Seminários realizados no Curso de Direito Penal e no Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

 

A MORTE DE STEFAN E ELISABETH ZWEIG.

(ASPECTOS JURÍDICOS E PSICOLÓGICOS)

 

Professor Doutor Jacob Pinheiro Goldberg.

Professor Doutor Silvio Saidemberg.

Professor Doutor Sagrado Lamir David.

Professora Doutora Marília Librandi Rocha.

 

Os seminários sobre a morte de Stefan e Elisabeth Zweig foram realizados a convite da Professora Doutora Alice Bianchini no Curso de Direito Penal da Universidade de São Paulo, no dia 31 de agosto de 1999 e no Centro Acadêmico XI de Agosto da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, no dia 06 de abril de 2000.

Este livro reúne os resultados das pesquisas, os artigos e as entrevistas publicadas e registra os seminários realizados pelos autores.

 

 

Ester Caetano da Silva -

Professora de História.

 

Fotos e Notas de rodapé podem ser solicitadas pelo e-mail jacobpgoldberg@uol.com.br

 

 

 

 

 

 

O CANDELABRO ACESO

Marília Librandi Rocha

 

Rever a história. Re-iluminá-la. Lançar-lhe uma outra luz.

Quem se volta para a própria sombra? Perguntou Stefan Zweig, no conto "Leporella", em 1939. Agora, outra voz pergunta: "quem matou Stefan Zweig?", encontrado morto, com sua mulher, em 1942.Essa pergunta precisa ser feita. Ela é legítima, decente, conseqüente.

A suspeita de assassinato, encabeçada pelo psicólogo e escritor Jacob Pinheiro Goldberg e sustentada por outros pesquisadores, traz de volta o assombro, a perplexidade com a morte mal investigada, negligenciada (apesar das pompas fúnebres oficiais).

Respeitar Stefan Zweig é suspeitar de assassinato, pois seu suicídio passou para a história como o de um derrotista, e não de um bravo. Se o ato suicida foi seu gesto de adeus, ele o foi para acusar e revelar o assassinato de uma época. Foi-se como o candelabro enterrado, resistindo, e só aguardando um outro momento da história para reacender-se. Stefan nos aguarda. Ele, como disse Goldberg, deixou todas as pistas: morreu jogando xadrez e sua última novela é o jogo de xadrez. Zweig lidava com sutilezas, não com arrogância.

O próprio autor de sua biografia no Brasil, Alberto Dines, reúne dados que legitimam a suspeita de assassinato, mas ele não a ressalta, nem sequer levanta essa possibilidade. Por quê? "Pobre Zweig..." - seu biógrafo termina um livro com um epílogo com este título. "Pobre Zweig" diz ele repetidas vezes. Como "pobre Zweig"? É preciso dizer : Viva Zweig, Salve Zweig, Grande Zweig.

Frases colhidas no livro de Dines, Morte no Paraíso (1981): "(...) graças à lealdade dos amigos foram dispensadas autópsias e investigações(...)";"Ditadura, censura,paternalismo -junção de conveniências, leviandade, inconseqüência,impediram que alguns detalhes fossem buscados".(E justifica) "Não alterariam a tragédia..."; Declaração do diretor de Saúde Pública, ao autor: "Fomos proibidos de fazer a autópsia. Ordem do Palácio. Encontramos apenas um tubo de Adalina (...)sonífero leve(...)insuficiente para matar uma pessoa, quanto mais duas"; "...supunha-se nas primeiras horas que Stefan tivesse sido ameaçado ou sofrera pressões de grupos integralistas e pró-nazistas"; "foi derrotado", "teve fim inglório".

Em outro momento Dines faz um paralelo entre opostos excludentes, comparando Stefan Zweig a Hitler, nesta frase indefensável pinçada do epílogo de sua biografia: "Arribou Stefan no Brasil decidido a abster-se, aceitando instintivamente a pena decretada por Hitler de que judeus devem sumir. Erraram Adolf e Stefan, dois austríacos inquietos". Dois austríacos inquietos? Adolf e Stefan? Não há comparação possível, aproximação nenhuma pode unir o assassino à vítima.

Rubem Braga, respondendo aos ataques de covarde dirigidos a Zweig logo após a sua morte, escreveu estas palavras que corroboram nossa tese: "Os que choraram sua morte não são partidários do suicídio.Todos sentiram que a deserção deste homem valeu como lancinante protesto contra a estupidez(...),o corpo de um homem que Hitler matou". Mas seu biógrafo no Brasil, pensando louvar o escritor, diz: "o campeão do pacifismo(...)desertou"; "ousou apenas um gesto de militância-capitular"; "Zweig parou no meio do caminho, personagem de seu próprio crivo".

Inversão de perspectiva:questionar o suicídio é dever de honra para com a memória de um grande escritor. Lidemos com o paradoxo, com a ambivalência dos signos e dos gestos humanos: Stefan Zweig foi "suicidado".

Por que não houve autópsia?

Por que não foi enterrado no cemitério judeu do Rio, como queria o Rabino que veio para levar o corpo e foi impedido e ameaçado?

Por que, na Declaração final, sua esposa não é mencionada, se havia um pacto de morte entre eles?

Qual exatamente o veneno ingerido?

São algumas das muitas perguntas levantadas por Silvio Saindemberg.

Revejamos a cena.

Os dois, ele e sua mulher, são encontrados mortos na cama. Nas fotos do crime, eles aparecem em posições diversas. Como confiar nelas e saber que não houve adulteração? Na época, nada foi feito como averiguação. O motivo alegado: não incomodar os mortos. Depois foi achada uma Declaração, pacotes de livros para entregar ao editor, cartas e testamento. Ficou o que provava ineludivelmente o suicídio.Mas e o que não foi achado e se perdeu? E o que não foi contado?

A suspeita de assassinato lança um ponto de interrogação complexo e procedente com a vida, a obra e a história social e política da época. A tese de assassinato está mais próxima da noção de "A História como poetisa",texto do próprio Zweig, e também da concepção de História que propõe Walter Benjamim (outro "suicidado") e que, em suas teses sobre o conceito de história, mostra a necessidade de uma interrupção no discurso histórico, que ele qualifica de "messiânica"e que tem como fonte a razão poética.

Como disse Jeanne Marie Gagnebin em seu importante estudo História e narração em Walter Benjamim ( Perspectiva, 1994), "a tarefa do historiador "materialista" é definida essencialmente, pela produção, (de) rupturas eficazes". "Longe de apresentar de inicio um outro sistema explicativo ou uma "contra-história"(...), a reflexão do historiador deve provocar um abalo, um choque que imobiliza o desenvolvimento falsamente natural da narrativa".O que Pinheiro Goldberg fez parece ser exatamente isto: não quis propor uma "contra-história", mas provocar no desenrolar de seu discurso um abalo capaz de trazer Stefan Zweig de volta. É um espécie de ressurreição pela escrita - ato profano que engendra o retorna à vida.

Trata-se de uma "hermenêutica da suspeita", capaz de interromper a história para marcar "o lugar de uma verdade não-dita", assim como a psicanálise traz à tona o recalcado. "O pensamento de Benjamin" - continua Gagnebin - "me parece se aproximar mais da tradição profética judaica, isto é, de uma palavra corrosiva e impetuosa que subverte o ordenamento tranqüilo do discurso estabelecido; subversão tanto mais violenta quanto ela é também o lembrar de uma promessa e de uma exigência de transformação radical".

Um dos modos de "fazer irromper do passado uma significação inédita" é perceber semelhanças entre episódios distantes no tempo. Goldberg fez isso ao aproximar o caso de Zweig ao de Wladimir Herzog, ao de Iara Iavelberg, cujo suicídio alegado não passava de uma grande farsa.

