de motéis,
lembram os céus nunca mirados,
dos cansaços seculares.
Vasilhas e pires, com restos de cigarros,
de sexo e baton,
o quadro ilusório cotidiano,
de garçons e garçonetes.
E esta música sebosa,
que não pára nunca,
arranhando num violino tacanho
as notas falsas de romances de cinema.
Em que se alimenta a fonte da
vida
de um milhão de bonecos falantes.
Falantes, sem choro e sem riso,
com a corda automatizada,
chinesa, japonesa, americana, francesa,
I love you,
Je t’aime,
cujas tensas cordas, parafusos, rodinhas,
viram, mexem, remexem,
incansavelmente,
até o estrago fatal, letal.
Que ajeitará, finalmente,
a novela mal-enredada,
do cérebro difícil
que arquitetou estas ruas sem fim,
de insôssa a dolorosa caminhada.
_________________________________________
Subiu na amurada suja de
um túnel liso e de lá gritou
que era mais que a radiografia
dum pré-molar,
capaz de dialogar com um cavalo
na maior capital do mundo,
em busca da verdade, por cima das redações,
ou do mundo do contrôle remoto do teatro.
Quando no inverno os modelos são práticos e
se espalham pelo globo dez mil bases militares.
Ele não se arruinará pelo sucesso
perdido pelos espirros das histórias dos elefantes.
___________________________________________
Do medo,
nasce a vogal,
exclamada na sufocação do terror.
As trevosas ruínas passadas,
provocam a imensidão das separações,
dos tempos mentirosos,
presentes e futuros.
Se, por erro crasso,
se abrirem, num dia ou noite noturna,
as portas convencionais da paixão,
o reto se fará vertical.
Confirmando que as linhas paralelas,
das visões fantasiosas,
na viciada distância,
jamais se encontrarão.
13. Cidade dos sinos
(Editora classico-científica)
Anais de História
A poesia é uma terra.
Um tempo, o mêdo, a revolução. Um relógio enlouquecido com os ponteiros
quebrados.
Que anuncia, amanhã o casamento da mulher amada com o homem que não existiu.
A Poesia é uma terra, um elemento, uma explosão de afeto, um correr de mãos pelo
passado num engano cometido.
Quem saberá o que é a poesia?
Talvez uma história.
A história mal-contada de uma vida mal-vivida.
Das esperanças, decepções, frustrações, enganos, arroubos, lutas, sangue,
lágrima, fezes, excremento, urro, revolta, dor.
É um tempo. Um tempo e um espaço.
Sim, é isso. A poesia é um espaço.
De vazios, de palavras, de silêncios, de opressões e cândidas amarelas gravatas,
bailando ao som de tangos argentinos.
Fruto doidinho de uma noite mal-dormida, o ódio reprimido nas telas de um
cinema.
A louca esquizofrenia na solidão da cidade grande, olhando estupefata um cartaz
não -acabado, numa tarde de sábado.
A louca esquizofrenia sentada numa calçada apalpando o sexo pronto para
explodir, no amor soturno e sem resposta das paixões do futuro, adivinhadas numa
infância derrotada.
No combate sem igual, covarde e desleal, com uma cidade enlouquecida pelo ódio
de si mesma, desarrumada, desgostosa, prenhe de burrice e achatamento.
Poesia, poesia,
Você é também uma resposta, no escuro
do cinema, num monte de livros empilhados, a vontade de debruçar a cabeça por
cima dos lábios da mulher sonhada, desejada, em volúpias insaciáveis de
esparramadas paixões?
E você é um navio.
E quantas imagens, fantasias, paroxismos, palavras vou ajuntar para te definir,
me definir, numa história que é a autobiografia não vivida,
mastigada no seu ritmo dilacerante, no seu ritmo apressado, que faz caminhar
devagar, como se estivesse sempre num outro tempo, num outro espaço,
ou principalmente,
numa outra canção?
Hoje me vi fotografado, pelas mãos impiedosas de uma mulher pintora.
E no bico de pena, assustadíssimo, vi o homem que os outros vêem.
Meu Deus!
Que triste engano. Que engano total. Mas quem se engana, por piedade?
Eu, ela ou a pena?
Será a conjunção destes enganos que retrata um demônio no sonho de um querubim,
o esboço de um poema?
Aqueles olhos tristes e cruéis serão os meus? Ou os meus serão os olhos azuis e
assustados que guardei nos bolsos, atrás dos morros, da minha infância? Serão
pretos como os de um rabino judeu?
Serão os olhos dum capitão de infantaria que captou minha alma, nos passos duros
do pátio do quartel e o esforço dolorido de montar o cavalo da América
progressista, num Brasil amado, com paixão, ardor, violência, terror, num mundo
de lindas fadas vestidas de amor?
O adolescente machucado procurando nos olhos da mulata desejo e compreensão?
O susto mais velho do desentendimento, do abandono, da desgraçada solidão, que
marcou, cativou, dilacerou, distanciou?
A angústia do engano,
da malícia provocada, nos memoriais inteligentes e hábeis, das palavras
envolventes de dúbio sentido?
Que ganham pendências, mas não convencem o estômago embrulhado que vem chegando?
Poesia que resta como degrau, muralha, parede, gente, escarmento, lamento,
quando tudo começa a faltar.
E é a irmã bendita nos horários do avião que levanta vôo para Buenos Aires,
Salvador, Madrid,
roteiro de anúncio,
dos mundos que não conheci.
Duzentos mil punhos de aço me sustentando, na hora mesma da destruição, vindos
não sei de onde, acudindo por um fio,
voz, gemido, televisão.
Anunciando que a Poesia,
quem sabe, pode ser um sorriso na pedra, um bailado gigante no meio de pizzas,
comigo e
você?
E sendo a poesia um paraíso infernal quem é que me proíbe de quebrar seu
esquadro limitado e falar de Deus e de cavalos num “inside” inesperado que meu
cérebro começa a descortinar?
Deixar de lado, assim, para meu comodismo e o avanço deste texto a convenção
inicialmente, estabelecida, deixando de lado a poesia, porque até para isso ela
serve.
Um traste que se põe de lado a qualquer hora. Mesmo porque é mercadoria que não
se come, não se veste, não se vende e talvez para nada sirva a não ser acalmar
essa rubra vermelhidão de palavras que sacodem o cérebro neste turbilhão que é
uma mistura de erotismo fascinado, não satisfeito, nervos tensos e esticados,
agressões disfarçadas e a impossibilidade do sono na conciliação?
Vamos daqui para agora, em frente. Começando pondo de lado, seu diapasão. Já não
mais a poesia como tema, mas como tema um telefone inoportuno, com voz e
interjeições.
E, finalmente, como anti-clímax temido, os outros informando que o final não
correspondeu, desceu.
Tal qualzinho não correspondeu, desceu, teu sonho mais caro, tua preciosa
mentira, tua pedra de estimação.
E você sai da cama, de madrugada, para acrescentar uma palavra a mais, riscar
outra frase, para levantar o tônus, cantar com vigor, as máscaras que não se
podem tirar.
Essas sim, vigorosas.
Mas presas como um Golem formidável viriam com sangue e esparadrapo, dos pelos
de tua barba, a maldita língua da incompreensão, num dilema infernal te acordar
no meio do pesadelo: Falar ou ouvir? Um poema ou uma canção?
O menino que era um “Abat-Jour”
Ponto:
Segundo uma descrição de Vellard no começo dos anos 30, do século XX, o
acompanhante paraguaio de um viajante europeu viu, entre as árvores, uma mulher
AXÉ (indígena) e a matou a tiros.O europeu castigou o paraguaio. Este, sem
entender o castigo, tentou reconciliar-se com o patrão dando-lhe uma bolsa que
confeccionou com a pele dos seios da mulher axé.
Contra-Ponto:
O homem não pode ser dividido. Uma xícara de chá esquenta meu sangue.
Vi um menino cortado numa cerca de estrada. Beijei a sombra de mim mesmo. Beijei
o menino que não fui. Acariciei com lágrimas meus outros eus e com ódio
castiguei na carne meus desejos e esperanças.
Dei ninho ao Demônio. Ouvi o canto da Sereia. Deitei com a dor e o Pecado.
Pequei e pequei. Abençoado seja o Seu nome, Deus Poderoso.
A cadela de Bergen-Belsen, Ilse Koch (maldito seja seu nome) fez abat-jour com
pele de crianças assassinadas. Morri com as crianças. Matei meu medo nas mãos
apavoradas. Vi neles escorrendo os olhos, a cabeça, a surpresa, o mais íntimo
suspiro mau.
No espelho vi meu rosto envelhecido, na sua fraqueza o menino perdido,
miserável, da praia escura. Eu, soberano. Eu, navegante, nas curvas do mar
desgraçado, como se fora a mulher mais bela ou o objeto mais belo deste mundo.
Explicação:
Estávamos num hotel em Poços. No quarto meu filho, brincando pôs o “abat-jour”
no rosto e disse: imagine se eu fosse um abat-jour...
Respondi que seria engraçado ... A frase é sugestiva.
Posso usar a imagem no próximo livro. Respondeu-me: ora, seria ficção
científica. O texto vai ficar sem sentido...
Quando comecei a escrever o inconsciente levou-me até o etnocídio, dos índios no
Paraguai e até o nazismo, em Bergen-Belsen.
Não é ficção.
É nossa herança cultural, que toma Deus como cúmplice do crime.
_________________________________________________________________________
Me pregaram numa parede da Argentina
No século XVII o padre Gregório Garcia sustentou que os índios “eram de
descendência judaica, porque como os judeus, são preguiçosos, não crêem nos
milagres de Jesus Cristo e não estão agradecidos aos espanhóis por todo o bem
que lhes têm feito”.
Me pregaram numa parede da Argentina.
Não me engano.
Não posso me enganar.
Segundo o texto latino letreiro sangue, nojo, lágrima.
Soy judío, asessino e devo ir prá Palestina.
Segundo manifesto de outro jornal
Sionista, imperialista, cosmopolita.
Soy o que soy.
Judío, brasileño, indo-americano!
Meu ódio sem entranhas não tem linhas de concessões.
Tem varas de varandas, marmelo de montanhas.
No espelho eu sei quem sou.
Judeu, brasileiro, sionista.
No ódio de quem olhou. Sei quem inferniza a língua que enfurece, os buracos da
hierarquia.
Mago, poeta, apaixonado, homem, indignado, irritado, escoiceado.
O chicote é a minha mão.
América de terra escura, sou índio e não português.
Azteca, sou teu irmão. O sol é o meu Deus. Torço contra Pizarro conquistador.
Quem me seduz é a índia de mel descalça correndo pelas praias da América.
Caso meu sangue errante, mente pecadora, com o gozo pagão da tua boca.
Quero pavilhões de cores enlouquecidas. Verde, azul, amarelo, roxo, vermelho.
Nunca o preto maldito da proibição.
Piso no partido da gravata. Sei a baba que se esconde detrás da palavra
liberdade, do fuzil palestino que matou.
Einstein, Oppenheimer, Freud, Moisés, Bolívar, Guarani, Tupi, Sem nome, menina
virgem da aldeia judia da Romênia.
Negra que me esquentou numa viela mineira,
Explodir na alquimia atômica o mundo de ódio.
Arrancarei com os dentes a parede de dor.
Esmagarei com seus tijolos as palavras de nojo.
Judío soy, sionista, cosmopolita, indo-americano.
Meus deuses tupis-guaranis,
Al Kidush Haschem
Juiz de Fora, 3 Rios, Ribeirão Preto, Machu Pichu, mulata da minha vida,
Jerusalém, angústia, solidão, carne terrosa de amor pagão e judeu. Deus sol.
Deus uno.
Morte e Perseguição.
Fantasmas e Ressurreição.
14. Perspectivas da Literatura segundo Goldberg.
Ely Vieitez Lanes.
( Editora Faculdade Moura Lacerda - Ribeirão Preto )
J.P.G. - Desde criança, o ABSURDO tem sido meu vizinho. Quando eu morava na rua
Santos Dumont, em Juiz de Fora, eu muitas vezes, indo para a escola, batia
grandes papos com o ABSURDO. O ABSURDO tinha carteira escolar e sempre era bom
aluno, o que me dava motivo para ter-lhe severa inveja. Posteriormente, o
ABSURDO veio-me acompanhado pela vida à fora. De repente, passei a perceber, com
grande susto, aliás, só a princípio, que o ABSURDO já não me acompanhava mais só
como personagem, ele começava a multiplicar-se havia o Absurdão, o Absurdo, o
Absurdinho, a Absurda, era a ENTIDADE toda voejando, tracejando, passeando ao
longo de minha vida. De repente (tudo acontece de repente, não existe preparação
- toda preparação é mentirosa) passei a perceber que o ABSURDO não era só o meu
vizinho - Ele começava a habitar também dentro do meu EU. Criou um campo de
pouso entre o meu estômago, sexo e o intestino. Aí eu só tinha dois caminhos:
fazer uma operação (os médicos são especializados em tentar extirpar o ABSURDO
de dentro do duodeno) ou assimilar, aceitar, conviver com o ABSURDO, por dentro
e por fora.
Flanqueado pelas margens do ABSURDO, cada um de nós tem que encontrar realmente
a forma de penetrar na vida, e se possível, ir um pouco adiante ainda: fazer do
ABSURDO não só um vizinho, mas transformá-lo num amigo, com quem você bate
longos papos, com quem conversa, a quem faz indagações; e no jogo do
faz-de-conta da vida, no jogo do pega-pega e do esconde-esconde, se possível, na
hora de se transformar, na idade madura, num homem de conhecimento, não ser só a
criança assustada no jogo do esconde-esconde, mas fazer com o ABSURDO o inverso
da brincadeira, pregando-lhe, nele próprio, em vindita, alguns dos sustos que
Ele vem sempre pregando nos homens.
Semear ABSURDO pela vida, comprar por inteiro os processos de desacerto, a
estranheza imensa, a total falta de lógica, talvez seja a primeira linha do
instrumental para se compreender o GRANDE ABSURDO. Por que nossa época, nosso
tempo está tão preocupado com este fenômeno, quer seja na literatura, nas Artes
em geral e em todas as manifestações nos mais variados campos - no profissional,
no psicológico, no campo artístico, até no científico; quantas vezes, num
laboratório de ciência, o cientista está procurando muito mais o acerto de suas
equações e de seus teoremas pelas linhas do ABSURDO, do que pelas linhas da
Matemática linear. Parece-me que isto começou, basicamente, com os fornos
crematórios dos campos de concentração nazistas. Quando determinados homens
sentiram-se no direito de friamente matar outros homens, sem nenhuma razão
plausível, sem nenhuma racionalização objetiva, começou a entronização do
ABSURDO. Hoje, sem dúvida nenhuma, o ABSURDO é o rei coroado da nossa época sem
reis. Se nós retiramos os homens de operetas, que tentavam satisfazer nossas
mais íntimas necessidades, de apoio e de segurança, em forças maiores que as
nossas, nós transferimos toda esta problemática para o senhor ABSURDO. E hoje
nós estamos, por inteiro, imersos nesta fantástica conspiração; hoje somos os
servos humildes do papa do ABSURDO, do cavalo que ganha o prêmio no
jóquei-clube, por absurdo, e no torcedor do Absurdo, que cada um de nós é, no
páreo da vida.
Se me perguntarem, nesta situação, se minha posição é de passividade ou de
conformismo, diante do ABSURDO (ABSURDO compreendido por nós em gêneros humanos
que nos repugnam, pois desconhecemos as normas), passividade e conformismo
diante da ABSURDO dissecado por Kafka, em “O Processo”, ABSURDO que se contém em
sermos obrigados a nos submeter a uma regra de jogo, cuja dinâmica
desconhecemos, eu responderia que NÃO - meus livros, pelo contrário, procuram
ser uma obra de inconformismo, de protesto, de revolta, da revolta mais violenta
possível contra o ABSURDO. O ABSURDO é meu vizinho; O ABSURDO habita no meu
duodeno; eu assimilo o ABSURDO; o ABSURDO é meu amigo, mas na primeira
conjuntura da caminhada da vida, na primeira possibilidade possível, ou eu ou
ele passaremos uma rasteira um no outro, na luta mortal, que é a luta básica
entre a RAZÃO e o OBSCURANTISMO na condição humana.
15. História que a cigana (nua) me Contou
(Editora junco)
À Cuba de Fidel
_____________________________________________
O sonho
Eu queria ser um general.
Um general de brinquedo, nas mãos de uma criança que brinca.
Eu não mataria homens na guerra.
E o sangue que jorrasse seria tinta vermelha derramada no avental da mamãe.
Eu pegaria minha espada de pau e daria pauladas nos soldadinhos de chumbo.
E não feriria.
Quando o praça não desse continência eu ia dar-lhe uma sova de brinquedo.
Eu não queria ser Anibal, nem César ou Napoleão.
As minhas marchas forçadas seriam em cima da mesa de brinquedo - de um garôto.
E nas noites de frio e chuva eu pegaria o cavalinho e trotava por aí.
Eu não queria ser de carne e osso mas um general de brinquedo com uma brigada de
chocolate.
A secura fresca da morte, rondando.
A secura fresca da morte, rondando.
Rondando,
rondó,
criança brincando,
orvalho caindo.
Rondando,
rondó.
___________________________
Por mais que busque na difusa memória,
e não o faço,
jamais saberei,
e que importa,
quando encontrei primeira vez,
o lobo.
Sei que muitas vezes e até quando não sei,
vestí suas vestes.
Para enganá-lo.
A dúvida paira,
se convencí a alcatéia,
que o abomino,
se assustei as ovelhas,
o que não acredito.
Mas,
sentença final,
a execução do lobo,
tem o sabor da vingança,
ainda que na pele do cão,
do Cão.
16. Maneco
( Editora Símbolo)
Maneco vê o vento azul.
Eu vou até o galinheiro, prá levar o pirú e os patinhos, prá verem esse vento
azul, que eu nunca vi. Pode ser que eu nunca vi porque eu sou pequeno. Meu pai,
que é grande, já eu acho que viu muito esse vento, pelo menos quando ele era
pequeno. Minha mãe, se nunca viu, ouviu no telefone da dona Rita, que já viu
tudo e deve ter visto, não só o vento azul mas todos os ventos de todas as
cores, de todas as terras. A professora disse que a terra é redonda. Mas se é,
como é que japonês fica de ponta cabeça, anda pulando e ri à toa? O seu Shizuko
tem mesmo a cabeça chata, mas engraçado, na quitanda ele fica em pé que nem a
gente e num fica de ponta-cabeça. Eu não conheço nenhuma terra redonda. Então,
como é que o Japão fica do outro lado da terra e não cai? Vai ver que o Japão
não existe só existe na televisão. O Japão é um vulcão. Porque a dona Rita
conhece todo mundo que já viu e ouviu tudo no mundo. Porque eu acho que a dona
Rita não vê o vento. Ela ouve. Porque a orelha dela deve ser diferente. Não é
grande, mas ouve mais que todo mundo que eu conheço. Pode ser que ela tem uma
outra orelha escondida. Num sei não! Será que a dona Rita já ouviu o Japão? Será
que o vento fica de ponta cabeça?
Eu queria ter dinheiro, que nem meu pai, prá comprar galocha, terno e
guarda-chuva, prá dar pro pirú e os patinhos quando chovesse, depois do vento,
prá eles não ficarem resfriados. E depois ter que tomar injeção, que nem eu, que
injeção dói muito. Mesmo no bumbum, que o doutor Celso diz que num dói. No
bumbum dele, que deve ser de couro, prá não doer, e a mão, eu queria ter grande.
Era prá quebrar a cara do ladrão que roubasse o meu cofrinho eu ainda não pus
nada. Porque só ontem o meu pai trouxe do banco. Engraçado, eu já brinquei tanto
no banco do jardim e nunca encontrei nenhum cofrinho. Só se meu pai brinca em
outro banco, de outro jardim.
Esse barulho no céu, meu pai diz que é chuva, que vai vim. Eu num sei como ele
sabe, mas eu acho que quem sabe mesmo é o Tulinho, que sabe matar passarinho com
estilingue. Meu pai num sabe. O Tulinho diz, que a mãe dele diz, que é um dia de
mudança no céu e, deus e os anjos tão arrastando os móveis de um lado para o
outro. Que nem a minha mãe e a Maria ficam arrastando, quintas-feiras de manhã,
pra fazer arrumação geral, que na verdade eu acho que é uma desarrumação geral.
Porque na verdade, elas tiram os meus brinquedos e as revistinhas do lugar e eu
tenho que arrumar tudo de novo. E às vezes jogam fora os brinquedos melhores,
que elas dizem que estão estragados e velhos. Essa gente não entende nada. Os
brinquedos estão é gostados. As coisas dos brinquedos e a roupa, quando ficam
gostadas, ficam molinhas e boas prá brincar e usar, e a gente pode brincar com
elas na terra e sentar com a calça no chão. Aí é que estão bacanas, mas os
grandes acham diferente. Acham que, quando dá prá brincar na terra e sentar no
chão, tá na hora de jogar fora. Num entendo nada. Por isso, é que gosto de
conversar com o louro - Dá o pé louro, dá o pé Chico, dá o pé. Sempre fala a
mesma coisa e aí eu entendo tudo. Eu só entendo quando bicho e gente diz sempre
a mesma coisa. Não gosto que fica mudando toda hora: “Faz isso Maneco. Não faz.
Agora é a hora de fazer. Depois cê faz. Pode. Num pode. Manequinho do coração.
Manuel. Manuel. Olha o quê que você está fazendo. Cê vai pro banheiro”. Que
coisa boba, me mandar pro banheiro, só porque eu fiz arte. Pro banheiro eu só
gosto de ir prá fazer xixi, cocô ou ler revistinha. Às vezes, até me chamam de
seu Manuel. Principalmente: “Seu Manuel, vem cá. Quem é que lambuzou de
chocolate este livro?”Que que tem de mais passar chocolate no livro? Fica doce.
Dá até prá lamber. E por isso tem que ir pro banheiro? Só se fôr prá passar
chocolate na pia.
O louro, também, eu acho que já viu o vento azul, porque tem o olho grande. E
quem tem o olho grande é porque deve fazer ginástica com o olho. E, então vê
tudo. É bom fazer ginástica, o professor falou. Porque a gente fica grande e
pode fazer tudo. E eu vou querer fazer tudo quando crescer, e até vou fazer
ginástica com o olho. É prá ele ficar grande e eu ver tudo. Porque eu acho que
com o olho grande, dá prá ver tudo até Deus, se fizer muita ginástica de olhar,
que a gente grande não faz. Gente grande tem olho pequeno. Por isso vê televisão
mas não vê as coisas...
Quando ficar grande, vou querer também empurrar avião. Porque tem gente que
acredita que avião voa sozinho. Eu, heim? Nada anda sozinho , sem empurrar.
Minha mãe já disse que precisa comer, prá ter força de andar e que comida é
gasolina da gente. Sem gasolina, o automóvel não anda. E sem comida a gente para
e fica morto - que é, parar, sem andar e deitado. Que o tio parou, vai ver que,
de brincadeira, porque eu vi ele comer muito antes de parar prá morrer. E até
meu pai, um dia na feijoada, disse assim: “Seu João, o senhor vai acabar
morrendo de aeroclorose, de tanta gordura”. E aí é que começa a atrapalhação. Eu
prá ficar vivo tenho que comer feijão, e o seu João morre de aeroclorose?
E quem é que empurra o vento, prele num ficar parado? Deve ser um homem muito
grande e forte, que fez muita ginástica, e comeu muito feijão com abobrinha e
não morreu de aeroclorose. E também que gosta de tirar as coisas do lugar,
porque senão, ele deixava o vento ficar parado. Ia ficar muito bonito. O vento
todo parado no mesmo lugar. Sem se mexer. Que isso de ficar zanzando de um lado
pro outro, muito depressa, vai acabar cansando o vento. Só se esse homem for que
nem pião. Que meu avô fica sempre resmungando, diz: “Maneco, pare de zanzar de
um lado pro outro, que nem pião”. Será que o vento é um pião tufão?
E, quem é que pintou o vento de azul? Vai ver que é um menino que pintou de
azul. Porque só tinha lápis azul. Senão ia pintar de muitas cores. Deve ser um
daqueles moleques, que o Tião diz, que num tá cum nada. É pé-de-chinelo. Vai
virar trombadinha, quando crescer, se crescer. Já eu, se tivesse que pintar o
vento, ia usar os lápises amarelo, vermelho, verde e branco que ganhei no estojo
da mamãe. Ia misturar as cores e fazer um vento arco-íris. Mas, se tivesse com
vontade ia fazer só azul. Que nem se eu fosse um pé-de-chinelo. Mas, ia ter que
ser chinelo da vovó. Velho e gostado.
Bom, agora eu acho melhor parar de pensar. Porque meu tio já disse que, de tanto
pensar, morreu um burro.
Será que a noite é um vento pintado de preto?
Textos deste livro foram discutidos no Simpósio Brasileiro sobre o Escolar
(PUC-S.P.) na palestra “Desenvolvimento psicológico da criança” e distribuidos
no “ II Encontro Nacional de Criação Publicitária”.
17. Ritmo Esquerdo
O Sonho
Eu queria ser um general.
Um general de brinquedo, nas mãos
de uma criança que brinca.
18. Psicologia da Agressividade
( Editora ICC )
Na terra do bem-me-quer, mal-me-quer
Nunca fui amigo do Rei. não sou e nunca serei. De nenhum rei, coroado ou sem
coroa. De nação, igreja, partido, ideologia. Abomino os donos da verdade.
Nasci em Juiz de Fora, na terra das Gerais, não da acomodação ou do jeitinho,
mas de Tiradentes, Aferes enraivecido.
Meu pai veio com o navio “Valdívia”, de Ostrowiecz, Polônia, sem um tostão no
bolso, sem falar uma palavra do português, com a opção do suicídio no mar ou o
vôo no horizonte. Dezenove anos de idade, sozinho, em 1928. Solidão. Escolheu o
céu. Não o céu dos altares sacrílegos, mas o bruto e árduo trabalho individual
que nào depende do favor alheio. Ganhou o pão com suor de seu rosto e dividiu-o
comigo e nossa família.
Meus heróis de infância foram Tarzã e Flash Gordon, mesclando Hollywood e a
Bíblia. Atravessei com Moisés o deserto e recebi a Lei do Sinai. Sempre tive
ódio dos patrulheiros, de direita, centro, esquerda, meia direita, meia esquerda
e meio centro.
Cada um vê o mundo segundo sua ótica no registro biográfico, mas também segundo
sua livre assunção como ser na descrição majestática de Sartre.
Questiono interminavelmente e democracia para mim é um estado de espírito e não
um vocábulo ou um regime político.
Liberdade é uma reflexão crítica que começa na angústia e termina na esperança e
não bandeira para demagogia.
Aprendi a considerar a marginalização, a injustiça, a perseguição, a calúnia
infame, elogios, por virem da escória que suplicia, amaldiçoa e se vinga.
No macrocosmo denuncio o torturador e choro com o torturado, porque palmilhei os
caminhos que passam pelas fogueiras da Inquisição, Dachau e desembocam no
pau-de-arara. Fico com a mãe solteira e desprezo a covardia do pai desertor.
Aliás, desconfio do sexo reprimido e de ideais elevados, construídos por cima de
sorrisos hipócritas.
Felizmente, nunca fui dos patotas, “tchurmas”, panelas e compadrismo. Pelo
contrário, sou um outsider por nascimento, destino e vocação. Inclino-me mais
para o não do que para o sim. Decorei a resposta certa para o momento exato: A
pergunta que está mal formulada.
Nenhum programa nuclear merece a angústia de um só desempregado. Um só
esfaimado, doente ou abandonado, faz-me ter vergonha de mim mesmo, inclusive por
ditar estas palavras, enquanto almoço. Almoçar? Quem tem direito de? Têm criança
e velhos pedindo comida nas esquinas; doentes sacrificados, ignorância
universal.
Sadoma e Gomorra que confundem alimentar-se, empanturrando-se com a carne
putrefata dos animais, vítimas nos abatedouros da nossa sanha de Caim. Caim
ecológico que suja os rios, derruba árvores, empesteia atmosfera.
Enquanto uma espécie de últimos dias do Juízo Final, a idolatria impera no
esquecimento de Deus, eis que a integridade se transforma em corrupção; o
assalto em faroeste de televisão e o traidor se julga mestre e senhor.
Um rol de decepção? Não. Um manifesto na possibilidade de reação.
Vegetariano e não carnívoro. Crente e não descrente. Rilhando os dentes à cata e
busca de um passado reescrito, um presente brigado e um futuro muito louco, com
si bemóis, luas verticais, comida, paz e a harmonia do desarmônico.
Uma espécie assim, de Glauber Rocha, Cecília Meirelles, D. Pedro II e Branca
Dias.
Um tango de Jorge Luiz Borges nas cordas do samba do crioulo doido, na
relatividade de Einstein.
Nota zero em matemática, zero em lógica, zero em disciplina; em poesia, dez.
19. GOLEM
À memória de Moreinu Harav Liwa -
Maharal mi - Prag -
Judá Loew ben Bezalel
Nos tempos do cabalista Judá Loew ben Bezalel (1525-1609), foi criado o golem -
para alguns, uma fábula, para outros uma criatura diminutiva, ainda um gênio de
obediência e, finalmente, para mim, a essência divina, no humano.
Na verdade, a doce figura de Adão e Eva antes do fruto proibido, abençoados
sejam.
CAMINHO
Na tarefa, função,
obra a natureza,
o afã matutino.
Planeja e peleja e
justifica a expulsão do
Paraíso.
Só,
passeia, viajando,
quem sabe,
à que estranho título
rebelde,
o “albatroz-vagabundo”,
“gaivota”
dos marinheiros holandeses.
Pousada em mares calmos,
ingênuo, descansa sem
passado e reflexivo, os
ares do porvir.
Sincrônia, a
onda azul e toda a redondeza num só
murmúrio de harmonia.
Então, de-repente,
se faz desgraça e
a morte chega, nos
olhos do tubarão.
Se cumpre a maldição.
Suicida, o tubarão
rompe as entranhas e
silêncio cativa a
sentença.
E, ao longe, o filhote
saudoso, aguarda debalde a
volta do albatroz.
O céu se curva, a
fêmea seguirá o curso
solitário.
No inferno, um
tubarão se regozija -
Réquiem por um albatroz.
Mas a vingança do
Norte se aproxima,
de sangue se tinge a
água.
Urubu dos mares,
sacode a imaginação,
seguindo
as marés.
Barco a vela,
talento das
mudanças de vento.
Invento a fábula -
uma estrela cadente desce do Espaço e aninha
em suas dobras o albatroz
sonolento.
SOLIDÃO
Só, passeia, viajando,
quem sabe, à que estranho
título rebelde, o
``albatroz-vagabundo``,
``gaivota `` dos
marinheiros holandeses.
Pousando em mares
calmos, ingênuo,
descansa sem passado
e reflexivo, os
ares do porvir.
Sincrônia, a onda azul
e toda a redondeza num
só murmúrio de harmonia.
Então, de -repente, se faz
desgraça e a morte chega,
nos olhos do tubarão.
Se cumpre a maldição.
Suicida, o tubarão
rompe as entranhas
e silêncio cativa
a sentença.
E, ao longe, o filhote
saudoso, aguarda
debalde a volta do albatroz.
O céu se curva,
a fêmea seguirá
o curso solitário.
No inferno, um
tubarão se regozija -
Réquiem por um albatroz.
Mas a vingança,
do Norte se aproxima,
de sangue se tinge a água .
Urubu dos mares, sacode
a imaginação, seguindo
as marés.
Barco a vela, talento das
mudanças de vento.
Invento a fábula - uma
estrela cadente desce
do Espaço e aninha em suas
dobras o albatroz sonolento.
DILÚVIO
Salomão desiste de convence-lo a embarcar na Arca de Noé.
Rebelde ingênuo, o albatroz enfrenta a tempestade.
E, por prêmio ou castigo, sempiterno, evolúe, vertiginoso.
O REI
Maior envergadura que
o Condor andino, que
a cegonha marabu,
na terra só faz amor.
Diomedéa Axulans,
as cores, os olhos, o
bico, as imensas asas,
varre o céu,
pássaro oceânico.
A Grande águia -branca.
NUVENS AMANTES
Balbuciando ou
chamando, se ouvia à
distância galáctica, o
estranho juramento :
Sim, Sim, Sim.
Corvos mirificados,
ecoavam, surpresos, milenar
ceticismo.
E quando a noite desce,
a caminhada paira, na
espreita da aurora,
é o pássaro em letárgica
sinfonia.
Sim, Sim.
E era como se de
todos os ruídos - uma
fantasmática orquestra
rugisse uníssona, multíssona,
um Sim laranja-claro,
vermelho-festa, azul-celeste,
no coral do albatroz.
Porém,
aves congregadas -
falcões, pássaros-do-mato,
andorinhas, em sons ou grasnar,
repetiam, monocórdio,
multicórdio - distante apelo,
Sim.
Disparado,
e no topo de
Babel pousava um albatroz.
“o albatroz-gritador”,
se esmerava
na permissão -
Franceses, turcos, afegãos,
out-sider, clarins, bandeiras,
hinos, poréns, talvez.
Nem domus, nem oikos,
a caravela das descobertas,
os mundos a revelar.
Na rota entre
a ilha e o desterro.
O Golem.
As almas feitas em Harã,
Abrão e Sara levaram para Oeste.
Canoro Exílio
em que a imagem,
a sombra, o reflexo
nas entreluzes do Sol,
da lua. Embora.
AUTONOMIA DE VÔO DO ALBATROZ
Sobre o mar,
reflexo da terra,
por mais de quinze mil
Quilômetros,
milhares de anos,
animal alado, sujeito preso aos
mandamentos.
Planando por horas, sem mover
as asas, voando,
por entre os véus da Schechiná
estático, na vertical vertigem
que espreita num pilpul.
Uma velocidade de oitenta
Quilômetros a hora,
o corpo no balé dos passos
dianteiros, traseiros,
na oração consagrante,
os passos sangrentos.
Consumação da lenda,
o Caim, assassino do albatroz,
que se destina à que porto
os tripulantes do navio
que falece, e o próprio
mar, deserto e terrível.
Quarenta anos no
deserto, para alcançar
sua envergadura de três metros,
pousando no mar,
esperando o vento para outra vez, voar.
“Wandering albatroz”,
Judeu Errante
o maior pássaro oceânico,
as asas imensas que intermediam o gueto e a
Idade Média.
Capaz de iluminuras em
Sefarad, trinta e três dias sobre o
mar,
trinta e três vezes,
Shemá.
Diomedea Exulans,
albatroz -vagabundo, vagabundo,
albatroz-gritador,
o personagem de todas
as novelas e narrativas,
da inquieta aventura,
desventura,
humana, desumana .
Em busca da Terra Prometida,
milhares de quilômetros,
em busca de comida,
Israel, a paisagem das
Ilhas Crozet,
a chuva por trezentos dias,
o vento,
desfazendo as imagens do
Paraíso.
Afim com o tempo
para a sua alimentação,
passageiro da solidão,
convicção.
A navegação diurna,
a favor do vento.
As noites, as trevas, as
bruxas, a Inquisição.
O vento de “popa” para ir,
os laterais para voltar.
A leitura
da direção, da força, dos ventos.
As vogais e consoantes do
Pirkei Avot.
Um ovo para cada fêmea,
a incubação durante os vôos
prolongados, o casal se alternando
para incubar, um ovo para
cada fêmea.
Crescei e multiplicai-vos,
Abrão,
O pássaro aguardando até
cinqüenta dias a volta
do companheiro.
