INDICE
1. Judeus na Manchester Mineira
2. De Ostriwiecz para Juiz de Fora
3. O Nome
4. Ao que ela comenta
5. Jornal “O Volante”
6. O cinema
7. Grambery
8. Reis
9. A muitas Juiz de Fora
10. Em A Órgea e a Calhandra
11. Cultura da Agressividade
12. Psicólogo requer melhor comunicação com o Poder
13. O Artista e a Pscologia
14. Conferência na USP homenageia Sobral Pinto
15. Universidade de São Paulo. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.
16. Czeslaw Milosz – Além da Vida
17. Réquiem para Czeslaw Milosz
18. Sobral Pinto, pscologia do rebelde
19. A mente de Itamar
20. Prefeituráveis no divã
21. O dono do divã
22. A Propósito de casamento misto. Uma oferta judaica à humanidade, corporificada no amor não no ódio.
23. Te contei prorrogação e psicopatologia
24. Feitichismo e Solidão em roubo de peças íntimas. Polícia encontra centenas de calcinhas no apartamento de um técnico em eletrônica.
25. Sempre ao domingos
26. E ninguém quer representar o nada
27. Hamleto o mito e o real numa sociedade em crise
28. Inconsciente, mas só longe da Polícia
29. Contra-pé na bunda
30. A vigilância, a segurança, a liberdade
31. O tabu das raízes judaicas do Brasil
32. Psicologia de massa
33. Respondendo inquérito criminal
34. Romário e Felipão no divã. Um caso perdido
35. Goooool e orgasmo
36. Voto, manifesto de um estado babá?
37. Triste vergonha do psicólogo ao ver a crise de um hospital
38. Psicologia da pomba-gira
39. A TV Globo e o Neonazismo
40. Psicólogo Brizola é um mistagogo
41. psicólogo analisa candidatos José Luiz Teixeira
42. Psicanalista defende o fim do folclore
43. Projeção de Futuro
44. Advogado pede apoio da OAB para jornalista
45. Ser lobo hoje
46. Pinochet no divã
47. Goldberg, o nosso futurólogo, comenta o Brasil do ano 2000
48. Paixão de Cristo Fonte por um dia
49. Falsos amigos
50. A Paixão recebe elogios e críticas
51. Casa do Big Brother é um lugar seguro
52. A Paixão Parte II
53. Judeus Camões. Jacob Pinheiro Goldberg
54. A Paixão choca religiosos e psicólogos
55. Jesus não aconselhável para menores
56. AXL Rose é um bundão
57. Psicologia e Transcendência (I)
58. Freud e a perspctiva correta
59. João Gororoba, que chegou ao que chegou, ora vejam!
60. AU Brésil
61. A Pista no divã
62. Opinião
63. As faces do medo
64. A droga do Superman
65. Pré – conceito ( A falta de Sensatez)
66. A Globo e o chapeuzinho vermelho
67. Para a Sociedade Chevra Kadisha
68. Paranóia e Poder
69. J. Quadros, Jardim Acapulco Guarujá, 11.400
70. Sob suspeita
71. Monteclaro César correspondente
72. Atitude corajosa de um candidato paulista repeliu com energia as ameaças da cúpula reacionária de seu partido.
73. Comportamento. O que há por trás do tenista
74. Luana Câmara – culpa e castigo
75. Menina brasileira
76. Viva o menudo
77. Lição Polonesa
78. A inexplicável viagem de quem prefere morre. Um happening
79. Psicologia na atualidade
80. Frases da semana
81. Crônica segunda madrugada
82. Pedagogia da mediocridade
83. Woody e seus críticos
84. Woody Allem não agrada a todos
85. Massa de manobra Pesquisa mostra que jovem desinformado, é presa fácil
86. Bill Gates, Jerenias da internet.
87. Acusações ao PT
88. Um congresso de Fancaria
89. Imprensa e Poder. Catarse da violência
90. II Suzano e lo psicólogo di Sienna
91. Nem casa grande nem senzala
92. Exilada na própria Pátria e em si mesma.
93. Eva será Deus
94. Psicologia da mídia
95. De perto ninguém é normal
96. Psicólogo explica fúria do jogador
97. Shopping Newus – City News – jornal da semana
98. Crise de riso
99. Tribunal repele parecer anti – semita
100. Pesquisa quer saber as reações diante da morte
101. Origens entrelaçadas (Érica Alvim)
102. Maria Paula (Casseta e Planeta) declama Goldberg
103. TV Vulgar – Extímo e Íntimo
104. Com Zélia Gatai e Paloma Amado
105. Pedofilia no Brasil
106. Freud explica o destino justifica
107. Laboratório de Imagem
108. Um jornal de Debates
109. Hélio Fernandes e a ABL
110. Brasil esquizofrênico
111. Eu sem Rumo
112. Suicidio do Brasil
113. Lembrando Elisa Lispector
114. Caso do Canibal alemão Retrata metáforas comuns ao homem, diz psicanalista
115. Judeofobia e Anti – Sionismo
116. A Paixão de Cristo
117. A culpa dos judeus na Paixão alemã que um brasileiro quer proibir.
118. Autos da Paixão são criticados
119. Concilio reabilitou acusados
120. Câmara dos deputados
121. O filme “A Paixão de Cristo” tem conteúdo anti – semita? Sim um filme anticristão
122. Reflexão
123. FHC e Lula: culturas em colisão
124. Ética jornalística ou Narcisismo?
125. Politicamente correto
126. Escola da tortura
127. O Mercador de ilusões
128. A crônica da morte anunciada
129. Paranóia na eleição trash
130. A morte de Ulysses Guimarães Mora – O mar – Amor
131. Importância da feiúra
132. Escola da tortura – aprimoramento
133. Presidente judeu de Portugal
134. Laboratório de Literatura
135. Discreta guerra civil
136. Tortura – o sintoma canibal
137. Judaísmo em Guimarães Rosa
138. Judeofobia de uma negra
139. O Sertanejo é um forte
140. Homossexuais, as maiores vitimas dos preconceitos
141. A Revolução Social pela psicoterapia. Luiz Fernando Emediato
142. Uma guerra contra os tabus
143. A teoria freudiana frente ao misticismo do judaísmo
144. Uma séria ameaça à estrutura da saúde
145. Publicação Racista
146. Darcy Ribeiro
147. Entrevista a Nossa Voz
148. A Petição
149. Proteção a mulher
150. Memória Estudantil
151. Réplica
152. O divã na periferia
153. A televisão
154. Os efeitos
155. Comentário
156. Rap do big brother
157. Lula mistagogo ou presidente
158. Prece ao Pêndalo
159. A fome é a pior violência contra a sociedade
160. A violência urbana, no encontro dos psicólogos
161. Crimes em série
162. Crime é reflexo do desprezo
163. Entrevista
164. Massacre no cinema
165. O frio crime da moda
166. A agressividade dos jovens
167. Anonimato, grande problema do homem, afirma Goldberg
168. As tristes descobertas desse psicólogo
169. Humor e carnaval
170. Loucuras da paixão
171. As dificuldades para escolher uma profissão
172. O sadomasoquismo na economia brasileira
173. Violência cresce na sociedade do desprezo
174. Psicanalista defende passeio virtual
175. A caminho da pós – modernidade
176. 156ª Sessão Ordinária do dia 25.11.80 – D.O. de 161280 – Grande Expediente – Assunto: Analisar o Problema da Violência e suas causas, evidenciando o trabalho psicológico, Jacob pinheiro Goldberg nesse setor.
177. Goldberg quer a decodificação da Cultura
178. A Língua Portuguesa, hoje é um veiculo eficaz de expressão das idéias e sentimentos do povo brasileiro.
179. A juventude desinformada pelo ensino oficial
180. Psicólogo vê insegurança e autoritarismo
181. Os números
182. Voltei da Cadeia
183. Prorrogação e psicologia
184. Iara: Uma batalha vencida
185. Polônia, ida e volta.
186. Marechal Teixeira Lott.
187. Candelabro Aceso
188. Dossiê Stefan Sweig
189. Jacob Redescoberto
190. Fernando Savant Lula Sage
191. A Mágica de Jacob Pinheiro Goldberg
192. Ética e Tecnologia
193. Pesquisa quer saber as reações diante da morte
194. Respeito ao idioma estrangeiro
195. O desejo de morrer
196. O Poder e a Morte
197. “A Sociedade Masculina já era”.
198. O Senhor Polêmica
199. Fronteiras, esquinas, hibridações
200. Esse Ofício do Verso
201. Ainda o Caso Cukurs
202. Visitando Eugênio no Colégio Montale
203. Branco de Alma Negra
Trecho da Defesa de Doutorado, em Teoria Literária e Literatura Comparada, na USP, pela Mestra em Literatura Marilia Librandi Rocha, intitulada “Parabola e Ponto de Fuga: a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg”, realizada no dia 04/04/03, perante a banca composta pelos professores Doutores Alberto Pucheu (UFRJ) Luiz Costa Lima (UERJ). Leon Kossovitch (USP), João Adolfo Hansen (USP) – Presidida pelo Prof, Ariovaldo José Vidal (em substituição ao Prof. Roberto Ventura), a nota atribuída á Dra. Marilia Librandi Rocha foi 10 (dez), com distinção e louvor.
A banca recomendou a edição do livro pela Editora da Universidade de São Paulo (EDUSP).
Judeus na “Manchester Mineira”
Marília Librandi Rocha
“Todo mundo importante no Brasil nasceu em Juiz de Fora”
(frase de um entrevistado)
Como epígrafe, a frase acima evidencia o sentimento de orgulho juiz-forano em relação ao histórico de sua cidade e aos nomes importantes que aí nasceram ou por aí passaram, deixando registro em crônicas, fotos, pinturas, memórias, biografias, poemas e histórias da cidade [1]. Chamada de “Atenas Mineira” por Artur Azevedo, “Manchester Mineira”, no auge do processo de industrialização, “Princesa de Minas”, entre outros epítetos, Juiz de Fora foi também, por um curto período de tempo, uma cidade habitada por imigrantes judeus. A presença de portugueses, alemães, italianos, sírios e libaneses na formação de Juiz de Fora, ao lado do grande contingente negro, vem sendo estudada e ressaltada pela historiografia local [2], mas a presença de judeus em Juiz de Fora não aparece quase nunca registrada, fazendo parte dos “esquecidos” na história da cidade. Esse artigo é um modo de resgate dessa história ainda com dados insuficientes, a ser desenvolvida e acrescida de novas informações e testemunhos.
A notícia mais recente a esse respeito veio de artigo do escritor e médico Sagrado Lamir David, com o sugestivo título: “Onde estão os judeus de JF?”, onde se lê:
“(...)entre as décadas de 1930/1940, foi que a marcante comunidade judaica se estabeleceu em JF: cerca de 30 famílias de judeus provenientes da Rússia, Polônia e Alemanha, vieram para a cidade e se estabeleceram nas áreas centrais e comerciais da cidade: eram prestamistas, vendiam roupas, jóias, criando ao lado dos árabes, a tradição comercial da Marechal Deodoro”. [3]
Mas quem teriam sido esses judeus, e por que quase não há registro de sua passagem pela cidade? A primeira parte da pergunta pode começar a ser respondida segundo levantamento que fizemos a partir de algumas entrevistas e depoimentos obtidos sobre o tema[4], acrescidos de informações fornecidas pelos textos e depoimentos do escritor juiz-forano, Jacob Pinheiro Goldberg, a respeito de quem falaremos logo mais. Quanto à ausência de registro pela historiografia local podem ser aventadas duas hipóteses: 1) o pequeno número de imigrantes judeus em relação aos restantes e 2) o fato de terem todos partido da cidade, como nos disse um dos entrevistados: – “Não ficou um só para contar a história”.