Mais do que falar em tese, trata-se de uma postura diante da vida, diante da arte, diante da memória humana, escrevendo a história da humanidade que vale a pena. Ver o seu tempo, mas também fora dele, enxergando-o com vistas à Eternidade.

Por tudo isso, prefiro um epílogo que termine dizendo: Salve Zweig! Eu te saúdo.

 

 

Artigo publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais - No.58 - Abril 2000.


 

 

 

 

 

"Não se pode dispensar o indispensável: não se justifica o se ignorar qualquer indício no caso Stefan Zweig: a começar pela falta de uma autópsia e a falta de abertura de inquérito. A Lei Brasileira de 1941 previa em caso de suicídio a obrigatoriedade de ambas. Quando Getúlio Vargas faleceu em 1954, a autópsia foi realizada. A hipótese de que haveria interesse ou responsabilidade de alguém na morte do casal, só poderia ser excluída mediante rigoroso inquérito, misteriosamente não ocorrido".

 

Professor Doutor Lamir Sagrado David.

 

 

 

ROUPA SUJA DO PASSADO

 

Estamos em época de reforma judiciária!

O que estamos nós - Jacob, Saidemberg e eu - fazendo aqui?

Estamos aqui, hoje, para falar dessa locução polêmica: Roupa Suja.

Simplesmente tentando, ao lavar a roupa suja do passado, despertar a consciência da atual e democrática Justiça Brasileira, para sua maior responsabilidade em não permitir, pela impunidade, o acúmulo de tanta regalia ao crime e aos criminosos e, também tentando despertar a enorme multidão de cúmplices pela omissão e pela descaracterização cultural, política e patriótica de nosso povo.

Num país onde se faz autópsia em miseráveis que morrem de fome na rua, mesmo se sabendo que a desnutrição não serve de prova contra a incúria e o crime social perpetrado e executado por elites, pergunto-lhes:

Como explicar que, em pleno vigor nazista - 1942 - ao lado de um Estado Novo perverso, onde o DIP de Getúlio Vargas, chefiado por Filinto Müller, nada devia à Gestapo de Hitler, se possa aceitar que um humanista, pacifista e democrata como Stefan Zweig, venha a ser acusado de suicida, sem ter havido qualquer providência que se procurasse um possível assassino?

É por isso que pergunto sempre, quando me dizem que alguém se suicidou: Quem foi o culpado?

Garanto-lhes, mesmo que a morte seja produzida com as próprias mãos da vítima, ainda assim, a consciência dos que ficam, sempre amargará a pergunta: O que deixei de fazer para impedir atitude tão sofrida e desesperada?

Por tudo isso, lhes digo: a enorme seqüência de impunidades necessita, urgentemente, que recolhamos a roupa suja do passado, para lavá-la no presente, como exemplo para o próprio presente assumir, pela Justiça Brasileira, que está para sofrer urgentes e inadiáveis reformas, aquilo que a Justiça dos EEUU tem dado belo exemplo: Mostrar, ousadamente, toda sua roupa suja, a todo o mundo, confrontá-la com a opinião pública, assumir os riscos da defesa e da acusação, e, independente de quem for punido, ladrão de galinha ou colarinho branco, que o sentimento de justiça feita impregne juízes, promotores, advogados de defesa, cidadãos e, se possível, o próprio criminoso, em sua consciência social e humana de aliviar-se espiritualmente com a pena recebida.

E querem melhor exemplo para iniciar a lavagem de roupa suja do passado, do que o "revival" público do caso de "suicídio" de Stefan Zweig?

Ou é possível escrever-se suicídio sem aspas, num escandaloso e escabroso caso, onde as autoridades do Estado Novo dispensaram a autópsia, não se fez inquérito, e tudo se limitou a uma simples ocorrência de menos de 10 linhas?

A propósito, devemos lembrar que o próprio Getúlio Vargas, também induzido ao suicídio pela "pressão das circunstâncias", foi submetido a uma minuciosa autópsia, e, mesmo que nada tenha sido apurado de criminoso, seguiu-se ao trajeto ético e justiceiro das normas de tais casos: Então, por que não autopsiaram Zweig? Se o caso PC - com toda autópsia - está retornando - por que não Zweig?

Por que, em nome da roupa suja a ser lavada, não fazer, agora a exumação, em nome também da Justiça Brasileira, que já passa por enormes cobranças justas daquelas aos quais só devia servir?

Creio ter dito tudo...


 

 

 

 

 

 

" Não existe crime perfeito: somente crime mal investigado"

 

Professor Doutor Silvio Saidemberg.

 

 

Stefan Zweig e Elisabeth: o mistério que teima em retornar!

 

Examinei uma coleção de artigos de jornais da época em que Stefan Zweig e Elisabeth (Lotte) faleceram. Suicídio havia sido imputado a ambos, mas, discrepâncias nos relatos surgiram. A data do suicídio é tida como sendo 23 de fevereiro de 1942, isto é, há 57 anos. Levantam uma interrogação sobre as circunstâncias e razões de um suposto suicídio os seguintes indícios:

Primeiro Indício: A carta de despedida("Declaração") tem grafado assim em português ( única palavra em português e ainda por cima incorreta) o seu título (epígrafe), o texto que segue é em alemão, A palavra alemã Deklaration teria o mesmo poder de chamar atenção para a carta. Porque não uma palavra final de despedida em português se Zweig desejava ser cortês usando uma palavra não alemã neste texto?

 

Segundo indício: A carta que teria sido escrita de próprio punho contém duas palavras suprimidas, aparenta haver sido composta sem uma revisão meticulosa, o que não seria de se esperar de um grande escritor, que deveria saber que a sua morte teria uma grande repercussão no mundo em geral e em particular sobre a comunidade judaica. A sua última peça literária, a carta de despedida sendo tão breve, como se nenhuma explicação maior fosse necessária para quem era lido e admirado e respeitado, para quem se considerava com uma missão espiritual. No mínimo, isto levanta grandes dúvidas e perplexidade.

 

Terceiro indício: Nenhuma menção é feita ao "pacto de morte" com sua esposa, nenhuma menção é feita à morte dela. A declaração é sempre na primeira pessoa do singular.Por que? E por que o minucioso escritor deixa este ponto de interrogação?

 

Quarto indício: Aparentemente, passíveis de serem interpretadas como contendo uma despedida, cartas teriam sido escritas , datadas, envelopadas e seladas no dia anterior ao suicídio, teria havido alguma razão para o adiamento do ato? Qual?

 

Quinto indício: Por que Stefan Zweig teria começado a sua carta de despedida por: "Antes de deixar a vida por minha própria vontade..?" Por que tal ênfase, em livrar outras pessoas da responsabilidade de sua decisão, se as únicas duas pessoas intimamente envolvidas neste episódio seriam ele e a própria esposa, ambos participando das conseqüências dessa decisão? Por que este assunto em primeiro lugar?

 

Sexto indício: Porque não havia nenhuma referência à vontade da esposa? Ela teria alguma razão pessoal própria para acompanhá-lo naquele gesto? Quais seriam as possíveis razões de Lotte? Se houvesse alguma: uma doença na época incurável, por exemplo; mais um motivo para se mencionar o fato em uma comunicação derradeira.

 

Sétimo Indício: Por que Stefan Zweig teria dito em sua carta; "... seriam necessários esforços imensos para reconstruir a minha própria vida.."? ; como autor consagrado com traduções em vários idiomas, apesar de haver tido seus bens furtados na Europa Continental, teria condições adequadas para sobreviver no Brasil , onde era respeitado e aclamado como um dos maiores escritores da primeira metade deste século.