Ao nascer, a redução dos
vôos para dois, a volta, alimentando
o recém-vindo.
ydishe - mamme, ydishe tate.
O albatroz não é mergulhador,
o judeu não é caçador.
Come peixes mortos e o resto da
comida, dos navios.
Kasher para poupar a dor do animal,
o ritual de alimentação.
A lenda dos marinheiros,
o azar e a maldição para quem mata o
albatroz,
o suicídio no “ bunker “ de Berlim.
Mas igual aos golfinhos, morrem arrastados na largas
redes dos pescadores,
os “ progroms ” europeus, as fêmeas que buscando
comida em água sub-tropicais,
saem dos limites cristãos.
O resguardo nos
mares antárticos,
a leve brisa de liberdade.
Vinte mil espécies,
no Pacífico, Atlântico,
Antártico,
as tribos viajantes.
Ao vento, voam.
Na calmaria, à deriva,
entre os trovões, a chuva,
o sol, o sal, a luz, a noite -
as estrelas, galáxias adormecidas,
em sonhos encantados.
Na terra, o delírio da reprodução.
A docilidade e a fé,
metanóia em presas fáceis,
o apelido de “gaivota boba”,
“judeu covarde”.
Doze quilos em mais de três
metros, envergados,
Fênix,
de sangue a fixidez
horizontal, atravessando os milênios,
o tempo enluarado,
a oração da lua,
a oração da estrada,
o Deus que fez
distinguir, no canto
do galo, o dia e a noite,
a bússola ao albatroz,
o maior dos pássaros
oceânicos,
que aceitou no Sinai,
as tábuas da Lei.
Pousa no mar,
que se abre, Vermelho,
à sua passagem.
As águias romanas não
sobrelevaram - Judea Capta,
Judea Liberata.
Carruagem de Fogo,
Cabala, as nuvens descerradas,
cada céu escalando, descendo.
Ornitologia, teologia, astronomia,
astrologia, tapete-voador,
na promessa messiânica.
O som do albatroz,
majestática figura contra, corta,
os céus de entre - cores.
O mistério salvacionista dos
céus escondido nas alturas e o
inferno nas profundeza do mar.
Pássaro, passageiro, o
caminhante enfrentando o tempo e o espaço,
relativizadas imagens que deturpam
a verdade fugidia,
eis as estreitas margens
franqueadas de mentiras
certas, limítrofes no rastejo uniforme.
Do outro lado do rio, a estranha
criatura que, risca o céu em
letras invisíveis, escreve
seu herdeiro, lindeiro, sinaleiro.
Pássaro mágico que habita
paragens ignotas e faz pensar
em longas travessias,
incessantes pensamentos em passos arredios.
Rí, num claro desafio, dos satélites
semi - audazes que imaginava
percorrer o Infinito,
se aloja nas asas do
albatroz, os pés do vagabundo,
a luz, acende - apaga, do vagalume.
Estático o Golem,
se importa a visão arrebata,
enquanto por compassos
sempiternos, o albatroz
atravessa as fronteiras, os idiomas,
os ontens, os amanhãs, os
hoje em longínquos decalques.
As tribos perdidas se
africanizam em negritude
ou entre peles - vermelhas
americanas bailam clandestinas
palmas de crenças fiéis.
Lituanos, letões, japoneses, chineses,
esquimós, Nostratica.
SAGA
Acabado ou em forma de larva branca.
Isto por ter sido o único
animal que não comeu
o fruto proibido,
no Paraíso.
Ovídio versejava:
“... alimenta-se não de grãos
ou ervas,
mas das lágrimas do incenso...
Galo do Japão,
constelação astral ao sul do Equador,
ao norte do tucano e do marinheiro.
Jó, 29,19 -
“No meu ninho,
expiarei, multiplicarei
os meus dias como areia”.
No “Livro da Morada” egípcio -
“assim também, pela lei do sacrifício,
o iniciador renascerá no coração
de Osiris.”
E no Livro das Mortes -
“Eu sou o ontem,
o hoje e o amanhã”.
Metamorfoseia em falcão de ouro.
Era o símbolo dos marranos
e cristãos-novos,
perseguidos pela Inquisição.
Capital do Arizona,
Fênix espreita e ressurge,
aonde não se imagina.
Jerusalém, da terra e do Céu.
REVELAÇÃO
Depois de escrever este poema,
li em “Tehilim 102:8”-
“E sou como Pássaro sobre o telhado”.
Rabi Alexander, na introdução
a Eijá Rabá 2, diz que se trata da
solidão de Deus, após a destruição
do Templo.
Quem portanto o acompanhará no Exílio?
E, como fazer, para voltar ao
Templo/Tempo, que já não existe - ?
Cada pessoa que santifica a terra,
no passo (espaço) cumpre
a máxima - “sereis um povo
de sacerdotes”- e inverte o
costume do mundo.
A hierarquia desiste na visão
messiânica - O lobo e o cordeiro.
Nota - Despropósito, não traduzo ou interpreto os temas ou conceitos
relacionados.
O A.
DE MARIA FUMAÇA ATÉ PICADILLY CIRCUS 1
O poema “DE MARIA FUMAÇA ATÉ PICADILLY CIRCUS”, de Jacob Pinheiro Goldberg, fala
em princípio, de Londres, bela cidade meio masculina, sombria, imponente, com
seus famosos parques de um verde vivo, úmido.
O texto traz a síntese das características essenciais do escritor, do poeta e do
homem. A ousadia de um ego que se lança ao infinito, o amor pelas temáticas
transcendentais, o ser cosmopolita, cidadão do mundo, que faz de todo o universo
o seu lugar.
A declaração de amor por Londres é sem limites, expressiva, porque resume,
poeticamente, todo o mistério complexo da cidade única.
Em um estilo de dinamismo exacerbado, que raia ao paroxismo, eufórico e não
disfórico, Goldberg consegue, surpreendentemente, o inusitado: a insólita
mistura de um universalismo sem fronteiras, imbricado em um subjetivismo do
mineiro que conhece suas raízes e não perdeu jamais sua essência.
Talvez me habite,
nas dobras da alma,
espírito à Borges,
que verte lágrimas
à simples audiência
de “God save...”
Tão longe,
idioma que,
monoglota,
balbucio, inseguro.
.........................................
Das lonjuras de Minas Gerais,
bilhete de ida-e-volta.
A fumaça
do charuto de Churchill
descreve
Pasárgada ou Canaã.
Linguisticamente, o poeta tem um estilo que é o espelho de sua própria
personalidade: ousadias, saltos, “enjambememts”, estranhamentos semânticos,
neologismos, poesia, prosa poética, melodia, irupção.
Quem conhece a obra poética de Jacob Pinheiro Goldberg detecta que, às
características dos grandes temas, com visão macroscópica ( e às vezes,
microscópica, detalhando fatos subjetivos, pretensamente singulares ao poeta)
sua técnica cresceu, aperfeiçoou-se. Cite-se o exemplo do ritmo perfeito, unido
à metáfora bela da estrofe:
O vento gelado
levanta jornais velhos,
molhados,
que voam das calçadas,
pássaros atormentados.
Um quase mendigo ou vagabundo
cai num contraponto.
O poema é J.P.G. inteiro, com seu talento indiscutível, um demiurgo meio gauche,
o toque original e grande erudição. Desde o título do poema, a epístrofe
pertinente, vê-se o homem / poeta que não cabe dentro de si e extrapola,
catarticamente, pela válvula descoberta: o poeta rítmico de grande beleza,
altissonante, apoteótico, uma epopéia.
ELY VIEITEZ LANES
Mestre em Letras.
Nossos pais definem
a hora e lugar
de nosso nascimento.
O sangue,
a nossa tribo,
etnía.
A tradição,
a nossa língua e religião.
Deus,
o caminho da nossa morte.
Mas, nós, adivinhamos
a paisagem de nosso sentido.
E, assim (2)
Oh,
nós que somos animais urbanos.
Olhos tigrinos
sonho,
na tela da TV.
Transita a Rainha
na carruagem.
Torres ao fundo,
sinos e signos.
O vento gelado
levanta jornais velhos,
molhados,
que voam das calçadas,
pássaros atormentados. (3)
Um quase mendigo ou vagabundo
cai num contraponto.
Digo para a visão da minha mãe morta (4)
uma ficção,
mentira.
Estive nesta cidade,
Londres,
com meu filho,
com quem não estive. (5)
Que onírica invenção
transpassa o real,
para confessar
que amo esta cidade,
esta gente,
esta fala,
este estilo “gallantry”.
Que lusco - fusco é esse
da intimidade sem razão?
Talvez me habite,
nas dobras da alma,
espírito à Borges, (6)
que verte lágrimas
à simples audiência
de “God save...”. (7)
Tão longe,
idioma que,
monoglota,
balbucio, inseguro.
Londres,
Big-Ben, (8)
que asilou Freud. (9)
Londres,
em que numa tarde cinzenta,
um policial,
perguntou-me -
Can I help you?
quando adivinhou
minha perdição,
na única rua
das minhas avenidas
em que,
mágica de tempo,
espaço,
metanóia,
dancei o carnaval
de coloridos e bálsamo,
o requinte
das sendas que atravessam os oceanos,
abrigo
ao meu passo peregrino. (10)
Oxalá, (11)
soube que ali,
sempre serei,
um na multidão,
no chá vespertino,
comospolita, (12)
um provinciano capiau, (13)
da Terra.
Da lonjura de Minas Gerais,
bilhete de ida - e- volta.
A fumaça
do charuto de Churchill
descreve
Pasargada ou Canaã. (14)
Nostalgia
da Royal Air Force, (15)
a torcida contra o Eixo.
Jogar foot-ball (16)
com Salman Rushdie, (17)
marcando todos os gols
que, frangueiro,
engoli, amargurado,
no campo do Granbery. (18)
Pharmacy, (19)
esquina do mundo, (20)
onde
silenciado pela ignorância
do verbo,
rompi as barreiras.
Cavalgada à Kipling, (21)
que li,
no primeiro
corte de cabelo,
na primeira
barbearia,
onde fui coadjuvante
equitação impossível,
no quartel
hipo - móvel do
Décimo-segundo Regimento de Infantaria, (22)
numa cena de Lawrence. (23)
London, London. (24)
Oásis no deserto.
Fantasmas e
castelos,
Bandeira Negra (25)
em Hyde Park (26)
Notas (talvez) dispensáveis.
(1)- Na infância, viajei dezenas de vezes nos trens da Estrada de ferro Central
do Brasil, de Juíz de Fora, MG., minha cidade natal para São Paulo, afim de
visitar meus avós maternos. Ia vomitando. Voltava saudoso da garoa, talvez
ensaio para o “fog”. A locomotiva vencia, cansada, a distância, queimando o ar.
Daí o apelido.
(2)- Creio que a literatura íntima demanda o ex-timo - a explicação, implicação.
(3)- O jornal diário sempre foi uma espécie de passaporte para fugir da pequenez
do cotidiano, pergaminho sagrado de entendimento.
(4)- A morte não interrompeu nosso incessante diálogo.
(5)- No concreto, estive com minha filha. No imaginário com todos os
antepassados e pósteros.
(6)- Minha mãe, a poeta Fanny Goldberg dedicou seu livro “Meu caminho sem fim”
ao escritor argentino, Jorge Luiz Borges, o mais britânico dos escritores. Fanny
foi personagem da mágica vida borgeana. Como a outra, Fanny Haslam.
(7)- Os acordes soavam do Império no Simbólico e Imaginário.
(8) Sístole e diástole - a importância mística da reverberação.
(9)- Não por acaso Freud encontrou abrigo em Londres.
(10)- “Flaneur”. Em Londres um policial se dispôs, voluntariamente, a prestar-me
informações que não pedi.
(11)- Além de desejo, (tomara que aconteça!) figura da Umbanda, que compõe o
sincretismo brasileiro.
(12)- Fui “acusado” de cosmopolita por jornalistas e políticos, inúmeras vezes.
(13)- Caipira.
(14)- O poema de Manuel Bandeira ou o mito bíblico. Meus esconderijos de garoto.
(15)- A R.A.F. disputando os ares com os abutres.
(16)- O esporte bretão triunfante no Brasil.
(17)- O escritor muçulmano condenado à morte pelo fundamentalismo e que se
protegeu na Inglaterra.
(18)- Colégio metodista de missionários “yankees”, aonde fiz o curso primário em
Juiz de Fora.
(19)- Boite londrina a molde de farmácia.
(20)- Como Walter Benjamim, sempre estive na esquina. “Esquina” foi meu apelido,
na adolescência.
(21)- Alusão ao poema de Rudyard Kipling , “If”, sempre nas paredes das
barbearias, antigamente.
(22)- Quartel do Exército, onde prestei serviço militar, antes de 1964.
(23)- Lawrence da “Arábia.”
(24)- Trilha sonora.
(25)- Militante anarquista, escrevi no jornal “Dealbar” sobre o individualismo
de Albion.
(26)- Democracia, na praça . Lá, discursei para 3 gatos pingados, minhas
verdades e mentiras, como fazia na praça da Sé, em São Paulo, nas campanhas
libertárias do “ Petróleo é nosso”.
Depois “urbanizaram” a Praça da Sé.
Cidade interior
Se, em grego, drama é movimento, os estreitos espaços da minha subjetividade tem
pouca geografia.
Abomino as estradas. Talvez, a repulsa ao ditado externo da Errancia.
Abrão, ( lech-lecha ). “Vai-te”. Arrastado, fico enquanto posso.
Juíz de Fora, o porto de partida, paraíso de meus pais, egressos da anti-semita
Ostrowiecz, na Polônia. Amsterdã, onde as artérias explodiram em liberdade. São
Paulo, onde me construí. Jerusalém, de onde fugi como quem escapa da eternidade.
Paris, as lágrimas de alegria corriam paralelas ao Sena. Mas, não é possível
morar num rio. E algumas outras, poucas.
Os índios ressaltam a alma do “lugar”de cada um, ligando o conceito ao “poder”.
Estranho ao deslocamento, estranho, também, a morada.
De onde vim, onde estou, para onde vou.
Vadio numa praça qualquer, num “pub”, livraria, olho para a metrópole
febricitante, e vejo uma serenidade bucólica, que pousa na própria visão.
Por tudo isto e o “insight”- partitura de Sara Brightman, o sentimento que
prevalece em relação a Londres é o de gratidão.
A gratidão do desfecho correto nas atribulações da aventura.
“All right”, como diria Elek, um herói da minha meninice.
Este poema foi vertido para o espanhol pelo diretor de arte da “Trip”, Jorge
Colombo, numa edição de autor.
PARTE SEGUNDA
EVA SERÁ DEUS
(E REFLEXÕES SOBRE MAPEAMENTOS
NA FORMAÇÃO DE MENTALIDADE ).
Agradecimentos :
- Ao Dr. Alberto Noronha Dutra da University College London Medical School, seu
estímulo intelectual e visão de psico-imunologia que abre caminhos para uma nova
realidade da saúde física e mental.
- Ao Dr. Michael Driscoll, vice-chancellor da Middlesex University, Londres.
Ao Professor Jerry Hart, Lecturer in Security Management - University of
Leicester
Eva será Deus..
Este foi o tema escolhido por Jacob Pinheiro Goldberg para uma conferência
realizada no dia 3 de julho de 1998 no Lecture Hall da Universidade de Londres.
O professor Goldberg falou para uma audiência composta de intelectuais e
cientistas de diversas nacionalidades com backgproud cultural eclético. O que
este psicanalista e gênio criativo fez em Londres foi como jogar uma pedra num
lago. Impressionante ver como as ondas criadas por ele se propagaram e continuam
indo longe de sua fonte. Na entrada de um novo milênio, o que as pessoas mais
buscam é uma fonte de inspiração e subsídios para reflexões mais profundas do
que a assimilação da história tal como tal nos foi apresentada. Uma análise
histórica não seria razão suficiente para o professor Goldberg se deslocar para
a Europa para um encontro de tal importância, pois embora a história possa ser
destituída de sua legitimidade, por trás das crenças religiosas, há sempre um
modo de pensar e de sentir, hábitos e práticas culturais, valores que se
originam de uma série de instintos obscuros. Por que não investigar estes
instintos? Esta foi razão que o levou até lá. Afinal, derrubar fantasmas é um
dever moral. Ionesco disse: “somente as palavras contam, o resto é falatório”.
Através da linguistica torna-se possível encontrar a essência, mas foi preciso
coragem para retornar ao início dos tempos e recompor a imagem de Eva. Ao invés
de maquiavélica, uma mulher de qualidades e integridade foi apresentada pelo
professor Goldberg pois ela primeiro experimentou o fruto e só depois de
comprovadamente inofensivo, o oferece a Adão. E assim, Goldberg começa
esclarecendo um alveário de contradições inserido numa temática fussy. Os
instrumentos intelectuais necessários foram reunidos para a evolução do assunto.
“Deus não existe, a Maria é sua mãe”. Uma reinterpretação desta frase e os fatos
foram abordadas com muita coragem. Foi perguntado ao professor se ele acredita
na virgindade de Maria. Ele disse que sim, tanto quanto na de sua mãe. Na
história de Moisés mostra que há indicações de que teria sido gerado pela
princesa e um escravo egípcio. Seria perigoso retirar do contexto quaisquer das
indicações apresentadas, porém, o professor o faz com uma energia intelectual de
homem culto e tolerante. Prosseguindo a conferência, o professor Goldberg
insiste na necessidade de repensar o papel da mulher nas sociedades e ressalta a
posição invejável da mulher, uma vez que a ela foi dada a função da procriação
sobre a evolução da humanidade. Neste momento, Goldberg atinge o objetivo de sua
conferência ao provocar na audiência a reação desejada: não o reconhecimento do
valor da mulher, nem a conquista de direitos para ela, mas a descoberta de uma
perspectiva. Após séculos e séculos seguindo um modelo masculino, qual deve ser
o modelo feminino? Será preciso criá-lo. Para o próximo milênio, eis o grande
desafio.
Silvana Ramos
A GÊNESE DO LIVRO
Entrevista realizada com Jacob Pinheiro Goldberg - Marília Librandi Rocha.
Transcrevemos a seguir parte de um diálogo registrado em 1997, por ocasião de
uma série de entrevistas realizadas com o autor, no decorrer de 2 meses, e que
versavam sobre alguns de seus textos e poemas. Decidimos agora trazer a público
um fragmento desta conversa, pela relação que estabelece com o tema do livro,
Eva Será Deus. Naquele momento, Jacob estava começando a refletir sobre o
assunto, sobre o qual viria a escrever e pronunciar uma palestra meses depois.
Assim, por serem anteriores à elaboração do trabalho, as reflexões aqui
apresentadas representam um momento importante, pois permitem ao leitor
acompanhar a difícil e audaciosa gestão deste livro. Na edição procuramos manter
o fluxo oral, fiel à forma do diálogo que então se estabeleceu.
ML - Gostaria de começar falando de um texto em que você faz um elogio ao
plágio, de uma forma, eu diria, muito original. Você poderia falar um pouco
sobre isso? 1
JPG - Os plágios são as cópias que os filhos fazem da prosa familiar. A partir
de uma certa idade, em nome da emancipação, as crianças, e mais provavelmente os
adolescentes, recriam essa obra inicial dos pais, tentando subscrevê-la como de
sua autoria. Talvez, daí, a origem da arte, que, ao mesmo tempo é repetição, é
também rebeldia, porque está ligada ao conflito de gerações. Eu acho que tem
muito disso, uma espécie de mandala, quer dizer, a partir de certo instante o
medo da ruptura, de levar as últimas conseqüências o corte umbilical, faz com
que a gente volte, e nesse retorno a gente consagra o plágio. É exatamente por
isso que toda a civilização é uma repetição absurda. Eu fico espantado, por
exemplo, com a importância que o Borges dá para a biblioteca. Eu me espanto
porque na verdade a biblioteca não tem a menor importância. Na realidade, toda a
fala universal é absolutamente reducionista e reduzível a meia dúzia, uma dúzia
de criações, o resto é uma repetição absoluta e absurda. O que talvez fosse
original? Os falares de Deus com Deus. Talvez, a última conversa criativa da
humanidade é aquela que não ficou registrada entre Deus, Adão e Eva na hora da
expulsão do paraíso. O que a gente conhece é o castigo, mas nos desconhecemos
qual foi a troca, que deve ter sido lapidar. Daí para frente é a mudez. Não há
mais nada a ser dito. Por isso a gente fica plagiando. No fundo, o que é que a
gente está tentando? Fazer a expiação desse pecado inicial, do gesto primevo.
Não tem mais o que falar. Falar o quê? Vamos ficar repetindo o quê? Que nós
somos culpados? Nós somos, não é? Nós estabelecemos o pacto com a morte. Nós
tínhamos a vida eterna no paraíso e cometemos a traição, e essa traição, ao
mesmo tempo que é imperdoável, é o único gesto original, o único gesto original
da humanidade. Talvez o impulso original que dá ao homem a sua humanidade é o
acicate de Eva - é Eva dizer: coma o fruto. Aliás eu acho muito curioso, porque
isso já me cheira a uma mentira teratológica, monstruosa, porque a minha
impressão é que não é Eva que diz a Adão para cometer o pecado. Eu acho muito
mais provável o inverso, porque o homem sempre foi um ser inferior, agregado,
complementar à mulher. A mentira básica é que a face de Deus seja a face
masculina. Isso é uma enormidade, um absurdo, se existe uma figura, uma
semelhança na natureza da idéia de criação é o útero feminino, só ele cria. O
homem não passa de pobre instrumento de transmissão. O sêmem é só transmissão. A
geração é o útero feminino, por isso, é a mulher que foi feita á imagem e
semelhança de Deus. O homem não foi feito à imagem e semelhança de nada. Ele é
um plágio, não é? O homem é absolutamente um plágio. ... É engraçado que quando
eu falo essas coisas, tão evidentes, tão óbvias, tão nítidas, tão claras, esse
discurso vem com um repasse de dor e culpa, como se eu estivesse afrontando
todas as proibições.
ML - É verdade. E corresponde também a um processo criativo permanente, não é?
JPG - Devia ser. Mas eu vou hesitando. Quando vejo que fui até o limite, eu
procuro o pique de proteção.
ML - E porque é um limite muito próximo à loucura, também, não é isso?
JPG - Não. É a própria loucura, porque a sanidade ela está ligada a um acerto de
conveniência, e esse gênero de especulação é absurdamente inconveniente, porque
eu me alío a quem? Aos fracos. E o fraco sempre é suspeito. A mulher é sempre
suspeita, não é? A própria noção da serpente é uma noção feminina. A idéia da
insídia, da sedução é feminina.
ML - da loucura também.
JPG - também. A bruxa, a idéia da bruxa. O próprio erotismo. O homem não aceita
o erotismo. O homem tem medo do erotismo. O homem associa a idéia do erotismo à
homossexualidade. Homem gosta de guerra, de boçalidade. A figura masculina
absoluta, imperial é o Mike Tyson dando mordida sadomasoquista no Hollyfield,
batendo, dando murro.
ML - Voltando ao que você estava dizendo, eu acho que a criação e a escrita só
nascem desse embate com as idéias, desse ímpeto criativo, próximo da loucura, e
que dá medo.
JPG - É. Eu acho que toda vez que você tenta o mínimo de criação, de
originalidade, o mínimo de fuga do plágio, é quando você fica autofágico, quando
você aniquila essa segunda natureza que lhe foi imposta, e aí você permite
talvez um renascimento, essa idéia árabe do renascido. Existe muito isso no
mulçumanismo que é uma idéia de fênix, de morrer através da revelação, e que na
psicanálise está ligada á introvisão, quando você se transforma. Aliás é muito
curioso porque na minha vida isso sempre foi uma constante.Quando eu olho um
álbum de fotografia, eu não me reconheço absolutamente. Quando me
lembro do passado, falo sempre na terceira pessoa, porque não tenho a menor
identificação com o meu passado. E é curioso, porque não tenho identificação nem
com o meu passado de ontem. Uma das idéias que mais me agrada é aquela idéia
búdica, expressa num diálogo entre Buda e um de seus apóstolos preferidos. Buda
pergunta: “ ¾ Quem sou? Aí o apóstolo, que é um sábio, responde: ¾ “ Quem
perguntou não está mais aqui”. Essa idéia de iminência de transformação absoluta
é curiosa, porque isso existiu em mim e é interessante porque isso foi fruto
tanto de um processo, o meu processo psicanalítico individual, mas também foi
uma decisão de morrer para não morrer. Muitas vezes na minha vida ficou claro
que se eu não morresse eu morreria. A única forma de sobreviver era deixando de
existir. Às vezes, leio certos filósofos, ensaístas, estudiosos, intelectuais
que falam muito da importância do resgate do passado, na psicanálise mesmo
fala-se muito disso, e é curioso porque pra mim, o passado eu não vejo como um
tesouro. Eu vejo o passado como um espaço a ser conhecido para ser esquecido,
não para ser lembrado.
ML - Isso é tão difícil porque a gente se agarra completamente ao passado, como
uma identidade, como segurança, porque se você fica sem o passado, o que é que
você tem?
JPG - Na minha opinião você tem tudo. Se você fica com o passado você não tem
nada, porque o passado não existe. E se você consegue jogar fora o passado, aí
você tem tudo, que é o presente, que é a única coisa que você tem. O futuro
serão presentes possíveis, mas não certos, e é curioso como a gente trai o
presente o tempo inteiro, em nome, em geral, desse passado, desses Eus mortos.
ML - Mas essa mudança constante, não implica você romper o tempo todo também?
Porque dificilmente uma mudança interna não leva a uma mudança externa, com a
família, com trabalhos, com amigos. E você sempre enfrentou isso?
JPG - Sempre enfrentei, com muita dificuldade, com muita dor, muito sofrimento,
tanto interno como pelas pressões externas. Na verdade a minha busca pela
Psicanálise foi uma tentativa de compreensão da loucura dos outros e da minha
própria loucura, da loucura humana, porque eu acho realmente que a loucura
humana não tem limite. Eu acho que o inferno de Dante é uma pálida expressão do
que o ser humano é capaz de fazer mesclando a maldade com o seu delírio
permanente. E é curioso porque isso contrastando com uma capacidade
extraordinária, angelical, na alma humana. Então essa convivência é
insuportável, e ela te joga o tempo todo no limiar entre o crime e a insanidade.
O ser humano não suporta e não agüenta a idéia de que ele possa ter sido criado
por um Deus bondoso para ser um anjo. Ele não suporta isso. Ele tem um chicote
se ferindo permanentemente, t entando se revoltar contra esse Deus bondoso. E o
pior é que com êxito. Agora, eu acho que o que a gente pode fazer, deve fazer o
tempo todo, é fugir desse plágio luciferino, porque basicamente Lúcifer é o
plagiário, ele acompanha e corre atrás de Deus porque no fundo quer ser Deus. É
o filho que não suporta a submissão. A única possibilidade é a gente se curvar
humildemente e pedir licença a Deusa pra tentar voltar ao Paraíso. Não através
de Babel, mas através de uma contrição. Nós temos que vomitar alguns milhares de
anos, e eu sei lá se só milhares, não é? Os antropólogos falam em milhões.
ML - Você falou em Lúcifer. Tem um texto em que você fala da feiúra que eu acho
muito impressionante. É um texto em que inicialmente você parece brigar com Deus
pela feiúra no mundo, como se fosse um enredo divino e maldito. Depois você
defende a feiúra no sentido de uma resposta e de uma defesa do torto mais do que
do direito. O texto se chama “Culto à Fealdade”, e é uma espécie de reza,
cantochão, ao mesmo tempo lamento e homenagem à feiúra (aliás o texto termina
falando em sótão e porão, e a feiúra é mesmo aquilo que está nos fundos da casa,
escondido, jogado e largado e que ninguém quer ver nem assumir). Espaço do
detrito, do resto, do entulho, do enterrado no fundo da terra, e a feiúra, como
você diz, é também o contato com a morte. 2
JPG - Se existe algo que me incomoda é a idéia das instituições religiosas
descreverem a imagem de Deus como uma imagem bonita. Eu acho que Deus é feio.
Deus está no feio, porque Deus está na piedade, na desarmonia que procura se
acertar. Na realidade, a beleza, a simetria e a harmonia, elas são
provocativamente malditas, elas são sempre jogos de força, arrogância,
autoritarismo, pretensão, vaidade. O sofrimento, a dor, a criação sempre são
feios. Eu não conheço nenhum gênio bonito. Eu não conheço um profeta bonito, não
sou capaz de imaginar Moisés fazendo a barba todo dia, penteando o cabelo. Você
é capaz de imaginar Moisés na frente do espelho, durante uma hora penteando o
cabelo? Só Charlton Heston pode ser um Moisés bonito. Agora, a mentira aí ela
corre célere. As interpretações da Idade Média todas são de que José, por
exemplo, era lindíssimo, por isso a mulher de Putifar teria se encantado com
ele. Não. Imagina! A mulher e Putifar deve ter se encantado com ele porque o
Putifar era um corno manso, e José era o que estava á mão, feio e libidinoso.
E o abandono do feio provoca ternura divina. O bonito, o rico, o certo, esses
não precisam de ternura, pra que ternura, se eles tem aplauso humano?
ML - Acho que podemos terminar lembrando um outro texto seu que acho muito
bonito e de muito alcance. Você fala na beleza que está aonde não parece estar.
São duas frases:
“A tribo corre sempre na mesma direção. Mas para ineludível decepção, a beleza
caminha em marcha-a-ré.”
( Em “A Ógea e Calhandra” de Jacob Pinheiro Goldberg, p.41).
1 “ O Plágio.
A mais alta homenagem que a admiração presta ao gênio criativo. Copiar como se
fôra autêntico, bandidamente, é um ato de amor absoluto.
O autor deixa sua inventiva, abdica de sua personalidade e compromete seu
talento nas teias do objeto desejado.
O plágio, como a inveja, esconde no seio, envergonhado, o amor dissimulado”. (
texto publicado em “Ritual de Clivagem” de Jacob Pinheiro Goldberg).
2 “Culto á Fealdade
O anjo da luz comprometeu a escala da criação estética.
Lúcifer, Beleza provável.
Na desarmonia, falsa de estrutura, reside a passagem para a morte, ruptura na
cósmica de servidão.
O pacto da feiúra alimenta o único enredo divino.
A criança enferma cancerosa, o aidético, o louco deformado, a sujeira, as rugas
da velhice, enfim a posse da serventia.
Significante, na poesia estelar-ribombante na proporção do anão.
Orai por nós, feios, no altar de nossa vida, agora e na hora de nossa morte,
aleluia, também.
O avesso, prosaico, coloquial, feio é a beleza no anverso da ribalta.
Enterrai, cadáveres a caricatura da beleza, injunção narcísica do usurpador.
A messiânica mentira não é passado, virá nas dobras de um pardal enluarado.
Não há, então, cantata no sertão, sombras no sótão, porão”. (“J.P.G. em Ritual
de Clivagem”).
(Marília Librandi Rocha é doutoranda em literatura, pela Universidade de São
Paulo)
I
Senhoras e Senhores, professores da University College London Medical School.
Agradeço o convite para apresentar este seminário.
“Três coisas ignoro, e tampouco a quarta sei: os caminhos da águia nos céus, da
serpente sobre a rocha, do navio em alto mar, e os do homem no interior da
donzela”. [Prov. XXX, 18].
Agora, se sabe. O exame do DNA. O filho do Homem. A certeza do pai. Outra volta
na civilização.
_______________________________________________________________________________________________
Por meio desta identificação, tudo o que se diz nas interpretações talmúdicas do
Cântico dos Cânticos sobre a Comunidade de Israel como filha e noiva foi
transferido para a Schehiná. É impossível, creio, dizer qual foi o fator
primário: a revivescência pelos primeiros cabalistas da idéia do elemento
feminino em Deus, ou a identificação exegética dos conceitos anteriormente
distintos de Ecclesia e de Schehiná, esta metamorfose especificamente judaica
por meio da qual tanta substância gnóstica ingressou na tradição judaica. Não
posso, aqui, dintinguir entre o processo psicológico e o histórico, cuja unidade
peculiar constituiu o passo decisivo dado pela teosofia cabalística. Porém, como
vimos, existe ainda um terceiro elemento: o simbolismo da Schehiná como alma, no
Bahir e no Zohar. A esfera da Schehiná como morada da alma - esta é uma
concepção completamente nova. A residência mais elevada da alma, em sistemas
judaicos anteriores, era situada dentro ou debaixo do trono de Deus. A noção de
que a alma tinha sua origem no precinto feminino dentro de Deus mesmo foi de
grande alcance para a psicologia da Cabala. Mas se nos incumbe avaliar
plenamente o caráter mítico da Schehiná, devemos examinar mais duas concepções
que são inseparáveis dela: sua ambivalência e seu exílio. Aqui, como em tantos
outros lugares, a Agadá remonta a idéias bem distantes do texto bíblico. Um
exemplo semelhante é a estória de que uma mulher teria sido criada antes de Eva,
o que pode, é verdade, ter sua origem numa tentativa de solucionar a contradição
entre Gênesis 1:27, onde o homem e a mulher são criados simultaneamente, e
Gênesis 2:21, onde Eva é feita de uma costela de Adão. Segundo um midrasch12
que, a bem dizer, não é citado nesta forma antes do século IX ou X, uma mulher
foi feita para Adão primeiramente de terra, e não de seu flanco ou de sua
costela. Esta mulher foi Lilit, que irritou o Senhor da Criação por exigir
direitos iguais. Afirmava ela: Nós (Adão e eu) somos iguais, porque ambos viemos
da terra. Depois disso eles brigaram e Lilit, amargamente descontente,
pronunciou o nome de Deus e fugiu, iniciando sua carreira demoníaca. No século
III, esta estória era aparentemente conhecida numa forma algo diferente, sem a
demoníaca Lilit. Essa versão fala da “primeira Eva”, criada independentemente de
Adão, e sem relação, portanto, com Caim e Abel, que lutaram pela posse dela,
pelo que Deus fê-la voltar ao pó13.”
gershom g. scholem
“Aprendei como se dá que alguém veja sem querer e ame sem querer. Se
investigardes cuidadosamente esses assuntos, o encontrareis em vós mesmos”.
Hipolito - “Heresias”.
“O primeiro passo para longe do totemismo foi a humanização do ser que era
adorado. Em lugar dos animais, aparecem deuses humanos, cuja derivação do totem
não é escondida. O deus ainda é representado sob a forma de um animal ou, pelo
menos, com um rosto de animal, ou o totem se torna o companheiro favorito do
deus, inseparável dele, ou a lenda nos conta que o deus matou esse animal exato,
que era, afinal de contas, apenas um estágio preliminar dele próprio. Em certo
ponto dessa evolução, que não é facilmente determinado, aparecem grandes
deusas-mães, provavelmente antes mesmo dos deuses masculinos, persistindo após,
por longo tempo, ao lado destes. (MM, ESB, p. 74) “. Freud.
Para quem reza
a mulher?
Para “o” Deus.
Quem intermedía?
Buda - Moisés -
Jesus - Maomé -
Confúcio.
E a reveleção
feminina?
O cineasta Ingmar Bergman se pergunta qual o propósito da linearidade na obra de
arte. À quem serve?
Depois das teorias do caos, e da importância do fluxo do inconsciente,
freudiano; bem como a viagem de Joyce, dos extratos fragmentados que de/formam a
nossa mentalidade, peço licença para pensar alto, num “cut-up”.
O limite dos estudos da mentalidade feito pela Ecole des Annales é o desenho
lógico.
Nesta matéria, se lembre Gramsci, “o velho ainda não morreu e o novo ainda não
nasceu”.
Portanto se sabe sobre o que, mas não se sabe o porque.