Mas esse esquecimento parece soar mais forte e menos explicável quando lemos no importante livro de Paulino de Oliveira, História de Juiz de Fora , a seguinte referência. O autor cita texto de 1914, de Inácio Gama, que, segundo ele, teria sido o primeiro cronista da cidade. Falando sobre as hospedarias e estalagens existentes na cidade, Inácio Gama refere-se a duas especificamente: a de Manoel Ferrrera Veloso e a de Francisco Gomes Ribeiro, e completa:
“a do Chico Luiz, de preferência procurada pelos viajantes, principalmente pela pequena colônia de mascates franceses-judeus, segunda imigração que tivemos, pois aqui, como em todo o Brasil, entre os estrangeiros predominavam os portugueses” [5]. (grifo nosso)
A citação é importante pois, como se vê, o autor considera, ao lado da predominância portuguesa, a “colônia de mascates franceses-judeus”, como a “segunda imigração que tivemos”. Podemos aventar uma hipótese sobre a presença dessa “colônia de mascates” na cidade. Juiz de Fora , como se sabe, nasceu, cresceu e se desenvolveu como decorrência da abertura de Caminhos e Estradas, tornando-se importante centro de comunicação e passagem entre a então capital do Império, Rio de Janeiro, e a Província de Minas Gerais. Estudos recentes sobre a presença de judeus e cristãos-novos em Minas Gerais vem sendo cada vez mais desenvolvidos[6]. Com os sobrenomes de origem alterados, muitos judeus, na condição de cristãos-novos e marranos se mesclaram com a população local no Brasil-Colônia. Esses mascates “franceses-judeus”, cujos nomes não foram registrados, deviam fazer parte do contingente de pessoas que circularam entre o Rio e Minas Gerais, passando e fixando-se por certo período em Juiz de Fora. Sabemos que no Brasil Imperial registra-se a presença de judeus vindos do Marrocos (como a comunidade que se estabeleceu na Amazônia em 1820), e também judeus vindos da Inglaterra e da França, como sintetiza Abrahão Gitelman:
“Os franceses vieram em duas levas. A primeira era de refugiados da revolução social de fevereiro de 1848. A seguinte, composta de alsacianos, que preferiram emigrar a tornar-se alemães, dada a perda da Alsácia e Lorena pela França, como conseqüência da Guerra Franco- Prussiana de 1870”. [7]
Quanto à presença de franceses na cidade, judeus ou não, refere-se Pedro Nava:
"Excelentes famílias de Juiz de Fora - Montreuil, Jouvet, Creuzol - descendem de
súditos franceses que se radicaram na margem do Paraibuna na segunda metade do
século passado. Entre eles merece ser destacada pelo seu papel na educação e no
ensino do Dr. Luís Andrés".
[8]
É possível pensar que parte dos sobrenomes de pioneiros na formação do povoado, depois vila e então cidade do Juiz de Fora, fossem remanescentes e tivessem ascendência
cristã-nova ou marrana. O “esquecimento” desse passado pode ser aproximado do mesmo “esquecimento” que atinge a história dos desfavorecidos e excluídos da historiografia oficial até pouco tempo atrás, seja por pobreza, origem escrava ou, como parece ser o caso aqui, dos cristão-novos que, por um processo de assimilação, não têm os seus nomes primeiros e seu local de origem registrados, fazendo parte assim do grande contingente dos “sem-nome” ou dos “homens infames” por oposição aos “homens ilustres”, os quais, como mostrou Michel Foucault [9], só passam a ser conhecidos a partir de denúncias dos “crimes” cometidos e registrados, seja pela crônica policial seja pelos registros inquisitoriais.
Passemos então ao que encontramos como registro e lembrança dos judeus que efetivamente viveram em Juiz de Fora no século XX, entre final dos anos 20 até cerca de meados dos anos 50.
Em nossa pesquisa, entrevistamos pessoas da segunda geração de sírios e libaneses, filhos dos imigrantes que se estabeleceram no comércio de tecidos na rua Marechal Deodoro, e conviveram, quando crianças, com os filhos dos imigrantes judeus, cujas lojas e comércio situavam-se, em geral, na parte baixa da mesma rua. Os depoimentos são fragmentados e por vezes contraditórios. Uns dizem que havia muito poucos judeus na cidade; outros, mais entusiasmados pelas lembranças, aumentam esse número dizendo que houve sim uma comunidade importante de “muitos judeus” em Juiz de Fora. No entanto, instados a citar nomes e números, lembram-se de no máximo uma dezena deles e, no geral, apenas dos primeiros nomes, quando muito. Desses depoimentos, registramos aqui alguns dos citados, tal como nos foi transmitido:
Sr. Felix e Sra. Anita, da “Casa Felix”
Sr. Bernardo, da “Casa Wally”
Dona Regina e Sr. Jacob
Sr. Jacob e Dona Carmem, da loja “Conveniência”
os proprietários (?) das lojas “Moda Elizabeth” e “Magazine Holliday”.
Segundo um dos testemunhos, apenas um deles, de nome Efrain Don, teria passado por campo de concentração, chegando à cidade portanto em tempo posterior à Segunda Guerra.
Em pesquisa no Instituto Granbery, onde os filhos da comunidade judaica estudavam, obtivemos os seguintes nomes de alunos matriculados em início dos anos 50 [10]:
Daniel e Moisés Chojniak
Sprinca Frima Sonia Sztarkmam Shainberg
Miriam, Jacob, e Davi Grinberg (filhos de Adolfo Grinberg)
Raquel Sinivskovski
Neil Bacha.
Em geral, os depoimentos são unânimes em afirmar o motivo da saída dos judeus de Juiz de Fora para as grandes capitais do Rio e de São Paulo, levados por motivos econômicos, em início dos anos 50. Importante pela indústria têxtil, com cerca de 600 malharias, Juiz de Fora, durante a Segunda Guerra Mundial, tornou-se centro de produção e exportação de uniformes. Na época, as fábricas chegavam a trabalhar em três turnos. Após o fim da guerra, suplantada pelas grendes capitais, há um declínio na produção industrial na cidade, e é nesse período, que coincide com início e meados dos anos 50, que os judeus teriam partido da cidade.
Mas teria sido apenas por motivo econômico que os judeus teriam partido de Juiz de Fora? Ou encontramos aqui, novamente, a recorrência do estereótipo que atribui aos judeus o interesse predominantemente pecuniário? Sabemos que os movimentos migratórios são motivados por razões várias, entre as quais, a mais recorrente seja por questões de ordem econômica, com o empobrecimento e conseqüente procura de novas oportunidades, mas também por perseguição religiosa, ou por inadaptação, entre outras causas. Levantamos outro motivo importante para a partida dos judeus de Juiz de Fora: o fato de ser uma pequena comunidade vivendo em uma cidade onde não havia, como no Rio e em São Paulo, instituições judaicas importantes, desde a presença de uma sinagoga, onde pudessem realizar os cultos, escolas judaicas, onde matricular os filhos, cemitério judeu, onde enterrar seus mortos. Próxima do Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo parece bastante provável que os judeus tenham preferido, após conseguirem os meios de subsistência, mudar-se para essas cidades em contato com a comunidade mais numerosa e melhor estabelecida.
***
“Nasci em Juiz de Fora, entre montes, Minas Gerais, geografia dos meus limites horizontais. Transitei, intransitivo, assembléias metodistas do Instituto Granbery ouvindo missionários yankees. Mas meu coração estava ancorado em terras não palmilhadas”.
(Jacob Pinheiro Goldberg. “De Frente e de Perfil”, In. Ritual de Clivagem, São Paulo, Massao Ohno, 1989).
Jacob Pinheiro Goldberg, filho de Fanny Elwing Goldberg e Luis Goldberg, nasceu em Juiz de Fora, em 1933. Hoje, psicólogo reconhecido, vivendo em São Paulo, Goldberg é autor de uma produção literária pouco conhecida mas intensa. Seu primeiro livro, Ritmo Esquerdo, foi publicado em 1952, e o último, Monólogo a Dois, em 2002, compondo assim uma obra escrita em prosa, poesia e prosa poética que percorre 50 anos de atividade. Além disso, Goldberg, escreveu e escreve grande número de artigos para jornais e revistas, e, como psicólogo, participa de debates e entrevistas na televisão e no rádio, onde é freqüente a referência a sua vivência em Juiz de Fora. Sua produção escrita está sendo organizada para uma antologia de textos e análise dos mesmos [11] . Adiantamos aqui alguns dados específicos no que se refere a Juiz de Fora, como contribuição à história das letras e à presença dos judeus na cidade.
De Ostrowiecz para Juiz de Fora.
Seus pais, Fanny Elwing e Luiz Goldberg, nasceram na cidade de Ostrowiecz, na Polônia, onde viviam no “shtetl”, a ‘cidadezinha’ reservada aos judeus, como uma espécie de gueto. Sua mãe, Fanny, veio ao Brasil aos 14 anos, acompanhando os pais e mais nove irmãos, estabelecendo-se no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, em meados dos anos 20. Luiz Goldberg veio sozinho pouco tempo depois. Ele tinha 18 anos e chegou no Rio de Janeiro vindo no navio cargueiro argentino, Valdívia. Segundo depoimento que teria dado a seu filho, ao desembarcar, sem falar uma palavra de português, Luiz Goldberg ficou andando de um lado para o outro falando em ídiche: “Quem é judeu? Quem é judeu”? Até que lhe encaminharam para uma hospedaria, onde ficou sabendo que havia uma cidade, de clima ameno e com possibilidade de emprego, chamada Juiz de Fora, para onde então se encaminhou. Uma vez casados, ele e D. Fanny estabeleceram-se na cidade, onde seu pai ficou conhecido como “seu Luizinho”. Trabalhando como prestamista (aquele que vende a prestação, também conhecido pelo termo “clientlchick” ou “mascate”), ele comprava mercadoria dos lojistas e vendia de porta em porta, atividade não poucas vezes hostilizada nos livros que pregavam abertamente o anti-semitismo na época. É o caso, por exemplo, do prefácio escrito por Gustavo Barroso, fundador da Ação Integralista Brasileira, para o livro A Questão Judaica, do Padre J.Cabral, lançado em 1934. Para defender a seleção e restrição imigratória aos judeus, Gustavo Barroso diz: “Como se não bastassem os vagabundos, desordeiros, usurários, prestamistas e desocupados que enchem nossas melhores cidades...”[12]
Em pesquisa a respeito da história da imprensa em Juiz de Fora, encontramos, no estudo de Almir de Oliveira[13], referência à presença e circulação na cidade do jornal integralista O Sigma, no período de 1934 a 1936.
Com a guerra de 1939 a 1945, os doze primeiros anos de vida de Goldberg coincidem portanto com a ascensão, a guerra até a posterior queda do nazismo. Essa realidade atinge o menino que teve os familiares paternos mortos nos campos de Varsóvia, enquanto no Brasil, a posição dúbia do Estado Novo, a ditadura de Vargas (incluindo uma tia sua que teve o visto negado para entrada no Brasil, pelo Itamaraty). Esse era o clima do período, como explicita Goldberg, nesse texto:
“A coletividade vivia sob a influência do nazismo europeu então vitorioso e sua repercussão no integralismo brasileiro. Freqüentemente, o tosco anti-semitismo infantil, repetia para mim, na rua e no colégio, o secular brado discriminatório: “Judeu, vá para a Judéia”. O então menino não compreendia a raiva gratuita, fruto da cólera, obscurantismo e falsos conceitos teológicos dos adultos, que o perseguiam” [14].
O Nome
Jacob Pinheiro Goldberg nasce então em 1933. Seu nome é uma homenagem ao tio, Yaakov Pinchas, irmão de seu pai, que chegou ao Brasil vindo da Polônia, por volta de 1920, para trabalhar no Rio de Janeiro, e morreu aos 18 anos de idade. Jacob deveria então se chamar Jacob Pinchas Goldberg. O “Pinheiro” ele explica pela tradução que foi feita a pedido do tabelião que fez o registro e estranhara o nome, atribuindo-se um sobrenome que, como Oliveira, e outros, assinalaria uma origem cristã-nova. Fonte de indagações constantes, o sobrenome Pinheiro indicaria para a comunidade judaica e para a comunidade brasileira que ele não seria um judeu legítimo. Em Juiz de Fora, duas pessoas entrevistadas, referiram-se ao fato de ele ser “meio-judeu”, como filho de mãe brasileira e pai judeu. A mesma associação deve ser feita por boa parte da comunidade judaica. Sendo efetivamente filho de mãe e pai judeus, Pinheiro Goldberg passa a viver e incorpora a situação ambígua e difícil do entre-lugar ou sem-lugar como a que é associada à situação dos marranos - nem totalmente judeus nem totalmente católicos. Filho de imigrantes poloneses pobres, deslocado na sociedade brasileira, Goldberg sente-se também como deslocado em relação à comunidade judaica mais tradicional. O sobrenome Pinheiro teria acentuado esse deslocamento e essa posição de fronteira. Assim, o Pinheiro ao invés de Pinchas alterou a situação biográfica de Goldberg ao associá-lo aos cristãos-novos, sem ser. Anita Novinsky, em artigo recente, discorre sobre o conceito de “pós-marranismo” desenvolvido por Edgard Morin, que ela cita:
“(...) Morin diz textualmente: “o que me atraiu no marranismo foi a experiência psicológica complexa que traz consigo uma dupla identidade, dilacerante e eventualmente criadora, fermento da superação dos dogmas das duas religiões, resultando numa postura interrogativa e crítica em Montaigne e na busca de novos fundamentos em Spinoza” .
Ao que ela comenta:
“Mas Morin foi mais longe ainda e estendeu sua concepção de marranismo até Karl Marx e Sigmund Freud, mostrando que esses judeus, como os marranos, viviam num mundo ao qual não podiam pertencer. A experiência marrana pode assim ocorrer com os judeus, em qualquer tempo e em qualquer lugar”. [15]
A experiência de Goldberg parece corresponder a esse conceito, próximo ao que ele escreve a respeito da sensação de um “coração... ancorado em terras não palmilhadas”.