 

Oitavo indício: Em continuação à frase anterior "... e minha energia está esgotada pelos longos anos de peregrinação como um sem pátria." No mínimo é curioso que o autor tenha usado a expressão "sem pátria", sendo um homem cosmopolita, aclamado mundialmente, havendo tido facilidade de visto e de obtenção de cidadania que dificilmente outro refugiado do nazi-fascismo teria, por maior que fosse o seu amor à sua terra natal, Áustria,... e em realidade redigira um livro aclamado no novo país em relação ao qual é muito apreciativo: "Brasil, pais do futuro" (além do mais era portador da cidadania britânica, nação que lutava contra o Eixo). Por que justificar o seu gesto suicida por uma razão "de falta de nação"; um homem que acreditava que o bem maior neste mundo era o ser humanitário e defensor das liberdades individuais e da dignidade humana? Estaria ele sob pressão? Quem o estaria pressionando?

 

Nono indício: Foram recolhidos textos de um cesto de papéis descartados; qual o conteúdo dos mesmos? Um dos papéis conteria os nomes de "Hitler e Goebbels e Fuehrer" riscados ... e o que mais ? Por que a investigação não foi melhor divulgada? A quem interessaria que ela não fosse divulgada?

No cesto de papéis descartados de Stefan Zweig teria sido encontrado um documento que fala de seus sentimentos sobre a barbárie na Europa, perseguições raciais, escravização etc. Ele seria considerado o inimigo intelectual número Um do Terceiro Reich. Significando, com uma probabilidade próxima a 100%, que teria sido informado diretamente sobre este fato; de outra forma se fosse o mero palpite de alguém, ele se referiria ao autor da declaração e provavelmente apontaria o exagero dessa avaliação. Berchtesgaden nada mais era que o local onde Hitler tinha a sua casa de montanha .

Neste documento, a palavra "Berchtesgaden" é usada metaforicamente no lugar de Hitler e de seus associados. Se Stefan não desconhecia a atenção a ele dispensada, por Berchtesgaden é porque de alguma maneira, teria sido informado da opinião sobre ele mantida pela cúpula nazista. De outra forma, ele que era tão meticuloso e preciso teria dito tratar-se de uma opinião de algum amigo, de jornalista, de outra pessoa, ou até, de sombria figura que se escondera atrás do anonimato para atacá-lo. Afinal de contas, nem se considerava o mais importante dos intelectuais exilados, pelo menos é o que deixa transparecer ao escrever que Thomas Mann e Heinrich Mann eram de mais valor que ele próprio, estranhando a "deferência" de ser pelo nazismo considerado o mais perigoso intelectual judeu. Aparentemente, não houve nenhuma declaração oficial e pública do governo nazista sobre Stefan Zweig, nem se cogitou que a cabeça de Zweig estaria a prêmio, caso contrário, a imprensa fatalmente comentaria. E no caso de haver uma caçada mais oficial e sistematizada e divulgada, ficaria patente a participação e a responsabilidade mais direta do nazismo na morte de Stefan Zweig. Seria como admitir-se publicamente que "o pacifismo" era a maior ameaça contra "o regime de força", o que certamente, não estaria no melhor interesse político do último.

Stefan Zweig estaria recebendo ameaças pessoais. Presumivelmente, este documento sobre Berchtesgaden escrito nos seus últimos dias de vida, não foi eliminado anteriormente, (na 6ª feira, dia 20 de fevereiro, quando outros documentos foram por ele descartados e queimados) porque Stefan Zweig contemplou alguma outra opção. Diante da impossibilidade de mudar a marcha dos acontecimentos, deixou como ato final este documento no cesto de papéis descartados, junto com outros trabalhos inéditos. Em 23 de fevereiro de 1942, a morte de Stefan Zweig foi uma importante peça de propaganda favorável à extrema direita, num momento em que, por recomendação da Terceira Conferência Consultiva dos Chanceleres das Repúblicas Americanas, o Brasil havia acabado de romper relações diplomáticas com o "Eixo" (28 de janeiro de 1942).

Décimo Indício: Na tradução da carta de despedida distribuída à imprensa foram suprimidos dois períodos do texto original. "Desejo que vocês possam ver ainda a aurora que virá depois desta longa noite. Eu, impaciente demais, vou antes disso".Estaria Zweig referindo-se à sua esperança da derrota do nazismo. Por que até neste último documento, há necessidade de metáfora, e metáfora em um rascunho, já que o documento aparenta não haver sido revisado? E agora, qual a razão de se censurar esta última e reduzida peça literária? Quem o fez ? A quem interessaria a supressão? Por que?

Décimo primeiro indício: cartas foram enviadas por Stefan Zweig a varias personalidades da época, para a ex-esposa, cunhado e amigos, cartas que foram interpretadas como se tratando de uma despedida com agradecimentos. Houve alguma delas mais esclarecedora? Quem a recebeu?

 

Décimo segundo indício: Fala-se pela imprensa na época e posteriormente, em substâncias que teriam sido usadas no ato suicida; Formicida injetado ? Veronal? um forte veneno que teriam trazido da Europa?, alguma "coisa" que teria sido ingerida misturada a "água mineral Salutaris"; o que ? Afinal de contas o que foi constatado?, quais as evidências? Onde estão elas registradas com rigor? Por que não foi divulgada declaração oficial esclarecendo com precisão o assunto? E mesmo que fosse identificado o tóxico, o que ou quem os levou ao ato suicida?

 

Décimo terceiro indício: O presidente Getulio Vargas ordenou que a autópsia do casal fosse feita, de acordo com o noticiário da época. Quais as conclusões da autópsia ? Na época, concluiu-se que tal autópsia não fora realmente feita . O que teria impedido que ela fosse feita? Por que este assunto não foi melhor esclarecido? A quem interessaria que a autópsia não fosse feita?

 

Décimo quarto Indício: Por que realmente não foi Stefan Zweig enterrado em cemitério israelita? Por que a decisão foi tomada de enterrá-lo em Petrópolis? Quem tomou essa decisão? A quem interessaria que Stefan Zweig fosso enterrado em Petrópolis e até que ponto os registros da época realmente esclarecem? Sabendo-se haver Stefan Zweig escrito textos religiosos; por exemplo "O candelabro enterrado" e "Jeremias"; sabendo-se que Lotte era neta de rabino; para que não houvesse enterro de acordo com os preceitos religiosos judaicos, a única razão lógica possível é que Stefan e Lotte tivessem deixado um documento declarando que dispensariam a cerimônia religiosa e o enterro no cemitério israelita. Houve este documento? Se houve, por que jamais foi divulgado?.

 

Décimo quinto indício: Em artigo publicado no Correio do Povo, de Porto Alegre em 1° de maio de 1942, Respeito a Zweig, Rubem Braga nota a facilidade que um detrator de Stefan Zweig encontra em fazer apologia do Nazismo, prestando por escrito falso testemunho sobre o casal Zweig. A quem interessaria achincalhar publicamente Stefan e Elisabeth, depois de mortos?

 

Décimo sexto indício: Após a tragédia, nota-se que foram distribuídas três fotos do casal para a imprensa. É curioso que a disposição dos corpos é diferente em uma das fotos, é intrigante também que a pulseira do pulso esquerdo de Elisabeth tenha desaparecido na foto "diferente" onde o casal encontra-se lado a lado no leito de morte, de forma muito menos estética que no caso das fotos semelhantes, onde Lotte jaz como que aninhada sobre Stefan. As fotos semelhantes trazem: "A posição em que foram encontrados os corpos sem vida do autor de "Brasil, país do futuro" e sua companheira" e "O casal Zweig tal como foi encontrado em seu leito de morte". A foto "diferente" traz: "Como foram encontrados os corpos de Stefan Zweig e sua esposa", A mão esquerda de Lotte pairando acima da mão direita de Stefan sugere rigidez cadavérica em Lotte e que essa posição com altíssima probabilidade tenha sido resultado de manipulação dos corpos. Por que a posição dos corpos encontra se alterada nessa foto diferente"? Para onde foi a pulseira de Elisabeth? Outras tomadas com o casal na mesma posição registrada na foto diferente foram bastante divulgadas.