O programa word de computação (milhões de exemplares) quando refere a sinonimia
para ansiedade masculina oferece uma série de palavras que vão do patológico ao
produtivo.
Em relação à ansiedade feminina só quatro, centradas na noção ninfomaníaca.
A proibição do casamento dos padres e freiras e a feitura da Igreja, esposa de
Cristo, jogam a mulher e o homem no extra-ordinário, aquilo que vira tabu - no
profano e no sagrado, surreal.
Pensar e duvidar, para alguns heresia e blasfêmia.
O medo da engenharia genética esconde a resistência ao dito, o pacto com o
Indizível.
Começamos a entender, se desconectamos.
Entendendo, começamos a conectar.
Para fazer Cristo foi preciso esquecer Jesus.
As Tábuas da Lei, quebradas por Moisés, o enigma a ser devolvido.
As Tábuas oferecidas, o plágio aceitável.
O filósofo Santayana escreveu que “Deus não existe e Maria é a sua mãe”. A
concepção de Mãe de Deus, sem a intervenção masculina é um elemento nesta
dialética que se reproduz.
A tensão entre Eva e Adão pré-determina a vocação original do Poder. E a
projeção divina...
A escrita feminina foi omitida, prevaleceu o masculino.
A mulher como instrumento do Mal —
Lilith, o demônio feminino babilônico.
Na literatura esotérica, rainha do mal, esposa de Satã.
Uma lenda diz que foi a primeira mulher de Adão.
E que o tendo abandonado. Deus criou Eva.
É simbolo de tentação sexual.
Pomba-Gira, na Umbanda e Quimbanda, entidade da ambivalência feminina.
La donna é mobile.
O Cosmo inteiro balança e se desloca.
Estabelecido, o fixado, no Direito Romano — “mãe certa, pai incerto”; até a
investigação pelo DNA, final da temporada.
“Se o lobo compreendesse o cordeiro, morreria de fome”, segundo Henri Michaux.
Mas, Isaías...
Relatório da Unicef (junho - 2000)
Registra -
60.000.000 de mulheres a menos nas estatísticas globais devido à violência -
espancamentos, ciúmes de honra, desatenção, falta de acesso à unidades médicas e
educação, incesto, aborto seletivo, infanticídio, mutilação genital, matrimônio
precoce, desnutrição, prostituição e trabalhos forçados.
Itens
1 - Abortos: Levantamento oficial revelou que 12% dos fetos de sexo feminino
foram abortados.
2 - Infanticídios: Na Índia, relatório registrou 100 mil casos anuais de
infanticídio de meninas (não levando em conta abortos seletivos).
3 - Suicídios: Em Sri Lanka, o número de suicídios de jovens entre 15 e 24 anos
é 55 vezes maior que o número de mortes causadas por gravidez ou parto. Nos
Estados Unidos, entre 35% e 40% das mulheres maltratadas tentam suicidar-se.
4 - Mutilações: Cerca de 130 milhões de mulheres já sofreram mutilação genital
no mundo, e cerca de 2 milhões continuam a ser submetidas à prática anualmente.
O problema existe em 28 países da África, em regiões da Ásia e do Oriente Médio
e em comunidades de imigrantes na América do Norte, Europa e Austrália.
5 - Meninas: Entre 40% e 60% das violências sexuais na família atingem meninas
de 15 anos ou menos. Estudo recente demonstrou que na Holanda 45% das vítimas de
violência sexual doméstica tinham menos de 18 anos.
6 - HIV: Quatorze milhões de mulheres estão infectadas com o vírus da Aids no
mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o maior fator de risco para a
mulher é o parceiro sexual habitual, e o problema é agravado pelo caráter
desigual da relação, que torna difícil ou impossível negociar o sexo seguro.
7 - Crimes de Honra: Em países como Bangladesh, Egito, Jordânia, Líbano,
Paquistão e Turquia, mulheres são assassinadas “em nome da honra” da família por
motivos que incluem adultério, relações pré-matrimoniais (com ou sem sexo),
estupro, apaixonar-se por uma pessoa sem a aprovação da família. Só numa
província do Paquistão, em 1997, foram mais de 300 vítimas. As leis são
particularmente complacentes com os homicidas na Jordânia, mas os crimes de
honra foram postos fora da lei no Paquistão há um mês.
Na língua dos índios axê, do Paraguai, Jamo panka pixipre jamo (“aquele que cai
nas garras do jaguar tem que ser jaguar”).
Gênesis 3.1. ¾ O primeiro pecado. ¾ A serpente era o mais astuto de todos os
animais terrestres criados pelo Senhor Deus. Ela disse à mulher: “É verdade que
Deus proibiu de comer de alguma árvore do jardim?” E a mulher à serpente:
“Podemos comer os frutos das árvores do jardim, mas do fruto da árvore que está
no meio do jardim, Deus nos disse que não comêssemos e nem tocássemos, para não
morrermos”. E a serpente à mulher: “Não, não morrereis. Antes, Deus sabe que
quando dele comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e vos tornareis como Deus,
conhecendo o bem e o mal”. Então a mulher viu que a árvore era boa ao paladar, e
agradável à vista, e apetecível para adquirir conhecimento. Por isso, colheu um
fruto e comeu, e deu também ao seu marido, que comeu juntamente com ela.
No Êxodo — Nascimento de Moisés. Ora, um homem da casa de Levi desposou a filha
de um levita, a qual concebeu e deu à luz um filho. Vendo que era belo,
conservou-o oculto durante três meses. Mas, não podendo mais ocultá-lo, tomou um
cesto de papiro, calafetou-o com betume e pez, colocou nele o menino e o pôs
entre os juncais à margem do rio. Sua irmã ficou observando de longe, para ver o
que aconteceria.
A filha do faraó desceu para banhar-se no rio, enquanto suas servas passeavam na
borda do rio; e, descobrindo ela o cesto no meio dos juncais, mandou uma serva
apanhá-lo. Abriu-o e viu a criança que chorava; compadeceu-se dela, e disse: “É
um filho dos hebreus”. E a irmã dele disse à filha do faraó: “Queres que vá
chamar uma ama dentre as hebréias, para te amamentar o menino?” Disse-lhe a
filha do faraó: “Vai”. E a menina foi chamar a mãe do menino. A filha do faraó
disse-lhe: “Toma este menino e amamenta-o, e eu te pagarei o que for justo”. E a
mulher tomou o menino e o amamentou. E quando o menino já estava crescido,
levou-o à filha do faraó, que o recebeu como filho, e lhe deu o nome de Moisés:
“Porque”, disse, “das àguas o retirei”. Em “Moisés e o Monoteísmo”, Freud
defende a tese da filiação de Moisés, à princesa egípcia que o “salvou”do meio
da juncas e a teoria de que os judeus o mataram, revoltados contra a imagem do
pai.
No Evangelho Segundo Mateus: (o primeiro a ser escrito) — Nascimento virginal de
Jesus. (Lc 1,26 - 2,7). — Ora o nascimento de Jesus foi assim: Estando Maria,
sua mãe, desposada com José, antes de habitarem juntos, achou-se que tinha
concebido por virtude do Espírito Santo. José, seu esposo, sendo justo e não a
querendo expor a infâmia, resolveu desvincular-se dela secretamente. Mas,
andando ele com estes pensamentos no seu íntimo, apareceu-lhe, em sonho, um anjo
do Senhor, que lhe disse: “José, filho de Davi, não temas receber contigo Maria,
tua esposa, pois o que nela gerou é obra do Espírito Santo. Ela dará à luz um
filho, a quem porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos seus
pecados”. Ora tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que o Senhor tinha
anunciado por meio do profeta: “Eis que a virgem conceberá e dará à luz um
filho, a quem será dado o nome de Emanuel”, que quer dizer “Deus conosco”.
Despertando do sono, José fez como lhe ordenara o anjo do Senhor; recebeu sua
esposa, a qual, sem que ele a conhecesse, deu à luz um filho, ao qual ele pôs o
nome de Jesus. No Sefer Toledot Jeushu, compilação feita na Idade Média, consta
versão entre outras relatando que Jesus seria o filho ilegítimo de Maria com o
soldado romano Pandera. Daí a alcunha de Ben (filho) de Pandera-raposa. Na
mixagem se explicariam incidentes descritos nos Evangelhos — exemplos —
sinagoga, casa do meu Pai — ameaça de lapidação contra Maria Madalena e assim
por diante.
No comentário — 18-25. Entre os hebreus, com o noivado, o noivo e a noiva eram
legalmente unidos em verdadeiro matrimônio. Maria, por isso, desposada com José
era sua verdadeira esposa. Depois do noivado, porém a noiva ficava ainda durante
um ano, se era virgem, e não viúva, na casa paterna. Quando o esposo a levava
para sua casa, celebrava-se a festa das núpcias.19. O noivado podia ser desfeito
somente por vontade do esposo, o qual devia, em tal caso, entregar à esposa o
libelo de repúdio, na presença de uma ou duas testemunhas. Se, durante o
noivado, a esposa houvesse tido relações com outro homem, era considerada
adúltera e, por isso, exposta a ser apedrejada (Jó 8,3-5). S. José, percebendo
que Maria estava grávida, não podia, por um lado, conhecendo-lhe a pureza e a
virtude, pensar mal dela, por outro, não sabendo explicar o fato, pensou em
dar-lhe o libelo de repúdio e enviá-la novamente à casa dos pais, ocultamente,
para não expô-la à difamação. Esta parecia-lhe a via mais segura para manter a
própria honra e a de Maria. Deus intervém no momento oportuno, enviando um anjo
para dissipar toda a nuvem da mente de José e para confortar o coração tão
sensível da Virgem. 22-23. O evangelista, sempre com o olhar fito na sua
finalidade de demonstrar a messianidade e a divindade de Jesus, ressalta muitas
vezes que os fatos narrados não sucederam por concurso fortuito de
circunstâncias, mas segundo um fim pré-estabelecido por Deus, que guia todas as
coisas, segundo sua natureza, para a realização de seu plano. Aqui cita IS 7,14.
25. a conhecesse: no sentido bíblico de ter relações conjugais (cf. Gên 4,1;
1Sam 1,19). Com essa expressão o evangelista quer evidenciar que Jesus nasceu de
uma virgem.
Ainda Mateus — Jesus Morre. (Mc 15,33-41; Lc 23,44-49; Jo 19,28-30). — Desde a
hora sexta, cobriu-se de trevas toda a terra, até à hora nona. Cêrca da hora
nona, Jesus exclamou com voz forte: “Eli, Eli, lemá sabactáni?”, isto é: “Meu
Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”.
Comentário ¾ 46. O cúmulo e a violência de tamanhas dores arrancam a Jesus um
lamento que ele exprime com as palavras iniciais do SI 22, canto profético da
sua paixão (cf. ib., nota). Naquele mar de amarguras parace-lhe estar abandonado
do Pai celeste, mas não perde a calma e a confiança (cf. Lc 23,46).
É uma longa viagem. Animal bípede, da família dos primatas. Aprendera a falar e
fabricar utensílios reconhecíveis. No fim da primeira etapa, aprendeu a usar o
fogo, surgiu solitário, na sua classe de animais. Era biologia. Na segunda
etapa, aprendeu a cozinhar alimentos e fazer roupas quentes. Criou o arco e a
flecha e domesticou o cão para a caçada. Melhorou sua habilidade. Na terceira
etapa, cultivou plantas, celebrou a cerâmica, fez carroças, fundição do cobre,
escreveu, carvão, máquinas a vapor, comércio, imprensa, dinheiro, canhão.
Desgastou o planeta e a natureza sofreu. Uma história de mais de um milhão de
anos.
Aonde conduzirá esta aventura que começou com os longínquos antepassados?
Saberemos combinar os dons e advinhar? Ou, como macacos nas árvores, nossa visão
será a de meros sobreviventes, os que não puderam dar o salto que liberta da
angústia e do medo? Enfim, relativizar a morte. É uma longa viagem, que apenas
começou.
Nem tudo que sinto e penso eu conto. Nem tudo que eu conto, eu sinto. O que eu
mais oculto nem é meu o segredo. Quem pensa e sente por mim, aonde encaminha meu
pensamento, meu sentimento? O útero alimenta e é o campo da expansão.
Dialeticamente, o universo com limites que tem que ser abandonado e que expulsa.
Na cela-paraíso, detém e é a plenitude. Até... que pela rachadura se perde todo
o aconchego, e se ganha a liberdade e o medo. A síndrome da rejeição. O
desamparo e a provocação. No último livro da Revelação Budista que fala em uma
Segunda Vinda -
E vi um novo céu e a nova
Terra, pois o primeiro céu e a
primeira Terra desapareceram...
A introspecção e a conquista do externo são os dois elementos do conflito que se
instaura - e que vão moldando o destrutivo e o construtivo da psiqué e, por
causa, da civilização. O indivíduo, dividuo, a universalidade, o provincianismo,
conteúdo e forma, escolha e compulsão. Disto se pode refletir e falar pensando,
monocórdio, na estrutura linear, que Ingmar Bergman denuncia (à quem
interessa?), ou, estranho no ninho, jogando um jogo sem regras, fragmentário,
que permite chances a algum acerto, por inteligência e/ou acaso. Prefiro esta
rota ou ela se me dita. Ou falta de rota, fronteira da poesia, esquizofrenia,
mística. A insistência na unidade e na integridade pode esconder o valor da
dúvida e da multiplicação. Auto-restrição que tem contornos morais e emocionais.
A dicotomia do espírito e da matéria e mesmo a vontade de ligar as duas
concepções pode representar a armadilha formadora de um estrato de nossas
mentalidades... A fé enquanto crença que abdica do saber é um elemento de
resposta ao Assombro. Mas, talvez, seja necessário a consciência ou a ciência
para o simbiose com a Outra Coisa. O otimismo e o desastre genocida da II Guerra
Mundial que advogaram o diálogo para o entendimento foram passos decisivos. Mas
João XXIII tem sua contra-partida. Urge o próximo. O autêntico monólogo. Capaz
de registrar a confissão na psicanálise. O Eu.
Meister Eckhart (século XIV) -
A geração não é no tempo, mas no fim e limite do tempo. No movimento passado e
futuro das coisas, vosso coração perpassa; é em vão que tentais conhecer as
coisas eternas; das coisas divinas, deveis vos ocupar intelectualmente...
Para o mestre budista. D.T. Suzuki co-autor com Erich Fromm de “Psicanálise e
Zenbudismo”- “a terminologia é tudo que nos separa”. Na realidade acho que a
terminologia é tudo que nos une, e por isto separa o eu do eu, enquanto nos
junta ao outro que, por sua vez se junta a nós e se separa de si. Agostinho
exclama - “O que é isto para mim, embora ninguém o compreenda”. A compreensão é
uma ponte, mas o Anúncio é do abismo. Criar o abismo, o Nada, passa pela
doutrina budista do Nirvana. “Ver a face de alguém ainda antes do seu
nascimento”, Hui-neng (Yeno, morto em 713). Numa justaposição, o Tao significa
caminho, mas Lao-tzu, no Tao Te Ching diz que “O caminho é semelhante a uma
vasilha vazia”, “Quando olhas para ele, não podes vê-lo”. Uma versão linda da
desconstrução do Nome de Deus, na Cabala judaica reportada por Martin Buber. O
Nem. A sacralidade da forma que ilumina o conteúdo se proclama no hebraico, como
a língua do Senhor, em que cada letra, de per si, resulta num mundo, os
ideogramas chineses em que os caracteres comunicam, diretamente, o senso.
— ERA UMA VEZ. Assim se iniciam as histórias que nos pretendem ligar a uma
tradição. Diferemente do depoimento que, em Juízo, se introduz com A BEM DA
VERDADE. Era uma vez admite a mentira como a instância da fantasia, a
IMAGINAÇÃO, o SIMBÓLICO. Daí um salto ao pecado e à absolvição. O conhecimento
das razões mais profundas, estranhas, condenáveis, a desrazão iluminada, nos
escaninhos do Inconsciente. O mestre Jalaluddin Rumi, século XIII, mestre do
sufismo, reporta a peculiaridade operacional alusiva das estórias, em que o
factual serve, unicamente como uma abertura para outro e outro fechamento. O
homem que bailava com as estrelas. O mulah Nasrudim convidado a discursar numa
aldeia, pergunta à multidão - vocês sabem o que vou dizer? Em coro respondem que
não. Se não sabem é inútil falar. Se retira. Protestam e ele volta. Vocês sabem
o que vou dizer? Sim. Se sabem é desnecessário falar. Se retira. Protestam.
Volta. Vocês sabem o que vou dizer? Metade diz que sim, metade grita que não.
Nasrudim arremata - Então a metade que sabe conta para a metade que não sabe.
Numa passagem italiana do Teatro do absurdo, alguém anda com o pé enfaixado.
Inquirido responde que havia sonhado que quebrara o pé. Woody Allen, num de seus
arroubos, afirma que num domingo em Nova York, é mais fácil encontrar Deus do
que um encanador. Desavisado o cineasta não sabe que fala do sábado e não do
domingo e que no seu arquétipo, no dia sagrado não se encontra um maker (no
sentido da concretude), mas um marker (o peregrino que anda com a cabeça na lua,
o espírito no Céu). Somos criador e criatura do mito/minto. Sagrado, lenda ou
folclore. Verifico, pela literatura, os processos mentais, da pessoa e da
multidão. A crítica, também arquetípica. Em psicanálise procura-se o passado
para compreender o presente e planificar o futuro. Na saga islandesa desloca-se
o presente, se vive no passado e no futuro. Quando falo-fallus, a alma, do
homem, referindo-me à espécie, excluo as mulheres, mas não só da fala (fallus),
mas da espécie. Quando invento um personagem (crio), como um deus, crio pessoas,
que serão virtualidade enfeitada
Entre a dessacralização da realidade e sua banalização, eis aí o espaço para
outra aventura. Além do fato e do ato, saio do profano e tento a história.
Psicanalista e analisando - gato e rato, mútuamente se caçando.
O Exterior
O que é personagem, senão a corporificação de um incidente? O que é incidente,
senão a ilustração de um personagem? O que é um quadro ou um romance que NÃO
seja de personagem? Que mais procuramos e encontramos nele? Quando uma mulher se
levanta com a mão apoiada na mesa e olha para você de uma certa maneira, isso é
um incidente; ou, se não for incidente, penso que será difícil dizer o que é.
Henry James em “The Art of Fiction”.
A interiorização
Em metade dos monólogos interiores da Ilíada, uma linha inteira se repete a um
ponto crucial: alla ti e moi tauta philos dielexato thymos (Mas por que meu
próprio coração (thymos) disputa comigo assim?). Odysseus usa a frase em seu
monólogo externando medo (Ilíada, XI, linha 402). Menelau usa-a em seu monólogo
externando medo (XVII, 97). Agenor usa-a em seu monólogo externando medo (XXI,
562). E Heitor usa-a em seu monólogo externando medo (XXII, 122).
Antes de Freud todo movimento do estudo do espírito, menos o literário, era
fruto de auto-análise. A vida, no judeo-cristianismo vai do Gênesis ao
Apocalipse - o nascimento e a eternidade (Paraiso), expulsão e morte, até o
perdão na Cidade de Deus. A caminhada para o longíquo (Eneida), o retorno ao
ninho (odisséia), o romance heróico desemboca no emaranhado da psicologia
moderna (fenômeno do final do século XIX). O ego se revela, o trato do
traumatismo consagra o drama-misto da comédia e da tragédia, em Chaplin ou Jack
Nicholson. Para longe, para longe, uma desenfreada conquista da pergunta.
Repudiando a resposta, como num salto cavalar de obstáculos. Aí é que se desenha
a trajetória do divino, escape. Minha estória só existe em cima de um versão que
me construo e se quiser, relato. Se passo adiante, narrativa oral ou escrita, o
enredo passa à construção da mentalidade, mais ou menos, estética ou inestética.
O conteúdo pode ser feio e embelezado pela forma, belo e enfeiado pelo contador,
belo e belo, feio e feio, triste, alegre, irônico, mas seja qual for a
perspectiva, estamos diante de inúmeras possibilidades - personagens,
incidentes, audiência, narrador, autoria, memória, crítica. A ironia, a
surpresa, o depoimento testemunhal, constitutivos do material que orna a
sensação e vai se infiltrando em nossa própria realização.
Em Dom Quixote de La Mancha, Cervantes escreve -
É necessário casar a fábula enganosa à compreensão do leitor, escrevendo de modo
a tornar aceitável o impossível, encobrindo monstruosidades, matendo a atenção
em suspenso e em estado de expectativa, satisfeita e divertida ao mesmo tempo, a
fim de que admiração e entretenimento sigam juntos lado a lado; e todas estas
coisas, ninguém as poderá realizar se evitar a verossimilhança e a representação
da natureza (de la verisimilitud y de la imitación), na qual consiste a
perfeição de coisas escritas.
Einstein dizia que o milagre é que o 4° lado do quadrado seja paralelo ao 2° e
perpendicular aos outros dois. Herdeiro da carruagem celestial afirmou que se
inspirou num facho de luz no céu, para criar a Teoria da Relatividade. Em
clássico da ficção científica, um hiper-super computador alimentado com todas as
informações disponíveis universais, indagado se Deus existe, processo em tensão
a resposta — Agora, sim. A megalomania contaminando a máquina.
E assim a simbiose entre o irreal, a ficção e o acontecido, é a maternidade no
devir. A informática e a comunicação simultânea, instantânea e quase onipotente,
dá um enfoque de onisciência, com o projeto da onipresença e esta via-dupla
entre o exterior e o interior da mente, sugere múltiplas percepções. A
multi-mídia dispensa a testemunha ocular e convoca a consciência para a
ordenação de dados, dinamicamente desenquadrados. A intermediação é compreendida
quando analisamos um espectador que assiste uma orquestra, no Teatro e o mesmo
expectador diante da TV. Long shots (planos distantes), close-ups (primeiros
planos), o comentário do locutor, e, finalmente, a manipulação tecnológica com
inúmeras possibilidades de re-edição, por parte do espectador. A forma da
narrativa não mudara muito desde Sófocles, mas agora, entre o relato e a
autoria, em situo e re-arranjo, quase, infinitamente, sempre contornando as
imperfeições, na busca. Na busca do que? Tenho uma paciente que, sessão após
sessão, reclama e protesta contra os outros e o mundo. A sogra, chata, foi
operada de câncer no seio. Ficou com um seio só. Que chato, que gente feia, que
gente chata. A empregada é mal-educada, fala alto e atrasa para chegar ao
serviço. Governo ladrão e corrupto, e , ainda por cima, o marido, um distraído,
tem que pagar multa por sonegação de imposto. Mas que desagradável tudo. — Adão
quando enxerga o poder de Eva dando nascimento a uma criatura, tem a revelação
de sua imagem e semelhança com Deus. Eva é deusa. Inveja leva à mentira. E conta
que ela foi tirada do corpo dele. A primeira se/men/te/ que desemboca em Maria
que dá nascimento a Jesus criatura-criador. A Moisés o filho da princesa egípcia
e o escravo hebreu.
Deus mulher e o Simbólico desencadeia a cultura da força masculina, a
compensação como instrumento perene da escrita. E este deus que não pode ter a
face feminina, não terá, então nenhuma aparência, nomenclatura, visão. E não
divide. O monoteísmo.
Religiões do Mistério. O gnostiko-conhecedor do secreto, psychic, o que vive
apenas da fé.
Segundo Vissert Hooft, foram quatro as ondas históricas do sincretismo. A
primeira, no século anterior ao Exílio. A segunda quando Alexandre, o Grande
lança o movimento da oikoumene (ecumenia) - o equivalente a um único mundo. A
terceira, preparada pela Renascença e o Iluminismo. A quarta, de hoje. Herança
antevista em Leaves of Grass, de
Walt Whitman -
(“A ti, em tua veneração que tudo provê e tudo abrange ¾
A ti, não meramente limitada a uma só bíblia ou salvador,
Teus salvadores inúmeros, latentes dentro de ti mesma,
Tuas bíblias incessantes dentro de ti mesma, iguais a
quaisquer outras, divinas como quaisquer outras...”)
A castidade, vista como sublimação do desejo sexual e aprimoramento para a
salvação. A circuncisão, e a excisão , que leva a paranóia e ao sentimento de
culpa, num trauma que é o atentado e a lesão corporal à criança, em nome do
Pacto amoroso. Gersom Scholem em “A Cabala e seu simbolismo”, apoiando no Bahir,
diz que a “Schechiná” torna-se um aspecto de Deus, um elemento feminino,
independente, dentro dele. E a revelação da face feminina de Deus, que os
cabalistas explicam por meio de exegese gnóstica, mostra um impulso religioso
revolucionário. A separação em Deus, dos princípios masculino e feminino, é o
princípio do Exílio. Deus se exila de Deus.A pessoa se aliena da pessoa. A
inteireza se rompe em mil pedaços. Reunir as centelhas, exterior e interior,
cima e baixo, o itinerário da Utopia, a terra Prometida, o êxtase. A sanidade.
A massa absorve e absolve o esquizofrênico. Difícil no contacto, solitário em
relação ao humano é também, profundamente, sugestionável. Por estas
características, é um escravo do dever e se sente estimulado e amparado, na
multidão. Freqüentemente, o som da massa é intraduzível. Urros são constantes. A
torcida patriótica no futebol prática a guerra, sem risco, num orgasmo covarde.
O computador, o robot, o domínio da inteligência mecânica, se associa ao Golem,
criado por artes mágicas e que alguns imaginam o próprio Adão. A conexão
etimológica entre Adam e a terra, adamá, em hebraico, curiosamente não é
referida no Gênesis, na história da Criação. Todo instante é um momento de
interlocução entre a pessoa e o Universo, entre a alma e Deus, a discreção e a
temeridade. A libido compulsiva do garanhão e a aflição do menino conduz o macho
atrás da dama. O adesivo pregado no vidro traseiro do automóvel informa: “Não me
siga - Também estou perdida”. O Grupo batista americano do qual fazem parte o
presidente Bill Clinton e o vice-presidente Al Gore, recentemente, afirmou em
declaração de fé a submissão da mulher ao homem, baseada na bíblia. Ilustrando a
matéria que versamos; Entrevistado, em seguida, o presidente Clinton, respondeu
- “O que posso fazer a respeito?”. Este o limite. Os aviões habitam o Céu.
Exilado, das nuvens. Para onde irá o Deus? Com Freud - “Tem-se a impressão de um
demônio que luta para não chegar à luz do dia, porque sabe que será seu fim”. No
movimento circular-mandala ou o eterno retorno, a inveja masculina que projetou
a arquitetura antropomórfica do deus-pai será desmontada. Concomitante com as
transformações sociais e culturais de nossa época uma perspectiva feminina da
divindade, inédita, abrirá sendas inesperadas para a mentalidade. A Arqueologia
lança luz sobre um estranho comportamento, que pode ser observado no caso de
Raquel, que se apoderou dos deuses do lar do pai, Labão, sem o conhecimento
dele. A lei e o costume hurrianos nos informam de que aquelas figurinhas
simbolizavam seu direito à parte que lhe cabia dos bens de Labão. Levando-os,
Raquel procurou proteger seus próprios direitos e os do marido.
Giorgio Vassari escreveu que “a graça de Deus possue a mente de Leonardo da
Vinci”.
“Não sabeis que sois, cada uma de vós, uma Eva? A sentença de Deus sobre esse
vosso sexo permanece viva hoje: a culpa deve necessariamente viver também. Vós
sois o portal do demônio; vós sois a violadora da árvore proibida; vós sois a
primeira desertora da lei divina; vós sois aquela que convenceu aquele a quem o
demônio não foi suficientemente valente para atacar. Vós destruístes de modo tão
irresponsável o homem, imagem de Deus. Por vossa culpa, até o filho de Deus teve
de morrer”.
Agostinho concordava: “Qual a diferença”, escreveu a um amigo, “se se trata de
esposa ou mãe, continua sendo a tentadora Eva, da qual devemos nos acautelar em
qualquer mulher”. Na verdade, Agostinho está claramente intrigado por Deus ter
feito o sexo feminino: afinal, “se era de boa companhia e conversa que Adão
precisava, seria muito mais conveniente ter dois homens como amigos, não um
homem e uma mulher”.
No período paleolítico o culto da Mãe-deusa, fruto da fertilidade. Deus, mulher
núa, grávida, esculpidas em estátuas, descobertas pelos arqueólogos na Europa,
Oriente Médio e India. Mais tarde Inana na Suméria, Ishtar na Babilônia, Auat em
Canaã, isis no Egito e Afrodite na Grécia.
A dessacralização de vida levou à banalização da existência. O profano legitimou
a profanação. Reconquistar o pensamento mágico e juntá-lo, irmão siamês, ao
pensamento lógico, rasga o véu da alienação.
O homem só se faz se conquistado pela mulher. Nas palavras de Borges: “Para um
cavalheiro só interessa as causas perdidas.”
Segue-se intenso debate coordenado pelo Professor Doutor Alberto Noronha Dutra,
com a participação de professores e intelectuais ingleses, brasileiros e de
outros países.
Londres, 3 de julho de 1998.
London 22 July 1998
To: Professor Jacob Pinheiro Goldberg
Dear Professor Goldberg
Thank you for your excellent presentation in our seminar session in July 3rd .
It was, as expected, very well received and raised very interested points for
discussions, that should be followed up.
We would like, on this opportunity, to invite you to come next year for another
presentation. It is our plan to make this a yearly event that will gather others
academics, from different countries discussing the psyche in heath.
The subject for next year is “The control of immunity by the psiche”. We are
expecting to have your answer, about the subject of your presentation, by
November.
Thank you for your attention.
Yours sincerely
Dr. John Hothersall
Dr. A. Noronha Dutra
UNIVERSITY COLLEGE LONDON MEDICAL SCHOOL
INSTITUTE OF UROLOGY & NEPHROLOGY
Division of Nephrology
The Middlesex Hospital
Mortimer Street
London W1N 8AA
II
TEXTOS
REFERENTES
Na ciência o que
me importa é a
poesia. Na poesia, a
investigação.
Na prosa, o entrelaçamento.
Desta maneira ( e que outra? )
desenho e desdenho.
Nas quatro categorias vai-se espelhando, a outra face do espelho:
1 - O atavico,
2 - O maravilhoso,
3- O inconsciente,
4- O que se quer consciente.
_______________________________________________________________________________________________
Em fevereiro de 2001, equipe composta pelo Prof. Dr. Jacob Pinheiro Goldberg,
Ph.d. em psicologia - Deputy-chairman - Middlesex University South American
Advisory Board, Prof. Jerry Hart - Lecturer in Security Management - University
of Leicester, realizou pesquisa de campo sobre micro-violência em São Paulo
“APARTHEID NAS MEGALÓPOLES”
Debaixo do impacto diuturno de boatos e notícias que dão conta de uma onda de
criminalidade difusa, que reúne características de banditismo e crueldade, a
população vive, reage e sobrevive, com formas infantis de mecanismos de
auto-defesa e ataque.
As sucessivas placas tectônicas de informação mal-digerida e não elaborada, uma
“Kulturkampf” que habita desde os palácios suspensos na arquitetura de
ostentação até cortiços e favelas, dos sem-terra.
Um resultado é o idioma da indelicadeza, da molecagem, a vadiagem orgulhosa, o
sadomasoquismo que se interpenetra do berço até o enterro, sacrificando os
rituais de socialização.
Nem Ética nem Estética protege os núcleos de identidade pessoal. Prevalece o
alpinismo econômico e o narcisismo do “lumpen”.
Por causa, vagarosa mas, firmemente, se estabelecem pactos exógenos e endógenos
com a transgressão e o crime.
Alguns fenômenos percebemos quase a olho-nú, através de observação direta,
depoimentos, testemunhos, condutas. Em ordem só descritiva:
1. No trânsito, a ausência de qualquer policiamento eficaz. Unicamente, a
preocupação primitiva da multa por parte da autoridade. Balbúrdia ocasionando
raiva do motorista, que desrespeita quaisquer sinais, atropela o pedestre (que,
por sua vez desrespeita o perigo), briga com outros motoristas.
Milhares de moto-boys que jogam seus veículos em ritmo insano, para corresponder
à ansiedade e obrigação de produzir para as empresas empregadoras. Sem qualquer
proteção pessoal, ou conceito de urbanidade.
O trânsito caótico que enerva ao paroxismo e se transforma num exercício
permanente do ceticismo, insatisfação e selvageria no trato reativo.
2. O convívio desarmônico e debochado dos segmentos da comunidade, numa zona
ambivalente entre a legalidade e a ilegalidade, a moral e a avacalhação.
O jogo-do-bicho, sujeito a uma proibição hipócrita que roda e movimenta milhões
de dólares, na conivência entre bicheiro, policial e jogador. O bingo, seu
primo-irmão no lusco fusco, da classe média ociosa, polícia de segurança
particular, lavagem de dinheiro, e lobbies de poder político-eleitoral.
As igrejas e grupos de superstição usando TV e rádio, manobrando multidões de
centenas de milhares de fiéis, explorando a crendice, com o uso de voto de
aluguel, sistema de saúde e educacional, estrutura espiritual. A disputa pela
imaginação histérica do desespero, principalmente na periferia, induz inclusive
as instituições tradicionais a cederem aos espetáculos mágicos de persuação,
pelo instrumental de apresentadores de TV arrebatados pelos indices do IBOPE. O
milagre prometido na Terra do desamparo. As escolas públicas entregues a
violência de alunos que chegam a estrupar professoras, as escolas particulares,
na caça competitiva do lucro, numa permissividade que celebra o analfabetismo e
a bossalidade. O sistema de ensino, retrógrado e ultrapassado, que paga salários
miseráveis aos professores.
A medicina sucateada, com raras e riquíssimas ilhas de excelência, pelos
sofisticados jogos de exploração sistemática, armados por convênios,
laboratórios e a indústria farmacêutica, levando doentes ao medo e profissionais
ao desinteresse pela pesquisa e desenvolvimento científico, na vizinhança da
proletarização.
As famílias abandonam as ruas, principalmente à noite, ao vazío, com receio do
assalto. Crianças e adolescentes sem alternativa de esporte e lazer, a não ser
uma TV pornográfica e comercializada até a desbragada apología de produtos de
uso condenável, com a linguagem rasteira da sedução do sexo, principalmente o
corpo feminino.
A droga como mercadoria de contato entre o crime organizado e a sociedade sem
perspectivas.
Este esgarçamento de códigos e pautas de civilidade, convoca um apartheid
emocional, que pode ser sintetizado na figura anedótica, a sensação de cego no
meio do tiroteio. O individualismo mal-disfarçado, em gangues conjunturais.
Torcidas de futebol, tietes de funk e rappers, ricos frequentadores das colunas
sociais e academias de musculação, gerontocracia contra jovens, jovens
desprezando os mais velhos, homens contra mulheres. A paranóia que escolhe
“ELES” como o inimigo. A culpa “DELES”, sempre o OUTRO, diferente, desconhecido,
vizinho.
Megalópolis em que a lógica da convivência foi substituída pelo conflito
obrigado o mais frágil à frase ditada numa entrevista, no Parque do Ibirapuera.
Moça de 28 anos de idade, babá pernambucana, humilde. Perguntada disse que éra
bem tratada pela patroa. “Como igual, como ser humano?”. Dos olhos baixos,
desce, devagar uma lágrima. “Eu conheço o meu lugar”. Que a maioria começa a
desconhecer.
Jacob Pinheiro Goldberg
(Tribuna da Imprensa / Jornal do Brasil - 2001).
JOSANA, QUE MORREU DE FOME
Informa a imprensa que Josana Carla de Souza, de 4 anos, cuja morte foi
anunciada como assassinato, na verdade morreu de inanição.