Os Jornais em Juiz de Fora
Jacob começa a escrever influenciado pelos textos jornalísticos. Ele vivia, como ele mesmo diz, “na paisagem mental do shtetl”, “a cidadezinha”, referindo-se com esse termo, tanto a Ostrowiecz, cidade de origem de seus pais, como a Juiz de Fora, cidades que nos seus textos e poemas aparecem freqüentemente mescladas, e encontrava nas pilhas de jornais velhos que seu pai usava para embrulhar mercadoria a porta de saída para o mundo, com as notícias do que ia acontecendo.
Havia quilos de jornais velhos na sua casa, remanescentes que sobravam nas bancas (portanto eram jornais de menor vendagem - ele se lembra de dois especificamente: “A Vanguarda” e o “Diário de Notícias”, do Rio de Janeiro). Jacob lia sentado dentro dos caixotes de compensado, usados por seu pai. Esse caixotes eram sua “caverna de madeira”, e são citados em vários poemas.
Em 1946/47, passa a escrever de fato uma “Coluna Judaica” no jornal Correio de Minas, dirigido por Osmar Silva:
“Era época que na então Palestina começavam, através do movimento sionista, os movimentos em prol da criação do estado de Israel e esses jornais foram elaborados nesse período. Imagine isso em Juiz de Fora, uma das cidades mais católicas do estado mais católico do Brasil que é Minas Gerais, aonde não havia judeus. Juiz de Fora devia ter dez ou doze famílias de judeus, coitados, perdidos, imigrantes pobres, deslocados. Nessas condições, tinha um jornal chamado Correio de Minas, — tinha vários, a Folha Mineira, A Tarde e a Gazeta Comercial, e eu acabava escrevendo em todos eles. Mas no Correio de Minas, eu conversei com o jornalista, que era um visionário, uma figura folclórica do interior, curiosíssima, e eu criei uma coluna judaica no jornal. Coluna judaica pra que, pra quem? Não tinha judeu na cidade. Os doze pé rapados não sabiam ler português. Quer dizer na verdade eu estava escrevendo para mim mesmo, para variar”.
A partir de 1950, já com a carteira da Associação Mineira de Imprensa, passa a escrever artigos e crônicas diárias para outros jornais e revistas locais, principalmente em a Gazeta Comercial e A Tarde, dirigidos por Paulo Lenz, líder do Partido Socialista Brasileiro. São artigos que fazem uma espécie de pout-pourri de assuntos variados. Neles, ele revela sua participação na política estudantil, nos movimentos culturais locais, a importância do cinema, que o leva a escrever panfletos contra o aumento do ingresso, “atentado à economia popular!”, conclamando uma greve geral contra a Companhia Central de Diversões, enfim toda a realidade do período vai aparecendo nesses artigos que comentam desde o sarau do Colégio até, por ex., alguma observação sobre literatura canadense, e muitos comentários da política nacional[16].
Jornal “O Volante”
Em 1953, ele cria o jornal “O Volante”, semanário de distribuição gratuita, do qual ele era o Diretor-redator-chefe, e Jacob Grinberg, o Diretor-secretário. A “redação” ficava na Rua Batista de Oliveira, n. 693, sobrado onde trabalhava seu pai. Hoje, encontram-se em seu arquivo pessoal, dois exemplares desse jornal, de cunho estudantil, com notícias sobre os vários filmes e diversões da época (incluindo textos de sua irmã mais nova, Clarinha Dinia Goldberg), de teor popular ( como se vê no artigo sobre uma futura Universidade do Trabalho Getúlio Vargas, oferecendo ginásio gratuito para filhos de operários; ou sobre a Carriço Filmes); e também de caráter partidário (com campanha a favor do vereador Wandenkolk Moreira). O jornal dura apenas alguns números, e os dois exemplares em poder do escritor constituem importante documento sobre a história da imprensa em Juiz de Fora [17].
O Cinema
O cinema é uma constante na vida e na literatura de Goldberg. Na adolescência em Juiz de Fora o cinema era o local da fuga, da fantasia e dos encontros ou desencontros amorosos, em meio à escuridão que podia ser protetora:
“Eu entrava sempre atrasado por causa do escurinho que me protegia dos outros no começo da sessão de cinema do Cine Central em Juiz de Fora indo pela Galeria porque era por trás e via menos gente” [18].
No filme da sua vida, tal como aparece em seus poemas e prosa, ele é o protagonista de “desventuras” e “malogros”, que sobrevive graças às “inspirações cristalinas que o pai”, Chaplin ensolarado”, e a mãe inventaram, personagens principais de um grande número de textos.
Granbery
Goldberg, como outros filhos de imigrantes judeus, estudou no Instituto Granbery, fundado pelos pastores metodistas norte-americanos. Cantando os hinos cristãos diariamente, o Granbery aparece nas reminiscências de Goldberg, louvado pela abertura e compreensão de boa parte dos professores, mas também como lembrança das disputas entre os alunos, sempre defendido por Mr Walter Moore, como narra neste texto:
“(...) Mês depois, voltei para Juiz de Fora, para o Instituto Granbery, colégio metodista em que estudava, dirigido por exaltados missionários norte-americanos. Depois da Sexta-feira da Paixão, os coleguinhas de classe resolveram me escalar para o Judas judeu que tinha traído Cristo. Tentaram descontar com pedaços de pau. Medroso, me refugiei no banheiro da escola, ouvindo os gritos: “Matem esse Judeu que matou Jesus”. De repente, ouço a voz tonitruante do Mr. Moore, Walter Harvey Moore, o reitor, discursando: “Vocês não sabem que Jesus era judeu? Suave, bateu na porta do banheiro e, em hebraico, disse algo carinhoso. Respondi-lhe que não entendia hebraico. Ele, quase irritado, com ardor protestante ianque: “Precisa aprender, meu filho, é a língua de Deus, você nem parece judeu”.
(“Deus que me Perdoe”, In: Folha de São Paulo, (1998)).
E também neste outro:
REIS
Meu professor de história, no Ginásio, durante uma de suas amplas digressões que iam desde questões de sexo até alta metafísica, informou à classe que os judeus crucificaram Jesus. Com um amplo sorriso me pediu desculpas sobre a alusão, como se estivesse contando algo de feio que minha família cometera mas que era de seu senso ético denunciar...
Isto numa cidadezinha do interior de Minas Gerais, aonde a noção de “ser judeu” lembrava conotações, vagamente, demoníacas.
Com 11 anos de idade, magro e sozinho (na cidade deviam morar, no máximo, 15 ou 20 judeus), não foi fácil, durante o recreio, enfrentar o desprezo e a indignação dos meus colegas de turma, indignados com minha cumplicidade, no deicídio.
(....)
(Em O Dia em que Deus Viajou, 1974).
No Granbery, ele estudou dos 8 aos 13 anos (de 1941 a 1946), fazendo o primário e ginasial. De 1947 a 1950, seus pais mudam-se para São Paulo, e ele estuda no Colégio Rio Branco, retornando ao Granbery para completar os estudos do científico, em 1951 e 1952. Mr. Walter Harvey Moore, personagem louvado em seus textos, era reitor na maior parte dos anos em que Jacob aí estudou, acompanhando-o (de 1941 a 1943 e depois em 1951-1952)
Quando completa o científico em 1952, aos 19 anos, Goldberg edita seu primeiro livro, Ritmo Esquerdo. Nesse mesmo período, serve o exército, primeiro em Juiz de Fora, depois em São Paulo, onde vai chegar a comandante de infantaria, sob o comando do general Euryalo Zerbini. Junto com o exército, forma-se em advocacia e depois cursa o Instituto de Serviço Social, a partir de 1956, onde apresenta trabalho sobre Serviço Social no Exército Brasileiro.
Deixa assim de viver em Juiz de Fora, a partir fim dos anos 50, estabelecendo-se em São Paulo, onde irá advogar, a partir de 1960, data de seu segundo livro, História que a Cigana (nua) me contou, quando também se envolve ativamente na vida da comunidade judaica local, escrevendo para a Revista Aonde Vamos, o jornal de tendência anarquista, Dealbar, entre outros.
As muitas Juiz de Fora
Podemos dizer que há muitas Juiz de Fora, de acordo com a visão que dela manifestam seus escritores. Assim, do mesmo modo que a - “Juiz de Fora de Murilo Mendes (em A Idade do Serrote), por exemplo, é de tonalidade fantasmal num espaço onírico (...)” (p. 22), encontramos nos textos de Jacob também esse resquício “fantasmal” enquanto memória registrada de uma vivência, que ora assume tons oníricos, como um sonho distante, tempo e espaço perdidos, ora tom de agonístico pesadelo, o qual deve ser compreendido a partir de sua experiência de judeu, filho de imigrantes pobres, deslocado, estranho em terra estranha ou estranho no ninho, como nos disse. Aproveitando o nome Juiz de Fora, encontramos em seus textos uma Juiz de fora de dentro, espaço imaginário, e uma outra, de fora, alheia e estranha, assim como uma “Juiz de Fora – fora do juízo” (como o título da peça de Oscar da Gama, encenada na cidade em 1897).
O número de textos, poemas e entrevistas sobre sua vivência em Juiz de Fora são grandes, não podendo ser aqui inteiramente abarcado. Terminamos então citando apenas dois que revelam tanto a contestação e recusa da província como a ambiência e duplicidade de afeto e nostalgia mesclados. Leia-se, por exemplo, o seguinte texto de sua autoria, intitulado “Origem e Destino”:
“Quem nasce em Juiz de Fora, Minas Gerais, ainda mais em 1933 (ascensão do nazismo na Alemanha, moda integralista no Brasil — Plínio Salgado, anauê e tudo o que significava), judeu, filho de imigrantes poloneses, estudando em Colégio de missionários protestantes norte-americanos, tem duas alternativas na vida: ou ser pelo menos três vezes melhor do que os coleguinhas racistas ou ser pelo menos três vezes melhor do que os coleguinhas racistas”.
E, depois de passar uma vida, tentando concretizar uma das duas alternativas, descobrir que as duas eram falsas. Que Juiz de Fora não existe (era uma ficção), que o colégio não existia (era outra ficção). Finalmente que você não existia (mais uma ficção).
E só então poder voltar para Juiz de Fora e viver uma só vida.
A sua.”
(Em Psicologia e Reflexões do Inconsciente, 1978)
Um dos mais tocantes de seus textos em prosa poética a respeito de sua vivência em Juiz de Fora, condensa e dilata o “tempo-espaço”, como espaço na memória, que retorna, como aquarela, ou “retrato na parede”, lembrando a Itabira, de Drummond:
“A tardinha avançando, a noitinha caindo: como lamparinas em aquarela japonesa, as janelas nas casinhas, no morro.
Êta nóis!
Alto dos Passos, Poço Rico, Costa Carvalho, Rua Santos Dumont.
Aquilo que dava no peito e mais tarde descobri que se chama ante-visão, uma adivinhação prévia da saudade. Quem sabe a nostalgia por uma dilatação maluca do tempo-espaço.
Ai, meu Deus, se soubesse que então seria jamais, olharia pras luzinhas e chorava até derreter o futuro e as ilusões, e ficaria, pra sempre ali, parado como estátua erguida em nome da sensação”.
(Em A Ógea e A Calhandra)
Êta nóis!
Alto dos Passos, Poço Rico, Costa Carvalho, Rua Santos Dumont.
Aquilo que dava no peito e mais tarde descobri que se chama ante-visão, uma adivinhação prévia da saudade. Quem sabe a nostalgia por uma dilatação maluca do tempo-espaço.
Ai, meu Deus, se soubesse que então seria jamais, olharia pras luzinhas e chorava até derreter o futuro e as ilusões, e ficaria, pra sempre ali, parado como estátua erguida em nome da sensação”.
(Em A Ógea e A Calhandra)
(Pblicado em “Estudos Judaicos” –
Ano IV – 2002 – Belo Horizonte
Psicólogo requer melhor comunicação com o Poder
Jacob Pinheiro Goldberg, doutor em Psicologia, autor de mais de cem livros e trabalhos sobre sua especialidade, entre eles um livro que dedica dois capítulos à reação da sociedade diante de fatos traumáticos, como o suicídio de Getúlio Vargas e a renúncia de Jânio Quadros, voou para Brasília tão logo soube da doença do presidente licenciado Tancredo Neves. E, analisando do ponto de vista psicológico tudo o que aconteceu a partir de então, chegou à uma conclusão definitiva: “Há uma necessidade absoluta de reformular totalmente o canal de comunicação entre o Poder e a Sociedade, para conter o desenvolvimento de traços paranóicos e fantasias persecutórias na Sociedade.