 

Décimo sétimo indício: Em sua biografia de Stefan Zweig, Donald Prater menciona que "de acordo com algumas fontes" o casal teria recebido algumas cartas anônimas os ameaçando alguns dias antes do suicídio.Onde estão essas cartas? Eles teriam comunicado este fato às autoridades? Quais as providências tomadas?

 

Décimo oitavo indicio: Donald Prater também menciona que um jornal brasileiro teria feito acusações fúteis a Stefan Zweig- ("Supostamente, Stefan não escreveria uma biografia de "Santos Dumont", de acordo com o detrator, para não entrar em conflito com a idéia dos americanos de que os irmãos Wright teriam a primazia"). Zweig teria ficado muito perturbado com esta acusação maldosa. O dia 15 de fevereiro, o domingo anterior ao domingo de sua declaração final, Zweig despendeu o dia elaborando resposta para o tal jornal, com o auxílio de Cláudio de Souza que o teria vertido para o português. A resposta nunca chegou ao jornal? Por que? Onde ela foi parar?

 

Décimo nono indício: Por que Stefan estaria vestido com roupas de sair? (bermudas e camisa de mangas curtas -de cor caqui- e gravata preta). Sendo que Lotte foi encontrada vestida por camisola, qual a razão de trajes para diferentes ocasiões neste casal? Teria ela "se matado" depois de Stefan? As substâncias usadas em um e no outro "suicídio" teriam sido diferentes (ele usado Veronal e ela Formicida?).

 

Vigésimo indício: Levando-se em conta que Stefan Zweig poderia manter algum contato com pessoas, até na noite de 21 de fevereiro , quando o plano de "suicídio" já andava bem encaminhado, por que Stefan não alertou alguém sobre a possibilidade de estar sob ameaça de uma maneira mais clara? Temeria ele por outras pessoas? Teria ele feito algum acordo com quem o pudesse estar pressionando? Ou teria Stefan querido deixar pistas de um mistério para dificultar a sua decifração?

 

Vigésimo primeiro Indício: Por que Lotte teria feito compras de mercado na véspera do projetado "suicídio" na manhã de 21 de fevereiro, em quantias de víveres acima do usual?

 

Vigésimo segundo Indício: até mesmo a disposição quanto aos haveres do casal ficou bastante organizada, nem o cachorrinho Plucky (Bluchy?) ficou esquecido; isto só ocorreria se a morte planejada incluísse ambos.

 

Vigésimo terceiro Indício: O declarante é o Sr. Sady Ferreira Barbosa; no certificado registrado de óbito, o primeiro nome de Zweig encontra-se ligeiramente alterado (Stephan e não Stefan); branco, escritor por profissão, consta estado civil casado, ser "filho legítimo" e último endereço: Rua Gonçalves Dias. 34. Local do óbito: Petrópolis, data: 23 de fevereiro de 1942, às 12 horas e trinta minutos. O atestado de óbito, em que se baseia, teria sido assinado pelo Dr. Mário M. Pinheiro, médico. A causa mortis: ingestão de substância tóxica- suicídio (não há especificação sobre o tóxico).Por que a informação é tão sucinta e incompleta? Não teria havido ninguém mais, entre todos os conhecidos e íntimos de Stefan Zweig, que poderia ter-se apresentado para completar os dados? Teria havido algum impedimento que bloqueou a iniciativa desses amigos?

Por que tem sido tabu absoluto reabrir-se uma discussão sobre os fatos e a dúvidas? Por uma dessas ironias da vida, a solicitação de cidadania brasileira de 23 de novembro de 1940 foi aprovada em sessão póstuma, um triste contraste com a desburocratizada concessão do registro de óbito.

A morte de Stefan Zweig e Elisabeth deixou o mundo da época em perplexidade, aventou-se largamente, então, que Stefan e Lotte haviam decidido pelo suicídio por acreditarem no fundo que a vitória do nazi-fascismo era inevitável. A quem interessaria tal idéia? O fato de haver uma preocupação de Stefan em deixar seus assuntos em ordem, incluindo-se material inédito, e até haver deixado seus lápis apontados, contradiz a idéia de futilidade em se tentar fazer qualquer coisa, foi um batalhador até o fim. Os vinte e três indícios de discrepância de fatos precisam ser respondidos com inequívoca precisão. Muitas pessoas de grande dignidade acreditam que "o suicídio" foi conseqüência de sentimentos de tristeza que o casal haveria tido ao receber notícias da Áustria, sobre o destino de todos aqueles e de alguns daqueles que viviam sob a opressão da tirania. Crê-se também que Zweig por sua coerência e consistência pacifista contrário a todos os tipos de violência, não poderia aceitar viver em um mundo onde a maldade reinava e a guerra parecia sempre inevitável. Há aqueles que valorizam, como único indício importante, que Stefan tinha uma natureza sensível, "simpatizante" com o suicídio como um meio de autônoma e efetivamente controlar o destino da vida. Há aqueles que vêm os últimos anos de vida de Stefan Zweig como extremamente cansativos e frustrantes, na sua dedicada luta para ajudar com seus parcos recursos os refugiados da opressão (ainda, dias antes de sua morte estava muito interessado em criar uma publicação para ajudar e orientar as vítimas em exílio). Vivera mal acomodado, sem um lugar provido para o seu trabalho e reflexão; infelizmente, sempre visceralmente atacado por membros da "Quinta Coluna" pelo mundo afora, que questionavam o seu direito de viver e de pensar. Naqueles tempos, suicídios semelhantes ao do marechal Erwin Rommel foram arranjados para dar uma impressão crível de realidade indiscutível e, só posteriormente, novas versões sugeriram fortemente, indução ao suicídio. O que realmente aconteceu com Stefan Zweig e Elisabeth? O mistério permanecerá para sempre ou poderá ser desvendado? O que impede que ele seja? Onde agora encontram-se, os dois de qualquer forma sabem que os culpados pela sua angústia e pela felicidade em dela se livrar, através do ato "suicida", só poderão ser confrontados pela justiça não terrena. Mas, paira uma podridão no ar denso da terra, a podridão que exala da impunidade e do conceito covarde de que existe o "direito à impunidade", o que deverá continuar a ameaçar a vida de milhões de seres humanos de todas as raças e credos sem exceção. A humanidade deseja o crime esclarecido! "Não existe crime perfeito, somente crime mal investigado."

 

 

 

A morte de Sócrates, paralelos a serem traçados com a de Stefan Zweig.

 

"... Sócrates recusou-se a fugir, podendo fazê-lo, é um fato histórico comprovado. Do ponto de vista prático, Critão tinha naturalmente razão: deixando-se condenar e depois matar, Sócrates condenou também o movimento socrático a um rápido declínio: os seus amigos não conseguiram vingar a sua morte e dividiram-se em muitas seitas pequenas ou escolas particulares, sem real força política; a este respeito, a ação iniciada por Anito (seu principal detrator) deve ser considerada um êxito total. Mas, de um outro ponto de vista, Anito estava irremediavelmente vencido perante o eterno tribunal da história espiritual da humanidade" (no jogo dialético: a liberdade de pensar e discernir versus a obediência cega a dogmas e ao pensamento arregimentado).

"Chegou o carcereiro, um homenzarrão rude, mas não ruim. Disse a Sócrates:

- Não te encolerizes contra mim como fazem todos quando lhes venho anunciar que chegou a hora: eu não tenho culpa do teu destino e limito-me a cumprir as ordens dos Onze.