Dois suspeitos da sua morte quase foram linchados. Mas o laudo necroscópico
revelou que a menina morreu de fome e que seu corpo não tinha marcas de
violência sexual.
A Polícia adiantou que tudo foi um grande equívoco.
Equívoco? Pergunta tranqüilizada a madame que acabou de ler Marguerite
Yourcenar, última exportação francesa de best-seller avacalhado. Mundo
surrealista.
Uma parcela da sociedade brasileira está preocupada com uma estranha noção de
segurança: estupro é crime, morrer de fome é estatística.
Se pretende garantida se puder continuar deglutindo seus canapés ao som do
“Último tango em Paris”.
Se pretende lúcida quando é cética.
Se pretende espiritualizada quando é supersticiosa.
Se pretende corajosa quando é imprudente.
Se pretende liberada quando é preconceituosa.
Se pretende dócil quando é violenta.
Josana morreu de fome e tudo não passa de um grande equívoco, quando na verdade
somos todos seus assassinos.
Eu, o leitor, a Polícia, o Governo, e essa civilização putrefata, que gasta
bilhões de dólares em obras faraônicas para depois exportar alimentos no meio de
um povo que morre de fome.
Quando estive na CPI da Violência Urbana, no Senado, afirmei que o Brasil estava
perdendo a guerra contra o futuro.
Josana é refém, vítima e mártir deste conflito. Travado entre estômagos
dilacerados de muitos e as cabeças emburrecidas de poucos.
O que mais pode causar espanto e horror numa sociedade corroída pelo cinismo da
indiferença?
Mas não! Exagero minha indignação. A Pátria, o mundo e a moral estão salvas. A
Assembléia Legislativa de São Paulo decidiu que os seus deputados têm que usar
obrigatoriamente paletó e gravata. É o contraponto e o contochão fúnebre para o
enterro de Josana.
A indumentária veste a nudez que paralisa as emoções.
Sugiro, aliás, que para a maior respeitabilidade se use o fraque e cartola, por
que não?
Li ainda (ah,essa imprensa incômoda) que os dirigentes de um partido
oposicionista assistiram à transmissão de seu programa gravado, bebendo
champanha francesa e comendo sanduíche de peru, enquanto criticavam a crise
econômica.
Prato cheio (perdoem a infeliz expressão no artigo que fala da morte de uma
criança faminta). Prato cheio para um Fellini caboclo.
Gláuber, Gláuber, aonde estás que não me ouves? Você também, vítima do
patrulhamento e safadeza. Suicidado como tantos. Faminto de amor. Na Galeria de
Wladimir Herzog.
Existe algum lampejo de esperança neste quadro sombrio.
Que espírito de Josana desça nos terreiros das almas dos poderosos e possa
estimulá-los para um ato, um gesto, uma palavra de contrição: perdão e
arrependimento, pela ação e omissão.
Olhar de frente no espelho de nossa consciência e cessar a fuga e a alienação.
Trazer Deus do exílio e expulsar o demônio da iniquidade que habita nas butiques
de luxo, na corrupção dos escândalos da lodroagem institucionalizada, no sacudir
de ombros do “o que é que eu tenho com isso?”, hospitais e escolas abandonados,
desemprego, analfabetismo e doença.
É pedir muito para um país que torce pelo Corínthians, vibra com o Flamengo e
canta com Gilberto Gil?
A única fórmula do homem ser agente de sua esperança. Saneamento econômico
independente do Exterior.
Que se dê de comer às Josanas sobreviventes, ou jejuamos todos a nossa
perversidade. O direito de escolher quem vai administrar nossa miséria e o
desenvolvimento que exigimos.
Ou então fazemos como aquela banana república que exportava sangue em troca de
divisas.
Sangremos 160 milhões de pessoas, viremos todos 160 milhões de Josanas, mas
paguemos as usinas nucleares que deviam ir para o diabo que as carregue. O
cipoal do inferno de onde vieram.
Termino para não vomitar.
Réquiem para Josana.
(Tribuna da Imprensa)
Transcrito do Livro “HIV / AIDS” - dos professores doutores Ricardo Veronesi,
Roberto Focaccia e André Vilela Lomar.
ASPECTOS PSICO-EMOCIONAIS
JACOB PINHEIRO GOLDBERG
INTRODUÇÃO
1 - Esta é a transcrição literal, das expressões dum paciente terminal,
aidético? Não.É ficção? Não e não. É a ressonância, a reverberação dentro duma
testemunha, da vida e morte de alguém que se pretendeu (e conseguiu)
ultrapassar-se. É uma lição de causa e efeito que pode explicar uma realidade
homossexual? Também não. Mas é, talvez, uma lição de humildade diante de uma
dimensão tabu, proibida, repelida de amor e sexo, que RETORNA COM A FORÇA DO
REPRIMIDO, na lembrança freudiana. Na verdade, ou melhor, numa das inúmeras
verdades, a homossexualidade, como a heterossexualidade, são muitas. Ela são,
transgredindo a gramática, que transgride o erotismo e até a tanatofilia. A
associação da AIDS com a prática homossexual, e até com a sensibilidade feminina
do artista (até isto, alegam, existe), serve como catalizador de culpa e adensa
o horror da pena. A pena capital, a execração da família, do trabalho, da
religião, a Igreja Católica que não admite a camisinha, a natureza violentada
que castiga com uma verdadeira lepra moral e orgânica, um certo impulso do amor
que não diz o nome, mas que se recusa, valentemente (ou brutalmente) a morrer.
Nos escaninhos da civilização, um rio de sangue identifica o que a maioria
define como abominação e joga na Fantasia, no Simbólico, no Imaginário, do
Outro, que denomina "minoria". Capa de revista, figura grotesca no Carnaval,
"traveco", em filme pornô, ou santo que jura castidade eterna, nos altares de
devoção. Deste desfile interminável, retirei frases, peças, gestos, palavras e
pensamentos, e cometi a ressurreição.
NÃO ME DEIXE MORRER
Aidético. Isto diz alguma coisa sobre ele? Nada. A não ser as diarréias
violentas, acompanhadas por dores insuportáveis. As noites de pesadelos
enlouquecidos, o medo, suores frios (gelados). Mãe, mãe. O peito parece que vai
quebrar. A magreza que escandaliza e envergonha. Só saía na rua à noite. No
ônibus, as pessoas se afastam, com ares de nojo, desprezo e condenação. A Aids
está na cara. Prá eles. Para ele, está nas vísceras, no coração, no seu passado,
na estória, na história. 23 anos de idade. Paciente terminal. Isto diz alguma
coisa sobre ele? Nada. A não ser o pânico da morte. Não quero morrer. Não vou
morrer. Deve ser erro dos médicos. Já soube de resultados laboratoriais com
margem de engano. O AZT talvez possa curar. Se eu me alimentasse melhor. Mas
como se a cesta-base termina a ração na altura do dia 20. Seu companheiro,
também aidético, mas sem sintomas, continua trabalhando, e trás frutas e pão, as
vezes até carne. Escrevi hoje um poema, posso ler para você? Mas do que adianta,
prá que escrever, se ninguém vai publicar? Fui numa editora, disseram que livro
de poesia não vende. E quadro? Vou pintar. Resolvi pintar, vou pintar um quadro,
usando o meu sangue, quando vomito sangue, vou molhar o pincel e pintar na tela.
Vi que um artista francês fez isso e os jornais publicaram. Quem sabe se eu
fizer os jornais publicam também e eu ganho um dinheiro prá comprar os remédios.
Aos 15 anos de idade pegou um táxi, vinha do interior, inexperiente, pobre
(miserável), e na hora de pagar não tinha dinheiro. O motorista exigiu-lhe sexo
oral. Chorou de vergonha, de humilhação, mas ficou fascinado com a força física,
e a riqueza do chauffeur. Dono de um táxi. Ele só tinha um blusão e duas calças.
Seu pai expulsou-o de casa, porque os vizinhos diziam que ele era v. . "Prefiro
meu filho morto do que v. . Seria capaz de te matar com minhas próprias mãos". A
mãe, arrematou: "Teria sido melhor se tivesse nascido morto". Na verdade,
invejava seus amiguinhos de rua, mais agressivos, mais fortes, briguentos.
Sempre pelos cantos, tímido, aceitava o uso de seu corpo, como carícias dos
moleques mais velhos. Não entendia porque, depois ridicularizavam-no. Debochavam
e até batiam, nele, ele que satisfazia o desejo deles, ele que só queria
sobreviver, em paz, que o esquecessem. Que o esquecessem, pelo amor de Deus.
Resolveu amar a Deus. Deus era homem também? Homoafetividade. Queria um Pai, um
pai, precisava de irmãos, queria um filho. Jamais iria ter um filho, era incapaz
de sentir desejo sexual por mulheres. Não entendia, sua alma se encantava com
qualquer sorriso masculino (quem sabe este homem forte o protegeria dos moleques
que todas as noites, nos pesadelos vinham exigir seu corpinho fraco, para depois
cuspi-lo fora). Este homem forte, casado, que, furtivamente, nos banheiros dos
cinemas, nas saunas, o tocava, depressa, para logo, depois, com brutalidade,
murmurar: "se arranca v.". Hoje, agora que já tenho 23 anos, que já estou velho
eu sei que foi aí que peguei a Aids. Mas agora não quero mais sexo, só penso em
Deus. Deus vai me perdoar? Devo ter feito alguma coisa terrível, não sei o que,
castigo tão grande. O que? Acho que envergonhei meus pais. Mas eu voltei à minha
terra e prometi ao meu pai que nunca mais faria o mesmo. Ele me deu um murro na
cara. Naquela hora, pensei, ele não é mais meu pai,eu nunca tive pai, agora eu
serei sozinho prá sempre. Até que encontrei o C. Ele cuida de mim, e eu sou
estúpido com ele mando ele embora e ele volta. Porque é que esse desgraçado não
me larga? Passa as noites sem dormir, me carregando até o banheiro e quando eu
enlouqueço... Eu estou louco, não é? Eu peço prá ele - "Não me deixe morrer". E
ele me promete: "Não. Não vou deixa-lo morrer". Na confusão, é uma confusão, às
vezes eu o chamo de pai. Na U.T.I., ondas de fogo e gelo pelo corpo, cheguei a
pensar: Devo perdoar a Deus?
2 - "EU NÃO ACREDITO"
Comecei a sentir tontura. Sem motivo, estava tudo bem. Fui ao medico do
convênio. Expliquei sobre diarréia e outras coisas, nem sei bem como foi. Aí ele
pediu uma série de exames. Levei os resultados e ele me perguntou se eu tinha
feito sexo fora do casamento. Deus que me perdoe. Casei virgem e sou honesta.
Jamais tive sexo com outro homem. Achei esquisito. Aí ele disse que tinha uma
notícia ruim. Eu teria que fazer outros exames, porque havia suspeita de AIDS.
Quase desmaiei. Achei que era brincadeira ou loucura. Como Aids? Ele me acalmou,
disse que precisava confirmar e que havia tratamento e ficou falando uma porção
de coisas para me consolar. Mas o que eu queria era levantar dali e perguntar
pro meu marido se ele era homossexual. Perguntei pro médico. Ele ficou
explicando com paciência, mas eu não queria ouvir. Então era alguma vagabunda.
Quem seria? E como ele teve coragem de me trair? Aí falei com uma amiga e ela
disse que eu devia procurar antes de me separar um psicólogo. Na verdade eu não
queria me separar, eu queria é matá-lo e me matar. Mas e meus filhos? Quanto
tempo de vida eu tenho? Eu não merecia isso. O senhor entende? Eu não merecia
isso. Se eu soubesse que ele era esse canalha eu teria traído ele, teria largado
ele. E agora? E agora? (Choro convulsivo). Um dia ela foi menina, amada por seus
pais, brincando com seus irmãozinhos. Depois menina-moça, com esperança e desejo
pela vida. Depois mulher e mãe. Frustração, recalque, medo, desespero. As vias
que trouxeram a desgraça se alimentaram na cultura machista, o feminino-objeto,
Eva que na versão deísta masculina se aliou à serpente, no Jardim do Éden. A
indignação e a surpresa habitam seu psiquismo. A dor, perene.
3 - "E AÍ DANCEI!"
Eu acho que foi mais ou menos assim. Nem tenho certeza. Mas é quase certo.
Ligado? Estava na boate, com o pessoal da Faculdade. Morno, quase frio. Nada
acontecendo. Jiló. Jilosissimo. Aí o R. Chegou e disse: "Topa a picada". Naquele
nada de nada, deprê, resolvi ir. Falei: "Vou nessa". A M. Picou, o Zé, a L. "tô
fora", como sempre, careta. Piquei. Legal, depois champanhe prá quebrar. Ficamos
a noite inteira. Ligado, ligado? Saímos dali, fomos noutra, e mais uma. Acordei
em Maresias. Chapado. Nem sei como quem. Porre legal, viajando. Laboratório,
médico. Aids. Brincadeira! Brincadeira, cara! Sujou. Sujou, legal. O pessoal
caiu de quatro. Aids? Pois é. 2o ano de Direito, família de classe média, 20
anos de idade. O primeiro baseado aos 14 anos, no Colégio.
(No dia 22 de novembro de 1999, Goldberg discorreu sobre o tema no Instituto
Emílio Ribas, São Paulo)
“ELA NUNCA VAI SER UMA MULHER”
“Eu mandaria o seguinte recado à Bianca: que eu a aceito como ser humano, nem
como homem, nem como mulher, porque não acredito que ela se enquadre em um
desses conceitos. Eu a aceito e acho que ela deveria fazer o mesmo. Nossa
cultura corre atrás de simplificações mecanicistas, define tudo e todos entre
homens e mulheres. Mas essa rotulagem é desumana porque a realidade é altamente
elaborada. Antes de sermos homens, mulheres, transexuais, homossexuais,
lésbicas, ou o que for, somos seres humanos definidos pela intuição, pelo desejo
mais profundo, pela contingência psíquica. Não existe marca física desta
identidade individual, apesar da genitalidade social. Não dá para explicar
porque somos. Somos. É por isso que uma pessoa que nasceu com um pênis não é
necessariamente um homem e que ela pode fazer todas as cirurgias do mundo, que
também nunca vai ser uma mulher. Porque essa pessoa é só um ser humano complexo.
Não vejo o menor sentido nessa operação. A cirurgia é uma tentativa violenta e
desumana de se enquadrar em um papel rígido, de corresponder a um padrão
machista que define homem como um ser humano com pênis e mulher como um ser
humano sem pênis. Não é assim. Nem todo mundo que tem é, nem todo mundo que não
tem, não é. Ninguém tem que fazer uma escolha tão dramática, ninguém deve negar
a complexidade da condição humana dessa forma. Não dá para dividir o mundo entre
homens e mulheres. O indivíduo pode ter todas as características físicas de uma
mulher mas não se sentir como tal, nem se sentir um homem, e portanto não ser
nada disso. Eu posso me sentir uma terceira coisa, posso me sentir as duas
coisas e posso não sentir nenhuma delas, independente do meu genital. Esse é o
pleno exercício da liberdade. Acho que as pessoas podem se realizar eroticamente
e sentimentalmente sob todos os aspectos, do jeito que são, não como homem ou
mulher. Somos absolutamente singulares sexualmente.”
J.P.G - Revista “Trip”
Encaminhado para Doutor Alberto Noronha Dutra do Institute of Urology and
Nephrology, Division of Nephrology, The Middlesex Hospital.
MEMORANDO - Síntese para exposição de casos.
Clitoris- dor referida, sem causa funcional.
Na minha prática psicanalítica, tem se apresentado, com regularidade,
analisandas que apresentam queixas de hiper-sensibilidade e dor clitoriana, sem
fatores médicos objetivos.
Apresentam-se em variadas formas e circunstâncias:
1- Associada a T.P.M.
2- Em decorrência de auto-manipulação ou masturbação com parceiro.
3- No simples apalpar (exemplo-durante o banho).
4- Após urina.
5- Ao excitar-se.
6- Durante a penetração do pênis.
7- Após o ato sexual.
8- Antes do ato sexual.
São relatadas fantasias de caráter sado-masoquista, acompanhamento de sonhos com
elementos edipianos e lésbicos.
Durante as sessões analisandas fazem associações e se permitem reflexões:
1- Experências infantis traumáticas, com outras crianças ou adultos.
2- Relações de incesto ou com familiares próximos.
3- Com desvirginamento seguido de dor e/ou sangramento
4- Orgasmo intenso ou, paradoxalmente, falta de orgasmo.
Elementos comuns de culpa, recusa da personalidade feminina e assunção de papéis
masculinos no trabalho e na família, se conjugam.
Tais processos tanto se apresentam circunstanciais como permanentes, com ótimo
índice de resolução, através da psicanálise.
J.P.G.
OLHAR MASCULINO PERVERSO
O desejo erótico de posse da menina, da moça jovem, freqüentemente é uma das
variantes da patologia sexual do macho. É curioso que, raramente, se observe o
fenômeno inverso. A mulher adulta e madura não se interessa, sexualmente, pelo
menino ou jovenzinho. Inclusive o que se percebe, também, é que o interesse e o
olhar cobiçoso do homem aumenta com a idade, chegando ao paroxismo da velhice.
Na Antigüidade existia a violência da posse gerontocrática pelas virgens
recém-entradas na puberdade. Manifestação libidinosa muito ligada á impotência
concreta, o olhar desejoso em relação à infância revela uma fantasia de domínio
absoluto e transgressão. É como se a inocência da menina pudesse excitar a
fragilidade do homem inseguro quanto à sua própria indentidade sexual.
Traduzindo de forma objetiva, trata-se de doença e lesão no desenvolvimento da
sexualidade e da personalidade, que pode se associar a comportamento doloso de
natureza criminal. Esta realidade precisa ser verificada com cautela para que o
criminoso não se acoberte, debaixo das atenuantes de problemático emocional. A
posse sexual de menor, a sedução, o assédio, são formas torpes de manipulação do
corpo inocente. Tanto a civilização grega como a modernidade são vivências
éticas ambivalentes sobre esta questão. Nabokov criou a figura da “lolita”, a
ninfeta tentadora. A publicidade, principalmente a da TV, avacalha os cânones
morais e usa as crianças muitas vezes com o apoio familiar para transformar-las
em mercadoria e consumo. Mas quem se sensibiliza e trata o tarado corretamente é
o criminoso comum que não perdoa este crime infame, dando-lhe o corretivo na
prisão. Existie uma correlação entre machismo desbragado, autoritarismo e
perversidade sexual voltada contra a criança: são frutos dementes e
delinquenciais da onipotência.
J.P.G. - REVISTA TRIP, 1997 No 59
MÃES DO BRASIL.
A mentalidade da criança é forjada de acordo com a educação, e o exemplo
principal é o materno. Por outro lado, a mãe carrega da transição de sua família
os ensinamentos de como deve cuidar de seu filho. Qual a herança de hábitos e
procedimentos ideais? Uma mamma, ao imigrar para o Brasil, entra sempre num
choque cultural. Ela tem outras formas e modalidades de ser mãe. Esta colisão de
valores vai caracterizar o que nós poderíamos chamar de “uma linguagem
autenticamente nossa”: mães ítalo-brasileiras, nipo-brasileiras e assim por
diante. Ela não é mais italiana ou japonesa, mas também não se confunde com uma
mãe nordestina ou caipira. É exatamente este fenômeno de primeira geração que
vai balizar ou nortear os filhos que têm toda pluralidade de culturas, não só
diferenciadas, mas às vezes até abrangentes. Na fronteira ou na divisão de
certas regiões, ou mesmo bairros, se percebe as amálgamas, diferenças se
permeabilizando e, principalmente, se identificando. As mães lituanas, por
exemplo, raciocinam com seus filhos, quase que mantendo uma sucursal de sua
república de origem. Com todo o seu espírito de rebeldia, criam “moleques”
tenazes, obcecados pelo sucesso. A mãe armênia tem cuidados religiosos quase
tribais. A mãe nipo tem uma assimilação resultado de uma discriminação contra
japoneses, durante o regime de Getúlio Vargas. De fazer os filhos estarem sempre
de acordo com o local onde moram e a política vigente. As crianças devem fazer
tudo de acordo com sua pátria de nascimento. Um exemplo é a conversão em massa
ao catolicismo, deixando de lado o budismo. Isto é o que corresponde ao sonho
materno. A mãe sírio-libanesa mantém com muito zelo as preocupações
características das famílias centralizadas na cultura árabe: o filho mais velho
é o herdeiro da disnatia familiar. Um verdadeiro patriarcado. A mãe judia,
“Idishe-mame”, é criticada por querer sempre seus filhos intelectuais, que a
acusam de super proteção. Mas eles, sem isso, não teriam conquistado espaços
profissionais privilegiados. Com isto, chega a hora de encarar que o papel de
mãe compreende um conflito de gerações, que foi amenizado nas últimas décadas
por um senso de modernidade que precisa ser revisto. A mãe, em geral, e muito
mais as mães e avós imigrantes, deixaram de ser o “bode espiatório” das
dificuldades naturais que os filhos encontram nos processos de adaptação e
desenvolvimento. Elas eram a ponte entre o passado e o futuro. Somente a geração
dos netos fará justiça à importância que estas mulheres tiveram na mentalidade
pluralista do psiquismo brasileiro. Se ele é hoje um pouco mais matizado, muitas
possibilidades vieram destas mães. As portuguesas, por exemplo, destacaram-se
muito mais para um papel paterno, com a disciplina e tradição que impõem aos
filhos. Já a japonesa identifica-se mais pelo cuidado com os detalhes, desde a
estética até a filosofia, que permite que o filho seja um detalhista na sua
profissão. A mãe alemã, muito ciosa da organização e limpeza, e a francesa,
destacam-se pela sofisticação ¾ exemplo no Brasil: os colégios requintados. A
grande mudança que houve foi a passagem da mãe “província” para a mãe
“megalópole”. Da mãe do campo para a mãe da cidade. Isto significou para os
filhos, que passaram a ser educados com maior distância, vantagens e
desvantagens. Por um lado, independência e capacidade de auto-gerência. Por
outro, diminuição da carga afetiva ¾ filhos mais carentes. Existem diversos
tipos de mães. Mãe anti-mãe, a não-vocacionada, o que não significa ser menos
amorosa. Mães castradoras, mães liberais e assim por diante. Mas a mãe sempre é
profundamente dedicada ao filho. As mães de baixa renda têm uma relação de medo
e desespero, intuindo que o filho sempre viverá dificuldades. A mãe classe média
centraliza suas preocupações com os filhos em dois níveis: modelar o corpo
através de esportes em geral e prepará-los para as novas tecnologias. Mãe classe
alta: o ideal é mandar os filhos estudar além-fronteiras. A mãe do Brasil: filha
de imigrantes, mistura esta herança com o senso de oportunidade que procura dar
aos filhos, no cultivo de um “jeitinho brasileiro”. Uma mescla de macunaíma e
operosidade. É a sua saída materna. Minha mãe foi uma grande poetisa. Escreveu
dois livros. Seu nome: Fanny Goldberg. Eu, um édipo debochado e confessado, que
nem mesmo 500 anos de análise seriam capazes de superar um devotadíssimo amor à
minha mãe. Já falecida, o que eu mais gostaria é que lesse esta matéria.
J.P.G. - Revistas Cláudia, Nova, Elle e Capricho.
O EXORCISTA DO AMOR
Revista Isto É - Janeiro\96
Para o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg, o sentimento mais cobiçado por homens
e mulheres atrapalha as relações e pode ser fatal para o casamento.
(Gisele Vitória)
Nascido em Juiz de Fora, o professor Jacob Pinheiro Goldberg, 62 anos, Ph.d. em
psicologia, não costuma exercer com pés sobre o muro a sua mineirice. Pelo menos
em assuntos como o amor e paixão. Quando se espera que vá defender as
arrebatadoras relações amorosas como imprescindíveis á vida, Goldberg surpreende
e compra uma briga. Com uma racionalidade desconcertante, desmonta a teoria de
que para ser feliz e se realizar completamente o ser humano precisa dessas
emoções no dia-a-dia. Para ele, a idealização do amor é um resquício medieval
que atrapalha os casamentos e é até capaz de desfazê-los. “Talvez o amor seja o
principal obstáculo para que se consolide uma verdadeira relação profunda.”
Analista de comportamento e professor convidado de várias universidades no
Brasil e em países como Hungria e Israel, Goldberg acredita que a realidade de
hoje não se coaduna com as aspirações românticas mantidas no plano inconsciente
por homens e mulheres. “A ilusão esbarra na brutalidade do real e a frustação é
automática.” Em seu consultório em São Paulo, Goldberg falou a ISTO É.
ISTO É- O mais importante num casamento é o amor?
JACOB GOLDBERG- Isso é uma asneira, é um absurdo sem nome. Talvez seja o
principal obstáculo para que se consolide uma verdadeira relação profunda. Essa
noção de amor, por exagerada, onipotente, acaba sendo cruel. O mais importante é
o entendimento mútuo, a percepção intelectual do mundo, da natureza, de um
projeto de trabalho e de harmonia. E especialmente o respeito, que é difícil
quando nos apegamos a essa idéia de amor. Ela está muito ligada a uma noção de
adivinhação.
ISTO É- Por que adivinhação?
JACOB- Há algo mágico, infantil e neurótico. É como se dissessem “nós nos
amamos” e ponto. Não tem vírgula, contradições nem questionamentos. O amor é
totalista.
ISTO É- A idéia de um amor único e eterno ainda é muito forte?
JACOB- Extremamente. E existe muita mentira em torno disso. Qualquer pesquisa
que for aplicada hoje no Brasil dirá que o mito do amor único acabou. Mas isso
não é verdade. A idéia do amor ideal continua. O que afirmo é baseado na
interpretação de desejos inconscientes e jogados na categoria de tabu. É
proibido falar disso. Amor é sacralizado. Você pode falar contra Deus, mas se
disser que o amor é um sentimento chato, é considerado um criminoso. Está
falando contra o que há de mais profundo na alma do homem e da mulher. Ora, as
relações humanas são muito mais complicadas. Levam em conta interesse,
conveniência, oportunidade e preconceitos.
ISTO É- É comum ouvir que toda a harmonia e afinidade de uma relação nada valem
se não houver amor. De qual amor o sr. está falando?
JACOB- Estou falando do amor da cavalaria, daquele que só se faz no mistério. A
herança de Camões, que depois passa pelo resgate de Hollywood, em E o vento
levou ou Casablanca. O tal grande amor que desemboca nas novelas da Globo. Esse
amor é talvez uma das trincheiras do machismo. Quando isso terminar, por
exemplo, terminam os assassinatos em nome deste amor. Em nome disto é quase um
heroísmo matar.
ISTO É- O assassinato na Universidade de São Paulo da estudante Renata Alves
pelo jovem Christian Hartmann, que por sua vez se suicidou, é um exemplo?
JACOB- Sim. A rejeição para o amante é uma ameaça de autodesvalorização. Isto
repercurte numa vontade extrema de afirmação, chegando até a destruição do
outro.
ISTO É- Por que o sr. diz que o machismo é o que sustenta o amor idealizado?
JACOB- Porque a exigência é muito maior em cima da mulher. É ela que concilia
noções inconciliáveis da grande mãe, da mulher perfeita, da grande virgem. Ao
mesmo tempo deve ser erótica, exuberante e trabalhadora. É uma realidade
insuportável para a mulher.
ISTO É- A cada ano o número de divórcios aumenta. Há pessoas que se casam e se
separam várias vezes. Por quê?
JACOB- Há uma confusão de sentimentos e de realidades cada vez mais difícil de
se decifrar. A mulher reivindica um novo modelo de relação, com emancipação e
autonomia, mas mantém um conflito que habitava a mentalidade das avós. Continua
a aspirar o cavaleiro audaz que vai libertá-la da prisão no castelo. Com o homem
a situação é semelhante. Ele deseja a mulher que é inocente, linda como a atriz
mais diáfana da Globo, mas, ao mesmo tempo, que traga dinheiro para casa. É
impossível reunir essa personalidade numa só pessoa. A ilusão esbarra na
brutalidade do real e a frustração é automática.
ISTO É- O sr. não acha que as pessoas continuam buscando desesperadamente o
sonhado grande amor?
JACOB- Sim. Debaixo dessa mentira cruel, as pessoas destroem possibilidades
razoáveis. Quantas vezes se ouve: “ Eu poderia dizer até que sou feliz, mas
sinto que não é aquela coisa.” Ora, que coisa é esta? Ela só existe em
Casablanca.
ISTO É- O que há de errado com o amor?
JACOB- É preciso discutir não só os conteúdos e as formas desse amor, mas a
própria expressão. A noção
que se mantém é piegas.
ISTO É- Um dos principais argumentos a favor da paixão e do amor é o de que a
vida seria muito sem graça sem eles.
JACOB- Os seres humanos têm muito medo de perder suas ilusões. A maioria imagina
que sem isso não há graça, como se a graça não estivesse ligada ao real. Ao
contrário, se você não espera o milagre, se transforma no criador. Isso sim é
uma tarefa madura. A paixão é um dos sentimentos mais irritantes que existe.
Tanto que nenhum de nós suporta a paixão alheia. É um sentimento muito chato que
precisa ser esmiuçado, exterminado.
ISTO É- E como essas ilusões atrapalham as relações?
JACOB- Entre o homem e a mulher passam a existir dois seres inatingíveis,
seráficos, frutos de sua ilusão e que ficam deitados na cama com o verdadeiro
casal, impedindo e complicando. Estão sempre quatro pessoas na cama: duas de
carne e osso, com medos, fragilidades, problemas dentários, e os outros dois
seres maravilhosos com os quais os reais tentam transacionar.
ISTO É- O que fazer com esses dois “seres”?
JACOB- Eles têm de ser expurgados. São os grandes obstáculos para que aqueles
outros dois se encontrem. E nesses dois fantasmas há muito de pai e mãe. São
modelos de super-herói e da super-heroína para a criança. Isso explica a
resistência ao assunto. Afinal, é um convite a desnudar as fantasias daquele
menininho que queria se casar com a mamãe.
ISTO É- Qual é o amor possível então?
JACOB- É o jogo da afinidade.
ISTO É- Mas se pode ter afinidade com um amigo, com um irmão. O que diferencia
um homem ou uma mulher com quem se leva uma vida em comum?
JACOB- A minha proposta é reduzir o outro a um ser humano qualquer. Alguém com
quem você se dá bem sexualmente ou não. O que se tem á mão. Não é tão perfeito,
tão sensacional. Mas você também não é tão lindo, tão culto, tão magnânimo. É o
que sua habilidade lhe deu. Tente se entender com isso.
ISTO É- Significa dispensar alguém especial?
JACOB- O indivíduo procura a outra metade da maçã. Nós não somos maçã e não
temos outra metade. Não temos alma gêmea. Temos pessoas que nos ajudam a ter uma
qualidade de vida razoável. Este grande escolhido era o típico da Idade Média.
Era de um período tribal na história da civilização, no qual as pessoas se
bastavam com muito pouco.
ISTO É- Assim as exigências mútuas diminuiriam?
JACOB- Adequar-se á realidade diminue a tensão. Não é preciso amar o tempo todo
o seu par. Muitas vezes você pode odiá-lo ou sentir indiferença. Ninguém tem o
condão, o poder de fazer o outro feliz. A busca da felicidade é uma organização
íntima. O outro é secundário.
ISTO É- Por que a idéia de amor medieval é tão arraigada e resiste tanto ás
contingências da vida moderna?
JACOB- É muito sedutora, é extraordinária. Promete o paraíso. No fundo, é uma
desumanização.
ISTO É- É impossível encontrar alguém que nunca tenha se apaixonado. A paixão
seria mais química ou genética do que cultural?
JACOB- Pode haver algo psicossomático. É cultural e tem uma âncora fisiológica,
que vai desde a libido até a pulsão sexual mal resolvida. Mas o apaixonado é
alguém que ficou emocionalmente na transição entre a adolescência e a idade
adulta. É alguém que tem muito medo de crescer.
ISTO É- Por quê?
JACOB- Porque ele constrói um sentimento irreal ao qual subordina as limitações
da vida. Só tem um objetivo: a paixão dele. Ele constrói o objeto e ai da
coitada ou do coitado se passar um dado de realidade. O que sustenta a paixão é
o discreto charme da ausência. Ela é uma prerrogativa dos viajantes. As pessoas
dizem: “Depois que casei, acabou a paixão.” Não eram apaixonadas. Eram
distraídas.
ISTO É- Mas se atribui á paixão uma das melhores coisas da vida. Como o sr.
interpreta isso?
JACOB- Como a embriaguez. A embriaguez nos remete a plenitude é o sonho de todos
nós.
ISTO É- O que há de mal na fantasia, uma vez que ela faz parte do ser humano?
JACOB- É benéfica, desde que não ocupe o espaço real. Se uma mulher quer dormir
com o seu marido pensando neste herói, tudo bem. Agora, se ela pretende
substituir seu marido, com quem tem filhos, com quem se dá bem, com quem atinge
orgasmo, por este outro fantasma, aí a fantasia é mórbida e patológica.
ISTO É- O sr. tem sido muito criticado por essa concepção?
JACOB- Sim. A crítica maior é de que essa tese rouba algo da fantasia.
ISTO É- O sr. não teme ser chamado de mal-amado?
JACOB- Para ser franco, confesso que alguns dos transtornos da minha vida
sentimental se deram exatamente no caminho oposto, de ter sido bem-amado no
sentido infantil.
ISTO É- Como o sr. observa o encanto da infidelidade?
JACOB- É uma fantasia perigosa e também prejudicial. Acaba sendo a solução mais
fácil. Esse encantamento está ligado à perseguição de uma realidade que escapa o
tempo todo das mãos.
ISTO É- A vida seria melhor sem amor?
JACOB- Seria mais consoante com o ritmo moderno. Hoje as pessoas não tem tempo
para esta chatice de amor. O mundo contemporâneo tem muitos estímulos. O amor
acaba sobrando para os medíocres.
ISTO É- Qual a diferença a seu ver entre o amor mitificado e o amor maduro?
JACOB- O amor maduro leva em conta a outra pessoa. É a única forma de o ser
humano transformar a relação numa arte. A expressão ternura deveria substituir o
vocábulo amor.
ISTO É- O sr. propõe mudar o nome desse sentimento?
JACOB- Exatamente. Está mais perto da ternura, de sentimentos finos e femininos.
As mulheres estão mais próximas deste amor maduro.
ISTO É- A impressão é de que as mulheres são mais sentimentais.
JACOB- É muito mais um preconceito que tenta aliar a idéia do amor feminino à
histeria. Hoje a mulher assume seus conflitos. O homem é um cego no meio do
tiroteio. Quanto mais a emancipação feminina avança, mais a crise masculina se
aprofunda, e mais vão mudando esses modelos de amor.
ISTO É- Como o sr. observa sua teoria no consultório?
JACOB- Esse amor tem muito de sadomasoquismo. O casal fica discutindo horas
seguidas, brigando, sai do carro, bate a porta, volta, para terminar a noite no
motel. Só chegam ao orgasmo depois de cinco horas de maus-tratos mútuos.
ISTO É- Encaixa-se em sua tese o estado a que chegou a atriz Vera Fischer?
JACOB- Ninguém encarnou melhor do que a Vera Fischer o mito de Édipo e Jocasta.
Ninguém representou tão bem o desejo reprimido do amor romântico e tropical. Ela
incorporou o sonho masculino de todo o País. É o limite da paixão e do sexo
selvagem. No romantismo, há uma noção de orgasmo cósmico que nunca termina.
ISTO É- O sr. imagina que possa haver algumas regras para manter um casamento?
JACOB- Sim. A manutenção de um casamento exige habilidade e competência. Está na
ciência do comportamento e na arte do respeito. Não é possível conviver sem
emprestar à relação uma parte da sua inteligência. Isso é fruto de um esforço
intelectual.