Goldberg até acha que, desta vez, a sociedade reagiu bem ao trauma, sem o pânico que ele detectou após o suicídio de Vargas e sem a apatia que se seguiu à renuncia de Jânio. Mas, assim mesmo, entende que não foi vencido o caráter hermético que, para o leigo, assume tudo que se refere à ciência e que se torna ainda mais grave quando se trata da Medicina, que mexe com o corpo humano. At;e hoje, constata o estudioso, não foi completamente vencida a idéia de que a ação sobre o corpo humano é um exercício demoníaco, como se acreditava até a Idade Média. E, em parte, isso se deve ao que Goldberg chama de “atitude sacerdotal” de parte do médico.
Por isso mesmo, o professor reclama uma conferencia de imprensa absolutamente aberta para a discussão do problema de saúde de presidente da Republica, reclamação que, para ele, só foi parcialmente atendida no episodio dos últimos dias. Goldberg cita até um caso clássico de comunicação Poder-Sociedade: quando Roosevelt era senador e se dispunha a disputar a Presidência dos Estados Unidos, apesar de sua limitação física (paralisia infantil), o quadro clínico foi inteiramente exposto em entrevista coletiva e os médicos até se submeteram à discussão pela imprensa.
As observações de Goldberg são reforçadas, casualmente, por opiniões ouvidas pela Folha, nos últimos dias, a respeito da doença do presidente. Mesmo pessoas de nível universitário (é o caso, especificamente, do prof. José Queiroz, diretor do Instituto de Estudos Especiais da PUC-SP) desconfiaram da informação oficial: “Habituados à camuflagem de informações dos últimos anos, a gente não sabe se foi doença mesmo ou outra coisa”, comentou Queiroz.
Goldberg entende, mas não aceita, o mecanismo de filtragem de informações a respeito da saúde dos poderosos: “O Poder tem uma preocupação de se reservar, mas essa tradição deveria ser quebrada na nova República”. Só assim, diz o psicólogo, “o homem anônimo deixaria de lado a sensação de que não tem todas as informações”.
Goldberg vai além: ele acha que deveria se proceder a um “absoluto saneamento da informação”, de forma até se discutir a possibilidade de que o Presidente licenciado venha a falecer. Desta forma, completa, evitar-se-ia a sensação de orfandade no meio social e deixar-se-ia de “alimentar doses de paranóia que podem ser a semente de tentações totalitárias”.
“Folha de São Paulo – 17/03/85”
O Artista e a Psicologia.
Mussolini, antes de assumir a ditadura fascista foi redator dum jornal socialista, no qual pregava temas morais. Freqüentemente, a mídia no Brasil espelha a paranóia social quanto ao exame da mente. À direita, Carlos Lacerda e Nelson Rodrigues. À esquerda, o stalinismo de estrato pavloviano. No intelectual autêntico a fantasia reside no campo da arte.
Relação tempestuosa e conflitiva, de amor e desconfiança se estabelece entre o artista ou o comunicador cultural e a psicologia, mais especificamente com a psicoterapia ou a psicanálise, seus instrumentos de trabalho clínico. No fundo da questão, algumas dúvidas se inserem: A) fazer psicoterapia liberta o artista, o intelectual de suas angustias e medos, mas leva de roldão também o seu poder de criatividade? B) A criatividade original, a singularidade do pensador não é um fruto de seu próprio sofrimento ou neurose?
A própria enunciação dessas dúvidas nos reporta a alguns preconceitos da sociedade quanto à psicoterapia e quanto ao trabalho cultural.
Fica implícita a noção de que a psicoterapia, segundo seus críticos, é um sistema de análise que invade o psiquismo individual, alterando sua estrutura. Aquilo que o vulgo chama de “fazer cabeça”.
De outro lado, a marginalização que a comunidade impõe ao artista como o “ser diferente” e, portanto, condenado a um repasse de sentimento de culpa.
A catarse provocada pela psicoterapia, seria, finalmente, segundo seus opositores, uma fórmula ideológica de controle e acomodação social. O jornalista, por exemplo, perderia seu impulso natural de contestação.
Cabem aqui algumas considerações sobre o tema que é de muita oportunidade, quando, no Brasil de hoje, a psicoterapia se incorpora como uma práxis corriqueira, exatamente entre os meios de criação cultural e, por outro lado, a mídia se transforma no poder de polícia, o superego da nação.
A criança, quando fantasia, brincando, ela cria um mundo próprio. Comparando, prepara o script de sua realidade, no qual é o diretor, o protagonista e a platéia.
O lúdico, e a potência de transformar o real, para a criança e familiar, sem que por isso seja considerada neurótica. Freud, numa conferência proferida em 1907 (Escritores criativos e devaneio) faz alusão ao fato de que esse é o mecanismo do escritor. Lembra que, quando crescem, as pessoas deixam de brincar e renunciam ao prazer que obtinham da brincadeira.
O adulto se acha o proprietário exclusivo de suas fantasias. A principal motivação são os desejos não resolvidos. O artista, em seus encontros com o real, executa o processo de comunicação exógena. Informa ao mundo exterior as suas carências e o espaço de sua realização, no concreto. Quando o desejo de superar suas frustrações pessoais coincide com o desejo do público, a obra de arte é bem sucedida e aprovada.
Existe uma confluência entre a infra-estrutura inconsciente que leva o artista a criar, outras pessoas à neurose e a sociedade a produzir suas instituições.
A forma há que ser de respeito às leis da Estética, para oferecer ao público a gratificação interior. Na medida em que a psicoterapia familiariza o artista com a história de sua própria vida, num enfoque adulto, ele vai tender a uma libertação instintiva produtiva.
Van Gogh ou Antonin Artaud foram assistidos, psiquiatricamente, com a repressão científica da época impunha, com os resultados catastróficos que a história registra.
Como teria sido a sua vida se o artista tivesse a oportunidade, de repensá-la psicoterapicamente? Ao contrário de políticos e “realistas”, o “SE” existe – e como! – para o psicoterapeuta.
A um processo catexis com a libido damos o nome de sublimação, que, explicando a sua gênese, diz-se que dá à libido supérflua, para a qual não existe satisfação, o conduto de escape. O processo de sublimação é essencial, na atividade do artista.
A excitação sexual residual pode ser liberada na perversão, na neurose ou na sublimação.
O leitor interessado na matéria deve se socorrer de Melanie Klein, Ferenczi, Sperber, Jones, entre outros. O desenvolvimento do talento pode obedecer a uma equação que faz substituir o recalque pela sublimação.
Finalizando, o autoconhecimento não é um entrave para o artista, mas um ajuste entre o impulso criativo e a felicidade de ser.
O controle do narcisismo evita no censor a antropofagia, dando espaço ao diálogo.
“Jornal do Brasil, 3 de junho de 1999”
UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIENCIAS HUMANAS
São Paulo, 13 de março de 1985.
Prezado Colega,
Tenho o prazer de convidá-lo a assistir a conferencia do Dr. Jacob Pinheiro Goldberg, intitulado “Psicologia de um rebelde: Sobral Pinto”, a se realizar no anfiteatro Fernand Braudel do Departamento de História desta Faculdade, dia 21 de março, 5a. feira, às 17:00 horas.
Desnecessário dizer que tal manifestação, à qual estarão presentes diversos representantes da sociedade civil, possui um caráter de desagravo ao eminente jurista, em face da recente não-concessão do título de “Doutor Honoris Causa” pelo atual Conselho Universitário da USP.
Saudações acadêmicas
Carlos Guilherme Mota
Prof. Chefe do Depto de
História, eleito pela
Comunidade.
Conferência na USP homenageia Sobral Pinto
O Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, discordou da posição de seu atual conselho Universitário, que decidiu não conceder o título de “Doutor Honoris Causa” ao jurista Sobral Pinto. O chefe do departamento, Carlos Guilherme Mota, optou então por uma homenagem ao jurista, através de conferencia proferida ontem, às 17h, pelo psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg, 51. Na presença de cerca de 150 pessoas, entre representantes da Ordem dos Advogados do Brasil e da comunidade universitária, reunidos no anfiteatro Fernand Braudel, do Departamento de História, o psicólogo discutiu o tema “Psicologia de um Rebelde: sobral Pinto”.
Estudioso da psicologia do rebelde, Goldberg lembrou que Sobral Pinto encarna o papel do menino que cada um tem dentro de si. “O moleque sobral não tem levado desaforo para casa durante sua vida. Mesmo tendo posições rígidas sobre os assuntos, ele representa a voz consciente da sociedade. Conhecido anticomunista, mesmo assim defendeu o dirigente comunista Luis Carlos Prestes”, disse. Na opinião do psicólogo, a psicologia do rebelde representa a idéia que se faz de “marginais”, como Carlitos ou Don Quixote, contrários às representações institucionais.
Goldberg traçou na conferencia um perfil do jurista, lembrando desde o depoimento prestado aos treze anos na delegacia, quando testemunhou um carroceiro ser arrastado pela policia. Essa atitude foi constante em sua vida, “contra a injustiça, o arbítrio e a violência”. Falou ainda que Sobral tem um compromisso, o de que vai viver para votar em um presidente civil. Ao se referir à importância do jurista Sobral Pinto para o Brasil, ele a comparou com a Sartre para a França e a Borges para a Argentina.
“Folha de São Paulo, 22/03/1985”
Sobral Pinto, psicologia do rebelde.
Dia 21, 17 horas, Auditório de História, Cidade Universitária. O tema – a personalidade, vida e obra de um “justo”, segundo os padrões da lenda, que se fez vida. Com 13 anos de idade, em Porto Novo da Cunha (nasceu em Barbacena), o “peru”, seu apelido porque ficava vermelho quando enfurecido, viu um carroceiro ser arrastado pela policia. Foi testemunhar na delegacia. Testemunho que passou a prestar pela vida a fora, contra a injustiça, o arbítrio e a violência.
Em 1940, escreveu no “Jornal do Comércio”: “Em se tratando de advogado que se fez tal por obediência aos impulsos de sua vocação jurídica, cabe-lhe todas as energias de que é capaz o desobrigar-se dos seus deveres de Estado com a bravura do militar, a lealdade do cavaleiro, a finura do diplomata, a imparcialidade do magistrado, a tolerância do sábio, o espírito de sacrifício do sacerdote.
Sua intuição de poesia enlouquecida, que reveste a alma quixotesca, se exprime no critério que usou para contratar a advogada, defensora dos direitos humanos, Eny Moreira para trabalhar em seu escritório: “Baixinha, muito atrevida... condição essencial para um advogado”.
Com os problemas no pulmão, ou a nevralgia dos trigêmeos, entende-se na paixão religiosa e tranqüilidade espiritual que o faz um católico militante.
Em 1903 a opinião publica torcia pelo Japão, sobral Pinto torcia pela Rússia, que perdia a guerra. Já a Primeira Guerra Mundial com a destruição da ordem mundial assentada obrigava o advogado a reflexão sobre mutações contemporâneas. Acompanhava, estudante, a campanha civilista de Rui Barbosa. E desaguou nos governos a partir de 1931, sua solitária cavalgada do herói solitário, “Chevalier san peur et sans repoche”, com suas cartas em defesa do Direito e da Justiça. Defendeu a candidatura de Juscelino Kubitschek quando foi vetada e lutou pela posse de João Goulart.
Nomeado por Juscelino para o Supremo não aceitou por ter se comprometido neste sentido com seus amigos. A partir de 64 descreve a saga contra a tortura, a violência e a morte.
Cinco filhos, oito netos, quatro bisnetos, Sobral Pinto, repassa seu pensamento com posições e filosofia conservadora. “A mulher só pode ser enfermeira ou professora”. Mas sua defesa de Luiz Carlos Prestes e Harry Berger, arrebata a fantasia do Direito, não só brasileiro, mas internacional.
“Fui convocado para defende-los. Do ponto de vista da acusação nada havia a fazer, porque os dois confessaram que estavam desencadeando a revolução comunista no Brasil. Mas quando fui vê-los, Berger, sobretudo estava em condições inferiores as de um animal. Aí lutei contra tudo e contra todos para que lhes fosse restituída a dignidade humana. Nunca fui tão religioso como com esta atitude, em toda a minha vida”.
O Dr. Sobral, um advogado de porta-de-xadrez, como se apelida, é um signo de consciência do psiquismo brasileiro, no que tem de mais integro. Uma espécie assim de Miguel de Unamuno, no cantochão da alma nacional.
Sobral tem um compromisso de que vai viver para votar em um presidente civil, e a sociedade brasileira tem o compromisso do reconhecimento, que o Professor Carlos Guilherme Mota destaca, do seu lugar assegurado no Panteão do homem anônimo, das praças e ruas, frustrações e esperanças, que se aninham na cerviz indobrável deste profeta moderno.
São Paulo, no que tiver de “out-sider”, pode encontrar no paradoxo deste comportamento, um alento utópico, no Auditório de História da USP.