Sócrates tranqüilizou-o com doçura e o homenzarrão estava claramente comovido; repetia a toda gente que nunca em tantos anos encontrara um prisioneiro tão gentil e paciente, de tal maneira que no fim Sócrates teve também de o consolar para que fizesse, como dissera, o seu dever."

Critão o amigo que o acompanhava protestou e quis pospor o ato de execução para mais tarde e após alguns últimos prazeres, o que implicaria em dar propina ao carcereiro. "E Sócrates teve de pacientemente obrigar o amigo a refletir como tudo isso, aquele agarrar-se desesperadamente às últimas gotas de vida, era indigno dele e das palavras que antes havia proferido. O carcereiro foi-se embora a chorar: como gostaria de fazer por aquela vez uma exceção, mesmo sem receber nada; mas, Sócrates pedira-lhe que lhe trouxessem o veneno. Pouco depois chegou um servo dos Onze com a taça de cicuta, meio utilizado pelos atenienses (meio não doloroso) para as condenações à pena capital por delitos não particularmente graves ou ferozes. Sócrates perguntou o que devia fazer. O homem do veneno explicou-lhe que depois de haver bebido a mistela deveria caminhar um pouco, até sentir as pernas pesadas; depois deitar-se e esperar que o veneno efetivasse a sua obra; não sofreria, podia ficar tranqüilo, ele tinha prática daquelas coisas e não era a primeira vez que preparava a poção.

Então Sócrates tomou a taça com muita alegria, sem tremer nem mudar de cor ou expressão, mas, segundo o seu hábito olhando fixamente o homem com aqueles seus olhos de vaca: Que dizes?- perguntou.- É permitido com esta bebida oferecer uma libação a um deus? É permitido ou não? Respondeu o servo: - Oh Sócrates, nós só preparamos a quantidade que julgamos necessária beber.

- Compreendo, disse Sócrates. Mas, rogar aos deuses que a passagem para o além seja feliz pode-se e é bem. É isto que rogo, e que assim seja. - Dito isto bebeu de um só trago, sem dar sinais de repugnância, serenamente (a cicuta tem um sabor amargo insuportável)."

Com serenidade Sócrates consolou os amigos que não ocultavam o pranto, com firmeza censurou-os: "devemos acabar com palavras de alegre augúrio. Sede calmos e fortes".

- "Escutando-o, envergonhamo-nos e travamos o pranto. Ele deu umas voltas e quando disse que sentia as pernas começarem a pesar deitou-se de costas. O que lhe tinha dado a poção começou a apalpá-lo e a examinar-lhe os pés e as pernas; num certo momento apertando-lhe fortemente um pé perguntou-lhe se sentia. E ele respondeu que não. Depois apertou-lhe as pernas e assim correndo a mão pelo corpo acima nos mostrava como ele esfriava e se retesava. E dizia que quando chegasse ao coração, morreria. E já todo o abdome estava frio quando se destapou - porque se tinha se tapado (coberto o rosto com suas vestes para não demonstrar sofrimento se tal ocorresse)- e disse estas últimas palavras: Critão, recorda-te que devemos um galo a Esculápio. Dá-lho, não te esqueças. E Critão: -Assim será feito, mas vê se tens alguma outra coisa a dizer. - A esta pergunta nada respondeu; um momento depois teve um estremecimento, o homem destapou-o: tinha os olhos abertos e fixos".Critão fechou-lhe a boca e os olhos.

..."Assim Sócrates se afastava do mundo com simplicidade, como com simplicidade havia vivido, sem deixar atrás de si dívidas, nem para com os deuses nem para com os homens".

 

 

Comparações razoáveis:

Alguns paralelos podem ser traçados com a morte de Stefan Zweig, no entanto, não há a clareza de um julgamento ao qual o segundo pudesse haver sido submetido com direito a defesa, direito amplamente concedido a Sócrates por uma sociedade pré-científica, mas, por outro lado apesar do seu primitivismo, menos hipócrita. Stefan Zweig teve seus livros queimados até mesmo no Novo Mundo, foi impedido de publicar no idioma de sua língua materna e tentando o desterro, o que Sócrates não aceitou como pena substitutiva (Sócrates não queria enfrentar a intolerância entre estrangeiros), encontrou a morte e o esquecimento no Novo Mundo. Zweig não foi obrigado a tomar cicuta de forma oficial e ostensiva; no entanto, mergulha ele na morte com grande alívio como o atribuído a Sócrates. Apesar de bem mais recente o que possa haver tomado Zweig é absoluto mistério. Mas, o seguinte não ocorreu com Sócrates; Zweig recebe imediatas homenagens póstumas oficiais e passa para a história como um grande escritor, afinal de contas um libertário humanitário e pacifista dificilmente poderia, de forma também oficial nesta era, ser considerado um corruptor da juventude. Mas, seu poder de influir permaneceu até o final deste século ofuscado pela perplexidade criada em torno de "seu gesto" e pela mensagem: "ser favorável a direitos humanos é um ato de fraqueza e de debilidade sentimental; nada se pode contra o poder avassalador do Eixo". Hoje temos a clareza que existe um mistério que foi insondável, já que para não se ferir suscetibilidades, perguntas propositadamente deixaram de ser feitas durante seis décadas. No entanto, com um número considerável de indícios de discrepâncias referentes à morte de Stefan Zweig e de sua esposa, Elisabeth Charlotte Zweig, nos é possível dizer que o assassinato é a possibilidade mais plausível.


 

 

 

 

 

 

" A morte de Zweig é o maior escândalo do silêncio político na história da literatura."

Professor Doutor Jacob Pinheiro Goldberg.

 

 

STEFAN ZWEIG - SUICÍDIO OU ASSASSINATO

 

No dia 16 de julho de 1998, a jornalista alemã, Diana Canneti, da rádio de Dusseldorf, entrevistou o psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg a respeito da morte do escritor Stefan Zweig. Nessa entrevista, Goldberg contesta a versão oficial do suicídio de Zweig, amparando-se na análise psicológica e lendo os últimos textos do escritor como mensagens que revelam o assassinato. Para Goldberg a última carta, dando notícia de seu suicídio, teria sido forjada pela polícia política, vazada no seu característico estilo, sem qualquer relação com a estética do escritor.

 

DC - Em primeiro lugar, eu gostaria que o Sr. fizesse uma apresentação de sua pessoa.

JPG - Eu sou psicanalista e advogado. Esta formação intelectual me levou à suspeita relacionada com a versão oficial da morte de Stefan Zweig. Essa versão nunca me convenceu. Eu nasci no interior de Minas Gerais, em Juiz de Fora, em 1933. Meus pais eram judeus poloneses imigrantes. Uma vez, meu pai conversando com o rabino Tzekinowski, lhe disse: "A Gestapo é capaz de fazer qualquer coisa", isso em relação ao crime cometido contra Stefan Zweig. Na minha opinião, houve uma lavagem cerebral e ciladas circunstanciais que conduziram de alguma maneira à morte dele e de sua esposa. Eu não tenho a menor dúvida de que a Gestapo, com a colaboração da polícia política de Getúlio Vargas, ensejou, provocou a morte de Stefan Zweig e de sua mulher.

 

DC - Eu gostaria que o Sr. falasse sobre a questão do suicídio forjado.

JPG - Existe uma longa tradição política e carcerária no sistema penal, no sistema policial brasileiro, segundo a qual os prisioneiros políticos e mesmo presos comuns são mortos e depois a polícia alega que houve suicídio. Isso aconteceu em pelo menos dois grandes crimes: Iara Iavelberg e Wladimir Herzog, que eram judeus, não por acaso. O que, aliás, aconteceu também na Argentina. Na Argentina, freqüentemente, os intelectuais judeus de esquerda, foram mortos dessa maneira.