ISTO É- É possível estabelecer uma fronteira entre um bom casamento e a fatídica
acomodação?
JACOB- Existem alguns visionários do desbunde que acham que qualquer acomodação
é prejudicial. Acomodar-se faz parte da nossa existência, como movimentar-se. A
movimentação passou a ser considerada uma função gloriosa e a acomodação virou
uma função covarde. Nós temos a vontade e o direito de nos acomodar. A
acomodação também tem algo de aconchegante. É absurdo fazer da vida um inferno
de exigência e de transformação permanentes.
ISTO É- Mas o sr. não concorda que há um ranço ruim de acomodação?
JACOB- Há uma distinção. Existem pessoas que realmente se acomodam por suas
limitações, que ás vezes precisam ser respeitadas. Exigir de alguém uma mudança
é cruel. Por que não respeitar o medo? Por que temos de ser heróis abruptos e
rompantes? Não acho a acomodação louvável. É apenas um respeito e uma
possibilidade. Não dá para pensar que o ser humano só se realiza com a eterna
inquietação no campo afetivo.
ISTO É- Tirando as particularidades de cada caso, qual seria o parâmetro para
perceber que um casamento pode estar no fim?
JACOB- É o conceito sartriano de que nós somos condenados à liberdade. Quando
achamos que um casamento terminou, independente de qualquer consideração
racional ou de interesse, é preciso ter coragem de exercitar essa liberdade. Se
o indivíduo tem a percepção que terminou a relação, ele tem direito de terminar.
O preço a pagar é o medo de se ver perdido depois. Mas se não está disposto a
pagá-lo, não está pronto para casar consigo. Quer dizer, se querer bem e ser
fiel a si mesmo.
CIÚME - A INVEJA QUE MATA.
Em julho de 1998 pronunciei conferência na University College London Medical
School, cujo tema éra “Eva será Deus” (Eve will be God), na qual analisei, a
relação masculino-feminina, sob vários aspectos. A inveja e o ciúme foram
elementos essenciais para a compreensão desta realidade. Um violento feixe de
sentimentos contraditórios que alimenta este mecanismo. Um assassino de 35 anos,
Sirhan, tranqüilo e sorridente conta sua história. Seu principal motivo de
orgulho é a eficiência com que disparou quatro tiros em sua irmã Suzanne, em
março último, acertando a sua cabeça “Cheguei em casa às 8h15 e, cinco minutos
depois, ela estava morta.” Três dias antes, a adolescente de 16 anos disse à
polícia que tinha sido estuprada. “Ela cometeu um erro, mesmo sendo contra sua
própria vontade”, explica Sirhan. “Em todo caso, se ela não morresse, a família
toda morreria de vergonha”, completa. Esta nota foi publicada pela
correspondente do “Time”, na Jordânia. Trata-se de um caso clássico em que a
mulher, vítima do crime de estupro, paga pelo desejo masculino, desencadeado por
confuso impulso de incesto-o irmão pela irmã. O ciúme, reflexo de uma posse
impossível revela a inveja destrutiva. O outro possue quem eu imagino que
possuo. Trata-se de mão dupla. A mulher inveja no homem o pênis, o falus, a
soberania e o poder nas relações sociais. O homem inveja na mulher a gravidez, a
suprema manifestação biológica de dar à luz outro ser. Isto aparece em todas as
manifestações da c ultura. Pesquisa feita nos EUA constatou que 3 milhões de
crianças e jovens americanos tomam remédios como o Prozac. Mas a proporção é de
1 menina para 4 garotos. O preço de ser homem, na hiperatividade e angústia.
Alta incidência do câncer no Ocidente, proporção dramática nas zonas erógenas,
no homem, na próstata e na bexiga, e na mulher, na mama, no útero e ovário. O
sexo, centro do conflito. No programa “word” de computação, um programa que
estabelece paradigmas de pensamento para a próxima geração, encontra-se uma
sinonímia reveladora. Quando se refere à ansiedade feminina, ele usa quatro
conceitos, todos ligados a uma forma mórbida, patológica, de ansiedade, próxima
ao furor uterino quando se refere ao homem, são 16 conceitos, todos eles
extremamente leves. Até em termos de proporcionalidade - 1 para 4 - é curioso.
Acontece que o elemento fundamental da onisciência e da onipotência, portanto o
estado básico da formação de nossa mentalidade no Ocidente, advém das três
grandes religiões - judaísmo, cristianismo e muçulmanismo. Todas elas se
estabelecem a partir de uma revelação - para aqueles que são fiéis -, ou de um
mito - para aqueles que são céticos: de que Deus teria feito o homem à sua
imagem e semelhança, e de que, na solidão masculina, o homem tendo reivindicado
companhia, Deus, da costela de Adão, teria criado uma companheira que seria Eva.
Assim, nós temos um protagonista que faz parte do plano da história, e a
coadjuvante que é Eva. Vocês conhecem o processo denunciado como insídia através
do qual Eva transgride a norma fundamental que era o dogma do Paraíso, e, se
aliando ao personagem de Satã, induz Adão a comer o fruto. É curiosa a posição
adâmica, porque é uma posição cômoda e na verdade, uma posição de covardia,
porque Eva é quem dá a primeira mordida. Em cima disso, já nos primeiros séculos
do cristianismo, mas evoluindo principalmente pela Idade Média, temos a figura
de Lilith que é a outra mulher, e que, ao lado de Eva, faria o papel
demonológico, e que se registra, por exemplo, nas religiões afro - no Brasil, na
umbanda e quimbanda, como também na figura da pomba-gira, entidade que tem a
ambivalência feminina da sedução, do desejo e do pecado. O Direito romano tem
uma concepção que atravessou os séculos: “mãe certa, pai incerto”. Essa
concepção só é abalada agora pelo teste do DNA, que é um dos elementos
provocativos mais revolucionários na história da humanidade. Trata-se de um
daqueles desenvolvimentos científicos que atingem uma repercussão muito maior do
que podemos imaginar. Pela primeira vez na história da humanidade, o homem e a
mulher podem ter certeza da paternidade, e, não por acaso, as duas figuras
magistrais na nossa formação — Moisés e Jesus — têm uma história de paternidade
mitológica. Um dos livros mais proibidos do fim da Idade Média e começo da Idade
moderna, é o “Maleus”, que ao se referir à mulher, fala da seguinte maneira:
“suas palavras são melífluas” — e todo folclore tem o repasse de que a mulher
fala demais, em termos de discurso vazio — “Ela é enganadora, está cheia de
malícia. Toda malícia e toda perversidade vem dela (Eclesiastes, 25). Ela é
faladora, sobretudo na Igreja. Muitas vezes tomada de delírio ela chega a matar
seus próprios filhos”. É a idéia da feiticeira, da bruxa e da histérica. A
psicologia é filha da religião e neta da magia. Todo estudo de comportamento se
ampara em algumas ondas históricas. Contraditória, paradoxal e perigosamente,
nós vivemos numa época, em que, simultaneamente, em um processo de
instantaneidade, convive-se com o sincretismo, que é esta possibilidade de
compreensão aberta, e com o totalismo, que é fruto do medo. O medo da reflexão,
a suspeita do pensamento que se depara com a possibilidade de respeito ao
enigma, às religiões do mistério, e finalmente ao mistério do próprio
inconsciente. Aquele eu que está atrás de nosso eu e que nós não sabemos como
dominar e controlar, e muitas vezes nem como interpretar. Aquele assaltante que
no seu projeto onírico, aparece no teu sonho, se transforma em pesadelo e que a
sua censura só tem como qualificar de banal, grotesco ou enlouquecido. A
compulsão de perseguir é a alavanca do ciúme. Aconteceu um fato que achei muito
revelador. Eu participei de um debate na Globonews a respeito da conduta deste
considerado maníaco, chamado o “maníaco do parque”. Eu fazia um comentário,
dizendo que uma educação que prepara o filho varão para caçar à noite (esse é o
verbo), e se orgulha da caçada, precisa se preparar para a violência. Uma
educação que considera que a relação sexual pode ser qualificada como
antropofágica - “comer” - não pode se espantar quando um indivíduo com limitação
de concretude, “come”, literalmente. Ele só está obedecendo às ordens: está
caçando e está comendo. No dia seguinte, eu leio na “Folha de São Paulo” a
transcrição do interrogatório, em que ele dizia que saía para caçar e para
comer. Eu então recebi um telefonema de uma TV americana me perguntando porque
eu tinha traçado este perfil antecipadamente. Eu falei: bastava prestar atenção,
não foi uma coincidência. Na Grande São Paulo ocorrem 1000 estupros por ano,
denunciados. Existe um adesivo que algumas pessoas colocam na parte de trás do
automóvel que diz: “Não me siga. Também estou perdida”. É um diapasão muito
curioso porque é a negativa de que através da sedução se repita o pecado de Eva:
“não entra na minha, fica na tua” - é uma delegação de poderes. Enfim, embora
ocorram casos de assassinatos cometidos pela mulher contra o homem, ou entre
parceiros homossexuais, estamos diante de crime de natureza masculina. O macho
tem inveja da mulher desejada e possuída por outro macho. Impossibilitado de
exercer seu desejo homossexual oculto e disputar aquele terceiro, resta-lhe
matar o objeto vitorioso da competição inconsciente: a fêmea. Covardia moral e
lesão psíquica.
(Entrevista para o escritor Licínio Rios, autor de “Shakespeare não serve de
álibi”.)
Encaminhado para “Nocirc”, E.U.A.
Síntese de caso em psicoterapía - resultados de trauma de circuncisão.
- analisando - M.F., advogado, 28 anos, filho de casal de judeus não-praticantes
mas inseridos na comunidade judaica, casado com moça não-judía; convertida.
- motivo alegado para procura de psicoterapía - angustia, baixa freqüência
sexual, dúvidas quanto à virilidade, tanatofobía.
Depois de alguns meses de trabalho (uma a duas sessões semanais-faltas não
justificadas), a ansiedade se agudizou e o processo tomou as características que
o monólogo abaixo (editado), reflete: Veja bem doutor, quer dizer, veja não,
ouça. Com 16 anos os meus amigos de classe, na escola, todos judeus, disseram
que iriam me levar para transar com uma prostituta.
Fiquei apavorado, porque sempre achei que tinha o pênis pequeno, embora meus
1m83cm de altura. Mas era isso. Quando a mulher abriu as pernas e pediu que eu
tirasse as calças, comecei a urinar. É. Urinar nas calças. Ela dava risada e
começou a brincar-: “Mijando, nenê? Tá com medo”. Tentou pegar no meu pênis para
fazer sexo oral. Implorei que ela parasse. Disse a ela que pagaria o dobro do
combinado mas que ela dissesse aos meus amigos que eu tinha conseguido fazer a
penetração. Ela saiu do quarto e gritou: “Abrão, o seu amigo é bicha, brocha”.
Todos começaram a dar risada. Dei-lhe um tapa e saí correndo. No dia seguinte
comecei a sentir dores atrozes na bexiga. Fui ao médico e ele mandou fazer uma
série de exames. Resultados todos negativos. Depois disso nunca mais procurei
outra prostituta. Aos 22 anos de idade conheci L. com quem me casei casto e tive
um filho. No dia da circuncisão do meu filho, vomitei o dia inteiro. À noite
minha mãe comentou que quando fui circuncisado sofri uma hemorragia fortíssima e
tiveram que me levar para o hospital. Quando minha mãe contou o fato, o meu
pênis ficou ereto. Morri de vergonha e tentei esconder o pênis, com a mão, mas a
minha mulher percebeu. Nos dias seguintes tive recorrentes pesadelos e via o
pênis do meu filho sendo cortado e o meu no meio de uma poça de sangue. Sonhei
também que no lugar do pênis eu tinha um buraco. Doutor, sempre quando vejo um
“goy” imagino que o pênis dele é maior do que o meu e isso me dá uma idéia de
que vou morrer a qualquer momento. Fui a um urologista e ele me disse que meu
pênis é de tamanho normal mas não adianta. Quando penso na minha mulher imagino
que ela nunca irá ao orgasmo como se eu tivesse o pênis inteiro. Quando me
masturbo penso no meu pênis com a pele enorme e minha mulher desmaiando de gozo.
Já resolvi doutor que se eu tiver um outro filho, juro que não vou
circuncisá-lo, embora meus pais possam lamentar. Quer saber de uma coisa?
Prefiro não ter mais filho nenhum. Informação - Depois de 3 anos de psicoterapia
M.F. teve filho e resolveu não circuncisá-lo. Sua mulher fez a re-conversão
religiosa e ele teve “alta” psicoterapica. Sua frase final - “Doeu, mas
cicatrizou”.
GOL E ORGASMO
A relação entre esporte e erotismo é além de evidente. Em termos históricos,
podemos nos reportar até a Esparta da Grécia Clássica, onde guerra, força,
valentia e disputa física se igualavam. E quando se pensa dessa maneira, a
primeira colocação associativa é entre homossexualidade e esporte,
particularizando no que nos interessa nesta crônica: o futebol. Esporte,
basicamente, masculino. Tanto jogadores, quanto torcida. Os machos-atletas no
vestiário, no chuveiro, nos banheiros, nas concentrações, nas brincadeiras de
empurra-empurra, arrastão que se espraia para a torcida. O lusco-fusco ambíguo
de amor e ódio, raiva e gozo. Nós contra eles. A ansiedade, a expectativa, o
“suspense”, o gozo e o alívio. Até que enfim! A exclusão da mulher torna-se
quase sádica. Futebol é coisa de homem. Embora, agora, no modismo, muitas
mulheres tentem entrar no show. Mas o fato preponderante é, inclusive, o caráter
catártico do triunfo fálico. E põe pênis nisso. A redonda que fura o véu da
noiva! O locutor que transmite para o olho que não enxerga, o ouvido que não
ouve, a respiração, a corrida desabalada, espermática. Dribla um, dribla dois,
dá uma finta, manha de corpo. Encaixou. A bola, o jato que fertiliza. Nasce
(entenderam?)... nasce um campeão. E o derrotado, abatido, passivo, entregue,
esgotado, humilhado, quem sabe, enrabado? Enfiou com gosto. Entrou tudo. E a
torcida, os frustados, que gozam com o pé, o pau alheio. A simbologia do pai, do
herói, que Édipo deposita no mito, com rituais de bandeiras e hinos, a orgia do
guerreiro frustado. E tudo isso quando entra em sintonia com a noção de pátria,
sai de baixo. Literalmente, sai de baixo. O orgulho de pertencer ao grupo que
ganha, ao grupo
que derrota, imobiliza, possui, trepa, arrebenta o adversário. Não tem dúvida. É
esporte de homem, não vale salto alto. Ora, ora, convenhamos, é muita
ingenuidade! Em São Francisco, no bairro gay, o Castro, a emancipação reúne a
alegria, o frenesi aberto, do amor que esconde o nome. Mas, pela TV, em circuito
global, os barbados delirantes não enganam. Vão fundo, mas saibam o que estão
fazendo. Ou, o que vale é o segredo. A escolha é de vocês, mas enrustidos ou
não, melhor no campo de futebol do que se matando como primatas nos campos da
batalha. Perfilados, suados, cantando os hinos nacionais. OK. A bandeira sobe o
mastro. É melhor parar por aí, porque quando a libido se expõe os dogmas vão
para escanteio. O fálico interroga: “É jogo de viado?”. A submissão remete ao
espaço que vai da homo-afetividade até ao recalque. Boa partida.
J.P.G. - Revista Hustler ano 1 no 1 Agosto 1998
JOÃO GOROROBA, QUE CHEGOU
AO QUE CHEGOU. ORA VEJAM!
Dona Martinha estava na janela vendo o bando de crianças brincando pela
pracinha. Chamou seu filho:
_ Joãozinho, vai brincar com as crianças, vai.
Magro, branquinho, cara de zonzo, voz de taquara rachada, João respondeu:
_ Não quero, mamãe, não gosto destes moleques.
Dona Martinha insistiu, como só ela sabia fazer: _ Vai, vai meu filho.
Hesitante, na porta, com sua ridícula roupa de veludo esverdeado Joãozinho
Gororoba, como era chamado pela molecada, resistia com o olhar pedinchão. Mas
mamãe, fechou os lábios finos, irredutível. Joãozinho foi se arrastando, como um
boi para o matadouro. Os metros que separavam sua casa do teatro dos
acontecimentos - o centro da pracinha - eram quilômetros de desertos aos seus
olhos medrosos, as suas pernas, melhor dizendo, perninhas. De vez em quando,
olhava para trás, numa vã esperança de uma reconsideração da mãe.
Que nada. Muito pelo contrário. O olhar era uma provocação e um desafio.
Finalmente João, semi-desfalecido, chegou-se ao grupo com uma pergunta inútil:
_ De que vocês estão brincando? (obviamente, jogavam futebol ...)
_ Se arranca filhinho da mamãe.
João ainda lançou um último olhar de pedido de compaixão para sua mãe. A
resposta acima dos pelos do queixo veio sem tergivesação.
_ Brinca meu filho, com as crianças. Elas gostam de você.
João insistiu, sabendo de antemão da sentença que viria irrevogável:
_ Posso brincar?
A resposta veio com a força das coisas decididas no início dos séculos.
_ Se arranca, Gororoba.
João, num rompante, sentiu que era seu futuro que estava em jogo e tentou tudo
num pé de audácia, tão ridículo quanto ele mesmo. Tentou atingir com um soco,
sem força, sem malícia, sem jeito, a cara de Chico Negão, que desvencilhou-se
com riso descontrolado. João desiquilibrando-se, estatelou-se no chão,
seguindo-se uma saraivada de murros e pontapés.
Com o rosto ainda mais branco que cera, um filete de sangue escorrendo feioso
pelo nariz, João começou a recuar para casa sob os risos dos moleques e a zoeira
- Gororoba, Gororoba.
Na porta, dona Martinha estava grave, parada. O rosto enigmático. João resolveu.
Levantou o rosto com os olhos brilhantes e perguntou, afirmando:
_ Viu, mãe, como bati naqueles moleques sem-vergonhas e mal-educados?
Um segundo de eterno mutismo se seguiu.
Dona Martinha olhou para aquele rebento que a envergonhava, profundamente.
Pairou entre uma tapona ou uma mentira cruel. Num ritus de profundo desprezo,
sorriu mansamente, abriu os braços e exclamou:
_Claro meu herói; claro que vi sua valentia. Você é mesmo meu homenzinho.
Só então uma furtiva lágrima teimou em aparecer no olho esverdeado da branca
cara de João. Sua infância terminara naquele instante. Ele entendera daí para
frente o jogo a jogar. O jogo de Dona Martinha.
J.P.G. - “Coo-jornal”
ANALISANDO FREUD
FREUD ENTRE ÉDIPO E O MANDAMENTO.
Moisés trouxe da Lei de Deus, como mandamento: “Honrarás teu pai e tua mãe, como
te ordenou o Senhor, teu Deus, para que a tua vida seja longa e próspera sobre a
terra, que o Senhor, teu Deus, te dará”. A leitura do discurso freudiano sobre a
psicanálise e sua base na Lenda de Édipo, permite uma interpretação personalista
e cultural. Diante da ambivalência de sentimentos em relação a seus pais, judeus
assimilados à cultura leiga germânica, Freud se aliena da tradição judaica de
respeito e aceitação das figuras familiares para encontrar no mito grego uma
base de revolta filial. Na antigüidade o judaísmo encontrou nas raízes helênicas
o seu maior desafio de sobrevivência filosófica, paralelo ao desafio religioso
do cristianismo. Assim sendo, Freud se orientando em dependência da mitologia
grega, duplamente podia enfrentar a autoridade paterna: no contexto direto da
revolta de Édipo contra seu pai carnal e no traço indireto de repúdio à tradição
das ordens do Pai divino.
FREUD E AS MANIFESTAÇÕES EXTRA PSÍQUICAS.
Em 1924 Freud enviou uma carta ao psicanalista inglês Ernest Jones em que
declara: “Estou disposto a desistir da minha oposição à existência da
transferência de pensamento” e completou “estou preparado para dar o apoio da
psicanálise à questão da telepatia”. Durante toda a sua vida Freud teve uma
atitude ambivalente em relação aos chamados fenômenos espíritas ou ocultos.
Freud leu na Ata da Sociedade de Pesquisas Psíquicas um relatório sobre
experimentos telepáticos com Gilbert Murray, o classicista de Oxford (ver pág.
233 ¾ The life and work of Sigmund Freud, de Ernest Jones). Enquanto morou em
Paris ele teve a chamada experiência clauriaudiente de ouvir a voz de sua noiva,
Martha Bernays, “chamando-o” de Viena, várias vezes. Wilhem Fliess médico
rinologista exerceu no princípio da carreira de Freud ascendência sobre o
criador da Psicanálise. Excêntrico Fliess era dedicado à numerologia que passou
a interessá-lo por toda vida. Freud registrou um caso de premonição acontecido
em 1889. Em “The Psychopathology of everyday life”, publicado em 1904 Freud
analisa com prudência a psicodinâmica das superstições, sonhos proféticos e
manifestações telepáticas. Ainda neste ano Freud visitou com seu irmão Alexander
a cidade de Atenas. A revista “American Imago” (outono 1969) publicou “A
Perturbação de Freud na Acrópole”. Os acontecimentos ocorridos em 3 de setembro
de 1904, quando Freud passou duas horas na Acrópole foram relatados por Ernest
Jones “. . . sentiu uma estranha descrença na realidade daquilo que estava
diante de seus olhos. . .” e chegou a perguntar a seu irmão se “eles estavam
realmente na Acrópole”. Mais tarde Freud tentou explicar o fenômeno como
processo observável em “pessoas que não podem tolerar o sucesso”. Em 1936, Freud
publicou um artigo denominado “Um Distúrbio de Memória na Acrópole”, em
homenagem a Romain Rolland, e no qual tenta ligar o misterioso ao proibido: “...
o fato teve algo a ver com as críticas de crianças a seu pai, com a subestimação
da infância... Assim o que interferiu com o prazer de nossas viagens para Atenas
foi um sentido de respeito filial...” Em 1905 tendo encontrado um homem que se
parecia fisicamente consigo, Freud interpretou o fato como um presságio de sua
morte. Em 1907 quando conheceu a irmã de um paciente que falecera e notou a
semelhança entre ambos, exclamou: “Então é verdade afinal, que os mortos
retornam”. Em 1910 ele comentou com o analista Sandor Ferenczi sobre uma
premonição segundo a qual morreria em 1918. Em 1919 (Imago, vol. 5) Freud
publicou um ensaio sobre “O misterioso”, resultado de ponderações de mais de
quinze anos. Neste trabalho ele afirma: “... Contudo quase não existe, nenhum
outro assunto, desde os tempos antigos, morte e cadáveres, retorno dos mortos,
espíritos, e fantasmas ¾ sobre o qual os nossos pensamentos tenham sofrido tão
pouca mudança e no qual formas fora de uso foram tão completamente preservadas
sob um tênue disfarce, como esse de nossa relação com a morte...”. Em 1921 o
pesquisador psíquico norte-americano Herewar Carrington, convidou Freud para
participar do conselho consultivo do Instituto Psíquico Americano e colheu a
seguinte resposta: “Eu não sou um desses que logo de saída condena o estudo dos
chamados fenômenos psicológicos ocultos, por considerá-los não-científicos”. Sem
que oscilasse na sua atitude em relação ao fenômeno espírita chegou a negar ter
escrito esta carta (provavelmente dissuadido por Jones). Freud chegou a preparar
um ensaio sobre “Psicanálise e telepatia” para ser lido no Congresso
Internacional Psicanalítico de 1922, publicado em 1941 dois anos após a sua
morte. Seu colaborador Ferenczi (conforme depoimento de seu testamenteiro
literário Michael Ballint) mostrava muito interesse pelos fenômenos ocultos, de
outro lado Jones era rígido na oposição a qualquer ambigüidade em relação aos
mesmos. No supra mencionado ensaio, Freud acaba por afirmar: “... Eu não tenho
opinião, não sei nada sobre isso...” Esta afirmação é seriamente relevante,
tendo em vista a coragem de Freud na dissecação conseqüente de todos os
fenômenos mentais que procurava estudar. Em sua obra “Novas Preleções
Introdutórias e Psicanálise”, no capítulo no . 20, “Os sonhos e o oculto” ele
resume vários casos de relatos de pacientes sobre telepatia e assegura:
“Todavia, levando em consideração todas as evidências permanece uma grande dose
de possibilidade em favor de realidade de transferência de pensamento”.
Advertido por Jones que deveria ser cauteloso, Freud afirmou que: “UMA PESSOA
DEVERIA TER A CORAGEM DAS SUAS PRÓPRIAS CONVICÇÕES”. E publicou um parágrafo
especial relativo à “significação oculta dos sonhos” na edição de 1925 das suas
“Obras Completas”. Com sua filha Anna Freud e Ferenczi entregou-se à
experiências Telepáticas. E em relação às mesmas afirmou: “Nós três levamos
avante experiências com transmissão de pensamento. Elas foram excepcionalmente
boas, em especial naquelas em que fiz o papel de médium e depois analisei minhas
associações”. Jones advertiu-o, Freud retrucou: “Eu também não gosto disso tudo,
mas existe alguma coisa de verdade nisso”. Jones respondeu que Freud acabaria
acreditando em anjos, este respondeu, brincando: “Perfeitamente, talvez até
mesmo no próprio bom Deus”. Freud foi membro da Sociedade de Pesquisas Psíquicas
de Londres desde 1911 e da Sociedade Americana de Pesquisas Psíquicas desde
1915. Numa conversa com o escritor húngaro Cornelius Tabori, em Viena no dia 21
de julho de 1935, Freud cita o caso relatado por um “homem muito inteligente e
culto” que corrobora os poderes de predição de uma ledora de sorte e um outro de
uma paciente na mesma linha. Perguntado por Tabori se estes casos seriam provas
suficientes sobre telepatia ou clarividência, Freud afirmou: “A transferência de
pensamento, a possibilidade de sentir o passado ou o futuro não pode ser
meramente acidental”. Na verdade as pesquisas sobre o inconsciente iniciadas,
genialmente por Sigmund Freud, a sua disposição para a verdade, a aplicação da
dialética da ciência na psicologia é que nos possibilitam verificar, hoje, as
dimensões da mente e a limitação do homem, sem o risco de minimização dos mais
largos horizontes do espírito.
SIGMUND OU SCHLOMO.
A vida e a obra ¾ a Psicanálise ¾ de Freud estão impregnadas pela influência do
pensamento mágico; embora esta afirmação possa ir de encontro às intenções
conscientes de Freud. Matéria que fica em aberto. Sem preocupação cronológica,
vamos assinalar alguns fatos e idéias fascinantes e perturbadoras. Comecemos
pelo prenome, Freud tinha dois: Schlomo e Sigismund. Mas em 1878 com 22 anos,
adota o prenome de Sigmund. Abandona as letras IS, as primeiras do nome Israel,
o outro nome de Jacob, “o forte contra Deus” da Bíblia depois da luta contra o
Anjo. Segundo as escolas cabalísticas uma das formas de se alterar o seu destino
é a alteração do nome. Outrossim, Schlomo era o nome de seu avô paterno, morto
no nascimento de Sigismund; ou seja uma ligação sob a égide da morte, da qual
pretende se livrar. Leitor assíduo e sério. Freud não poderia desconhecer estas
tradições e as implicações do esoterismo da mudança de nomes.
LINGUAGEM DEMONISTA.
Freud usou abundantemente, nas suas experiências e na sua literatura, uma
linguagem repleta de demonismos. Bernard Pingaud relata que quando Freud foi
acolhido triunfalmente, nos Estados Unidos, pronunciou uma frase que ficou
célebre: “Esta gente não suspeita que eu lhes trago a peste”. Numa carta famosa
a Fliess, cuja amizade teve importância decisiva, emocional e cultural na sua
carreira, Freud escreve o seguinte: “Nos meus anos de juventude, aspirei apenas
conhecimento filosófico e agora estou a ponto de realizar esta aspiração
passando da medicina para a psicologia, até a constituição de uma metafísica”.
Se aplicarmos o próprio método psicanalítico de análise, pode-se deduzir o
lastro inconsciente na escolha de vocábulos, de nítidas características
demonistas.
COMPLEXO DE ÉDIPO OU O MITO ESPÍRITA?
O conceito mais divulgado e de maior impacto da psicanálise é o estudo do
chamado comportamento edipiano, apontado por Freud, em abundante interpretação
de base sexual. Marie Delcourt diz que em “A Interpretação dos Sonhos” Freud usa
uma interpolação que causa espécie quando diz que se Édipo-Rei comove um
auditório moderno, tanto quanto um antigo, é porque deve haver aí qualquer coisa
que faz ressoar em nós uma voz pronta para reconhecer a força do destino. A
obsessão fatalista e de Destino, em Freud, é visível nesta passagem. Holderlin
fala sobre a clarividência de Édipo. “Interpreta, definitivamente demais, a
palavra do oráculo ... A Cólera de Édipo é a de um embriagado”.
O NOME E O PROCESSO DE RECALQUE.
Em todas as escolas esotéricas atribui-se importância mágica e excepcional ao
nome das pessoas, dedicando-se estudos profundos sobre a questão. O primeiro
esquecimento de nome analisado por Freud está ligado ao recalque, os efeitos do
processo primário, o inconsciente, ou seja, a própria base da psicanálise. Já
vimos a questão da mudança do prenome de Freud. Agora veremos a magnitude que
Freud reserva ao estudo do esquecimento do mencionado prenome que mereceu sua
análise, Luca. Todo este episódio ocupa tamanha importância na obra freudiana,
que prefiro transcrever comentários do psicanalista Guy Rosolato, delineando a
dimensão do problema: “nota luciferiana... terapêutica luciferiana (que traz a
luz)... implicações demoníacas que Freud pressentia em suas descobertas e
naquilo que se tornará a psicanálise...”. Mas podemos ir ainda mais longe neste
filão de surpreendentes descobertas. Freud em outra carta a seu confidente
Fliess, referindo-se ao ano de 1900 afirma textualmente: “Tudo está flutuando,
vagando, um inferno intelectual, camadas superpostas, e nos recônditos
tenebrosos se distingue a silhueta de Lucifer-amor”. Dentro dos trabalhos
estruturais, a entidade do superego, foi chamada por Bergler de Daimonion, por
sua severa inflexibilidade. Freud foi buscar em Goethe sua frase: “A partir do
céu, através do mundo, até o inferno”, para afirmar a penetração das observações
da sexualidade. Resoluto, usando a etimologia associativa em relação ao prenome
Luca, propõe luz (Lux, lucere, em latim), em direção aos poderes de Lucifer (o
nome de Vênus, em hebreu, helel, chegado a halal, brilhar) príncipe dos
demônios. Noutra carta a Fliess (a correspondência de ambos ocupa papel
fundamental na compreensão dos mecanismos íntimos do pensamento de Freud), de
no. 70, o pai da psicanálise referindo-se a sua primeira governanta, idosa e
feia, “mas inteligente, falou muito de Deus e do inferno e deu uma alta idéia de
minhas próprias faculdades”. Que estranha destinação terá exercido esta
autêntica bruxa, que na infância do gênio lhe terá revelado os segredos do
futuro? Aos três anos de idade, indo de Freiberg para Leipzig, Freud lembra que
“as chamas de gás que aí vi pela primeira vez fizeram-me pensar nas almas
queimando no inferno”. A lembrança repetitiva do mesmo motivo em dramáticas
circunstâncias perseguirão o adulto até sua morte. Para encerrar este tópico,
assinale-se que o nome completo Luca Signorelli tem nas suas sílabas finais Elli
(Elli, Deus e morte). Estranha premonição das câmaras de gás nazistas.
FREUD E MOISÉS ¾ O ASSASSINATO DO PRÍNCIPE EGÍPCIO.
Sabe-se do fascínio invulgar que a figura de Moisés, desde a obra de
Michelangelo, exerceu sobre Freud. Terá sido interesse meramente estético e
cultural? O próprio Freud quando relata suas visitas ao local, aonde se
encontrava Moisés, usa expressões calorosas que lembram a reverência mística.
Senão, vejamos: “Sempre tentei manter-me firme sob o olhar irritado e desdenhoso
do herói... Mas às vezes eu prudentemente deslizava para fora da penumbra da
nave como se eu mesmo pertencesse à ralé para a qual se dirige este olhar...”
Linguagem de unção e de fervor religioso, como se estivesse a mirar e ouvir uma
pessoa viva e não uma escultura de pedra. O que acaba levando aos fantásticos
conceitos de seu último livro no qual levanta a hipótese de que Moisés não era
judeu, mas um egípcio e que o monoteísmo judaico era derivado dos ensinamentos
do rei egípcio Akhenaton, herética na tradição religiosa egípcia. E finalmente,
de que os judeus teriam assassinado Moisés. Revele-se que este livro foi
reescrito de várias formas certo número de vezes como se Freud hesitasse na
publicação destes devaneios.
O MESSIANISMO DA PSICANÁLISE.
Laplanche usa as palavras de ressonância bíblica: “E Ele se fez homem e habitou
entre nós”, em relação a Freud. Esta predestinação encontra explicação na
citação de Virgílio “Flectere si neque os superos, Acheronta movebo” (Se não
posso mover os céus, moverei o inferno), na abertura da “Interpretação dos
Sonhos”. No seu paralelismo poético, pode representar um pedido de licença de
Freud para penetrar no mundo dos sonhos, as potestades do Inferno. Esta
dicotomia está sempre presente nas revelações ocultista de que o que está em
cima (consciente) é semelhante ao que está embaixo (inconsciente). Céu e
Inferno. Talvez seja interessante contar o episódio dos anéis, relatado por
Erich Fromm ¾ Freud presenteou Jones, Ferenczi, Abraham, Rank, Sachs, e
Eitington com antiga obra de entalhe grego de sua coleção, montada num anel de
ouro. Junto com aquele que pessoalmente usava, formaram os “Sete Anéis”,
registrados por Sachs e assim denominados. Curiosa a somatória do número mágico
e o uso dum objeto de afinização. Mesmo em tom de brincadeira e galhofa,
percebe-se o elemento de preocupação quando se constata que os usuários seriam
os homens de grande sabedoria que deveriam conduzir o movimento psicanalítico
mundial.
AS IDÉIAS DE MORTE E FATALISMO.
Em várias fases da vida, Freud pretendeu ter o conhecimento antecipado da data
de sua morte, cercando-se de superstição e receios. Ligou-a à Teoria dos Números
(de origem claramente Cabalista) que acabou representando particular papel e
significado no seu desenlace. Ainda jovem escreve a sua noiva Martha sobre o
suicídio de Nathan Weiss: “Sua morte não pode ser acidental, seu ser antes
encontrou nela sua plena realização”. Em 1894, segundo seu biógrafo Jones, prevê
que sua morte se dará entre os 40 e os 50 anos de idade. Aos 51, em
correspondência a Ferenczi, muda a previsão, fixando-a em fevereiro de 1910. Seu
amigo Fliess havia imaginado o que chamou de meta-biologia, com uma perspectiva
cosmológica, na qual os organismos evoluem conforme a evolução da terra e suas
relações com o sol e constata a chamada Lei do 23 ou 28 (periodicidade baseada
na bissexualidade dos seres humanos ¾ ordenada pelos dois números, ligados com
os fenômenos da menstruação e representando os componentes feminino e
masculino). O falecimento de Freud se dá, fantasticamente na data do ciclo ¾ 23
de Setembro: Freud determinando a própria data de seu falecimento, por um
processo subjacente de vidência? Em “Naissance de la Psychanalyse”, Freud afirma
que seu pai sabia, claramente, quando deveria morrer e que conservara sua
serenidade até o fim. O que se repete, na sua própria morte.