Uma espécie assim, de catarse e exorcismo que se afirma: “Apenas vivo a minha fé que não é ornamento sobre os ombros, mas esta impregnada em minha carne, em meu sangue, em meu espírito”.
“Tribuna da Imprensa”
A mente de Itamar
Uma análise do perfil público do governador Itamar Franco nos conduz a certas reflexões. Por ter estudado na mesma escola que ele, o Instituto Grambery, uma tradicional instituição de missionários protestantes em Juiz de Fora, tive condições de acompanhar a filosofia que formou sua trajetória pessoal e política. A personalidade de Itamar foi fortemente influenciada pela escola. Durante a infância e a adolescência, ele assistia por uma hora, diariamente, às empolgadas palestras messiânicas e milenaristas dos pastores. Foram momentos decisivos para a formação da mente adulta do governador. A atual atitude de Itamar faz-me lembrar histórias de heróis e salvadores da pátria contadas pelos protestantes em suas palestras. Essa influencia marcante pode explicar o fato de o governador gostar tanto de comparar-se ao herói inconfidente Tiradentes.
Itamar é também um político com o ego exacerbado. Tem dificuldade para disciplinar-se, trabalhar em equipe, dividir tarefas, responsabilidades e liderança. Mas tem o senso genial da oportunidade. Em busca de aceitação, ele sempre transitou por diversos grupos e tentava ser o elemento de convergência entre eles. Essa pode até ser uma qualidade importante para o pragmático que deseja afirmar-se como líder, mas como Itamar tem personalidade compulsiva, não raro e egocêntrico se impõe sobre o estrategista. Em tais situações, o desastre pode ser grave. É o que acontece quando ele se comporta como se tivesse sido usurpado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso na paternidade do Plano Real. Incapaz de admitir que o projeto é resultado de um trabalho de equipe, ele – mesmo inconscientemente – tenta destruir o que tanto reclamou ser sua própria cria.
A extrema necessidade de aceitação do governador pode ter origem em um complexo de rejeição e numa insegurança profunda. Nascido em Salvador, mas morando em Minas desde criança, o governador sempre demonstrou o desconforto do outsider. Em função desse complexo, do qual procurou desvencilhar-se com o uso constante de símbolos da cultura mineira, como o pão de queijo ou mesmo a imagem de Tiradentes, o governador tende a converter todos os problemas que o cercam em ataques pessoais. Para defender-se, busca um núcleo de proteção configurado pelos antigos amigos da República de Juiz de Fora. Por mais que outros reclamem dos destemperos que o cometa, Itamar sempre encontrará alguém – logo ao lado – que lhe passará a mão na cabeça. Na atual situação brasileira, Itamar deve estar realizado. Ele, o verdadeiro Salvador da Pátria, enfrenta Fernando Henrique, que é só o presidente do Brasil.
“Revista Veja” – Ano 32 – n. 3 – 20/01/9
Mônica Bergamo – “Folha Ilustrada” – 25 de julho de 2004.
Prefeituráveis no divã
O ex-ministro José Serra (PSDB) parece seduzido pelo
pssimismo e dá a impressão de estar cumprindo uma obrigação. Já o ex-prefeito
Paulo Maluf (PP) concorre pela enésima vez por ser um “compulsivo”, por ser o
"incapaz de parar". A prefeita Marta Suplicy (PT) é "exagerada", mas este é um
dos elementos do "gozo do poder". E a ex-prefeita Luiza Erundina (PSB) tem "a
psiquê dos gerentes".
Em comum, os quatro primeiros colocados (segundo a última pesquisa Datafolha)
tinham a corrida à Prefeitura de São Paulo. E, agora, a análise psicológica
feita a pedido da Folha pelo psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg, doutor em
psicologia, com trabalhos na área de psicologia política. "Não fiz uma análise
da personalidade, pois isso seria adivinhação, mas sim do personagem", disse
ele.
Goldberg tratou "da figura ou da figuração composta pelos marqueteiros e até
pelos próprios políticos". Para ele, não há impedimento ético na tarefa, uma
crítica comumente feita. "A ética não só permite esse gênero de análise como até
o exige, porque se não é o psicólogo, se não é o sociólogo, o estudioso do
comportamento humano que vai auxiliar o eleitor nesse entendimento da figura
pública, quem será?"
"A impressão que dá é a de que José Serra está cumprindo um dever e, em
determinados instantes, passando uma certa atitude de "disgusting" [de estar
repugnado]. Como quando, por exemplo, pega os adesivos que colocam nele e os
arranca."
"Embora tenha começado a sua carreira como líder estudantil, presidente da UNE,
por isso num processo idealista e sentimental muito forte, com o passar do tempo
e com suas experiências acabou fazendo uma opção "low profile" [discreta], que
lembra um escoteiro."
"Ele veste o caráter quase beneditino, sacrificial, o sacerdócio. Parece ser
seduzido pelo pessimismo. Há um mau humor que eu diria que fica mais presente do
que a antipatia alegada por seus opositores."
"Em termos de atitude de potência e impotência do político, Serra fica numa
posição embolada entre os dois. É uma daquelas personagens que está sempre com
um risco de ficar aquém, ao contrário do Paulo Maluf, que corre o risco de ficar
sempre além, até do real.”
“A Marta Suplicy faz esse novo papel feminino, no qual não tanto do caso do (senador petista) Eduardo Suplicy, (ex-marido), mas muito mais no caso doLuis Favre (atual marido), o consorte é que é obrigado a fazer o papel de rainha-mãe.”
“Que personagem é essa que, além de tudo, é psicanalista e dever saber o que esta fazendo, que faz um casamento, afrontado, aparentemente, uma porção de estruturas e rigidez de conduta? Numa cidade como essa , ela mantém laços cordiais com o ex-marido, casa com um sujeito que é estrangeiro...”
“A própria indumentaria é uma caso de organização de aparência. Lembra o escritor Oscar Wilde, que dizia que só as pessoas superficiais não dão importância á aparência. A Marta carrega duro na “gestalt”.”
“Quando ela fica numa posição defensiva exageradae, por ser exagerada, contraproducente, não é gratuito não. É um dos elementos do gozo do poder. Em termos de carisma, faria uma certa deferência para a Marta como “show-woman”.”
“Luiza Erundina tem muito haver como uma líder tribal. É uma mulher que tem um histórico a cumprir, até mesmo o histórico de inserção do nordestino em São Paulo. Tem as características e as idiossincrasias do provincianismo. É uma mulher do interior do Brasil, como boa parte da população daqui”.
“Diferente de Marta e Maluf ela não acontece. A Marta, apreça onde aparecer, num velório ou numa festa, mesmo antes de ser candidata, é um evento. O Maluf até cumprimentar paciente de UTI foi. Já a Erundina é o não-happening”.
“Sua candidatura é a do acerto de contas feminino, mas que não tem o caráter passional da de Marta, e sim o de contabilidade fria. A sensação que ela dá é a seguinte: lucro e déficit. Ela está ali com lápis vermelho e azul e marcando. É mais pragmática, menos impulsiva.”
“Têm a psique dos gerentes, a falta de carisma dos gerentes. Basta perguntar para qualquer grande empresário, se tivesse de contratar entre esses quatros um gerente, qual deles seria?”
“Paulo Maluf é um caso extremado e onipotência. Se amanha achar que deve galgar o Everest, ele vai sair andando e tentar subir. Se no meio do caminho desistir ou faltar força, vai culpar a montanha.”
“Fico ate em duvida se Paulo Maluf quer ser candidato ou se ele está se obrigando a ser candidato por compulsão, por ser um candidato compulsivo. É a necessidade permanente do moto-contínuo do show. Quer dizer, é o artista que é incapaz de saber o momento de parar.”
“Eu o fico imaginando numa situação em que é absolutamente comprovada qualquer acusação em relação a ele. Maluf fica com o personagem de “Alice no país das Maravilhas”, o Humpty Dumpty, para o qual as coisas são como ele quer que sejam, as palavras tem o significado que ele quer que tenham.”
“Ele se refere a si mesmo como outra pessoa. Diz: “O Maluf construiu esse viaduto”. É muito curiosa essa satisfação que ele tem de ser, ao mesmo tempo, o protagonista e o auditório da sua própria, biografia.”
O Dono do Divã
Política é tema de psicanalista.
Em 17 de março de 1985, no auge da crise de saúde Tancredo Neves, a Folha publicava reportagem com o titulo: “Psicólogo requer melhor comunicação com o poder”. O psicólogo era o mineiro Jacob Pinheiro Goldberg, que já naquela época se dedicava à psicologia política e às vezes conturbada relação entre homens de cargos públicos e a sociedade.
Desde então, ele lançou vários livros sobre o assunto, sendo os mais recentes “Monólogo a Dois” (centro de estudos da mentalidade, 2002) e “Cultura da Agressividade” (Landy, 2004)
Nas ultimas semanas, a Folha publicou duas analises semelhantes à sua. Na primeira em 7 de junho, o psiquiatra Jerrold M. Post, que presta serviços à CIA, perfilava lideres mundiais. Na segunda, 5 mde julho, o psiquiatra Justin Frank explicava o que escreveu em seu livro, “Bush on the Couch” (Bush no divã), em que analisa o presidente norte-americano.
(Sérgio D’avila)
A propósito de casamento misto
Uma oferta judaica à humanidade, corporificada no amor e não no ódio
E contra a assimilação. Que fique consignado, desde já, para evitar dúvidas.
O noticiário dos jornais nos informa que Portugal, o país da Inquisição, elegeu seu presidente da republica, Jorge Sampaio, que reporter em correspondência enviada de Lisboa descreve: “Aos 56 anos, a cara do ator inglês Michel Caine, sardento, ruivo, de olhos verdes, filho de mãe judia e pai católico”. O sobrenome materno é Bensaude.
Portanto, a nação de tradições católicas, mais enraizadas do mundo ocidental, faz este formidável resgate teológico, ideológico, político: derruba aquilo que o fundamentalismo cristão tentou exorcizar através das fogueiras, de torturas e da extinção genocida. E não conseguiu. Está encerrado um capítulo da história do Galut. Começa outro.
E desmoraliza as teses do fundamentalismo judaico que, na sua paranóia, imagina que o casamento misto é uma covardia do nubente israelita, uma deserção, um pecado a ser punido quase com uma excomunhão.
Que o nubente “goi” tem a alternativa da conversão dogmática da ortodoxia ultrapassada, ou a conversão segundo o reforminismo jamais será reconhecida, criando as situações mais esdrúxulas de diferenciação. Ou o nubente judeu se afasta.
Teses que culminam na legislação do Estado de Israel, pertinente a esta questão, submissa ao radicalismo da exigência de matrilinhagem, na Lei do Retorno forjado um “apartheid” maldito na comunidade.
Não importa aos arautos da discriminação que, no Brasil e nos EUA, 50% dos casamentos se façam interconfessionais.
Imaginam que podem reerguer as paredes do gueto físico, emocional, de civilização, criando pela Internet “clubinhos de encontro de jovens judeus”.
Não concebem que estão traindo o Judaísmo existencial, de Moiséis e Salomão, que não restringiram, no campo efetivo, ao crescimento tribal a origem de Abraham.
Na realidade, o grande desafio contemporâneo se dirige ao destino oposto: um mundo, o mundo, a ser fertilizado pelo espírito judeu e não o pavor medieval, que acaba num complexo de inferioridade patológico e cavernoso.
Aliás, quando escrevi a primeira desta série de artigos, um jovem de seminário religioso acusou-me de deboche contra Deus.
Esta acusação, nós sabemos, se vigorassem as disposições fundamentalistas, implicava, no mínimo no “herem” e no máximo, na sentença de morte.
Provavelmente, é assim que os khomeinis judeus enxergam qualquer tentativa madura de reflexão. De passagem, quero esclarecer que o “Pinheiro” de meu nome não é de origem “goi”. Sou filho de Fanny Elwing (sobrenome de solteira), filha de Chana e Aron Elwing; ele o primeiro soichet asquenazista do Bom Retiro e de Luiz Goldberg, ambos de Ostrowiecz, Polônia. Yaakov Pinchas era o nome de meu tio que, traduzido, ficou como Pinheiro. Portanto, segundo as sagradas investigações sou “judeu puro-sangue”, ontem com reserva marcada para Buchenwald, na ótica bestial nazista, e não um “misto”, conforme o apelido que soube, é dado para os filhos dos casais interconfessionais, em algumas escolas e movimentos daqueles que domaram a mentalidade do assassino de Rabin, ou burgueses que imaginam Jerusalém em Miami, confundindo auto-ódio e avacalhação com a formidável tradição da essencialidade judaica.
Com Jorge Sampaio, fica claro que o Judaísmo é grande demais para ser de propriedade exclusiva de nós judeus.