 

DC - Quer dizer, no caso de Stefan Zweig houve talvez uma pressão sobre ele que o fez suicidar-se ou na verdade foi um assassinato.

JPG - Mas eu não acho que ele se suicidou. Eu acho que ele foi assassinado. A meu ver o que aconteceu foi o seguinte: obrigaram-no a escrever a carta em que ele confessa o suicídio. A Gestapo e a polícia política brasileira sabem perfeitamente como fazer para obrigar uma pessoa a escrever uma carta desse tipo. Isso é muito fácil para eles, sempre foi muito fácil. Enfim, ele foi obrigado a escrever essa carta que não é da lavra, da autoria psicológica e intelectual de Stefan Zweig. Essa carta é uma farsa montada. Trata-se de uma das farsas mais absurdas da história penal e policial brasileira.

 

DC - Falar desse assunto é inconveniente para os alemães, os judeus, e para cultura e o governo brasileiros?

JPG - Esse assunto acabou se transformando numa questão tabu.Todas as vezes que eu pretendo levantar essa questão - e eu sou conhecido no Brasil e no talvez no exterior, como um intelectual investigador. Eu levanto questões polêmicas, e todas elas encontram veículo fácil, através de jornal, revista, televisão, na universidade e assim por diante. Esta questão é uma questão tabu porque não interessa. Ao governo brasileiro por motivos evidentes não interessava; ao governo alemão e, principalmente, a cultura alemã não tem interesse nisso, pois está acomodada com a idéia de que Stefan Zweig se suicidou, e, portanto foi um fraco.Na verdade é exatamente o contrário. Ele foi um gênio intelectual que deixou todos os rastros e todos os elementos para que no futuro a gente chegasse a essa conclusão. O último escrito dele é o Scharnovelle, o Jogo de Xadrez, no qual, na minha opinião, cada linha revela a história que estava sendo escrita e que iria até o fim, até a morte. Para um bom entendedor quem ganhou essa jogada de xadrez não foi a Gestapo, foi Stefan Zweig. Mas cedo ou mais tarde essa verdade vai aparecer.

 

DC - Eu estou de acordo em relação à questão da fraqueza ou força do escritor, e também sempre li essa referência à fraqueza final, na qual eu também não acredito.

JPG - Exatamente. Principalmente se pensarmos em "Candelabro Enterrado", que transmite uma idéia de resistência. Mesmo a aproximação dele com Freud é uma manifestação de resistência. Essas pistas subjetivas (e textuais) se amparam num raciocínio analítico e não num raciocínio simplista.

 

DC - Por exemplo, antes de morrer ele apontou todas as pontas dos lápis que tinha.

JPG - Eu não sabia disso, mas é muito significativo. Eu acho que ele plantou, como um grande jogador de xadrez, todas as pistas. Pouco antes da morte, ele joga uma partida de xadrez com Feder, e escreve uma novela sobre o jogo de xadrez, que sempre foi considerado, quase que um dos jogos básicos intelectuais do princípio chamado "pilpul", do Talmud, que é o principio do 1 e 2. Enfim toda a simbologia do jogo de xadrez, na novela que ele escreve, revela o jogo do poder e força entre ele e o nazismo.

 

DC - O jogo de xadrez tem como base o princípio do pilpul?

JPG - O "pilpul" é uma metodologia de aprendizado do Talmud, que é um aprendizado binário: sim, não, sim, não, e que é também o principio do computador, da informática. Tanto é que o prêmio Nobel de física, Norbert Wiener, que criou a informática, escreveu um livro chamado Golem e Cia, no qual ele diz que toda a inteligência judaica se manifesta através desse jogo binário, que é o princípio do jogo de xadrez. Quer dizer, o que aconteceu foi: o nazismo jogava com o terror, a violência, e Stefan Zweig respondeu com o jogo de xadrez.

Eu quero deixar claro que tudo isso que eu estou dizendo não é gratuito, não é um mero delírio, não é uma aventura intelectual. Simplesmente eu penso como Stefan Zweig pensa. A minha formação intelectual e psicológica é muito parecida com a dele, então para mim foi fácil, na minha opinião, montar o quebra-cabeça.

 

DC - Alberto Dines escreveu um livro no qual ele aprova o fato do suicídio e você esta contradizendo-o. Poderia argumentar sobre isso?

JPG - Acho que ele ficou mais preocupado com a documentação histórica do que com o estudo psicológico, e essa documentação histórica, na minha opinião, é muito falha, além de razões pessoais delicadas.A última carta dele é o principal argumento usado para sustentar a hipótese do suicídio, mas esta carta começa como uma redação jurídica, e não como uma redação literária. Stefan Zweig não era policial, era um escritor e um escritor não usa essa fórmula que é cartorária, é de tabelião: "Antes de deixar a vida por vontade própria e no pleno exercício de minhas faculdades mentais..."Isto me deixa indignado. Só essas linhas seriam suficientes para qualquer criminalista do mundo, qualquer um, suspeitar deste documento. Mas não basta isso, o segundo e o terceiro parágrafos são contraditórios. No segundo parágrafo ele diz que o Brasil é o país certo para ele reconstruir sua vida, e no terceiro parágrafo ele diz que desiste da vida? Isso aparentemente poderia ser considerado uma simples contradição, mas não na mão de um intelectual que está escrevendo um documento que sabe que é um documento para a história. Finalmente, aquilo que também é muito importante, é a questão do rabino Mordecai Tzekinowski, que, literalmente objetou ao suicídio.

 

DC - Antes disso, podemos trabalhar em cima da informação de que Stefan Zweig conhecia bem a psicanálise, e também o judaísmo e sabia que o suicídio é tabu.

JPG - Durante muito tempo alegou-se que Stefan Zweig era afastado do judaísmo. Na verdade, ele não aceitava o judaísmo ortodoxo, o judaísmo formal, ritualístico. Mas ele era um homem profundamente ligado ao espírito do judaísmo, do chamado judaísmo germânico, que é o judaísmo moderno, de Freud, de Kafka, e assim por diante. Acontece que uma das leis rituais mais importantes do judaísmo é a proibição de enterrar um suicida no campo santo, no cemitério judeu, a não ser num espaço restrito. Ora, no dia 20 de fevereiro, Stefan Zweig escreveu uma carta dizendo que quando morresse ele gostaria de ser enterrado num cemitério judaico. É evidente, é óbvio, que com isto ele estava fazendo uma denúncia, ele estava dizendo para o mundo e para os judeus e não judeus: "eu não vou me suicidar, eu não me suicidei, eu fui assassinado". Ele estava dizendo isso no dia 20 de fevereiro, quando ele pedia para ser enterrado num cemitério judeu. Por que a polícia política não concordou com o pedido do rabino ortodoxo de enterrá-lo no cemitério judeu? O rabino Tzekinowski disse expressamente: "Ninguém sabe o que aconteceu nos últimos momentos". Na minha opinião, o que aconteceu é claro. Petrópolis onde ele morava, era um centro de imigrantes alemães, inclusive com células integralistas. Não é possível imaginar que agentes da Gestapo não estivessem próximos ao Sr. Stefan Zweig e à mulher dele. Eu morava há duas horas de viagem de Petrópolis, e quando foi dada a informação de que ele tinha morrido todos os judeus brasileiros imediatamente suspeitaram de assassinato. A última carta dele nunca convenceu o judeu médio brasileiro, mas a comunidade oficial judaica, na minha opinião, resolveu permanecer em silêncio.

 

DC - E quanto aos outros judeus que "foram suicidados"?

JPG - Os dois grandes casos mais próximos são de Iara Iavelberg, que a polícia diz que se suicidou, que uma entidade judaica diz que se suicidou - isso é importante -, e que hoje está claro que não se suicidou. Ela foi assassinada. Outro caso foi o de Wladimir Herzog, que a polícia disse que ele tinha se enforcado, e hoje esta claro que foi assassinato.