MISTICISMO E SURREALISMO.
Os herdeiros de Freud publicaram, em suas Obras Completas alguns fragmentos
enigmáticos, datados de junho, em Londres, antes de sua morte. O último dos
assentamentos, de no . 22, VIII, diz textualmente: “Misticismo: a auto-percepção
obscura do reino do Id, além do Ego”. Provavelmente, é o último escrito de
Freud, denotando até o final de sua vida, sua obsessão com esta temática. E não
é de causar espanto. Uma vez ele comparou os prolongamentos metafísicos da
psicanálise a uma “embriaguez sem álcool”. Definindo a diferença entre o delírio
e o fantasma, Freud usa de expressões dignas de atenção
dentro da linha ocultista: “No delírio, os fantasmas tornam-se os senhores
soberanos, isto é, obtiveram crédito e com isso acionam a conduta do sujeito”.
Ao fim de sua vida Freud afirma: “Se Deus não se apressar, continuarei a ser em
toda minha vida o que sou, um judeu infiel”. Cabe a indagação: “o que sou, ou o
lapso daquele que gostaria de ser?”. Na correspondência mantida com Breton,
Freud considerou o surrealismo uma “perversão fetichista”, remetendo o movimento
artístico à corrente de Janet, Charcot, ao espírito parapsicológico, mediúnico,
segundo Starobinski, em contraposição à corrente principal que iria de Mesmer a
Freud. Ora o mesmerismo se alimentou da literatura mágica, astrológica,
hermética, dos séculos XVI e XVII, segundo o próprio autor e esta conceituação
teria que influenciar o pensamento freudiano. Para finalizar o estudo sobre a
angustiante ambivalência de Freud e o ocultismo, vamos transcrever o diálogo com
Jung, por este relatado em “Ma Vie”. “Meu caro Jung, prometa-me nunca abandonar
a teoria sexual. É a mais essencial. Veja, vamos fazer dela um dogma, um bastão
inabalável.” Um pouco surpreso perguntei: um bastão contra o que? Ele me
respondeu: Contra a maré negra de ... aqui ele hesitou um pouco para
acrescentar... do ocultismo! Dois elementos se sobressaem desta passagem
impressionante: o passionalismo que faz Jung se surpreender e a coloração negra
que Freud empresta ao ocultismo. Seria a contraposição a sua ciência branca? A
tensão freudiana é de tal natureza nas pretensões de proselitismo dogmático que
leva David Stanford Clarck a compará-lo à Paulo, na Epístola aos Efésios:
“Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne, mas contra o espírito mau
nas coisas celestiais”. A conceituação freudiana costuma ser assim definida: “O
paciente se liberta da imagem, transformando-a em palavras”. Esta transformação,
exorcismo verbal é praticado faz milênios por todas as escolas de magos e
esotéricos.
FREUD E A CABALA.
Em carta que escreveu em 1909 a Jung, Freud afirma: “a Natureza especificamente
judaica de meu misticismo”. Usou na ciência psicanalítica a criação de
categorias esotéricas, o jogo dos mitos e a tentativa sucessiva de interpretação
para ¾ além das aparências ¾ Super-Ego, Censura, Id, Libido. Para todo o
esoterismo, e na Cabala judaica, particularmente, o conhecimento não deve ser
entregue aos limitados. Freud citava os versos de Goethe: “Das beste was du
wissen Kannst, darst du den Buden doch nicht sagen”. Já notamos como a
numerologia cabalística pesou na sua tentativa de cálculo de data da sua morte.
A importância do sexo como base de energia da vida está presente na metafísica
de um dos livros da Cabala, o Zohar (Sefer-ha-Zohar, Livro do Esplendor),
escrito pelo rabi Moses de Leon, provavelmente, e que era do conhecimento de
Freud que aproveitou o conceito como fundamento da psicanálise. A harmonia da
vida, na divindade, se refletiria no amor entre o Deus e sua Shehina entidade
feminina, a presença. Esta concepção foi aproveitada pelo cristianismo, na
similitude do papel da Virgem Santíssima. O homem primeiro, seria segundo Isaac
Lurias, o místico, Adam Kadmon, filho da união divina e com características
bissexuais. Nas 10 emanações místicas do Senhor encontramos as Sephirot. A nona
é chamada ysod, localizável nos órgãos genitais da divindade. Em hebraico esta
palavra significa base, e contém outra palavra-sed-que se traduz por sagrado.
Assim o sexo seria o fundamento secreto da vida. O sexualismo do Zohar esteve
acompanhando as idéias dos falsos messias Sabatai Zvi e Jacob Frank. Realmente é
curioso notar que na concepção freudiana a libido seria masculina, embora na
simbologia do Ocidente e do Oriente, Eros era considerada feminina. A
possibilidade de que o homem possa carregar o bissexualismo, encontra origem na
passagem do Gêneses, 1o , 27 “Macho e fêmea os criou...”. Freud teve, como é
sabido um comportamento pessoal, dentro dos valores da religiosidade rabínica,
dentro de regras bastantes rígidas. Na disposição freudiana de luta contra a
idéia-pai, se estabelecem as ligações com Moisés, Laio, o gorila
pitecantropuserectus primitivo, o Super-Ego, provavelmente traçadas a partir da
luta de Jacob contra o Anjo ¾ o forte contra Deus ¾ que culmina com a mudança de
nome para Israel. Numa outra abordagem, a relação entre Freud e Moisés mostra à
saciedade este conflito formidável que se estabelece entre a sensualidade (cuja
teoria tem em Freud seu porta-voz) e a intelectualidade (retratada por Moisés).
Freud chegou a assinalar que a psicanálise seria uma forma de alargamento do
“espírito do novo judaísmo”.
J.P.G. (“Jornal da Tarde”).
DESINFORMAÇÃO E SUFERFICIALIDADE
Nas vogas lançadas pelas poderosas máquinas divulgativas, nos diversos quilates,
é preciso localizar certos elementos de mistificação, para elucidá-los.
Periodicamente, de maneira simultânea, como que obedecendo a contrôle remoto, as
grandes revistas internacionais passam a projetar ensaístas ou pensadores.
Deixando de lado o aspecto de coincidência de revelação de valores, por
extemporâneo, restaria o valor intrínseco da obra do escritor. Acontece que
mesmo um conhecimento perfunctório dos emaranhados do grande mundo editorial e
da informação, permite constatar que esta é uma das últimas facetas a serem
levadas, em consideração. O número de talentos despejado no mercado é de tal
monta que os controladores de opinião pública podem, perfeitamente, se dar ao
luxo de selecionar aquêles que, de uma ou outra forma, correspondem aos seus
interesses mais diretos de ordem política, social e econômica. Em décadas
diferentes citemos Erich Fromm, Koestler, Mac Luhan e Marcuse. A compilação do
gênero “Digest para adulto”, tem de ousadia o que lhes falta em singularidade,
pouco convincentes em seriedade filosófica. A “promoção sociológica”se escora em
“cultura de jargão”, para ser assoalhada em fórmulas doutorais, nas antesalas
das Universidades e grêmios juvenís, tanto menos perigosas, quanto menos
embasadas na realidade social.
Disseminação e culto da violência
O despudor com que se faz a exaltação da violência, em todas as formas — das
mais primárias (gangsterismo na TV e mocinho no cinema) até as mais complexas (
o exercício arbitário do poder estatal e a guerra) assume características
paranóicas acerbadas, na sociedade em conflito. A manipulação dos instrumentos
de crime — armas brancas e de fogo — apresenta cada vez mais amplos. Clubes de
tiro ao ar livre pululam. Fotografias coloridas, nas matrizes dos jornais
insensibilizam a juventude, exibindo chocantes cenas de atropelamento. O
golpeamento pela trituração do adversário, é apresentado, em todas as instâncias
como a forma mais eficiente, rápida e elegante, de triunfo, numa sociedade onde
o triunfo é o critério de aceitação. Os mais bestiais instintos que as condições
ambientais excitam ao invés de sofrear, encontram guarida e tolerância.
Desvio na divulgação
Não podemos admitir, a não ser como resíduo da exploração comercial desbragada,
a entrega dos órgãos de comunicação para a massa a dirigentes que não tenham
condições intelectuais adequadas. Constatamos a degenescência que avassala a
formação da cultura de opinião pública, em nosso país. Alguns dos desacertos que
estas contingências provocam pela sua singular gravidade, merecem destaque.
Comunicação em níveis diversificados de inteligência
Tirante os dispositivos culturais, a constatação de capacidades imanentes
diferenciadas de inteligências nos conduz ao problema de se ater a uma linguagem
universal como se pudesse abstrair deste elemento básico. A não ser para
temática específica — técnica ou condicionamento de interesses — uma simbologia
universal de vocábulos serve à linguagem. Tendo em vista que a captação e
enunciação são decorrentes em grande parte de postura inteligente, pode-se
avaliar o grau de resíduos que essa precariedade informativa induz.
O abismo de compreensão qualitativa que separa as instâncias de inteligência é
maior do que a distância de uma língua de outra.
Embotamento e exasperação sexual na publicidade
Oscilando entre o jogo da hipocrisia convencional e os impulsos descontrolados
do aproveitamento, o sexo serve à fantasia publicitária, sem objetividade
científica. Desde a proibição da menção dos órgãos genitais até os convites da
lascívia exibidos em anúncios, prima-se por emprestar ao problema do sexo,
características de “tema tabu”. O apagar contínuo da sensibilidade pelo
confinamento das reações acaba degenerando no crime — estimulante de cultura de
vendas, e por isso, endeusado na arte e divulgação, em verso e prosa. Mesmo nos
países onde a presença da mulher, em têrmos de emancipação social vem se
acelerando, facilitando a solução dos problemas sexuais, os resíduos de impacto
diário de informações desvirtuadas e “apelos irracionais”, com base exasperação
do sexo — como elemento de mercadoria e sustentação de venda — dificulta seu
dimensionamento lógico.
Indução à passividade
Uma comissão de psiquiatras norte-americanos, presidida pelo dr. John Sipieguel,
diretor do Centro para o Estudo da Violência da Universidade de Brandeis,
dirigindo peritos em Sociologia, História, Medicina e Direito, aventou a tese de
que a fórmula para diminuição das ondas de violência e ódio, na sociedade
moderna, seria a educação do público para “aprender a perder”. Em palavras não
condicionadas isto seria uma proposição para aquietar-se as ondas de
insatisfação natural do indivíduo e grupos, diante de erros e injustiças que
caracterizam o mundo de terríveis contrastes entre a opulência e a guerra, o
prazer e a dor que flagelam grandes multidões. É claro que se trataria de
tomada-consciência em favor da criação do homem-carneiro para as reações
sociais, em manada.
Tese
O envilecimento paulatino dos meios e processos de comunicação e a
superficialidade e a mistificação, terão como resultado a ambiguidade e
desorientação. E teremos que assoalhar o espírito da época, conforme Goethe:
“Sempre que ele graceja tem um problema oculto”.
J.P.G. - “Mirante das Artes”.
(Museu de Arte de São Paulo).
SAIR DO ÚTERO. E DEPOIS?
Aos 18 anos, muitos jovens, frequentemente, do interior saem das casas dos pais
em busca da autonomia para o seu comportamento e, também, quando mudam para as
grandes cidades, melhores oportunidades de trabalho e estudo. Vários fatores
determinan este procedimento:
1- Dificuldade de vencer as limitações e tabus provincianos que esmagam a
mentalidade liberal do jovem.
2- “Modismo” imposto principalmente pela praga das novelas televisivas que
importam modelos norte-americanos mal resolvidos e fracassados na própria
matriz. Mas a sucursal, mal informada, repete os erros.
3- A gerontocracia (ditadura dos mais velhos) sem diálogo e com pautas
atrasadíssimas principalmente relacionadas com religião, sexo, corpo e
realização pessoal. Os conflitos acabam dolorosamente em rompimentos. Mas, e
depois? Aqueles que saíram amaldiçoados de seus lares (“não ponha o pé de
volta”) carregam sentimentos de culpa, de traição que acabam prejudicando suas
carreiras e vidas. Outros, despreparados para a violência das metrópoles, se
sentem solitários e desamparados procurando às vezes na droga lenitivo para o
seu sofrimento e desandando no caminho irreversível da degradação pessoal. O
fato é que o afastamento dos pais é um momento de independência que deve ser
projetado com carinho e coerência para que signifique crescimento e maturidade.
O infantil e o neurótico ficarão sempre presos à familia, à tribo, à galera, à
cidadezinha, à religiãozinha, ao grupinho, numa independência medíocre.
Universalizar-se não implica em ruptura, mas em verticalização.
J.P.G. - Revista “Trip”.
O ANJO PECADOR
Quando John Kennedy foi assassinado, Jaqueline Kennedy transformou-se na viúva
da América. Tempos depois, quando resolveu casar-se com o bilionário Aristóteles
Onassis, foi acusada de oportunista, vigarista. O jornal parisiense publicou uma
manchete histórica: “Ah. Jaqueline...” (“Le Monde”) típica de um sentimento de
frustração do conservadorismo e da hipocrisia. Os “bem-pensantes” exigiam dela
uma virgindade “post-mortem”. Qual a origem deste sentimento? A tradição bíblica
alude ao mito de Lilith, a mulher demoníaca de Adão, em contraposição à Eva. A
noção da figura incidiosa feminina sempre acompanhou a repressão machista. O
fascismo moral, base do nazi-fascismo político e ideológico, parte do
pressuposto de um narcisismo homossexual enrustido, não assumido que, no fundo
se apavora com o erotismo feminino. A vagina, enxergada como a porta de entrada
do Inferno. No enterro de Ayrton Senna, fiquei impressionado com a desolação de
Adriane Galisteu. A tristeza era geral, mas ela obviamente, tinha perdido o seu
futuro. Muitos choravam o passado. Adriane era uma figura grega naquele cenário.
Lembrei-me de outra vez. Ayrton Senna concedendo uma entrevista coletiva à
imprensa internacional e brasileira falando de seu projeto, de uma revista
ecológica, humanística, com códigos de formação anti-racista, usando heróis e
heroínas em igualdade de condições. Diante da pergunta de um repórter japonês,
pediu que eu respondesse em nome dele sobre seus propósitos não-comerciais e
idealistas do empreendimento. Num átimo de tempo, captei o cruzamento de olhares
entre Adriane e Ayrton. No amor, o importante é o sentimento da cumplicidade.
Eles eram cúmplices. E por isto, invencíveis e infindáveis. Mas, também,
potencialmente, vítimas da inveja. O amor, e mais, a paixão, provocam o
ressentimento, o ódio, a vingança dos mal-amados. E a nossa pobre Adriane
Galisteu foi eleita para ser a vítima deste processo. O nosso golden boy, o
príncipe da nossa bem-querença morto, quiseram e querem que ela seja considerada
a aventureira, indigna do legado do mito e do herói. No fundo, Adriane, a loira
escultural, habita a fantasia de todo o desejo masculino brasileiro, e ai dela
se quiser continuar a viver, sorrir, namorar, amar. No fundo, as mulheres morrem
de recalque diante da sua exuberância e intenção de continuar a sua carreira, os
seus romances, o seu sexo. Ninguém perdoa aquela que dividiu com o nosso herói,
a cama e o segredo. Por tudo isto, que se cale a instituição nacional da fofoca
e do provincianismo pequeno burguês. Ayrton Senna não foi célebre porque corria
nas pistas. Outros também o fazem e nem por isso são profetas. Se Moisés ou
Jesus vivessem hoje, provavelmente correriam na F-1, para dizer: “Eu vi Deus”,
origem e destino de seu carisma. Olhar, chegar perto, vibrar de longe com Ayrton
era compartilhar este território mágico e sagrado. Não banalizem o que vivemos.
Aqueles que tiveram como eu a ventura de, num momento tocar, conversar, conviver
com Ayrton, respeitemos a sua escolha, o anjo que nadou com ele nas chamas do
carinho. Não são monumentos que vão eternizar a memória de Ayrton. É o seu olhar
transfigurado que se deita em Adriane, em cada torcedor, e principalmente nas
crianças que ficaram órfãs dele. Vai fundo Adriane, viva, ame, continue. Ayrton
está presente, se sente, se sente!
J.P.G. - Revista “Trip” - Ano 8 No 42
EM NOME DE DEUS
Machucar, torturar, mutilar, matar. A chave-senha de civilização de necrofilia.
No cinema, na TV, na literatura. Prende, arrebenta. No sexo, trepar, comer. O
próprio verbo da relação, sinônimo de agressão. “Vou foder a vida dele”. O
prazer do sadomasoquismo (referência de Sade-Masoch), em, através do sofrimento,
atingir o orgasmo. O endosso e o aval das religiões. A excisão do clítoris, nas
meninas, entre mulçumanos. A circuncisão, nos meninos, entre os judeus. Trauma,
em nome de Deus. A castidade obrigatória, entre os católicos. Os rituais de
sacrifício na Umbanda e Quimbanda. O demonológico, entre os pentecostais. O que
existe, atrás destes fenômenos, em que a ternura, a delicadeza, o amor, são
substituídos pela histeria causada pela violência? Vivemos um compromisso
satânico - em nome de um bem-estar futuro, a economia de mercado condena à fome
crianças. A falta de assistência médica, educação, lazer. Sadomasoquismo. Visite
uma penitenciária brasileira. Estupro, Aids, loucura. Falta de recursos? Claro
que não. Inconscientemente, o reino de Caim.
Punição e vingança. As crianças na escola. Nossas escolas, concentração de
mediocridade, rotina, cansaço, autoritarismo. Dor. Recompensada pelo orgasmo de
aprovação. Nossos jornais, nossa mídia, espelho feliz da infelicidade. Roubo,
assassinato, corrupção. Inexiste a esperança, a fé, a utopia. Charco de
mau-humor, a política se encarna na figura monstruosa de Hitler - que atingia o
orgasmo quando jovens recrutados pela S.S defecavam em seu peito. Depois, o
fuzilamento. Suas taras relatadas em Eu fui médico de Hitler, de Kurt Kruger. E
as polícias políticas das ditaduras americanas? Os bananas-boys covardes que se
divertiam, torturando indefesos. O “pau de arara”, uma espécie de altar de nossa
criminalística de araque. O machismo de Nelson Rodrigues. alegando que mulher
gosta de apanhar, infâmia. Quem gosta de bater e de apanhar é tarado,
pervertido, cruel. Mulher gosta de carinho e compreensão. Homem que é viril
gosta de carinho e compreensão. Todos os sexos anseiam e inspiram pelo amor.
Ódio, o material combustível do sadomasoquismo, deve ser remetido à patologia
individual e social.
J.P.G. - Revista “Trip”
MONÓLOGO A DOIS
Quem matou Jesus? Quem matou 6 milhões de judeus? O aparente diálogo que se
estabeleceu após a tragédia da “shoah” (e não holocausto), na Segunda Guerra
Mundial, entre a igreja e a sinagoga nunca atingiu a autenticidade e a coerência
indispensáveis. Medo, culpa, sentimentos recalcados de amor e ódio se embaraçam
numa teia complexa, em que a fraqueza não encontra lugar. Alguns pontos demandam
mais a reflexão teológica e psicológica do que o “modus vivendi” político. É
preciso mergulhar na origem das contradições e do afastamento, até as
teratológicas implicações. De um lado, a saga de Jesus, Yeoshua Ben Yossef ¾ um
camponês judeu do Mediterrâneo, na definição de John Dominic Crossan ¾ ,
relatada numa linguagem epopéica e passional pelos apóstolos, companheiros
judeus. A mensagem, renovada e transmitida pela ambiguidade do gênio político de
Saulo de Tarso, que conquista o imaginário e o simbólico como Paulo, culmina na
conquista do império que se afirma em Roma. “Meu Deus, meu Deus, por que me
abandonaste?” ¾ as palavras na cruz (suplício do dominador romano) invocam o
enigma: José, a identidade paterna, o abandono diante da repressão, a humilhação
imposta. Ou se faz a inserção (que nem cristãos nem judeus admitem) de Jesus no
cenáculo existencial de sua história ou a “judeufobia” do deicídio evolui,
independente de declarações ou “mea culpa”. O papa Pio 12 foi omisso diante do
crime nazista, como Hochnut denuncia em “O Vigário”? Sim. Mas não foi pessoal
sua atitude. Decorreu de dois milênios de síndrome de Caim (segundo o
psicanalista Szondi). A escola de Pilatos se reproduz. Khalil Gibran escreveu
sobre a necessária reconciliação entre Cristo e Jesus. Joseph Klausner, da
Universidade Hebraica, afirmou que Jesus foi o mais apaixonado autor das
parábolas mais sublimes do judaísmo. A transformação do martírio de Jesus, por
parte de Roma, na justificação do anti-semitismo só pode ser compreendida numa
releitura horizontal dos quatro Evangelhos, à luz dos manuscritos do mar Morto,
constatando discrepâncias e não aparentes convergências. Que o ovo da serpente
tenha germinado na Alemanha cristã foi reportado por Gallagher. O sacrifício de
Abel não demanda desculpas. Tudo foi imperdoável. Só a graça divina e a
inteligência antropológica podem prometer um silencioso reencontro de irmãos,
sobre a dor cósmica. Diante de Auschwitz e do Calvário, a introspecção convida a
que os companheiros de ascese implorem a redenção. Nem monólogo nem diálogo. A
prece.
J.P.G. - “Folha de São Paulo” - 20 de março de 1998
DEUS QUE ME PERDOE
Meu avô materno rabino. Mas, como minha avó se recusava a usar a peruca das
mulheres ortodoxas, teve que se contentar com uma posição mais humilde na
hierarquia religiosa, a de “shoilet”, aquele que faz o abate dos animais segundo
o ritual Kasher. Esquálido, morrendo de câncer, na cama, era uma triste e
aterrorizadora figura para o menino franzino que vinha da longínqua Juiz de Fora
visitá-lo e era exibido por sua mãe, em dúvida se orgulhosa ou envergonhada do
moleque, no geral nada sedutor. O velho, semi-agonizante, me chamou: “Vem cá e
recite a reza do dia”, do iídiche quase incompreensível que saía de sua boca
desdentada. Perplexo, balbuciei, em “mineirês”, que não sabia rezar e que,
apesar de compreender, não sabia falar iídiche. Com fúria nos olhos, voltou-se
para a filha: “Você está criando um gói”. Havia na sua voz decepção e raiva.
Minha mãe me olhou de esguelha e, poeta como era, devia estar pensando: “E
agora, José?” Um primo se adiantou e, fazendo graça, declamou a reza para o
vovô, que o abençoou, feliz: “Este, sim, será um bom judeu”. Saí de cena (a
primeira de muitas vezes), com o rabo entre as pernas. Mês depois, voltei para
Juiz de Fora, para o Instituto Granbery, colégio metodista em que estudava,
dirigido por exaltados missionários norte-americanos. Depois da Sexta-feira da
Paixão, os coleguinhas de classe resolveram me escalar para o Judas judeu que
tinha traído Cristo. Tentaram descontar com pedaços de pau. Medroso, me refugiei
no banheiro da escola, ouvindo os gritos: “Matem esse Judeu que matou Jesus”. De
repente, ouço a voz tonitruante do Mr. Moore, Walter Harvey Moore, o reitor,
discursando: “Vocês não sabem que Jesus era judeu? Suave, bateu na porta do
banheiro e, em hebraico, disse algo carinhoso. Respondi-lhe que não entendia
hebraico. Ele, quase irritado, com ardor protestante ianque: “Precisa aprender,
meu filho, é a língua de Deus, você nem parece judeu”. Dia seguinte, peguei uma
faca da cozinha da minha mãe, escondi debaixo do uniforme escolar, e, na hora do
recreio, saí correndo atrás dos moleques, procurando pela desforra. Vocação, nem
para Cristo crucificado, nem para judeu comportado. Um autêntico marginal.
Ontem, meu filho perguntou se acredito na vinda do Messias. Melancólico, me
lembrei do humor cáustico do meu pai e lhe respondi no melhor “diaspórico”: “Do
Messias, não sei, mas do cobrador, certamente”.
J.P.G. - “Folha de São Paulo” - 1999
(IM)POTÊNCIA SEXUAL
Entre a psicologia clínica e a social, balança a apreciação do “affaire”
Clinton/Monica Lewinsky, apresentando uma perspectiva de diagnóstico-prognóstico
que não tem sido devidamente discutida e, não obstante, é a de maiores
significado e dimensão, pessoais e públicos. Senão, vejamos:
1. Nas acusações contra o presidente, caracteriza-se a opção pelo “fellatio”, o
sexo oral, clandestino e com o uso de sedução “donjuanesca”. No geral, o sexo
oral entre homem e mulher raríssimas vezes é exclusivo. Ou seja, é um elemento
de excitação como parte do jogo erótico mais amplo. Diferentemente do esquema
homossexual masculino, no qual se basta. Claro que, esporádica e aleatoriamente,
o sexo oral pode enquadrar todo o processo do desejo em si, mesmo na
heterossexualidade. Mas a limitação e a escolha, bem como a repetência “in
casu”, demandam observações. O macho, sujeito da vontade, tornado objeto da ação
da fêmea, numa inversão estranha, ancorada, provavelmente, num delírio de
fantasia.
2. A mulher, jovem e tiete do poderoso varão, que nos encontros libidinosos
representa o oculto, o proibido, talvez a autêntica imagem de Lilith, aliada da
serpente. Frustado no desempenho terminal do desenvolvimento da sexualidade, há
a “naiveté” do “golden boy” que imagina poder enganar todo mundo ¾ sua mulher,
sua filha e, literalmente, todo o mundo. E pede desculpas até a Deus. Menos para
a vítima. Curiosamente, após encurralado, joga com atenuantes de forma, fugindo,
imaturo, das implicações de seu ato, o que seria a renúncia a um mandato. Aquele
que renunciou inúmeras vezes ao orgasmo pleno da satisfação pessoal,
incapacitado e recalcado para a conjugação interpessoal que consagra a
equivalência, se nega a renúncia de sua ordem política e social. “Last but not
least”, um homem que detém em sua ordem consciente e intelectual decisões que
jogam com o destino da humanidade se confunde, tímido adolescente, diante dos
jogos do sexo e do afeto. Excitado, ou se controla e se reprime ou, pior,
ejacula, garoto mimado, sem alcançar a finalidade do propósito. O lusco-fusco de
conduta (o sinal da gravata, os presentinhos) nos remete a uma possibilidade
tenebrosa, que um eventual processo de impeachment deveria investigar ¾ se há um
mínimo de simetria emocional, intelectual e ética num personagem que tem de
estar “acima de qualquer suspeita”. Senão, impõe-se a regra do prudente
afastamento da Presidência e a oportuna recomendação de tratamento psicológico
adequado ao portador da síndrome. Na sociedade do espetáculo, enredo
mefistofélico. Bem cantado.
J.P.G. - “Folha de São Paulo”- 1999
No livro “Feitiço da Amerika” busquei a síntese e produzí o poema -
Em Hokan-Coahuiltecan
Antes dos espanhóis e de Portugal, havia um mundo nas terras da Amérika. As
nossas palavras e a nossa mente não podem traduzi-lo. Mas podem chorar por ele.
Este mundo tinha, em 1492, entre 2.000 e 2.200 línguas faladas. Choremos e
oremos. Estão mortas como os desertos costeiros do Peru e do Chile. Mas uivam
nas lembranças como os povos que riram, sonharam, caçaram, amaram e foram
traídos.
Ou em asteca-tanoan, otomangean, chibcha, iroques, cadoan, jicaque
ou cada susto, osso ou marfim, pedra,
as casas portáteis para viajar,
se pode contar tua saga guerreira,
na voz do xamã.
Vamos seguir o caribu
na rota selvagem,
com tobogãs, arcos e flechas, pinhões, cactos, raízes e salmões.
No chile de então,
comer mariscos e mais embaixo,
caçar guanaco e a ema,
mandioca na floresta tropical,
nos Andes meridionais,
com os atacamenos e diaguitas no norte, e os araucanos no sul,
uma corrida para as canoas
em troncos, com figuras verticais.
No útero de Tamaulipas e Tehuacan,
moram ossos de veado, antílope e uma malhos, cachimbos tubulares, gorjeiras,
socadores e pilões dos Salishan.
8.000 anos antes de Cristo,
nos Andes havia pontas lascadas, raspadeiras e um garoto travesso brincando com
o osso de uma lhama selvagem,
Nas savanas de São Paulo e Paraná,
pedra e osso, cerâmica tupi, machados de pedra lascada
são os embriões de um
salto na escuridão.
Em Wari, milhares de casas
encheram os horizontes
como o Império Inca podia calcular
pelo quipu os horizontes de cada um,
Sepa Inca.
E para concluir uma garganta
gemendo sem norte, com cogumelo,
as gentes e suas falas
(porque, um homem sem fala, morreu).
Os atacamenos, os diaguitas,
o temível Topa Inca Yupanqui,
o atlato dos Anasazi, os ornamentos de
conchas, por que acabaram,
Senhor?
Por que o braço teve ódio,
os dados foram mortalha do povo, Senhor?
A água, proibida,
o sangue escorrendo, o orgulho escarmento,
uma dor lancinante, um enterro sem glória,
um desterro maldito, uma virada felina,
a brasa purificadora, em nome de quê?
Do dono da terra que veio de longe
aqui massacrar,
rezando e matando,
levando a prata, o sonho, a quimera sem nada deixar.
Deixando ataúde, jejum e jejum.
Em nome de quem, Viracocha, em nome de quê, meu Senhor?
O crítico de literatura e Prof. Oscar D’Ambrosio escreveu interpretações e
ensaios sobre os poemas de Goldberg, em “Feitiço da América”. Por exemplo sobre
este poema “Em Hokan-Coahuiltecan”.
Em Hokan-Coahuiltecan
O poema começa com informações históricas da crua realidade que muitas vezes não
é retratada nos livros didáticos. Na última década do século XV, havia mais de 2
mil línguas na América. Com a chegada de espanhóis e portugueses, tudo foi
destruído. Restou apenas um silêncio incômodo. E deste silêncio brota um
agoniado canto de povos que sequer podem reclamar, pois sua voz foi roubada e
abafada. A verdadeira Amérika ficará muda se não houver quem traga à tona todo
um substrato cultural esmagado. Hokan-Coahuiltecan, asteca-tanoan, otomangean,
chibcha, iroques, cadoan e jicaque são línguas indígenas que desapareceram.
Resta apenas uma sonoridade capaz de indiciar civilizações que se comunicaram
com palavras que hoje desconhecemos. Nesse sentido, a única possibilidade de
recuperar a cultura perdida é recorrer ao xamã. Este é um praticante do sagrado
com diversas funções: médico, vidente e condutor de almas. Seus poderes são
atribuídos ao contato com os espíritos. Na verdade, o xamã é um intermediário
entre o povo e o mundo dos espíritos e afirma manter contato com “fantasmas” dos
mortos ou “espíritos-mestres” (corpos astrais de rios, montanhas ou outros
elementos do meio-ambiente). A interação entre o xamã e os espíritos ocorre em
um estado de transe geralmente induzido pela dança. Durante o êxtase, o xamã
prediz o futuro ou realiza façanhas de grande coragem. O importante reside na
percepção do leitor de que o xamã funciona no poema como um demiurgo, um
depósito do saber popular. Se a saga guerreira da Amérika foi calada pelo
massacre das línguas autóctones, está no xamã a possibilidade de vivificar a
experiência coletiva. O poema torna-se então a voz de um xamã, de um
intermediário que procura transmitir ao leitor do século XX a vivência do
continente há quinhentos anos. A caça do caribu (cervídeo do Canadá), à ema e ao
guanaco (animais das regiões andinas) mostra claramente a relação entre homem e
a natureza. Do Canadá ao Chile, houve povos que se relacionavam harmoniosamente
com o meio. Matavam animais para alimentar-se e contavam com armas simples, mas
eficazes e adequadas para uma caça de subsistência. Contudo, o percurso do poema
não se limita a uma enumeração da integração entre os povos autóctones e a
mãe-natureza. Os atacamentos (Equador), diaguitas (Argentina) e araucanos
(região ocidental dos Andes) são lembrados por suas crenças religiosas. As
figuras verticais a que o autor se refere são uma indicação da relação entre os
homens e os deuses. O poema trabalha então dois eixos: um horizontal
(homem-natureza) e outro vertical (homem-divino). Esta confluência de forças
revela um texto imerso nas tensões de uma Amérika cuja voz, como vimos, está
rouca. Em seguida, há alusão ao México: Tamaulipas e Tehuacan. Todavia, o
principal é a referência ao útero, símbolo evidente do nascimento, do início de
uma jornada. O poema revela mais uma tensão entre a deslumbrante cultura
mexicana e a morte causada pelo invasor espanhol. Não se trata de um simples
processo de aculturação, mas de algo mais denso. O texto atinge um terceiro eixo
de tensão e conflito. Há agora um contraponto entre a morte e a vida. O útero
mexicano, berço de uma cultura ímpar na Amérika, foi destruído em nome da busca
de metais preciosos. Logo, três eixos estão sendo articulados: homem-natureza:
homem-deuses e vida-morte. Novamente, um dialeto é utilizado para revelar a
multiplicidade lingüistica da Amérika. Trata-se do Salishan, grupo de línguas
indígenas conhecido na Columbia Britânica e no norte dos EUA. A estrofe seguinte
remete o leitor a um tempo ainda mais remoto: 8 mil a.C.. A imagem do garoto
travesso brincando com um osso de lhama selvagem é muito rica em significações.
Se o garoto travesso brincando com um osso de lhama selvagem é muito rica em
significações se o garoto pode ser associado à imagem da pureza e da
irreverência infantil, o osso de lhama evoca um animal hoje praticamente extinto
em sua forma selvagem. Mais uma vez, uma imagem do poema desnuda facetas pouco
conhecidas da Amérika. O conflito latente entre a engenhosidade infantil e o
osso frio do animal transforma-se em uma imagem pictórica de uma cultura muda:
sem língua e sem lhama. O texto leva-nos então para as savanas de São Paulo e do
Paraná. A cerâmica tupi e os machados de pedra lascada são os restos de um elo
que se perdeu. O “salto na escuridão” do texto é uma volta ao passado. Porém, o
tempo revela-se ingrato quando se trata de recuperá-lo. Toda tentativa parece
vã. Resta então buscar nos objetos que chegaram até este século a inspiração
para resgatar décadas em segundos e imagens inteiras a partir de meros
fragmentos caleidoscópicos. Novo salto do poema. Agora é focalizado o centro
habitacional de Wari, no Império Inca. Até os quipus (instrumento mnemônico que
auxiliava os pastores a fazer a contagem dos rebanhos) seriam incapazes de
calcular a importância desta civilização. Não se trata do número de habitantes
ou da área ocupada, mas do fenômeno cultural administrado pelo Sepa Inca,
monarca supremo. Inútil seria tentar avaliar a civilização inca. Sua
contribuição é extrema e seria muito maior se não fosse silenciada. A perda da
identidade cultural é um fenômeno intimamente ligado à perda da língua. Um povo
sem fala é um povo morto e será facilmente dominado, tendo sua língua
substituída por outra e sua voz, por outra voz. O “gemer sem norte” comporta
extrema atualidade. Estar “sem norte” significa estar sem rumo, caminho e
destino. É andar às escuras em um labirinto de perguntas com uma sensação de
eterna dor na garganta inflamada. A morte do admirável imperador inca Topa
Yupanqui, o término dos atlatos (atira-lanças dos índios Anasazi) e a
inexistência dos ornamentos de conchas são três aspectos reforçados pelo poema.