Na minha vida pessoal, a aventura da liberdade consagrou um Deus que nada tem a ver com tabus, dogmas, limites, racismo, fanatismo e sim, com o espaço infinito que o presidente Sampaio, debatendo com direitista Cavaco exprimiu: “Contra a arrogância oferece o diálogo, contra o nervosismo pregou a confiança, contra o sectarismo voto pela paz, serenidade, tolerância”.
O casamento misto é a oferta judaica à humanidade, corporificada no amor e não no medo, na abertura e não no agachamento, na coragem e não no ódio. Shemá Israel.
Resenha Judaica – 1a. quinzena/fevereiro de 1996
Prorrogação e psicopatologia
Estudos formulados inicialmente por Freud e desenvolvidos depois por Erich Fromm em “Anatomia da Destrutividade Humana”, demonstra que na mesma progressão que o individuo, os grupos sociais, e, às vezes, até toda a comunidade podem manifestar comportamentos alienados, pairando entre a paranóia e a esquizofrenia, dando vazão a impulsos sadomasoquistas e a toda a gama que distingue a pertubação mental.
Se sobrepomos esta constatação ao fato de que os povos apresentam hábitos, por si, profundamente exóticos, poderemos entender certo tipo de atitudes, que de outra forma seriam ininteligíveis. Horace Miner, numa crítica impiedosa e satírica a esta realidade, escreveu “Ritos Corporais entre os Naciremas”, surpreendente e delicioso desnudamento dos processos demenciais coletivos.
Numa linguagem de tradução cientifica, descreve a sociedade moderna e mostra como, observada com olhos isentos e distantes, é vulnerável nos seus usos e costumes, contraditória, brutal e, mais do que tudo, ridícula.
Entre nós, faz algum tempo, um deputado vem preconizando e advogando a prorrogação de mandatos, defendendo esta idéia, num oportunismo estarrecedor, se ainda houvera espaço e tempo para estarrecimento neste campo.
Se, porventura, um selenita, despencado das estrelas, observasse o jogo político de empurra-empurra relativo a esta proposta, como veria, com seus olhos verdes e antenas na cabeça grande dependurada sobre o corpo pequenino (na popular descrição da ficção cientifica) o insólito fenômeno e seu pano de fundo?
- Um país, assolado por gravíssima crise econômico-social, que se dá ao luxo de aplicar num condenável programa nuclear 30 bilhões de dólares, embora existam alternativas energéticas modestas e eficazes. Um sistema de saúde deficitário, com alto índice de mortalidade infantil. Um grave panorama de desemprego e subemprego. Uma inflação anual que beira 150%, com uma distribuição de renda carecendo urgente de reformulação. Um sistema de ensino do primário ao universitário num tumulto programático, digno de dó. Uma corrupção grassando, generalizadamente, num caldo de cultura propicio ao jeitinho e à má fé. A violência urbana, policial e carcerária atingindo níveis insuportáveis, lembrando quase uma guerra civil, de contornos complicados – em que na Baixada Fluminense, ou no centro paulistano, oscilamos entre Chicago de Al Capone e os spaghetti-bang-bang, num atropelo caricatural. Uma TV acetinada, locomotiva das noites de ócio cultural.
- Um povo extraordinário, de índole criativa e caráter bondoso, capaz de suportar traumatismos e angustias com verve e humanismo, dando ao mundo, na crise contemporânea; uma permanente lição de compreensão e vontade; triste e perplexo diante da parafernália que sua história desencadeou.
O que é que os parlamentares desta Nação se apressam em promover?
O debate nacional, a participação intensa, um plebiscito constante para a auscultar as tendências populares? A mobilização, através dos órgãos de consulta, imprensa, rádio, TV, partidos políticos, agremiações e, acima de tudo, o próprio Poder Legislativo, da Câmara Municipal do mais humilde sitio interiorano até o Senado Federal – dos espíritos para a discussão dos temas que estão na pauta diária?
Um pára-quedas de imaginação colorida despenca do talento inesperado: prorroguemos nossos mandatos!
Qual a justificativa moral, ideológica, conjuntural, que inspira o rasgo genial? Nenhuma, absolutamente nenhuma. Mas, em compensação, estabelece-se o reino da mais perigosa defasagem entre o permissível e o inadmissível – o da
LOUCURA MORAL.
O diagnostico assinala a dificuldade em capacitar-nos do truculento e do grotesco. Será possível legislar, em causa própria, com tanta insensibilidade diante do sofrimento alheio? Garantir uma situação privilegiada, no meio da insegurança social, ensaiando a marcha triunfal, com aquela letrinha que galvanizou o País em outro tempo de semelhante perda da visão ética – “Daqui não saio, daqui ninguém me tira”.
O homem é responsável quando é capaz de solucionar racionalmente um problema e justificar moralmente seus atos.
A definição aplica-se também aos grupos.
Senão, não. Não é responsável. E as conseqüências dos gestos tresloucados podem ser as mais drásticas. E, se a loucura moral não permite entender a razão dos outros, ultima ratio, num final vislumbre de sanidade, talvez faça por arrebatar-se com um argumento conveniente – a paciência tem limite.
“A Tribuna” – Vitória, ES – 09/08/81
Sempre aos domingos
Por que o outrora sagrado dia de descanso e de orações se transformou num festival grotesco.
Por Ângela Senra
O que fazer no domingo, além de ficar colado na frente da TV, é uma pergunta que muita gente se faz depois de testemunhar o festival de baixarias que tem grassado ultimamente na telinha. Por que logo no domingo? O pânico dominical, aliás, sempre esteve presente nas rodinhas de amigos. Quem não reclama do tal dia de descanso e da sua chatice?
O PhD em psicologia e analista de comportamento Jacob Pinheiro Goldberg analisa a programação de domingo como um reflexo da neurose humana.
_ No fim de semana aparecem os traços sadomasoquistas da população, especialmente aos domingos. Você não pode avacalhar na frente do chefe durante a semana, então, quando chega o domingo, o individuo deixa a mascara de lado e se identifica com esse traço boçal da TV. Ele se sente reconfortado porque não é o único, tem a companhia abalizada da TV – analisa.
Consciência Estética
Goldberg acredita que a raiz destes programas vem desde o governo de Getulio Vargas.
_ Naquela época o rádio já tinha programas de deboches violentíssimos. O desrespeito ao fragilizado é a grande arma do humor – diz.
Pensando no minúsculo Rafael, em Carlos Augusto, o bocão do Ceará, e nos peludos irmãos Fajardo, importados do México, atrações recentes da Globo e do SBT, o psicólogo aconselha:
_ Em certos casos o Código Penal é que deveria ser acionado. Não sou a favor da censura, mas acho que a sociedade deveria reagir, principalmente com o que se considera programa de humor. Os humoristas e os apresentadores de TV fazem um entretenimento covarde, sempre apoiados nos marginalizados.
Enquanto as emissoras não se auto-regulam, resta esperar que o domingo volte a ser menos um festival de aberrações e mais o velho e bom dia de descanso.
“Revista Contigo!” - 74
Fetichismo e solidão em roubo de peças íntimas
Polícia encontra centenas de calcinhas no apartamento de um técnico em eletrônica.
Para psicólogo, não é criminoso
O doutor em psicologia e diretor do Instituto de Ciências do Comportamento Jacob Pinheiro Goldberg, disse que Jorge Noboru Ikeda não pode ser tratado como um criminoso. “É uma pessoa simplesmente com problemas no desenvolvimento da personalidade e no caráter sexual”, advertiu o psicólogo. Segundo Jacob Goldberg, pode se entender o fetichismo como “uma das fórmulas de coisificação do sexo que pela repressão social e moral deixa de ser humano e global. O individuo se transforma e transforma o mundo ao seu redor em representações parciais de prazer. Por isso seria uma hipocrisia punir penalmente alguém que é vítima das próprias contradições de um mundo que rejeita contradições de um mundo que rejeita o corpo humano e transforma o sexo em “tabu”, denuncia o psicólogo Jacob Goldberg.
“Folha de São Paulo”
E o ninguém quer representar o nada
Já se tornou um lugar comum em história a afirmação de que certas civilizações declinaram sem ter atingido o ápice. Hoje, no Terceiro Mundo, alguns países vivem o drama shakespeariano de pretender ou não o ingresso na modernidade. O Brasil tem procurado ultrapassar o conflito de duas realidades brutais: um paraíso ideal que é a mescla da sofisticação das grandes metrópoles e os bolsões de miséria – tanto urbanos quanto do campo. Independentemente desta contradição, existe um traço comum que é a mediocridade cultural. Determinados impulsos tradicionais que encontram o seu catalisador na ditadura do Estado Novo criaram uma espécie de igualdade na minimização. O comportamento boçal e violento, o cafajestismo, uma ideologia de futebol no carnaval e carnaval no futebol, surpreende as tentativas de uma qualidade melhorada de vida espiritual e psicológica. Isto está desaguando nas eleições que se aproximam. Nunca o País se defrontou com tamanha ciranda de nulidades. É o ninguém procurando representar o nada.
“O Estado de São Paulo” – Caderno 2 – 03/08/86
Criança foi esquecida na década de setenta
O psicólogo Jacob P. Goldberg ao analisar a década de 70 afirmou que ela fracassou em relação à criança. Foi o período em que mais se pensou na infância de todo o mundo, mas perdeu-se a oportunidade histórica de adaptar o desenvolvimento da cidade às condições que permitissem à criança ter comida, vestuário, assistência medica, religiosa e psicológica, brinquedo e escolas à altura de suas necessidades.
Criança esquecida – O psicólogo observa ainda que o problema da habitação tem sido dinamizado sem dar nenhuma atenção às crianças que, em 65% dos casos, não têm um quarto só para si e, dessa forma, são invadidas em sua privacidade. Nesta década aumentou o isolamento dos membros das famílias, principalmente por causa da ruptura com costumes e comportamentos passados.
Sugestão – O psicólogo sugere o desenvolvimento de um programa nacional pela infância, financiado por recursos obtidos através de descontos nos impostos pagos pelas empresas. Esse programa incluiria, obrigatoriamente, a distribuição de “pacotes” contendo alimentos básicos e peças de vestuário. Além disso, o Governo subsidiaria em parte as diversões (cinema, teatro, livros), num trabalho de conscientização nacional sobre a realidade da criança.
CIC – Centro Informativo Católico - n. 1429 – 08/01/80
Hamlet, o mito e o real numa sociedade em crise
Numa entrevista que dei, aos jornais, sobre “O complexo de Édipo”, por ocasião do Dia das Mães, declarei que “O povo se sujeita às leis, mas quer receber em troca benefícios do Estado. Se ocorre uma ruptura, fica destruído o significante paterno, o Nome - do - Pai, o que pode implicar o rompimento de barreira que impedia em nome da Lei – a emergência dos impulsos delinqüentes, predatórios, homicidas e incestuosos, na pior das hipóteses, desencadeando a guerra fratricida”.
Tenho assinalado, freqüentemente, em depoimento no Congresso, em conferencias em universidades (principalmente, na minha defesa de tese de doutoramento, que será publicada, em forma de livro), pelo Rádio e TV, que o Brasil se encontra num ponto de impasse, diante de sua crise que é econômica, mas é mais de ruptura histórica, oscilando entre a evolução e a barbárie.
A propósito, uma divagação.
Para Francis Fergusson, o “Hamlet” de Shakespeare é uma peça sobre a purificação da Dinamarca, uma ritualística, na qual o personagem principal é o responsável para limpar a podridão moral de sua sociedade conspurcada pelo crime de seu tio.
Em termos de “Édipo Rei”, de Sófocles, uma praga está atormentando os habitantes de Tebas. Édipo quer terminar com a praga. O oráculo afirma que o modo de fazê-lo é descobrir o assassino de Laio. Fica claro que o problema envolve a tanto a população tebana quanto os deuses, Édipo e sua família.
Em “Hamlet” sente-se o pressentimento de uma desordem moral e o domínio de Cláudio sobre a Dinamarca indica algo a podridão total. O fantasma pede a Hamlet que o vingue – “Não deixe o leito real da Dinamarca ser um colchão para a luxúria e o incesto maldito”.
Jean Paul Sartre disse que ninguém com autoconsciência pode fazer algo de verdadeiramente drástico no palco ou na vida, e continuar a ser respeitado, a não ser que esteja de acordo com seu compromisso.
O traço essencial de Dom Quixote é não conhecer, perfeitamente, o enredo da trama em que está envolvido. Magnífico, mas perdido. Sonhar este sonho impossível... Enquanto rompe um mundo, no alvorecer do outro.
Hamlet carrega a loucura fingida. Para Coleridge e Goethe, Hamlet é irresoluto. Bradley está vencido do contrário. O fato é que Hamlet se diverte em fazer o papel de louco, porque dessa maneira pode fazer qualquer coisa que queira, a qualquer momento. O fantasma lhe diz que ele não deve expressar seus sentimentos espontâneos: mas fingindo-se de louco, Hamlet pode ser ele mesmo.