 

DC - E como foi o enterro de Stefan Zweig?

JPG - O enterro deles foi em Petrópolis, contra a vontade manifesta na carta que eu citei do dia 20 de fevereiro. O governo disse naquela ocasião que não se sabia da carta, que só apareceu depois. Tudo isso é muito esquisito, muito estranho. Muitos documentos dele desapareceram. Stefan Zweig foi enterrado em Petrópolis, como se tivesse sido, na minha opinião, uma vitória do nazismo. Eu acho que é necessário tirar o corpo dele e levá-lo para o cemitério judeu do Rio de Janeiro.

 

DC - Que discussão houve entre o rabino e a polícia brasileira?

JPG - O rabino Tzekinowski pediu para o delegado levar o corpo dele para o cemitério do Rio para enterro regular. Era um rabino ortodoxo que jamais pediria isso, se ele fosse um suicida. A meu ver, o que se estava discutindo não era só uma questão religiosa e cultural. Eu acho que a polícia tinha medo de deslocar o corpo dele para o Rio, e acabasse aparecendo a hipótese do assassinato.

 

DC - E o que disse o rabino?

JPG - O delegado de polícia disse: "Por que vocês judeus, querem levá-lo para o cemitério judaico se ele era distante do judaísmo?".Quem é o delegado de polícia para resolver esta questão? Então o rabino respondeu: "Quem sabe o que aconteceu nos últimos momentos".Essa é questão fundamental. Essa é a questão chave.

 

DC - E qual foi a opinião da poeta Gabriela Mistral?

JPG - Ela achou que ele estava calmo demais. Eu acho que isso em criminalística, mostra que foi dada a ele a dose de veneno perfeita para morrer.

 

DC - Em 1933, o que aconteceu com os livros de Stefan Zweig, quando eles foram queimados. O que ele disse?

JPG - Ele respondeu de uma maneira, mais uma vez, irônica e inteligente, porque ele traduziu o libreto de uma opera cômica em Londres, chamada "A Mulher Silenciosa".Ele sempre foi irônico, inteligente e sutil. Stefan Zweig deixou as mensagens com sutileza. A mensagem dele é a resposta de um jogador de xadrez.

 

DC - Você acha que houve colaboração entre a polícia brasileira e a Gestapo, entre Filinto Müller e Albert Speer?

JPG - O maior chefe comunista do Brasil se chamava Luis Carlos Prestes. A mulher dele era uma judia alemã. Filinto Müller prendeu essa mulher e a entregou para a Gestapo. Tudo isso na mesma época. A colaboração entre o DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social) e a Gestapo era uma colaboração institucional, formal, e Filinto Müller era filho de imigrantes alemães.

 

DC - E como Albert Speer reagiu à morte de Stefan Zweig?

JPG - Albert Speer disse que Stefan Zweig era um dos principais inimigos do regime nacional-socialista, e que tinha sido uma grande alegria para o nazismo a morte dele. Isso foi dito depois de 1945. Essa frase é clara. Stefan Zweig era o principal inimigo cultural do nazismo. Era necessário que ele morresse se suicidando para levar pessimismo ao judaísmo e para os anti-nazistas. Era fundamental. Era o jogo de xadrez.

 

DC - Stefan Zweig disse: "Gota a gota eu vou lutar contra o nazismo". Você pode me dar o exemplo no texto.

JPG - Em 1940, ele deu uma entrevista na rádio de Paris. O título era: "Para os que não podem falar". Nessa entrevista, ele dizia que daria o sangue dele gota a gota se pudesse transformar em palavras, em apelo, em prece. Na novela do jogo de xadrez, ele duas vezes fala em perda de sangue e no oferecimento até a última gota para o triunfo que ainda não podemos entender. Está muito evidente a relação.

Eu quero dizer que acho que nós temos uma dívida com a inteligência de Stefan Zweig. A dívida que nós temos é a de respeitar a inteligência dele. Nós não podemos continuar com esse silêncio e com essa hipocrisia de ficar fazendo festinhas e comemorações relativas ao aniversário de morte etc. Nós temos que respeitar a inteligência dele e as mensagens que ele mandou que, ao meu ver foram: em cima das aparências pode triunfar a verdade profunda, a sabedoria, a sagacidade do espírito.

 

DC - Você pode me falar ainda como vê isso de maneira jurídica, quanto a última carta que teria sido ditada?

JPG - Esta carta, como eu disse anteriormente, não é a que seria escrita espontaneamente por intelectual e um escritor como Stefan Zweig. Essa carta foi escrita por um policial, um tabelião. Com as contradições, tanto em relação ao conteúdo como à forma, essa carta não tem nenhum valor, e o que deveria prevalecer é a carta que ele escreveu no dia 20 de fevereiro pedindo para ser enterrado no cemitério judeu. Portanto, na verdade, esta carta anterior é uma denúncia indireta do assassinato.

Eu quero dizer que esta é a primeira vez que eu estou me debruçando com a possibilidade de fazer uma manifestação clara, direta e explícita da minha tese sobre a morte de Stefan Zweig. Eu vou aproveitar este material para dirigir uma petição à polícia do Rio de Janeiro pedindo o deslocamento do corpo dele para o cemitério judeu.

 

DC - Qual sua relação pessoal com o caso?

JPG - Eu era uma criança quando isto aconteceu. Mas os meus pais eram judeus poloneses e a família deles foi toda morta pelos nazistas. Esse drama de Stefan Zweig atingiu muito os meus pais, e até o fim da vida eles reclamavam e diziam que não aceitavam essa versão do suicídio. Então para mim é um resgate histórico trabalhar para averiguar a verdade histórica. Eu acho que este é um triunfo contra o nazismo: desmascarar o crime.

 

 

 

SEGUNDA MORTE DE STEFAN ZWEIG

 

Stefan Zweig suicidou-se ou foi suicidado? Aparentemente uma questão ultrapassada. Mas como escreveu Janet Malcolm, em "Limites da Biografia", o tempo alivia e suaviza, mas a história escava e faz sangrar. Atrás de uma convicção íntima resolvi mexer no vespeiro da morte de Zweig. Jogando com elementos de minha formação profissional. Advogado, psicólogo, doutor em psicologia, assistente social, tendo coordenado curso de "Psicologia e História", em nível de pós-graduação na U.S.P. e professor convidado entre outras instituições da University College London School, entristeço-me eis que como disse Hughes, na exploração jornalística do suicídio da poeta Silvia Plath, "ao atacar a raposa, tenho sido mordido por meus cães".Realmente, parcela da comunidade judaica brasileira e a mídia, na época, com raríssimas exceções, aceitaram a versão oficial do suicídio. Era o tempo da ditadura Varguista e do nazismo vitorioso. O período em que a mulher de Prestes foi expatriada para morrer em campo de concentração; em que a colaboração da polícia política alemã e brasileira era íntima. A "morte morrida"era o exercício do sadismo de um Brasil primitivo.

Inquieto nas minhas heranças e atavismos, as explicações óbvias e as narrativas piegas não me satisfazem. Judeu Errante e mineiro desconfiado, Thorah e pão-de-queijo. Nem eu mesmo sei porque (mas desconfio e muito) resolvi, Sherlock, investigar o cômodo e oportuno (para tanta gente) "suicídio"de Lotte e Stefan.

Para tanto - requeri na 105o. D.P. de Petrópolis a re-abertura do inquérito policial sobre a morte de Stefan Zweig e sua mulher. Realmente, sobre o alegado suicídio, pairam dúvidas que precisam ser investigadas e esclarecidas. Por exemplo:

1) Não foi realizado o inquérito policial, conforme exigência da legislação pertinente.