Na morte de Yupanqui, a perda da glória de um povo; no silêncio atual dos
atlatos, a presença de uma incômoda passividade; e, nos extintos ornamentos de
conchas, há o esmagamento de uma cultura. As últimas estrofes do texto colocam
em xeque a colonização hispânica. A busca da prata e a morte de inocentes sob a
égide da fé cristã são condenadas, mas sem um proselitismo pedante ou um
engajamento simplista. Desterrado em sua terra, o povo amerikano perde o sonho
quimérico e o substitui pela insalubre miséria. O apelo final a Viracocha,
semi-deus do Império Inca, é significativo. É a voz da divindade local que pode
tentar responder, assim como o xamã, a pergunta mais amarga: que deus permitiria
o amordaçamento de uma cultura e que língua poética a fará vivificar?
(“Feitiço da America”)
EDUCANDO NA AVENTURA E NA IMAGINAÇÃO
Certas sociedades se desgraçaram por tentarem educar o homem, sem ouvir as
fontes da aventura e da imaginação. Não anotaram, outrossim, que o passado, para
a cultura, só existe enquanto consciência. Estas duas concepções sintetizam a
necessidade de entendimento dos hábitos mentais dos povos para evitar a ruptura
entre o Poder e o consenso, sem o qual não existe a interação social. Daí a
importância da história da memória como elemento da práxis ideológica. É
fascinante pesquisar com atenção, as manifestações da sabedoria folclórica.
Quanto de superstição coexiste com as conquistas tecnológicas, num mundo aonde
as influências transitam. Quanto da infância dos povos nos costumes das gentes.
Uma ilustração desse processo cultural é o papagaio-pipa-arraia. Tem-se notícia
de que dois séculos a.e.c., o general chinês Han-Sin já se valia do papagaio de
papel para enviar notícias a uma praça sitiada. Arquitas de Tarento
(contemporâneo de Platão) é citado como autor do brinquedo, trazido do Oriente.
Além de inspirar pintores, azulejistas, músicos, escritores, poetas,
caricaturistas, compositores, seu uso não era privilégio das crianças, pois até
os adultos de posição social se deixavam empolgar pelo folguedo.Nos EUA existe
uma Associação Internacional de Empinadores de Papagaios, e pipas são alçadas
com dizeres contra o governo. A desvalorização da nossa moeda, que não é fato
recente, fez com que em 1861, a revista “Semana Ilustrada” publicasse a gravura
de um rapaz empinando um papagaio, coberto com notas de dinheiro. Na prática
deste exercício, existe a violência, através do cerol colocado à linha. Está
pronta a pipa para a guerra, partindo os garotos para cortar, as outras pipas.
Os pedagogos do século XIX recomendavam o papagaio, e Pinon acentuava que além
de permitir que a criança ficasse em contato com a natureza, a pipa aguçava-lhe
a habilidade. O ritual do bem e do mal, da construção e da destruição, do
maniqueísmo do certo e do errado, evoca o reino do Demônio. A pergunta: “Pode-se
vender a própria alma?”, leva-nos à presença do diabo no folclore. O “Príncipe
das Trevas” é uma figura popular numa sociedade que intelectualmente o detesta e
tenta afastar sua presença, mas com a mente e não com a emoção. É marcante sua
influência no linguajar do dia-a-dia. Na rota do diabo pelo cordel, destaca-se
que as pessoas tremem por suspeitarem de sua presença. Exorcizam-no e dispõem-se
a negociar com ele. É o reflexo do homem, que, para chegar até o fundo do
conhecimento e do poder, tem disposição de tudo sacrificar. Goethe deu-lhe a
dimensão de “tragédia do homem moderno, do racionalismo, do ceticismo e do
realismo”. O fracasso do Diabo nos “pactos fáusticos”, não redunda na vitória da
ortodoxia religiosa. Trata-se de “um abrir de portas ao espírito moderno”. A
presença do demônio em nossas mentes é realidade de tensão. Os filósofos tomaram
consciência disso quando dispuseram que no coração de cada homem existe a
dualidade do universo, o Bem e o Mal. Deslocando-se para a presença do fato
folclórico na Geografia, observamos que nomear o que se vê, estabelecer uma
ligação entre um episódio, acontecido em determinado lugar, com seu apelido, é
fenômeno tipicamente popular. A origem dessa necessidade vem da insegurança
humana que precisa sempre ter pontos de referência para seus anseios.
Esteticamente, a distinção que deve ser feita entre pintura folclórica e pintura
primitivista permite fixar a fronteira do discurso simples. Nos números: Um grão
não enche o celeiro, mas ajuda o companheiro. Abra um olho para vender e dois
para comprar. Dois bicudos não se beijam. Um homem prevenido vale por dois. Quem
aos vinte não sabe, aos trinta não casa, aos quarenta não tem; tarde sabe, tarde
casa, tarde tem. Ladrão que rouba ladrão; tem cem anos de perdão, muito usado
nas manhas e artes da corrupção. Os travalínguas têm lugar importante em nosso
linguajar. Podem ser usadas no desenvolvimento psicológico da criança. Ajudam a
aguçar a inteligência e promovem reflexos rápidos. Lá em cima daquele morro tem
uma arara e uma aranha. Tanto a arara arranha a aranha, como a aranha arranha a
arara - Lição de muito aprender de vivaldinos de cargos e eleições. Bagre
branco, branco bagre. Titia toca a tropa com o trapo de prato. E o que dizer da
presença dos bichos no idioma popular. Danado que nem o cão. Morte de cavalo é
alegria de urubu. É a ciência do Poder e a metafísica da contestação, no jargão
da rua. O Bicho-homem se faz bicho-bicho para exprimir verdades doloridas.
Chegamos a um tema que toca diretamente ao estômago e ao psiquismo. Os tabus e
superstições alimentares. A proibição de misturar certos alimentos, de
consumi-los em determinadas épocas. Freud chama a atenção para interpretações do
tabu: ser sagrado ou consagrado e ser inquietante, ou impuro. Wundt diz que o
tabu é o mais antigo dos códigos não escritos da humanidade. Muitos
proprietários, para defenderem seus bens, ou seja, baseados na economia e não na
biologia, mantinham tabus ou interdições alimentares a nível de policiamento
moral. Certos tabus se transformaram em barreiras emocionais contra o uso de
frutas. E hoje, há que se aprender em relação ao feijão! Quem sabe, inovar um
tabu alimentar citadino - comer feijões faz mal, provoca enjôos, fermentação e
pesadelos. Solucionaríamos um desafio econômico e político e enriqueceríamos o
fabulário das asneiras, com um mito inflacionado... Em matéria de folclore
estamos bem servidos. O Curso de respeito ao feitiço popular exige constância,
humildade e prontidão, porque “quem vai ao vento, perde o assento”. E o assento
para o político é a conquista a mais preciosa, pela qual se esforça. Quando não,
segundo a ironia popular, oferece a honra e até a vida. Aos que crêem,
ingenuamente, na veracidade das pesquisas sociológicas, nas mudanças de eixo da
opinião, seria de bom alvitre que atentassem para os veios os mais profundos das
realidades dos mundos interiores da ciência popular. Como na adivinhação:
Ninguém quer ter. Quem tem não quer perder. Que estes sim, determinam a longo
prazo o destino das nações. Complexo, como o universo das coisas inesperadas,
capazes de levar o insólito e o indesejado aos Príncipes desprevenidos. “E à
noite nas tabas, se alguém duvidava / Do que ele contava, / Tornava prudente: -
Meninos, eu vi”, Gonçalves Dias. Eis que os deuses não perdoam os sonâmbulos.
J.P.G. - “ O Estado de São Paulo.”
PSICOLOGIA DA LINGUAGEM.
Todo aquele que tem desejo de aprofundar o conhecimento do “homem”, sentirá a
importância da compreensão do binômio linguagem -sociedade. Neste binômino está
implícita uma ambigüidade. De um lado temos a contribuição da linguagem no
desenvolvimento da comunidade e na ligação de diversas culturas. De outro, fica
claro que se for usada de forma inadequada ¾ através de sentimentos e atos aos
quais está ligada ¾ a linguagem promove a desorganização individual e
consequentemente a social. É sabido que um dos componentes dos conflitos e
ansiedade humanos é a comunicação imperfeita. Além do que só a linguagem verbal
é um instrumento pobre se não se levar em conta a expressão corporal. Problemas
surgidos principalmente nas áreas de Psicologia, Filosofia e Lógica, motivaram o
aprofundamento de pesquisas no sentido de conhecer-se a natureza e os múltiplos
papéis da linguagem na vida do homem. A linguagem então é muito importante tanto
para a adequação do indivíduo à sociedade quanto para a conservação,
propriamente dita, da sociedade em si. Quanto às origens, dúvida é a palavra
chave, valendo citar os estatutos da Societé Linguistique de Paris: “a sociedade
não receberá nenhuma comunicação a respeito da origem da linguagem...”. Quanto a
definição, consideramos a linguagem uma estrutura de símbolos que independe de
lei ou regra através dos quais os indivíduos de uma sociedade se integram. A
linguagem serve não só para a interação entre os homens vivos mas também entre
os vivos e os mortos; para a compreensão de quase tudo que aconteceu no passado,
do que acontece e previsões futuras, ou seja, tem entre outras a função de ligar
os tempos. Para o mundo infantil, lembrando Freud, desenvolve-se uma crença na
“onipotência das palavras”. Vários fenômenos muito importantes de comportamento
dos adultos advém da combinação de alguns fatores e desta crença, acima
referida. Os potenciais fonéticos de uma criança, podem ser equiparados aos de
um poliglota. O mundo adulto, em que ela se desenvolverá será responsável pelo
fato de estimular somente os sons que lhe são familiares, restringindo esse
potencial da criança. É notável a capacidade da criança, de quando um adulto lhe
dirige a palavra, perceber a variação na mesma. Otto Jespersen conta que “um tom
de censura aplicado à palavras carinhosas faz com que a maioria dos bebês
chorem, enquanto que um tom afetuoso dado a uma repreensão provoca um sorriso”.
A descoberta de que “o mundo inteiro é um palco”, ou seja, deste traço de
imitação do comportamento humano, está plenamente consciente na criança, em
geral, antes dos quatros anos de idade. Tanto para a socialização quanto para a
enculturação, a linguagem representa um papel fundamental. Hoje, fica clara a
relação entre as tipicidades da língua do homem e suas formas de pensamento. Não
precisamos voltar muito na história para observarmos as diferenças de linguajar
de nossos ancestrais e do nosso. Se nos ativermos a nossa própria vida com um
pouco de sensibilidade às nuances da Linguagem, nos espantamos com tantas
mudanças. Advém daí uma pergunta: ¾ O que é que muda nas línguas? Praticamente
tudo. Desde a gramática até os sons. Esta mudança é um processo universal. As
modificações podem partir de influências, de um nativo até um intelectual, que
podem ser imitados ou não. Vem daí que as mudanças nascidas de “pioneiros
desconhecidos” podem representar um “processo criativo coletivo”. Todos os
problemas do homem refletem-se também na linguagem por ele usada. Levando-se em
conta a história das línguas, sinto não ser justo usar um critério de
superioridade ou inferioridade entre as línguas, por terem umas sido mais
utilizadas do que outras. Qualquer uma guarda ou guardou o potencial para se
destacar. Lembrando Freud novamente, quando faz referência ao nosso primeiro
amor infantil ¾ ou nossos envolvimentos edipianos; a língua da primeira
infância, também está mergulhada profundamente em nossos mundos interiores. Esta
sensação, tão forte de nomear as coisas e tudo o que acontece, só ocorre uma vez
na nossa vida. Os homens têm suas reações não só restritas ao que lhes acontece
no momento, mas às recordações sociais (entre outros fenômenos psicológicos
importantes). Deparamo-nos agora com as barreiras que existem impedindo a
comunicação entre povos, decorrentes da multiplicidade das línguas (e dentro
delas, dos dialetos). Fazendo um retrocesso histórico, chegando à narrativa no
Gênesis, Bíblia ¾ o mito no qual a construção da Torre de Babel apoia-se, é, no
fato de terem pretendido os homens alcançar o céu. Deus alarmou-se com esta
proposta de intrusão e confundiu sua língua. O termo Babel pode ser interpretado
de duas formas:
1o. ¾ a confusão das línguas pode ser indicada corretamente por balal ¾ palavra
hebraica que significa confundir.
2o. ¾ bab ¾ significa porta; ilu ¾ significa Deus. Reações inteligentes perante
as origens das confusões lingüisticas foram pioneiras em tentativas de resolver
essas diferenças. A adoção de uma língua existente foi e é uma das formas mais
racionais para resolver a dificuldade da comunicação internacional. Cabem aqui
algumas perguntas:
¾ Não seria necessário, em primeiro lugar, limpar a confusão lingüistica dentro
dos indivíduos, para depois fazer a extrapolação para as comunidades?
¾ E os conflitos entre os indivíduos de mesma língua?
¾ Fechando mais ainda o círculo; e entre as pessoas da mesma família?
Poderíamos nos alongar numa série de perguntas, todas levando a uma proposta
universalista:
Um trabalho sério, encabeçado pela Psicologia e tendo como auxiliares,
sociólogos, cientistas sociais, professores e elementos de várias áreas, poderia
preparar as comunidades para que tivessem condições de, posteriormente, passar
pela tentativa de uma língua comum. Capaz de construir a Torre de Babel. Não
aquela que leva ao infinito maior, sem objetivo. Mas uma que conduza ao infinito
sem horizontes da comunhão direta ¾ do homem com o homem, do homem consigo
mesmo.
J.P.G. - “ O Estado de São Paulo.”
ANAMORFOSE PSÍQUICA.
Anamorfose é uma imagem torta que o espectador tem que distorcer para descobrir
o que representa. Aparentemente, as anamorfoses são apenas ondulações de formas
e cores confusas, sem destino. A palavra provém da botânica e zoologia moderna,
significando alteração de forma em plantas e animais, produzidas repentinamente
pôr modificação no meio ou por modificação orgânica. Hoje é palavra usada não só
na pintura como na literatura e música. F. Morel compôs em 1974 uma peça de
música com esse título. Em 1961, Jean Cocteau proclamou que a ciência e poesia
se encontram numa terra de ninguém localizável entre as anamorfoses cilíndricas.
Leonardo da Vinci no “Codex Atlanticus” tem dois esboços esticados, aonde se
pode reconhecer a cabeça de uma criança. Na China se prestava à representação
oculta de cenas eróticas. Edhard Schon numa xilogravura “Vexierbild”, em 1535,
dissimulou retratos de um papa e três soberanos. Hans Hoblein Filho num quadro
“Os Ministros” de 1552 representou dois amigos. O quadro está cheio de alegorias
simbólicas e entre os dois homens existe uma anamorfose que decifrada, se
verifica tratar-se de uma caveira, vaidade segundo a simbologia daquele período
histórico. Esta arte foi muito usada nos séculos XVII e XVIII. Nem sempre é
fácil compreender uma anamorfose pois muitas vezes o artista usa sua obra como
uma série de superposições que devem ser decifradas para serem compreendidas. Na
psicoterapia o paciente muitas vezes traz da sua vida uma imagem distorcida de
uma realidade que deve ser recomposta. Outras vezes, a realidade é que se
organiza como imagem distorcida de uma compreensão subjetiva que deve ser
ajustada. Procura-se um ponto da imagem deformada e com auxílio de espelho
cilíndrico perceber-se- a à imagem distorcida. Na vida, o espelho capaz de
retificar a visão é a localização do “ponto” de observação adequado para cada
situação.
J.P.G.
PSICOLOGIA DA POMBA - GIRA.
Cada um tem seu mito no coração. Não a entidade estudada pelo antropólogo ou a
intermediação mediúnica, mas o Rei Congo, o afro, o índio, a negritude pirando a
cabeça e o desejo do branco. A madame que nos encantos do amor, enlouquecida
pelo desejo, ao cornear o marido pede para a preta na cozinha: “Faz um trabalho
pro César me amar...” Gira, a pomba gira. Fizeram de tudo para exorcisar a força
telúrica do sexo desregrado, a transgressão a sublimar. Jogaram a camisa de
força da religiosidade. Negativo. Chamaram o chato do Jung para explicar. Mais
negativo. Do cemitério, da zona, gente rezando, o nhambu, uma saia colorida, o
pandeirinho, as velas acesas, gritando, cantando, o Rei de espada em punho,
dança congada, dança. Sonho, pesadelo, macumba, informática na realidade
virtual, engenharia, genética. Meu pai Oxalá. Se Freud tivesse nascido na Bahia,
candomblé, festa de Ogum, no terreiro de mãe Constança, Oxóssi, Nagô, Iansã,
Oxum, Ogum, Caboclo Eru, chegada dos erês, caruru e aruá. A pomba - gira no
divã, endoidando o Zigmunt e a sua genialidade, viajando pelo som de Gilberto
Gil. Em qualquer encruzilhada este continente estranho (certa vez consignei meu
diagnóstico - país p. m. d. - ou o campeão do mundo ou o fim da terra). Quiseram
domar o misticismo e a Erótica. Dançaram. Em ponta de Areia, o terreiro, os
axexés, oferendas aos babás. Iansã, a rainha dos mortos, um balé do bode e da
galinha, do galo e do porquinho. O eterno conflito (Glauber Rocha) entre Deus e
o Diabo, a ternura e a sedução, o Bem e o Mal. Gira, a cultura mestiça, a
mulatagem, o Cosmopolitismo, a mundialização do ano 2.000, a lição para o
europeu racista e sacana: A fé do negro e do índio, indomável, que sacode o
carnaval e o tesão, alinhando a esperança. Falar ingreis, e no computador, a
mensagem a decifrar (ou devorar, numa bacanal de Aids). Vou comer abati, caçar
jibóia com ubiratã. Ser maracajá, caititus, ou anajé, num acordo intimorato com
acauã. Minha mulher saí, até jací, pra mim, abaetê. Ao contrário do que imagina
o fantástico, o futuro não será o Primeiro Mundo, mas o único mundo, que roda a
cancha, a pança, a canja, a lança, o formidável “melting - pot” que o útero, a
vagina, desemboca nas ondas da Lua, Iemanjá, ógea, calhandra, Pomba - gira,
Nheê. Anguery, Indio, Nego véio. Gira, gira, catarse, na ave de Picasso.
J.P.G. - Revista “Trip”
JESUS, O JUDEU
Trata-se da maior contrafacção política e ideológica da História da Humanidade.
De cada versículo proferido, de todas as passagens, vividas por Jesus, Yeoshua
bem Yossef, transpira sua apaixonada adesão ao judaísmo, seu entranhado amor ao
seu povo e sua mensagem de libertação. O processo de seu deslocamento começa no
desenvolvimento produzido por Pilatos, inteligente e hábil na manobra de
atribuir a culpa da condenação à morte, aos judeus (sic). Como esta fórmula
primária que qualquer criminalista seria capaz de desmistificar, tem resistido
aos estudos e análises mais sérias das autoridades mais categorizadas? Em
primeiro lugar, se explica pelo anti-semitismo disseminado pelos cultores da
nova religião, interessada em bloquear as fronteiras com sua fonte originária.
Em segundo lugar, a uma natural e apaixonada resistência judaica, indignada
diante do apoderamento de seu filho, transformado, contra sua vontade, em
instrumento de ódio e perseguição. Em abono desta tese poderíamos transcrever
inúmeras passagens do Novo Testamento. Inútíl. Ou o leitor percebe que numa vida
de 30 e poucos anos, Jesus dedicou todos os seus momentos conhecidos à tarefa do
estudo da Lei Judaica e dos preceitos religiosos do Judaísmo, como antes fizeram
e depois, milhares de rabinos e eruditos pregadores, ou escolhe a via tortuosa
do sadomasoquismo anti-semita que se prende ao drama arquitetado, pelos
dominadores romanos, nas suas últimas horas. Na verdade, na figura de Jesus, foi
crucificada, na época o espírito de insurreição religiosa e política, de Israel,
provavelmente, com a cumplicidade de alguns elementos engajados com o
conquistador (como sóe acontecer). Nos dois milênios que se sucederam, os judeus
têm sido crucificados, pela trágica herança de terem concebido um filho mágico e
dileto, de espírito universalmente aberto. Provavelmente, uma das grandes horas
da história será o instante da reversão da dinâmica de Jesus - a reconciliação e
o reconhecimento de sua função como judeu, o apagar do tônus anti-semita, que
procura retratá-lo como estranho ao seu povo, a final trama desmentida pelo
senso comum de seu papel, como Messias para os Cristãos, como Filho Querido para
os judeus. Quem instruiu, magistralmente, a necessidade desta revisão foi o
poeta libanês Khalil Gibran, no seu diálogo entre Jesus de Nazaré e Jesus dos
Cristãos, que, segundo ele, ainda não tinham conseguido se conciliar. Fonte
histórica de Jesus, o judaísmo perdeu para o cristianismo institucionalizado de
Paulo, seu poder político e social que permitiu à nova religião dar o “tônus da
civilização ocidental”. No entanto, nas últimas décadas e destacando-se o
pensamento de figuras como João XXIII, Tomas Merton, Jacques Maritain e,
principalmente, o escritor protestante Harver Gallagher Cox Jr., autor de “A
Cidade do Homem” e “Que a serpente não decida por nós”, acentua-se um processo
de judaização do pensamento cristão de algumas áreas mais esclarecidas. Do lado
judaico tal inclinação se adivinha na análise de Jesus, feita por Joseph
Klausner. Sabe-se que o judaísmo não tem propósitos de proselitismo. De outro
lado o converso é visto com extraordinária acolhida. No estudo “A Morte de Deus
e o futuro da Teologia”, Gallagher afirma que devemos rejubilarmo-nos com “não
por qualquer coisa que é, mas por aquele que virá”. Dificilmente a noção judaica
do Messias poderia ter uma melhor categorização do que esta. Na medida em que o
cristianismo passa pelo mergulho introspectivo do abandono das imagens
greco-romanas e penetra no “pathos”e “ethos” de Jesus, o rabi judeu, a mansidão
e o amor à vida se irão contrapor ao martírio da paranóia. Obviamente, a
dialética de uma crise de consciência e revisão totalizante, deste alcance, não
se fará suavemente, eis que vai abalar toda a teologia do sofrimento - interno e
externo, expresso na mecânica da agressividade - das Cruzadas, do ódio ao
prazer, da tendência à abstinência, do conceito brutal de salvação de todo o
gênero humano e, finalmente, da própria concepção da estrutura religiosa como
instituição. Em nível político, esta correlação assumiu seu ponto crucial com
Dietrich Bonhoffer, o pastor alemão que participou da conspiração para matar
Hitler, e cuja vida expressa na correspondência que escreveu, dentro da prisão,
é o contraponto musical da agonia do “Último dos Justos”, de André
Schwartz-Bart. Talvez este será o mais formidável paradoxo da história: vencido
os bloqueios psicológicos, o anti-semitismo terá ensejado o “mea culpa”, que
conduzirá a elite do pensamento filosófico cristão para a aceitação do judaísmo
- realização da comunhão
mística do homem contemporâneo e o Deus vivo, cujo Messias há de vir. Porque
neste jogo, como na vida, quem perde, ganha. Não se esqueça que a cruz era um
suplício romano e nunca um instrumento da justiça judaica. Assim Jesus foi
executado pelos romanos na missão de dominação política, como agitador. A
acusação ao judeu de ser o assassino de Cristo foi uma lenda divulgada pela
propaganda romana, na Diáspora.
J.P.G. - Representação sobre “Paixão de Cristo em Oberamergau” (“Eclesia” -
Igreja Católica. São Paulo). “Jornal do Brasil”.
JUNG - AS MEMÓRIAS DE UM MITO
Qualquer obra de arte ou informação empobrece, na medida em que é basicamente a
redução de uma realidade, externa ou interna, e enriquece na forma de adoção ao
mundo das coisas. As memórias, discurso e tentativas de compreensão de uma vida,
costumam vir carregadas dos vícios de subjetivismo, os mais diversos que se
possam conceber (raras vezes são válidas, por si, como criação singular). Dentro
deste universo de re-criações, “Memórias, sonhos, reflexões”, de Carl Jung é uma
obra que deve ser analisada. Não pelo seu significado intrínseco, tendo em vista
sua dimensão minimizada pelo próprio autor. O próprio Jung se situa acima e fora
de sua vida, considerando-a como o desenvolvimento de um mito. Mito que alimenta
com sua ardente fantasia e suas confusas elocubrações de justificação. Mas
merece atenção pelo que revela da fuga extraordinária de um homem comprometido
com a psicologia, com sua realidade exterior. Em suas linhas se constata esta
fuga ¾ compulsiva e fruto de um mundo interior atormentado e consciente,
resultado de uma tendência filosófica “espiritualizada”, “religiosa” e
“transcendental”. Filho de Paul Jung, reverendo e Emilia Jung-Preiswerk, filha
de pastor ¾ um casamento malogrado, Carl teve uma posição ambivalente de
amor-ódio em relação a figura de seu pai. E se tentamos compreender sua vida
como uma fabulação, no seu próprio entendimento, seria num enfoque de
identificação paulatina, mas progressiva, com seu pai. Que aspirou na juventude
ser professor de línguas orientais (que tanto interessaram, através de suas
manifestações culturais, Jung) e permaneceu sempre perplexo diante das
dificuldades teológicas de sua formação religiosa ¾ desafio que sempre estimulou
Jung. Infância e adolescência vivida num mundo hostil, tanto o seu lar como na
escola, acabou refugiando-se no universo de sonhos que em sua arquitetura
psicológica ensejou a generalização que deu margem a uma tendência
psicoterapêutica. A escola jungiana pode ser considerada como a repositória da
metalinguagem dos sonhos e das interpretações dos sonhos de um profeta
atormentado para usar a expressão feliz de Paul J. Stern. Este refúgio na
solidão expressa pela importância desmesurada dos sonhos, se reflete em sua vida
toda. No casamento com Emma, bem como no seu relacionamento com sua amante Toni
ou na interação com os filhos, Carl Jung revela sempre um processo agudo de
solidão e introspecção que acaba provocando sua crise psicológica mais séria.
Esta tendência se afiniza com um permanente estado de sub-estima em relação as
pessoas com quem se relaciona. O conflito de sua amizade com Freud tem sido
bastante focalizado, mas me parece que sua resposta ao filósofo Paul Haberlin,
seu colega, “Mundus vult decipi” (a humanidade quer ser iludida) a respeito da
existência dos espíritos é bem reveladora do descaso com que encara a
inteligência e a percepção alheia. Aliás uma certa insensibilidade mesmo para
com seus pacientes foi notada por Frances Wickes, uma de suas primeiras
seguidoras americanas. Referindo-se ao suicídio do psiquiatra Honneger, paciente
de Jung, Freud faz insistir na necessidade de Carl aprofundar sua auto-análise
em relação ao constrangimento emocional. Talvez a mitificação que caracteriza o
roteiro vivencial junguiano possa ainda ter mais sentido quando querendo
justificar seu envolvimento com sua amante Toni Wolf, em cima das dificuldades
familiares orindas do triângulo clássico, Jung cria a teoria dos tipos de mulher
“mulher e mãe”, realizada na vida doméstica e “mulher destinada a ser amante e
femme inspirátrice do homem criativo”. Esta conjugação dos anseios retratados
como se fossem realidades e uma formidável obstinação serviram para a
mobilização psicológica, em torno do irracionalismo contemporâneo, dentro da
Psicologia. Na medida em que suas teorias e concepções foram retiradas das
observações pessoais, a compreensão da análise junguiana dependerá sempre da
compreensão da análise de Jung ¾ uma vida a serviço de um mito. O mito de que o
homem recria a sua imagem e semelhança, numa repetição de Sísifo os fracassos de
sua vida. O medo de não suportar a realidade difícil da angústia e da morte, que
em Freud serviu para definir a coragem de viver, em Jung representou o apelo das
sombras, dos sonhos, da noite e do mistério, na recusa de viver. Na psicanálise
freudiana o objetivo é o desnudamento do mito, a submissão do irracional à
razão. Em Jung a finalidade se reduz ao canto infantilizado do terror diante das
vontades do Pai difuso e divinizado, cuja vontade majestática só pode ser
aplacada pela docilidade da mãe universal. A linguagem psicanalítica forçou-se a
uma regressão nos veios junguianos e as memórias de Jung podem servir de uma
contrição tardia, mas esclarecedora dos perigos que o medo da ciência, o apego
ao conservadorismo, podem significar para o ser humano e para o desenvolvimento
da mente. A distância histórica permite observar no comportamento de Jung um
esforço para explicar, culturalmente, um processo constante de auto-destruição,
dispersão e pobreza afetiva, tentativa do encontro do “eu” subjugado pela figura
do pai, e, finalmente, uma instabilidade de relacionamentos pouco madura. Tudo
desembocando no seu filo-nazismo.
J.P.G.
ADIVINHE QUEM MORREU
O destino se ri dos planos dos homens. Numa cultura narcísica, em que o ser se
confunde com o prazer, o uso, o consumo, um presente sem passado e sem futuro, a
morte é exilada. Contrariando Freud, o mal-estar não se origina na informação de
que o homem é o único animal que sabe da morte inevitável. Na verdade, o ser
humano é o único animal que sabe da eternidade, e o mal-estar se produz na
incerteza, o estreito vagido entre o ir e o vir. Grande desafio, o maior,
paralisa a medicina, intriga a psicologia e provoca a teologia. Qual o sentido
da falta de sentido aparente da morte? Qualquer tentativa de lógica nos remete a
um raciocínio por semelhança. Qual o sentido ou a falta de sentido do
nascimento? Biofilia e necrofilia, pólos opostos que imprimem as margens de
nossa vida. Viver é perigoso, filosofa nas Gerais, Guimarães Rosa. Morrer deve
ser uma tremenda aventura, diz Peter Pan, e se instaura a dialética do absurdo.
Por meio do luto, os sobreviventes (nós) revisitam o ser amado, e a memória,
frequentemente, é acompanhada de culpa. Deixei de dizer algo, deixei de fazer
algo. A onipotência prometendo uma força arrogante, que fantasia o vazio. E essa
fantasia de manter o morto pelo discurso da rememória angustia e exige um
permanente confronto entre a memória e a saudade. Outras civilizações, arcaicas,
dão para o morto três destinos: o símbolo, a reencarnação ou a ressurreição. No
Ramayana (hinduísta), uma descrição extraordinária que reúne elementos
filosóficos e poéticos, superando a simples passividade diante do inelutável:
“Nas horas quando em casa os homens moram, também a morte repousa a seu lado;
quando saem, todos os dias, a morte os acompanha no caminho. A morte vai com
eles quando vão longe; e fica com eles, trá-los de volta à casa...”. A baldeação
que nos conduz à morte, associação manipulada pela vontade de poder. O instinto
de sobrevivência não explica os mecanismos de pânico diante do desconhecido.
Atônitos ou reconfortados pela promessa da continuidade, a morte celebra o
ritual da nossa vida. Bandeiras tremulam, as cortinas descem, o show terminou.
Projetos de novas cidades têm omitido locais para cemitérios. A urbanística
contemporânea está expulsando o espaço dos mortos. Sem espaço, os mortos terão
que habitar os vivos no tempo. Deixar este mundo. A pessoa como viajante na
Terra, e não um ser da Terra.
J.P.G. - “Folha de São Paulo”.
SOBRAL PINTO, MEMÓRIA E SILÊNCIO
Um episódio do Direito no Brasil que me orgulha. O historiador Carlos Guilherme
Mota me convida para fazer uma conferência na U.S.P., sobre Sobral Pinto, o
corajoso advogado de Luiz Carlos Prestes, durante a ditadura de Vargas, quando
invocou em favor de seu cliente, a Lei de Defesa dos Animais. No convite para a
palestra Mota consigna que se trata de manifestação ideológica para levar à
concessão do título de “doutor honoris-causa”, à Sobral Pinto, que vinha sendo
dificultado. Honrado, aproveito a oportunidade, para reverenciá-lo, como um dos
Justos que segundo a lenda, poderia ter poupado Sodoma e Gomorra. Lembro do
evento a propósito da próxima apresentação do projeto de tese de doutoramento
que a mestra em literatura Marilia Librandi Rocha, fará, com a supervisão do
professor Roberto Ventura, sobre minha obra, em poesía e prosa. Quando Marília
informou-me de seu intento em estudar meus escritos, espalhados em livros,
jornais, entrevistas, publicados no Brasil e no Exterior, fazendo uma ponte
entre minha atividade como psicanalista e a literatura reagí com preocupação.
Definitivamente, sempre caminhei pela contra-mão cultural. Senão, vejamos.
Garoto e adolescente, colaborei em “A Tarde”, Juiz de Fora, jornal do socialista
Paulo Lenz, uma figura renascentista, em Minas Gerais, e no “Aonde Vamos?”,
revista judaica, de Aron Neuman, no Rio, perseguido pelo “stablishment”,
incomodado com sua irreverência. Meus livros, ora edições do Autor, ora de
editores corajosos, sempre acabaram nos “sebos”. Algumas poucas vezes críticas
generosas. Sempre numa posição desconfortável, de suspeita. Para o anti-semita,
como escreveu um jornalista de Ribeirão Preto, um cosmopolita, fantasiado de
mineiro. Para o judeu ortodoxo, um perigoso assimilacionista, cujo “Pinheiro”
prova um “misto” condenável. Aliás, engano. Nascí Pincas. Na hora do registro, o
escrevente “traduziu” e marcou uma sina de ambigüidade. Neto de rabino, passo
pelo “goi” de contrabando. Para o “goi”, judeu disfarçado de patriota. Esquisito
este conhecimento de folclore brasileiro (“Feitiço da Amérika”) do Goldberg. Na
U.S.P. o professor Shozo Motoyama me convida e coordeno o curso de “Psicologia e
Historia”. Um professor encontra-me no corredor e pergunta: “O que é que você
está fazendo aqui?”. Durante dois anos este canalha havia tomado canja de
galinha, no jantar de minha mãe, quando desempregado. Marília diz que sua tese
objetiva entender o silêncio sobre minha criação literária que contrasta com o
reconhecimento do desempenho científico. Pois é. Talvez quem soubesse responder
seria Guimarães Rosa, sobre quem foi sua tese de mestrado. Viver é perigoso.
Mas, muito mais, é fantasiar. Tenho cometido os dois pecados. Em doses
cavalares. Passo a vida falando por quem não pode falar, no dizer de Josef
Brodski. A minha obsessão antipática. O preço é a condenação ao silêncio por
quem não quer escutar. Quando já tinha me conformado com a imposição, Marília me
obriga a um re-pensar. Fui ler o que escreví. E, mais uma vez, um susto. Gosto,
adoro. Grato porque peço que não esqueçam, mas que leiam. Marília, crítica
aguda, pena leve, ressuscitou das catacumbas, o verso que um dia me fez delirar
e escrever: “Por onde andará, oh Deus, minha sombra enlouquecida?”. Meu
cantochão, minha saga, meu destino, que se cruza com o Oculto e o Revelado. Boa
sorte, Marília, nesta empreitada, quase impossível, que se confunde com a
audácia de emprestar sentido ao Insensato. Cético e místico depositei nas
câmaras de inspiração a prece árabe - “elli habb allah la ibri ghirhou soubhân
ad daîm lâ iazoul...” Quem ama Deus nada quer além d’Ele. Como se constata,
outro iconoclasta irá a julgamento. Absolvido ou condenado?