Quando Hamlet, no terceiro ato percebe Cláudio rezando e tem a oportunidade de matá-lo, por que razão não o mata? Hamlet é incapaz de agir?
O monólogo “Ser ou não ser” nega o valor da ação como tal. Hamlet refugia-se na filosofia. O solilóquio tem um significado psicológico. Filosofando, ele se submete voluntariamente à intriga de Cláudio e Laertes para mata-lo.
Dirá o leitor desavisado – Qual a razão desta narrativa interpretada, num artigo descompromissado? Estará Goldberg se dedicando à critica teatral, na abordagem psicológica dos protagonistas de Shakespeare?
Sim e Não.
Sim, pela simples inovação feita.
Não, porque se fala do aqui e do agora, quando se fala de sempre.
Os homens se enganam quando se imaginam, na sua vã loucura, representantes de uma epopéia singular. Enchem-se, na empáfia de imodesta realidade no tempo. O sujeito é o louco no espaço finito, de Narciso apaixonado.
Ao contrário, proponho:
Quem quiser entender a crise brasileira, deve mergulhar, urgente, na Grécia, acompanhado pelo guia turístico de Freud.
Entre deuses verá que, como numa novela famosa de, Unamuno, o personagem pode rejeitar o destino que lhe escolheu o autor e exigir a alteração.
Quem está disposto a alterar o discurso cultural e propor uma revisão, visitando o autor: escrever o futuro, a partir dos personagens, o povo em cena.
Diário Popular e Jornal de Bauru – 27/05/84
Inconsciente, mas só longe da Polícia
Valdir Sanches
Os maníacos que de vez em quando surgem na cidade, e investem contra mulheres, em geral agem sob um impulso inconsciente. Mas a execução de seu ato – golpear com estiletes, atirar ácido às pernas, matar – é intelectualmente ativa. Tanto que eles escolhem o alvo, as circunstancias e tomam cuidado para evitar a ação policial. Esta constatação é de Jacob Pinheiro Goldberg, doutor em psicologia, advogado e professor de psicologia jurídica em nível de pós-graduação da Faculdade de Direito da USP, um observador atento do cotidiano criminal de São Paulo.
O rapaz acusado de ser o maníaco do estilete está com Aids; isso pode ter a ver com seus crimes? Para Goldberg, as vitimas, nesses casos “são aleatórias”: “A mulher entra sempre como imagem e não como realidade. Não é tratada, na verdade, como mulher de carne e osso, mas como uma inimiga internalizada e portanto, muito perturbadora”.
A policia não tem nenhuma dúvida de que as vitimas do maníaco do estilete enquadraram-se no conceito de aleatórias. Como aconteceu no ano passado, com o maníaco do ácido (na verdade, eram dois e foram presos), que atacava mulheres na zona leste. “Ele estava no ponto do ônibus, como qualquer pessoa. Eu cheguei e perguntei as horas. Cinco para as oito, ele respondeu, normalmente” – recorda-se hoje Eunice Maria de Lima Brito, uma das 19 mulheres que tiveram as pernas queimadas pelo ácido dos maníacos. O maníaco fez uma observação sobre as pernas de Eunice, deixadas à vista por uma minissaia. “Quando eu estava atravessando a rua senti aquela coisa quente nas minhas pernas. Vi que era o homem da fila, me olhando com um riso estranho. Aí começou a arder e eu gritei”. Algum tempo depois, Eunice e outras vitimam reconheceram, na policia, o motorista de ônibus Enete Evangelista, que negou os crimes, mas confessou ter ciúmes das minissaias de sua mulher, que, além disso, o traía.
Infantilidade
Esses maníacos podem atacar por vingança? “Sim. O homem mal desenvolvido sexualmente sempre se sente roubado ou traído pela mulher. Como é incapaz de ter a mulher, ele a destrói. É muito freqüente que esses criminosos sofram de impotência ou infantilidade”.
Mas por que sempre são os homens que atacam mulheres, nunca o contrário? “Uma das razões é que a mulher é mais frágil, o que representa mais um componente para o sadismo. Mas se consultarmos a história dos mitos, que formam a mentalidade humana, veremos que um dos mais recorrentes em todas as culturas, situa-se em torno da sedução de Adão por Eva, onde o homem é punido pela perfídia da mulher, com a expulsão do Paraíso”.
Desse mito, diz o psicólogo, resultam confrarias masculinas e os clubes-do-bolinha. “É freqüentes certos homens terem um discurso machofascista, que considera a mulher desagradável, inútil, inferior e que só serve para ter relações sexuais ou para ter filhos. Neste quadro o individuo imaturo e patológico acredita que mutilar ou matar a mulher é aniquilar o objetivo conflitivo do seu desejo.” Goldberg acha que a punição real dos culpados – a consciência de que serão efetivamente punidos – poderá constranger a ação de novos maníacos: “Será um elemento de moderação de seus instintos selváticos”.
“Jornal da Tarde” – 17/05/90
Contrapé na bunda
Como reagir a uma desilusão amorosa? Para responder à pergunta,
selecionamos as dez melhores historias de dor-de-cotovelo enviadas
para o nosso site e convidamos uma especialista para meter a sua co-
lher nas soluções encontradas pelas mulheres para superar o trauma.
Prepare-se: ele vai lhe dizer algumas verdades sobre o tema.
Nada de aceitar passivamente a tristeza ou aprender a detestar o ex-namorado. Para o PhD em psicologia Jacob Pinheiro Goldberg, a receita para superar o pé na bunda é muito diferente de tudo o que você sempre ouviu – e provavelmente praticou – por aí. Segundo ele, essas velhas maneiras de se enfrentar a dor-de-cotovelo acabam gerando um novo relacionamento malsucedido. “Antes de Tudo”, diz, “é preciso compreender que a solidão é inerente à condição humana”.
Durante cinco dias, disponibilizamos o nosso site (www.revistatpm.com.br) para as internautas que quisessem contar sua desilusão amorosa e como fizeram para supera-la. A seguir, você lê essas histórias e os comentários e dicas de Pinheiro Goldberg sobre a atitude de cada uma delas.
Amiga? Como assim?
“Conheci um cara no trabalho e um mês depois estávamos namorando. Desde o inicio rolou ciúmes. Lá pelos nove meses, fomos a uma festa ótima, transamos dentro do carro e depois dormimos juntos em casa, um amor. Ele ficou de ligar. As frases tilitam no meu cérebro até hoje: “Não quero mais, depois da transa vi que gostava de você como amiga”. Foi horrível! Depois de um tempo ele quis voltar, mas eu já estava em outra.” S.O.
Jacob Pinheiro Goldberg. Já rolava ciúmes desde o inicio e ele devia ter uma tremenda dificuldade em assumir isso. Tudo ficaria mais fácil se ela deixasse claro que ele é o eleito entre tantos outros caras que ela pode escolher – uma coisa que as mulheres na fazem. Preferem dizer que o cara é único, uma bobagem enorme”.
Absorvente envenenado.
“No começo, ele mandava cartões, e-mails, telefonava dizendo que eu era linda, e acabei absorvendo o veneno: começamos a namorar. Ele era um cara legal; o sexo, perfeito. Telefonei em um fim de semana e ele tinha ido trabalhar em outra cidade. Achei estranho não ter me contado. Na segunda-feira, recebi um e-mail dizendo que a ex-noiva tinha ligado e que estavam juntos. Chorei muito e prometi reavaliar meus conceitos”. R.R
Goldberg. “Como assim ‘absorvi o veneno?’ Isso é um absurdo! É impossível que alguém que está sendo cortejada sinta isso como um veneno. Como se ser amada fosse uma armadilha. Na minha opinião, a relação terminou porque ela já entrou na posição de vítima. Assim termina mal mesmo”.
Cuidado, namorado frágil.
“Estava com ciúmes do meu namorado em uma festa e terminei o namoro. É lógico que me arrependi, fui me desculpar e sugeri que voltássemos. Ouvi um sonoro ‘não’. Fiquei mal. Pouco tempo depois, soube por terceiros que ele e minha melhor amiga estavam juntos. Não tive dúvidas em causar um constrangimento geral quando aceitei o convite dela – olha que dissimulada! – para passar o verão na praia com o novo casal e família. Todo o mundo pisando em ovos”. J.V.M.
Goldberg. “A impressão é que esse ex-namorado é um individuo ambivalente, frágil, que provavelmente procurou uma mulher menos manipuladora. Quem deteve as rédeas do jogo foi ela, o tempo todo, e só não o reconquista se não quiser. Essa historia de ficar com a amiga é quase gritar que quer ficar com ela”.
Sasomaso
“Reencontrei um amigo em uma festa, tínhamos bebido e acabamos transando. Ele tem uma namorada a quase 4 anos e tem crises de consciência porque vive traindo a coitada. No dia seguinte, me disse que não queria ficar comigo de novo. É mole? Não descobri o que fazer porque ainda estou sob o efeito da bomba, continuo gostando dele”. W.W
Goldberg. “A expectativa dela foi desproporcional à realidade. É preciso haver menos idealização! Hoje é freqüente a mulher se aproximar de um cara querendo de convencer – e convencê-lo de que ela só quer ficar, mas na verdade ela quer muito mais. E dizer ‘eu continuo gostando dele’ é sadomasoquismo”!
Tôo Young to die.
“Eu namorava a um ano e meio, mas a gente brigava muito. Depois de um fim de ano romântico, ele disse que estava muito novo para namorar serio. Eu, sem derramar uma lágrima, disse que estava tudo bem, cada um para seu lado. Quando ele foi embora, meu mundo caiu. Desde então, não parei em casa um minuto, até esquecê-lo. Arrumei outro namorado, lindo, moreno, sarado e supergentil”. A.
Goldberg. “Por que ela não mostrou para ele que o mundo dela havia caído? Como é possível haver uma relação humana sem transparência, se você esconde do outro os seus sentimentos verdadeiros? E esse namorado novo só existe na cabeça dela! Os seres humanos não são lindos, sarados e supergentis. São complicados, ciumentos, volúveis”.
Síndrome de galinha.
“Conheci um cara e na época deixei claro que não queria nada,, mas acabei me apaixonando. Ele arrumou uma namorada e eu dancei. Um ano depois nos encontramos. A conversa acabou em beijo, e o beijo em sexo. Ficamos num triangulo até que ele desistiu de mim. Ainda liguei, passamos uma noite maravilhosa e no outro dia ele disse que não podia largar a tal guria. Pediu que eu entendesse. Ah, não tenho que entender nada”! C.G.
Goldberg. “A mulher é muito castrada no seu direito à aventura. O que para um home, é considerado legitimo, para a mulher é considerado vulgar, banal. Mas vamos ficar por aqui, sem culpas. Ela quis emprestar uma solenidade para não aparecer, para si mesma, que é vulgar. Isso é síndrome de galinha.
Maconheiro malandrão!
“Dormimos juntos e pela manhã, ele me mandou embora, disse que não queria mais namorar. Não acreditei. Quebrei a casa toda e entrei em depressão. Namorei o cara por três anos, a gente morava junto na casa de praia dele. Eu trabalhava e ele não fazia nada, fumava uns oito baseados por dia. Estava acomodada e o malandrão ainda xavecava qualquer coisa que passasse por ele. Já faz seis meses e ele arranjou outra”. W.
Goldberg. “A maconha é uma droga de isolamento, de solidão. É muito difícil para uma pessoa que fuma essa quantidade de maconha manter um relacionamento estável e permanente. A instabilidade (‘xavecar qualquer coisa’) também é pista dessa falta de conexão com o outro”.
Roupa de mulher e uma nécessaire.
“A gente já namorava há cinco anos. Passei um dia na casa dele, mas ao estava. Fui para o quarto e encontrei uma bolsa com roupa de mulher e uma nécessaire. Comecei a procurar outros sinais, até que encontre um papel com um telefone e um nome de mulher. Telefonei na mesma hora e ele atendeu! Peguei a sacola e joguei tudo pela janela. Ele chegou logo depois, dizendo que me amava, que estava arrependido. Aquele velho papinho que a gente já conhece...Terminei o namoro e resolvi aproveitar a vida, me divertir”. J.F.M
Goldberg. “Esse pacto de exclusividade precisa ser revisto. O que me parece curioso na reação de certas mulheres é a incompreensão da maleabilidade das relações. E, às vezes, não é papinho. Pode ser uma tentativa de recuperar as coisas”.
Romance trêpego
“Eu estava ficando com um cara a dois dias, estávamos com uma galera na mesma casa passando o fim de ano, só festa. Na hora da virada, ele me deu um beijo romântico e apaixonado. Depois disso começamos a beber, ele sumiu com uns amigos e só voltou quando eu já tinha bebido um monte e passado mal. No dia seguinte, não trocou uma palavra comigo, não olhou na minha cara e eu o chamei para conversar. Ele disse que não queria mais ficar comigo. Relaxei e aproveitei”. L.