2) Fotos discrepantes do encontro dos corpos de cadáveres mostram que a polícia modificou suas posições, inclusive subtraindo uma pulseira do braço de Charlotte, e acrescentando um cobertor... Estas divergências gritantes foram comparadas pelo jurista Dr.Mario Simas àquelas observadas, similarmente no caso Marighela, denunciadas pelo causídico.

3) Getúlio Vargas ordenou a autópsia , na residência de Zweig ( Agência Meridional). Em seguida, notícia de que a autópsia foi realizada.Dia seguinte, a polícia afirma que a autópsia foi dispensada . A Agência Meridional publica que a polícia diz que foi precedida a análise de saliva .

4) O "Correio do Povo" diz que o casal morreu, com injeção de formicida. "O Globo" com poderoso veneno que Stefan Zweig trouxe da Europa. Biógrafos falam em Veronal. O atestado de óbito registra "substância tóxica". No "Diário de Notícias" a polícia diz que os corpos foram encontrados vazios e evaporados(!).

5) A declaração final de Zweig que os partidários do suicídio usam leva o título em português e o texto em alemão (sic). A tradução suprimiu dois parágrafos no texto distribuído pelos jornalistas da ditadura em que Zweig manifesta esperança na derrota do nazismo. Cláudio de Souza foi acusado pela imprensa de tê-lo feito por seu filo-fascismo , ao verter do francês a tradução do alemão de Leopoldo Stern. Aliás, Stern é o amigo íntimo que, perplexo, afirma que nunca Stefan Zweig afirmou a intenção de matar-se . Pelo contrário. E por que as cartas de anúncio de suicídio não o incluem como destinatário?

6) Em nenhuma carta Zweig diz que sua esposa tem a intenção de secundá-lo.

7) As cartas são datadas do dia anterior do suicídio, o que é atípico em procedimentos desta natureza.

8) Na carta final se usa a expressão nazista reservada aos judeus de "sem-pátria", quando Zweig tinha a cidadania britânica e estava se naturalizando brasileiro. O estilo é de um escriba cartorário e não do maior literato do seu tempo.

9) Enterro no cemitério de Petrópolis e não em cemitério judeu como era vontade explicitada de Zweig.

10) Rubem Braga21 em artigo publicado no "Correio do Povo", afirma que "Zweig, um homem que Hitler matou", em consonância com artigo de Celestino Silveira22 que acusa a "5a. Coluna", os colaboracionistas brasileiros do Eixo por sua morte.

11) Donald Prater, na melhor biografia de Zweig diz que o mesmo recebeu cartas anônimas, ameaçando de morte o casal. Houve investigação? Quem ameaçou, matou? O editor de Zweig, que fez coro com os insultos contra mim, diz que Zweig não tinha inimigos. Hitler dois meses antes da morte do escritor afirmou que Zweig era o maior inimigo do nazismo, no mundo. O editor promete a re-edição das obras completas zweigianas, certamente, outro sucesso de vendas.

12) A campanha dos jornalistas integralistas e simpatizantes, sistemática, contra Zweig, de anti-semitismo latente, negada pelo testamenteiro de Zweig que me definiu como "imbecil".Este Sr. considerado elemento-chave na tese de suicídio, em entrevista de 20/03/99, declara que os integralistas jamais fizeram pressão sobre os judeus(!). O padre Álvaro Negromonte, em 1942 escreveu sobre Zweig: "Foi uma atitude covarde. O judeu que passara a vida ganhando dinheiro com livros fáceis e medíocres, desfrutando a existência folgada, divorciando-se de uma e casando-se com outra terminou a vida ingerindo veneno".

Minha iniciativa neste episódio conta com o apoio entre muitos do Doutor Sagrado Lamir David, Toxicologista e Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora, Doutor Alberto Noronha Dutra da University College London Medical School e Doutor Silvio Saidemberg, professor de psiquiatria e fellow pela Universidade de Rochester, E.U.A.

Por esta iniciativa fui agredido, moralmente. Bashevis Singer em "Gimpel, o tolo", diz que o personagem está condenado ao desconforto por ter aprendido a respeitar a verdade e seu íntimo.

Ainda agora, com o revival da morte de P.C. Farias se registra a importância da discussão de hipóteses e suspeitas que valorizam o exercício do contraditório e a substituição da histeria pelo raciocínio científico. Curiosamente, nos dois casos são fotos que desmontam a trama.O escândalo do silencio e do tabu foi rompido. Zweig não é mais o judeu sonso e covarde que se matou e sim, o resistente heróico do espírito moderno, a inteligência heterodoxa, o correspondente de Freud assassinado pela desrazão.

 

Biografia

 

Romancista, biógrafo, ensaísta, novelista e historiador. Stefan Zweig nasceu em Viena, Áustria, no dia 28 de novembro de 1891, segundo filho de Moritz Zweig e Ida Brettaner Zweig. Faleceu no Brasil, em Petrópolis, Rio de Janeiro em 23 de fevereiro de 1942.

Desde cedo mostrou vocação para as letras, para uma carreira artística. Formado em línguas e Literatura Neolatinas, Filosofia e Germanística. Terminados os estudos, entregou-se às inclinações literárias. Concebeu sua primeira obra, um livro de poemas "Silberne Seiten" aos 19 anos.

Aos 23 anos, já tinha publicado uma coletânea de versos, um volume de novelas, uma tradução de versos de Verlaine e obtido prêmio de poesia Bauernfeld. Foi tradutor de Roman Roland, de quem foi amigo.

O seu primeiro trabalho como dramaturgo foi "Tersite", representada com sucesso em numerosos teatros alemães e austríacos. Produziu também outras peças como "O Comediante Metamorfoseado" e "A Rainha do Mar", trabalhos apreciados pelo público e pelos diretores de teatro.

Foi fundador da Biblioteca "Mundi", onde fez editar as obras-primas da literatura mundial. Foi colaborador de muitos jornais e revistas.

Em 1915, começava a escrever o drama bíblico "Jeremias" um apelo pacifista, apresentado pela primeira vez em Zurich durante a Primeira Guerra Mundial. Escreveu "24 horas na Vida de Uma Mulher", sua primeira obra traduzida para o francês. Em 1936, coletou impressões sobre o Brasil, o que resultou num livro publicado em 1941, "Brasil: País do Futuro".

Em 1941, residindo nos Estados Unidos, termina seu livro sobre Américo Vespúcio e nesse mesmo ano, trabalha na sua autobiografia.

Stefan Zweig viveu boa parte de sua vida em Salzburg, onde juntamente com sua esposa Friderike, tradutora de numerosas obras francesas e inglesas, era visitado por muitos artistas e escritores.

Com o início das tensões provocadas pela expansão nazista e início da Segunda Guerra Mundial, Stefan muda-se da Áustria e inicia uma longa jornada por países europeus, pela América do Norte e Brasil.

Em 1939, casou-se com Elisabeth Charlotte Altmann.

Em 23 de novembro de 1940, junto com sua segunda esposa, procurou o Instituto de Identificação do Rio de Janeiro, com o intento de fixar residência no Brasil. Em 17 de setembro de 1941, muda-se para Petrópolis, onde permanece até o dia 23 de fevereiro de 1942, data de sua morte.

Na época em que morreu era o autor mais lido do mundo.

 

 

 

Sobre os autores:

 

 

Marília Librandi Rocha - Doutora em Literatura pela Universidade de São Paulo.

 

Sagrado Lamir David - Escritor, médico e ex-professores de Farmacologia da Universidade de Juiz de Fora.

 

Silvio Saidemberg - Psiquiatra, especialista pelo American Board of Psychiatry and Neurology-Binghamton Psychiatric Center.

 

Jacob Pinheiro Goldberg - Doutor em Psicologia, psicanalista e advogado, autor de Monólogo a dois.