A INVENÇÃO DO TUCANO
Armando Sant’anna, cujo irmão Antônio Carlos foi um dos idealistas do jornalismo
, em Ribeirão Preto, me convida para fazer um trabalho de Imagem com o
Governador André Franco Montoro. Programamos e toda sexta-feira de manhã vou
tomar o café matinal no Palácio, para discutirmos a forma mais adequada da
projeção de seu perfil pessoal e ideológico. O que começou como um de meus
desafios para estudar aquela personagem versátil, vai se desenrolando, também
como uma série de tertúlias culturais. O antigo líder do Partido
Democrata-Cristão de um período inteligente e culto da política paulista,
hiper-ativo, intelectualmente, voraz nas suas intenções de mudar o mundo e se
mudar. O professor da Faculdade de Direito da U.S.P., exibe sua inquietude e
preocupações multifacéticas. Numa das dinâmicas, vai pelo monólogo e o
interrogatório: “Goldberg, sou seu xará (Gold-berg-Monte de Ouro-Montouro),
descendente de judeus alsacianos, e quando penso no meu Partido, imagino, com
essa inquietação. Como poderemos distingui-lo, para a opinião pública,
visualmente, das outras agremiações partidárias? Respondo - Presidente (era o
nosso desiderato sua eleição para o próximo mandato), talvez pudéssemos fixar um
símbolo de animal ou ave, como fazem os partidos majoritários, nos E.U.A.,
emprestando um caráter lúdico à relação inconsciente, na psiquê coletiva. “Boa
idéia” responde. “Mas qual?” Num “flash”, me vem à lembrança minha última viagem
com meu pai e o Professor Olavo Di Piero até Águas de Lindóia. Passeando pelo
parque, fixo, extasiado os olhos num tucano, maravilhado com a combinação
estética. Respondo, de imediato: “Um tucano”. Montoro, em silêncio, reflete -
“Ave elegante”. Sexta-feira seguinte, no calor de outra discussão, disparo para
contestar sua argumentação - “O snr. não será presidente da República só se não
quiser”. Por fatores objetivos e subjetivos que não é oportuno discutir, agora,
esta é minha tese: Não foi porque não quís. Na comemoração de seu aniversário,
na intimidade de seu lar, encontro nossa amiga comum Glenys Silvestre e fico
matutando o belo gerente-pensador que ele seria para o Brasil. Figura fidalga
com quem privei, testemunhando o desvelo, a inteligência e um senso de
solidariedade social agudo. Quando minha mãe, a poeta Fanny Goldberg, que
dedicou seu livro “Meu caminho sem fim”, à minha cidade natal, Juiz de Fora,
morreu, lamentei-me com Montoro e contei-lhe um fato que narrei numa crônica
publicada no “Estadão”, sob o título “Encontro na eternidade”. Minha mãe tinha
combinado, por minha iniciativa e intervenção um encontro com o escritor Jorge
Luiz Borges, a mais alta literatura de nosso tempo, um encontro em Genebra ou
Buenos Aires. Num sábado melancólico, minha mãe ouvia o noticiário pela TV,
depois do almoço. O locutor informa - “Acaba de falecer, o escritor argentino
Jorge Luiz Borges”. Minha mãe estava pendurando roupa no varal, na área do
apartamento. Olha para meu pai, seu Luizinho, sorrí e cai morta de costas, ainda
e sempre com o sorriso nos lábios. Montoro ouve isto e muito mais, minhas
lamúrias e lágrimas por aquela perda, a saga da imigrante judía pobre que
dedicou seus últimos anos de vida para ensinar pintura e artes plásticas às
crianças da APAE, e com uma lupa (estava quase cega) a escrever poemas, que o
preconceito e a burrice teimam em não verificar como uma autêntica Cora Coralina
judía. Montoro responde com pigarro e tosse nervosa. Dois dias depois seu
secretário me telefona: “o Governador pede para avisá-lo do decreto que acaba de
assinar dando o nome de Fanny Goldberg, à Escola Estadual de Primeiro Grau, no
bairro de Francisco Morato.” A cerimônia do batismo se dá, por coincidência no
mesmo dia, em que recebo a notícia de que uma Escola israelita retirava o nome
de Fanny da sua biblioteca, por intriga de desafetos. Hoje quando lembro destes
e outros episódios, imagino que no céu dos poetas e sonhadores, Montoro, Borges,
Fanny e seu Luizinho, passeiam apreciando tucanos. Porque senão, meu Deus,
quantos desenganos. Mas ínvios, estranhos e fascinantes caminhos de vida esta
paisagem me intriga. Como seria esta pátria se Montoro tivesse sido Presidente?
Quando voltei de Paris, após a Copa, Boris Casoy entrevistou-me e perguntou o
que nossa torcida sentiu com a derrota. Respondí que éra impossível ganhar o
jogo com aqueles franceses cantando a “Marselhesa”. Napoleão disse que com a
Marselhesa e 5.000 soldados vencería 50.000 inimigos. Complementei que nossa
“Marselhesa” éra o hino da Independência. O entrevistado seguinte éra o atual
Ministro José Gregori. A quem fui apresentado por Montoro. Aliás na ficha
130-7764 do D.O.P.S. (como constatei quando foram abertos os arquivos) se
documenta que fomos flagrados em assémbléia da S.B.P.C.; ele falando sobre a
“Lei dos Estrangeiros ”, eu sobre “Juventude brasileira”. Declamei para Boris e
o telespectador - “Ou ficar a pátria livre ou morrer pelo Brasil”. Boris se
emocionou, creio que Gregori, com quem tive um debate na Bnai Brith, junto com
Mario Simas, também. Hoje, se tivesse que inventar, proporia numa fórmula doce à
Frei Beto, irmão-de-fé, o personagem de Edgar Alan Poe, no poema imortal.
“Tribuna da Imprensa”.
DESISTA, PROFESSOR
Após a renúncia de Jânio Quadros participei com o ex-presidente de um debate,
pela Radio Capital. Num certo momento perguntei-lhe: “Presidente, até onde sua
renúncia não foi motivada, até por razões inconscientes, por uma vocação
desviada. Seu lugar de eleição não éra a cátedra?” Jânio brincando (e toda
brincadeira admite interpretações) respondeu-me: “Doutor, essa pergunta eu só
responderia, a vontade, em seu consultório”. Depois disso, embora Jânio soubesse
que eu tinha sido um dos coordenadores da campanha de seu adversário, o Marechal
Lott, em São Paulo (a convite do General Stoll Nogueira e do grupo nacionalista
de “O Semanário”), passou a dirigir-me longa e profunda correspondência que um
dia pretendo publicar, de natureza cultural. Convencí-me, e escreví em vários
artigos publicados de que a sina política-partidária de Jânio era um erro
existencial. Em resposta a uma das crônicas, em que sugeria que Jânio se
dedicasse à produção artística e largasse a carreira política, escreveu-me:
“Dona Eloá e eu ficamos em dúvida entre odiá-lo ou admirá-lo. Escolhemos a
segunda alternativa.”. Infelizmente, minhas ponderações caíram sempre no terreno
da hipótese. O Brasil perdeu um pensador precioso e a política se lhe mostrou
desastrada. Quando o presidente Tancredo Neves morreu escreví um artigo
publicado na nossa “Tribuna da Imprensa” em cima de minha tese de doutoramento,
analisando sua morte. Aliás, quando começou o processo de desinformação sobre a
doença de Tancredo, dei uma entrevista para a “Folha de S. Paulo” em que
denunciava pela primeira vez, o sentimento de medo e orfandade da opinião
pública diante das ambigüidades do noticiário; o que reiterei no “Globo
Repórter’, após a sua morte. No artigo publicado neste jornal alinhavei a noção
de autofagia do sucesso. A dificuldade de conviver com o êxito e o risco da
auto-destruição. Hélio Fernandes, este “chevalier sans peur et sans reproche”,
de nosso jornalismo telefonou-me e contou que um Ministro de Jango lhe afirmara
que éra a melhor explicação que havia lido sobre o fato. Muito que bem. Tudo
isto a propósito de uma reflexão atual que faço, limpamente, de coração aberto e
convencido. Fernando Henrique Cardoso é um ser especial. Inteligente, culto,
lúcido, charmante. Lembro-me que estava com minha mulher e meus filhos no parque
da Praça Vilaboim, em São Paulo, num domingo de manhã. Vejo o então senador FHC
caminhando com certa dificuldade (imagino que dores na coluna) sozinho em
direção à “Romana”, provavelmente, para tomar café. Cumprimentei-o de longe com
a admiração que sempre tive por sua coerência democrática, altitude sociológica
e espírito de tolerância. Respondeu-me com um dos mais amáveis sorrisos que já
vislumbrei em face humana. Comentei com minha mulher que era um homem
irresistível. A aparência, numa rara e feliz afinidade com a essência. À tarde
telefonei para Franco Montoro por sinal um estadista e um gentleman, e lhe
disse: ‘Governador, que presidente elegante teríamos em Fernando Henrique,
não?”. Votei em FHC na primeira eleição. Antes da segunda, num programa da
Sílvia Popovic, disse ao Lula que na próxima meu voto seria seu. Agora, triste,
mas correto, pergunto meio que sugerindo ou mais que sugerindo: Professor
Fernando Henrique Cardoso, pensador da miséria do Terceiro Mundo, poliglota,
será que sua grande jornada não é a tribuna da Universidade? Seu pensamento
reto, reflexão erudita não deve se voltar para a miséria deste povo
desprotegido, espoliado e aviltado? Abandone, professor, os caminhos do Poder
que não são os seus, nem do Cardoso que alimentou nossos sonhos patrióticos na
campanha do Petróleo é Nosso, na Praça da Sé. Ainda é tempo, querido Professor,
para um futuro luminoso de intensa atividade acadêmica sofisticada e
cosmopolita. Pense, escreva e fale e deixe a política para quem dela fará o
exercício de sua fé. Desista desta amada ingrata enquanto é tempo. Se o fizer,
Professor, esqueceremos o que o senhor fez, lembraremos o que escreveu e
aplaudiremos, de pé, seu retorno ao mais alto mister humano-ensinar, inclusive
sobre o erro e o engano. Os ricos, belos e poderosos lamentarão. Os pobres,
excluídos e feios, agradecerão.
“Tribuna da Imprensa”.
NOSSA AMÁVEL GUERRA CIVIL
É preciso viver pelo que se ama, e não morrer pelo que se supõe acreditar. Os
tempos modernos trouxeram a tortura e o desprezo pela dor, mercadejando a alma
em Auschwitz, no Gulag, e nos subúrbios metropolitanos. Um compromisso
fundamental da sociedade democrática é a manutenção do direito do homem à vida.
A ameaça permanente, que leva à intranqüilidade e ao medo, reflete o declínio
dos valores morais. Existe concordância quase unânime de que a engrenagem
estatal não corresponde à expectativa de segurança, mas discorda-se quanto às
causas. Duas são as teses opostas mais populares: a afirmação de que a miséria
econômica é a única responsável pelo agravamento do índice de criminalidade
(embora Caim não morasse em favela ...), e aquela que afirma ser o fenômeno
oriundo de uma destinação maldita, uma espécie de vingança do azar. Essas
posições não levam em conta o fato preponderante, que é a responsabilidade de
cada indivíduo, criando uma dicotomia alienada entre a pessoa e o mundo. O furor
agressivo é o resultado das vontades subjacentes, dos propósitos inconscientes e
do comportamento de cada homem e cada mulher. Diante do perigo disseminado, o
repertório psicológico dos seres humanos se recolhe. A impotência tende a se
transformar na resposta elitiva. Curvamo-nos diante da constatação fácil de que
outros países também são vulneráveis ao mesmo problema, aquietando nossa reação.
A intenção tem de ser uma proposta de reação objetiva à agressividade
compulsiva. E a intenção é mais do que uma fábula poética, por se tratar de uma
afirmação política, na espécie. Que se espera? Vamos continuar na guerra do
trânsito que mata e mutila centenas de milhares de pessoas, numa engenharia
falida? Esgotaremos nossos recursos naturais, numa sarabanda desenfreada de
imediatismo, assistindo à poluição da atmosfera, à deterioração dos serviços de
comunicação, saúde e educação, promovendo um deserto para a criatura humana que
sofre, cegamente, sem esperança, no sanatório da metrópole? Habitat medíocre,
sem árvores, folguedos, personalidade? Álcool, sexo desenfreado, drogas,
desemprego constituem o zumbi assassino, fruto dessa recusa do sagrado. Isso,
enquanto se caçam delinqüentes formados nas casa de detenção, nos asilos de
menores, de um sistema jurídico e policial, alvo de críticas intensas. Urge
contrapor a decisão à histeria. O excesso de desespero conduz ao niilismo, de
que tiram proveito os profetas idealizados que pretendem uma opinião pública
negativa, débil e estúpida. Portanto, é preciso verificar a emoção social, o que
está encorajando desempenhos rígidos e hostis, nas suas raízes de constipação
ética e psíquica. Margaret Mead argumenta que as exigências das culturas sobre
seus participantes são mais suportáveis para uns do que para outros. A
inquietude faz parte da origem da irritação, módulo das tensões presentes nas
sociedades violentas. Equilibre-se a ansiedade de ordem e autoridade com a
possibilidade de manifestação das expressões emocionais, lembrando a árvore
genealógica da destrutividade ¾ filha de Hitler, sobrinha-torta de Stalin com Al
Capone, neta de Torquemada, bisneta de Calígula, aborto do ciúme e da
frustração. Os desencadeantes da emoção, na comunidade, são suscitados pelos
conflitos. O ritmo frenético do ódio e do crime diminuiria se o homem figurasse
não como objeto, mas como agente de mudança, o que demanda alto grau de
maturidade. Relações sociais harmônicas e interação construtiva dependem de
sentido comunitário (convívio amistoso), sentido de participação (integridade de
envolvimento com o meio ambiente físico e social) e sentido de controle
(responsabilidade para canalizar os impulsos inconscientes, no jogo da
permissividade). Instituições modelares e a transformação de nossa cultura vão
depender da participação de todos e não dos infantis e românticos anelos
radicais, de esquerda ou direita (metabolização ideológica dos medíocres e
infelizes). A estabilidade social vai depender da satisfação humana, a única
premissa revolucionária real, e esta não se pode condicionar ao produto nacional
bruto. Na crítica de Freud à armadilha tecnológica: “Se não existissem estradas
de ferro para encurtar as distâncias, meu filho jamais teria saído de casa e eu
não precisaria do telefone para ouvir sua voz”. Estender o acesso à plenitude
por meio de sistemas humanizados de planejamento urbano e desenvolvimento geral
é a única fórmula de responder à equação de Slater ¾ se pretendemos roubar,
roubemos quantias elevadas; se pretendemos matar, matemos grande número de
indivíduos. Finalmente, o horror tem de ser o resultado da revolta contra a
tirania, pois que o assaltante e o burocrata terrorista são os carrascos
medievais, juízes auto-nomeados da vida e morte do homem. A pistola do João das
Quantas é o instrumento do miserável enlouquecido que se acredita o deus menor,
no altar do administrador corrupto José das Tantas, cuja caneta é o condão
mágico do operacional, simbologia fálica do vazio. Em contraposição, a história
dos homens é o esforço educado, com os pés no chão e a cabeça no céu. Poesia
versus necrofilia.
“O Estado de São Paulo”.
EXECUTIVO, LEGISLATIVO, E FREUD.
Michel Temer convidou-me e no I0 Congresso Brasileiro de Direito Constitucional
interpretei a relação entre o Executivo e o Legislativo, psicanaliticamente. No
Brasil, com interrupções históricas de menor significado, temos vivido sob um
presidencialismo rígido, quando não, sob regime autocrático, quando nas palavras
de Sampaio Dória, “o chefe de estado ou é o rei hereditário e perpétuo, cuja
vontade decrete e execute as leis, ou é um caudilho que, usurpando ao povo a
soberania, decrete, como poder pessoal as leis que execute”. Esta é uma
realidade, no psiquismo do poder, em nosso país, e que mereceu uma dissecação,
de Oliveira Viana, “Nos engenhos e fazendas, só o senhor decidia, ordenava,
mesmo em questões que só interessavam à população moradora e à sua vida
econômica. O povo não tinha a quem recorrer contra a autoridade onipotente;
desarmado, não dispunha de independência de ação e do pensamento, nem do
conhecimento prático de qualquer instituição democrática. Carecia de consciência
jurídica, decorrente dos costumes e tradições, para determinar o comportamento
dos homens na vida pública. Realmente, nosso domínio rural, como se organizou,
não continha, nem em sua estrutura, nem em sua culturologia, nenhuma instituição
que o adequasse, como o domínio rural europeu, a se constituir numa escola de
preparação das nossas populações rurais para as práticas democráticas, para os
hábitos eletivos, para a preparação objetiva do interesse público da
comunidade”. Quais as implicações? Um Poder que tenta agilizar-se, tenta
estender sua influência, o Legislativo, diante de um Poder onipotente, o
Executivo. Essa disputa, encontra entendimento na concepção de Freud ¾ a revolta
dos irmãos contra a tirania paterna, que, segundo Marcuse, marca o início da
civilização ¾ a fundação do governo do pai sobre os seus filhos. Por suas
características ¾ um contexto que admite ideologias diversas, representadas
pelos partidos políticos, o Legislativo assume a condição natural de
“representante do povo” e, em decorrência, uma identificação maior com a
realidade social na sua globalidade e com a vida psíquica individual. A dinâmica
daí originária, pode levar, a rupturas comportamentais infantis carregadas de
tônus passional. Esta tendência a partilhar, permite equilíbrio, mesmo admitindo
que o poder único supremo possa dar excelentes resultados, porém mais
freqüentemente, catástrofes. O que redunda numa permeabilidade maior com o
quarto poder ¾ a informação de Massa, que tende à valorização do debate. Não é
de estranhar, que grande parte dos conflitos entre o Legislativo e o Executivo
se estabeleçam sobre a área comum das relações com a imprensa, que deve ter,
além dos seus tradicionais papéis de informar e ensinar, o de testemunhar, como
catarse da sanidade psicológica do cidadão, desamparado diante do
Estado-Leviatã. Mesmo porque a tautologia de que não pode existir democracia sem
informação e essa vai ficar na dependência da postura observadora do Legislativo
na instância política do Estado e da imprensa, na rua. A alternativa é a
síndrome do abandono para o indivíduo que, frustrado desenvolve violência. De
outro lado, o Executivo, se considera, o “agente” de uma abstrata “vontade
nacional”. Poder que tende ao exercício individual, numa sistemática de
centração auto-referenciada. Infelizmente, a sociedade hoje vive seduções de
processos psicológicos regressivos. A autoridade que por efeito da própria
rebelião edipiana mal elaborada não consegue a reintrojeção dum superego
construtivo tenderá à medidas coercitivas, promovendo a arbitrariedade. Freud
estabeleceu o princípio do determinismo psíquico, evidenciando que a razão não é
a condução única de nossos comportamentos. Finalmente, esta introspecção pode
permitir a limitação do Executivo, produzindo um efeito moderador. Uma saída, a
parlamentarista, para nossa crise.
“ O Estado de São Paulo”.
VINGANÇA DE JUDEU
Meu pai, Luiz Goldberg, veio de Ostrowiecz, na Polônia, com 18 anos de idade.
Sua família de origem não obteve os “vistos”, por causa da política anti-semita
do Itamarati. Morreram nos campos-de-concentração nazistas. Desembarcou do navio
de imigrantes argentino, Valdivia, no Rio, com 10 dólares, no bolso, sem falar
uma palavra em português, e sem conhecer ninguém. Desesperado, pela miséria e a
solidão chegou a pensar em suicídio. Mas, um correligionário, acabou lhe
informando que havia uma terra, Minas Gerais, em que o calor não era tórrido
como o carioca, e ele rumou naquela direção, sabe Deus como, e sabe Deus como
uma porção de fatos desta história. Andou por Varginha, Eloy Mendes e acabou
chegando em Juiz de Fora que o adotou, como filho e ele a ela, como mãe.
Trabalhou, suou, sofreu, alegrou-se na “sua” Juiz de Fora, por dezenas de anos.
Ajudado por amigos sírios-libaneses, principalmente a família Arbex, vendia
roupa como prestamista, amando e sendo amado pelas “Marias”, como se referia a
suas freguesas, de São Mateus, Costa Carvalho, Bonfim, descansando, tomando
cerveja, na José Weiss, ou no Café Internacional. Trouxe minha mãe, Fanny, de
São Paulo (ela era também de Ostrowiecz), casaram-se nascemos eu e minha irmã.
Foram seus anos de glória, a minha infância e adolescência. Orgulhoso, dizia que
“Juiz de Fora era sua Shtelele Belz” (o equivalente judaico à Passargada). Minha
mãe, por sinal, dedicou seu primeiro livro de poesia Minha Esperança a Juiz de
Fora. Desconheço que alguém mais tenha rendido homenagem tão expressiva à minha
cidade natal. Anos depois, já morando em São Paulo, fui convidado pela Câmara
Municipal, por iniciativa do vereador Hélio Zanini, a receber o título de
“cidadão benemérito”. Meus pais me acompanham, numa viagem cheia de emoção.
Depois da cerimônia comovedora, descemos a Rhalfeld para que pudesse mergulhar
na sua ansiada “busca do tempo perdido proustiano”. Nessa altura estava com
quase 80 anos de idade. De repente, viu um grupo de três homens conversando.
Virou-se para mim e disse; “Aquele é um político digno, vou cumprimentá-lo.
Admirava muito sua mãe”. Estendeu a mão em direção ao tal (uma fisionomia que
lembrava um E.T. grotesco). O indivíduo, asqueroso e odiento retrucou ao seu
amável gesto: “Vocês judeus, voltam aqui para apanhar seu rico dinheirinho...”.
Paralisado, fiquei sem saber o que fazer. Se desse um murro na cara do covarde,
meu pai, sempre manso e avesso a conflito, poderia até sofrer uma recaída de seu
problema cardíaco. Preocupado olhei para ele que humilhado, tinha seus olhos
lacrimejantes. Meu pai afastou-se, baixinho e disse: “Vamos embora, minha Juiz
de Fora não existe mais, já morreu”. Na verdade, quem começou a morrer naquela
hora, foi ele, na tristeza e na decepção. Tentei reconfortá-lo, mas em vão. Na
realidade, ele tinha voltado, não para buscar o rico dinheirinho ( que, aliás,
sempre esteve nos cofres corruptos dos políticos e da oliguarquia), mas pelo
contrário, para oferecer, como sempre, seu amor, sua dedicação, sua fé para
aquela cidade. Disposto a me vingar, perguntei ao meu pai, várias vezes, pelo
nome daquele político. Ele sempre recusou a decliná-lo, ou sequer discutir a
questão. Anos depois, a Câmara Municipal de Juiz de Fora outorgou à minha mãe, o
título post-mortem de cidadã honorária e a meu pai o preito de gratidão,
referido como “Seu Luizinho, de saudosa memória”. Sei ou imagino que lá, em sua
Juiz de Fora celeste, onde está para sempre, Laibale estará me recriminando por
esta crônica, dizendo “deixa prá lá, o que me importa é a saudade das “Marias” e
dos amigos da rua Batista de Oliveira”, no seu inconfundível sotaque yddish.
Daquele seu reino encantado, onde conseguia até que o Braquinha, o inspetor do
DOPS que um dia veio me prender como comunista por estar na presidência do
Diretório de Alunos do Grambery, liderando uma greve contra os cinemas, fizesse
vista grossa, seu Luizinho só levou imensa amizade. Mas eu, filho incorrigível,
tenho a esperança de que aquele político histérico, narciso adoidado, leia esta
crônica e saiba que a minha vingança de judeu é dizer-lhe que Juiz de Fora não é
dele, é o dinheirinho do triunfo, da arrogância, o nada estéril de sua vida
vaidosa. E a nossa Juiz de Fora não tem dono, é feita dos sonhos e das
fantasias, dos amores e das frustrações, da charrete, da bicicleta, do seu amor
amante, até hoje clandestino, como nos grandes romances: seu Luizinho Quixote
Goldberg, que jamais a deixou. Paixão de sua e de sua morte. (Freud admirava
Anibal que jurou no altar da família vingar-se dos romanos em deferência a
Almicar, seu pai).
“Jornal da Tarde”.
JUIZ DE FORA, A NOSTALGIA.
Entre o sentido e a inteligência aninha-se o mito político, incorporado em
personalidades e fatos. Escrevendo-se o “script”, épico ou depressivo, com fundo
musical ilustrando nomes que guarnecem nossa lembrança, inserida na vida social,
robustecendo o sentimento de mundo, pertencer e participar. Projete-se o
roteiro, sem cronologia ou lógica, na procura da identidade: versão cabocla da
busca proustiana, entre cavaleiros do Apocalipse e vereadores analfabetos.
Martela no cérebro, sincopado o estribilho de “Brigadeiro’. Garotos pela Rua
Espírito Santo, em Juiz de Fora, carregando seu poster, com “aplomb” para
desempenhar o papel de mocinho na seriado, que se exibia no Cine Central:
caminhando pelo país, a legenda da UDN, depois dos negros anos das torturas
policiais, da ditadura que pressinada concordou em enviar a FEB para a Itália.
Os “pracinhas” retornando, a cobra tá fumando, a turma do Colégio Normal,
correndo atrás da tropa. Na recepção, o político-menor saudando Zenóbio da
Costa: “General José Nóbio da costa - o acessor cochicha, é Zenóbio, e o pelego
- Eu lá tenho intimidade para chamá-lo de Zé?”. No mergulho ideológico, Paulo
Duarte, figura fabiana do socialismo: Otávio Mangabeira, falando da “tenra
plantinha”, a democracia: Mattos Pimenta, o criador do “Jornal de Debates”, uma
tribuna redigida com cartas do leitor, aonde se travaram candentes polêmicas de
nosso carisma, onde xinguei e fui xingado. Direita, centro e esquerda, abrigamos
sob Voltaire: “Não concordo com uma só palavra do que dizeis, mas defenderei até
a morte e vosso direito de dizê-lo. “Eu, pixando na parede da casa de minha avó
- “Prestes,” 20 vezes. Perplexidade no Grambery, o missionário Mr. Moore
lamentando a Guerra da Coréia, com sotaque sulista: “Oh, meus filhos, tem sangue
correndo, numa triste batalha...”. E quem não iria superpor a imagem do pastor
grisalho, com a de Dom Pedro II, há pouco descrito na sala 10.
“Tribuna da Imprensa”.
GARFIELD - O GATO PRECONCEITUOSO
Jornais em vários países, publicaram recentemente, uma história em quadrinho, de
autoria do roteirista norte-americano, Jim Davis, em que o protagonista, o gato
Garfield, ouve do personagem coadjuvante, John, um jovem que manuseia seu
caderninho de telefones: “Já tentei todas as garotas da minha agenda. Menos a
Gina. Será que ela já fez aquela cirurgia pra remover a terceira narina?”.
O gato, no circulo clássico de pensamento que caracteriza a linguagem animal nas
h.q. , comenta “os padrões dele estão caindo...”. Trata-se, obviamente, de
pérfida e cruel alusão implícita à deformidade facial que atinge centenas de
milhares de crianças que nascem com dolorosas lesões, comumente, ligadas ao
chamado lábio leporino, e outras.
Em muitas regiões, arraigadas crenças e superstições, mitos e arquétipos
transformam a vida dessas crianças num duplo suplicio: aquele imposto pela
natureza, e outro pela cultura e exclusão que, chega a estigmatizá-las, como
amaldiçoadas por Deus e, por isto condenadas (re-encarnação, castigos eternos e
outras fórmulas mágicas de alienação).
Famílias que escondem seus filhos os isolam e prendem, em autentico cárcere
privado, às vezes por toda a vida, com vergonha e constrangimento de vizinhos e
amigos. A ignorância e a impiedade que chega a sacrificar até a vida das
infelizes crianças, com o silêncio cúmplice do universo social. Ou, na melhor
das hipóteses, uma vida de diminuição, que acarreta traumas e complexo de
inferioridade, por toda a biografia.
Entidades particulares, como a Operation Smile, nos E.U.A., o centro de
Especialização, em Bauru, e centenas de grupos estatais dedicam-se, através de
todas as modalidades médica, odontológica, enfermagem, fonaudiológica,
psicológica , a corrigir, atenuar, suavizar este sofrimento, incorporando as
crianças a uma vida saudável, e educando a comunidade a compreendê-las.
Infelizmente, uma narcisica apologia da beleza e do artificialismo estético, em
detrimento da Ética, corre na contra-mão. Desde regimes alimentares radicais até
o bisturi que modela corpos industrializados em academias de musculação.
Os que preconizam a legitimidade de uma espécie de “seleção natural do
super-homem”, até aqueles que, de forma subreptícia, como no caso de Jim Davis,
sustentam a mentalidade que levou, por exemplo, Ilse Koch, a chamada “cadela de
Buchenwald”, a fazer abat-jour com pele de crianças assassinadas.
Numa pesquisa antológica, John e Selma Appel, in “Comics da Imigração na
América”, Editora Perspectiva, mostram a influência da história em quadrinho na
formação e deformação das relações humanas alimentando e re-alimentando medos,
preconceitos, ódios, sob a capa do riso. Especificamente, sobre a visão do
problema escreveram, entre outros, Montaigne, Paré, Descartes, Monro e Fisher,
em exercícios de mentalidade, como registra Dov Goldemberg.
A intolerância machista de Garfield, e o silêncio que sua manifestação provoca,
indica a desatenção de pais, professores e jornalistas, quanto a esta odienta e
repulsiva manipulação do inconsciente coletivo.
O uso da liberdade de pensamento não justifica conspurcar a interação humana,
como porta-vozes da eugenia.
A associação subliminar de doença, velhice ou feiura à desordem e ao Mal, no
Imaginário e no Simbólico, inspira instituições como o Extropy Institutes, de
Los Angeles, (oposto da entropia), que visa o ideal do corpo “perfeito”, o
pretexto de Caim.
Fico na incômoda, mas assumida, posição que cínicos chamariam de “politicamente
correta”, forma de desqualificar a ideologização social.
(Tribuna da Imprensa/ Jornal do Brasil)
JÂNIO - MITO E PERSONAGEM
Fui anti-janista, quando o Brasil se dividiu, diante de sua carreira.
Participei, intensamente, da campanha de Lott à presidência, integrado no grupo
paulista que se agregava em torno da Frente Nacionalista, lembrando, com
particular carinho, o General Stoll Nogueira e o jornalista Oswaldo Costa de “O
Semanário”, que me apoiou numa campanha surrealista a deputado estadual, em
dobradinha com Dagoberto Salles, pelo então P.S.D. Já na ocasião vislumbrei a
vocação presidencial de Ulysses Guimarães, com quem partilhei e com Edna Lott a
frustração da derrota. Vi, vivi e um dia vou contar grandezas e mazelas, (vou?
será que vale a tinta e o papel?) da estranha política-partidária brasileira,
feita mais de adjetivos que de substantivos...
Constatei, então, o carisma de Jânio Quadros, que me cheirava a mistagogo.
Eleito, renunciou. Aí começou minha dúvida. O doente pelo poder não renuncia,
como Jânio fez. Havia algo de patético e shakespeareano naquela renúncia. Passei
a observá-lo com atenção.
Dedicou-se a pintar e a publicar livros. Um quase “scholar” no Guarujá.
Em 80, recebo uma carta de Jânio, com palavras nítidas: “Devorei o seu
‘Psicoterapia e Psicologia’. Tive várias vezes, a sensação de trabalho imortal,
eis que a simplicidade casa-se com a erudição, o que é difícil, e faz a obra ao
alcance de todos. O estudo ‘Psicologia e Liberdade’, eu gostaria de ter escrito
e assinado. Já o admirava, mas, agora, vou a extremos! Saiba que tem em mim
alguém que o admira e respeita, permanentemente. Abraça-o com carinho, Jânio
Quadros”. Referem-se a um texto que publiquei e que fez parte de minha tese de
doutoramento..
Outra carta, de 81, “... o seu estudo, deveria ser objeto de debates nos
Partidos, entidades de classe e universidades. Que tal um simpósio?... Registro,
apenas, poucos dados sobre Londres, merecedora, agora, desse interesse. Se
promover os debates, não deixe de convidar-me. Tenho pouco a oferecer, - ao
longo de suas linhas - mas gostaria de fazê-lo!”. Jânio, íntimo, de corpo
inteiro, referindo-se às minhas pesquisas e trabalhos sobre violência urbana.
Entre outras: “ É incrível sua capacidade de trabalho! Um prodígio. Devorei o
‘Psicologia da Agressividade’. A importância da Linguagem no sistema político
legal, é antológica. Mas sou suspeito...Creia-o! A admiração é imensa”.
“Sabia você que o Stoll sempre foi meu amigo? Recebi o que escreveu de Juiz de
Fora até Bauru... Passos largos. Oh, Deus! Deixo o PTB fisiológico. Uma
vergonha, mesmo nesta política rasteira, despudorada! Fico em casa, junto da
esposa e das cachorras, que nunca me traíram ou morderam... Esse, é o meu
destino. O que releva, sim, é a amizade e o respeito em que o tenho, filhos dos
que nutro por mim mesmo”.
“De vários pontos do País, Minas, por exemplo, recebi o seu magnífico trabalho.
Deus sabe o quanto me deixou perplexo; entre envaidecido e magoado. Conflitante
como eu mesmo, ou qualquer homem... Mas, humano, decidi-me pela vaidade... Eloá
e eu desejamos-lhe, e aos seus, todas as venturas para este fim de ano e para
1984”.
A obrigada discreção me impede outras revelações que, não obstante, guarnecem a
minha memória. Todas na direção do verso, em Dante - “Chove na mais alta
fantasia”.
A primeira vez que tive contato pessoal com Jânio, foi num programa de rádio
(proibição de briga-de-galos), aonde fazia análise de comportamento. Perguntei a
Jânio, a queima-roupa, no ar: “Qual o mecanismo emocional que impediu o advogado
pobre de Vila Maria, de prosseguir na presidência da República? Até onde a
síndrome do fracasso não pesou na decisão da renúncia?”. Mineira e habilmente,
Jânio respondeu: “Esta é matéria para discutirmos, no seu consultório,
professor”.
Ainda na mesma época, a campanha eleitoral para a governança de São Paulo voltei
a entrevistar Jânio, juntamente com a singular apresentadora, que é Xênia Bier,
pela rádio Capital. Tentei penetrar publicamente, no psiquismo defendido de
Jânio: “Alguma vez cometeu adultério, Presidente? Como é a vida afetiva do
político? Já pensou em outra mulher, depois de casado?”. Citei Normam Mailer que
perguntou o mesmo a políticos norte-americanos. Foi corajoso, no limite. Rindo,
avançou: “Ao psicólogo tenho que confessar - Já fantasiei traições”. Convidado a
avaliar os candidatos, psicologicamente, no programa do Ferreira Neto, fui
severo na análise da imagem de Janio.
Mais uma vez não votei em Jânio. Mas, no dia da definição do resultado das
eleições, começou a dúvida, quanto ao papel de Jânio. Até onde não me deixava
ludibriar pela aparência agreste de uma história tumultuada?
Trata-se de um gigante num cenário de pigmeus. Sua preocupação com o uso correto
da língua, (banalizado pelos medíocres, que têm raiva e preconceito contra a
inteligência), o respeito pela auto-privacidade, a coragem de usar o pincel e a
criatividade literária; a vontade e o império da seriedade combinando com a
audácia; tudo está a compor uma genuína individualidade exuberante. Demagogo,
histriônico ou estadista. Um Che Guevara postiço ou Nasser bêbado. Aliás a frase
do político - “Janio é a U.D.N. de porre”.
Merece atenção especial o homem que tendo sido Presidente, escrevia contos e
expunha telas. Numa sociedade conservadora, ciosa até o fanatismo de poder
pessoal e “status” a qualquer custo, sua humildade, repassada de orgulho, exige,
pelo menos uma leitura menos apaixon