Goldberg. “O que você pode esperar de uma relação que começa numa festa, no meio da bebedeira? É claro que isso não tem consistência nenhuma. E ela foi seduzida pelo beijo apaixonado... Essa cultura romântica de idealização está em crise. Isso não é o que se deve buscar em uma relação”.
O jegue e a internet.
“Conheci um cara pela internet e, quando vi, estava completamente apaixonada. Esse negócio de nunca tê-lo visto não me importou, porque a relação ideal é a que começa por dentro. Ele morava em outro Estado e namorava uma virgem interiorana. Fui para a cidade dele, foi lindo, e fiquei mal quando nos separamos. Com o tempo, fui melhorando até que me apaixonei de novo. Ele ainda ligou para dizer que também tinha sofrido. Se fosse antes, eu ia até de jegue para a cidade dele”. C.A.
Goldberg. “Sob o ponto de vista sentimental, a internet é o que há de mais retrógrado. Na rede, as pessoas procuram a própria sombra, procuram alguém que alimentem o seu ego. É uma relação masturbatória. Você deleta logo quem te faz criticas. Moderno mesmo é conhecer o outro de verdade”.
Revista TPM – Fevereiro de 2002
Casual day
O que você faz quando está a fim de transar com alguém, mas está solteira? Você faz sexo
sem compromisso? Não faz nada? Ou parte para outra solução, que não seja o sexo casual?
Três mulheres expõem aqui seus argumentos francos sobre o assunto, comentados por osso especialista sincero Jacob pinheiro Goldberg, PhD em psicologia.
“Sempre pedi e dei”
Por Tahiana Mancini
Sexo pra mim é sobre-humano e por isso pode ser com qualquer pessoa. O bom sexo está muito além do contato carnal. É uma forma de trocar energia, talvez a mais intensa entre duas pessoas. Essa troca pode ser momentânea e isso muitas vezes te surpreende: é aí que está a casualidade da coisa. Já fiz vária vezes com muita gente. Com gente que não conhecia, com quem conhecia, mas não estava esperando transar. Sou totalmente desprovida desses preconceitos: sexo casual não é putaria, não é libertinagem. Você está ali para trocar.
Pré-seleção
Grande parte das pessoas não se permite entrar em um relacionamento casual, menos ainda se envolve sexo. Pra rolar, depende da liberdade de cada um. Essa história de que não é bom porque é casual é bobagem. Tem pessoas com quem o sexo é horrível, e tem outras, igualmente “casuais”, em que o sexo transcende. Eu sempre fui uma pessoa sensual. E comecei cedo, sempre gostei, sempre pedi e dei. E sempre me aproximei de pessoas que têm coisa a ver comigo, automaticamente. Com todo o mundo deve ser assim. A Pré-seleção é minha: se escolhi mal ou bem, fui eu que escolhi. O que não pode é não fazer, ter um câncer e morrer sem ser feliz.
Estou casada a três anos e nesse tempo não tive sexo casual. Ficar com um cara, ter um caso, criar laços de família, aí é outra história – você mente, engana, machuca. Um caso é a coisa menos casual que existe.
Tathiana Mancini, 27 anos, apresentadora do MTV Erótica.
Jacob Pinheiro Goldberg. O casual não é banal. Quando a aventura se transforma em rotina, deixa de ser aventura. Esse depoimento reflete dúvidas existenciais de centenas de mulheres, mesmo de mulheres resolvidas. A questão está posta: querer se equiparar ao direito que o homem se tornou de fazer sexo casual. Acho que algumas mulheres resolveram imitar os homens. Outras escolhem outro modelo, mais feminino e mais interessante. A mulher, em geral, precisa ter uma posição menos reativa, deixar de lado a opinião das outras mulheres e da pauta masculina e ver quais são as suas intenções, nem tanto as suas necessidades.
“uso a imaginação e resolvo sozinha”
por Fernanda Amaral.
Só faço sexo com tesão – e não sinto tesão pelo primeiro que aparecer. O bom sexo para mim tem que ter uma sintonia que vai além da atração física. Não quer dizer que eu demore um mês para ir a cama com um cara, só depois de conferir seus antecedentes criminais e descobrir o que pensa sobre o futuro do mundo. Nada disso. Sexo é uma brincadeira de adultos e basta às pessoas estarem a fim da mesma brincadeira para rolar. Mas, fico pensando, as brincadeiras eram mais intensas com os amigos da escola do que com uma criança que conhecia num sábado qualquer, no parque.
Fiquei uma única vez com um estranho, ainda adolescente – e não transei. Sempre fui assim. Cheguei a questionar essa postura aparentemente “careta”, porque naquela época algumas amigas já ficavam com vários caras. Achava que a minha atitude não combinava como conceito de “mulher superior” que eu pretendia ser: livre, sem preconceitos e feliz. Depois saquei que o meu comportamento não se contrapõe a esse conceito. Ser livre significa que a escolha é minha, que dou para quem eu quiser. E não quero transar com um cara que mal conheço.
A chance de ser você mesma
Nada contra quem pratica o sexo casual. Mas acho que as mulheres continuam cumprindo um papel. Se antes era moralista, hoje ele é modernista. As mulheres se libertaram dos pudores apenas para não carregá-los, e não para amarem livremente, a seu modo. Pó, do mais importante, da chance de ser você mesma, vai abrir mão? Eu não.
Naturalmente, passo por períodos de seca. Afinal, por que as pessoas precisam de sexo? A necessidade emocional, ninguém me convence de que pode ser resolvida com a troca de fluidos de um fulano qualquer. Só que, para resolver a necessidade física, não preciso de ninguém. Uso a imaginação e resolvo sozinha. Sintonia fina, eu comigo mesma. Há de existir outra afinidade para o sexo além dos meus próprios hormônios em ebulição.
Fernanda Amaral é relações públicas e organiza eventos.
Goldberg. Essa é uma forma de autocrítica, de auto-avaliação bem mais madura. Ela encarna uma posição de equilíbrio entre a libido e a auto-repressão consciente, é alguém que manifesta controle sobre o seu próprio desejo. Nós só somos livres se somos capazes de administrar nossos impulsos, senão somos escravos das nossas vontades, e temos que procurar alguém para satisfazer essa compulsão. Aí, adeus liberdade. Ela aprontou uma coisa interessante: as pessoas fazem uma coisa em nome de outra, são escravas em nome da liberdade. Ela é livre.
“Eu dou. Mas não para o primeiro mane”.
Por Clarh Averbuck.
Primeiro, quero deixar uma coisa bem clara: sexo casual não significa juntar o primeiro mane que aparecer no meio da noite e levar para casa. Assim como não beijo uma pessoa de quem não goste pelo menos um pouco, não transaria com um idiota. Na verdade, nem se quer conversaria mais de quinze minutos com um idiota. Parte-se do principio de que as pessoas com quem fico tem alguma afinidade comigo, com exceção de alguns deslizes alcoólicos que causam mal estar e tapas na testa no dia seguinte e absolutamente não entram nessa questão. Então, não tenho o menor problema em transar quando fico a vontade. Não interessa se conheço a pessoa a três horas ou um mês , quando rola, eu não seguro. Para que segurar? Eu gosto de sexo e quero fazer sexo quando tiver vontade, sem ter de dar satisfações para ninguém ou ficar preocupada se o cara vai ligar no dia seguinte. Às vezes, rola uma clima na hora, os dois ficam com vontade e pronto. Não precisa de mais nada.
Puta, galinha, vadia.
Não quero nem saber se vou ficar com fama de puta, galinha, vadia, essas coisas idiotas e moralistas que só servem para as mulheres. Por que os homens comedores são fodões e as garotas são depreciadas? Isso precisa mudar algum dia, não é possível que ainda seja assim. De qualquer forma, se ser puta, galinha e vadia é se divertir e fazer o que tiver vontade, na hora e com quem tiver vontade, então eu sou eu e com orgulho. Posso até abrir uma ONG.
Ok, então a gente vê todas aquelas pesquisas em (ugh) revistas femininas dizendo que os homens não gostam de garotas que vão para o motel, fazem sexo oral ou deixam passar a mão(!) na primeira noite. Meu Deus, quem são esses homens e o que querem?
Estão no primário? Passar a mão? Socorro! Isso parece coisa do século passado, quando os homens iam atrás de prostitutas porque a mãe dos filhos deles não podia ser libidinosa e devia se dar o respeito. Se dar o respeito está muito acima e muito além de dar ou não dar. Tem muito mais a ver com liberdade de fazer o que eu quiser com a minha vida e meu corpo. Então meu amigo, eu dou.
Clarah Averbuck, 22 anos, é escritora.
Goldberg. O fim do depoimento é paradoxal: ela dá. O verbo “dar” significa uma entrega e não tem obrigatoriamente o sentido da transa, que é uma negociação. O tempo todo ela diz que é livre, mas ela é livre para dar? Ela dá porque alguém come, certo? Imagino que a liberdade signifique poder dar e receber. Algumas mulheres simplesmente resolveram imitar a maneira masculina. A onipotência é ranso machista, discurso de trincheira.
“Revista TPM”
N° 10 ano 01
A Vigilância, a segurança, a liberdade.
Uma das características do mundo contemporâneo, a vida nas megalópoles é a disseminação caótica do crime, tanto organizado quanto desorganizado, ambos confusos e complexos, de fatores sócio-econômicos, culturais e políticos, os mais variáveis.
E o crime se encontra ou pelo menos se avizinha nas suas condutas perigosas, com distúrbios étnicos, religiosos, ideológicos de toda natureza.
Este elenco de realidade que, no Brasil, atinge índices assustadores, provoca na população respostas de medo atingindo limite da esquizo-paranóia.
Doenças psico-somáticas, ciclo reativo de “stress” acabam tendo multifaces individuais e coletivas de histeria, por sua vez, dramatizada, e manipulada pela “mídia”, principalmente, a tv, mas também a internet, a imprensa escrita e falada.
Junte-se a este receituário febril as dificuldades administrativas na condução da qualidade de vida-sistema de saúde fragilizado e deficiente, ensino defasado em relação às exigências do desenvolvimento tecnológico, desemprego, valores morais contestados por abusos de conteúdo e forma, espiritualidade permanentemente questionada até o ridículo, cultura e arte na espinhosa função de acompanhar os fenômenos, correndo atrás do prejuízo. Estes, alguns, poucos, aliás, dos papéis que desorientam a pessoa que, nos labirintos existenciais, busca orientar-se, fugindo, quando possível dos jogos de interesses que pretendem usa-la, para massa de manobra de jogadas que vão das mercadológicas até as eleitorais.
Na angústia e na perdição surge uma promessa e um fantasma. No seu livro clássico “1984” George Orwell descreve a cena que agora já protagonizamos como atores coadjuvantes.
Um universo concentracionário de proteções materiais para proteger nosso íntimo e até a nossa vida ameaçada, diuturnamente.
Vai-se desenvolvendo, de forma vertiginosa e maciça, um Superego que ultrapassa a polícia, o exército, o Estado, embora, freqüentemente use, simultaneamente, seus recursos na união pecaminosa. O Estado e as organizações privadas, numa união implícita e explicita de métodos e objetivos.
Sob o simpático, embora suspeito lema de proteção ao anônimo perdido na multidão, impotente e desamparado, A VIGILANCIA TOTAL.
Câmeras ocultas, gravadores, redes sofisticadas de informações que vão dos cartões de créditos até as investigações rigorosas de comportamento. As fichas personalizadas de saúde, as escolares, as profissionais, as de instituições as mais diferentes e todas se cruzando numa chekagem ao infinito.
Nosso corpo como instrumento suspeito nos aeroportos, seus desejos como indícios condenáveis (até a obesidade começa a ser enxergada como prejudicial aos convênios médicos e, por isto, demandam do controle).
CONTROLE. Esta é a palavra – chave para designar síndrome, o padrão ambivalente que acaba tentando cuidar de cada um de nós como se fossemos um PROJETO INFANTO-JUVENIL, por isto necessitando de zelo e guarda paternal e patronal, contra tudo e todos e, principalmente, contra si mesmo. Nossos impulsos, desvios, singularidade, indiosincrasias.
O risco absoluto desta tendência é a pluralização da espécie, o fim das diferenças, a transformação do ser humano em unidade numérica (os infinitos cartões de identificação) que acabam por sacrificar a mais importante altitude de civilização. O direito a insegurança, matriz do nosso destino enquanto criatura entregue a seu arbítrio, na única proteção autentica.
A inserção no fluxo de trabalho da cultura, da fé, aquilo que enobrece a maturidade, conquistando o nosso interior sacralizado. Que não pode ser devassado. Revista “Família Cristã”
O tabu das raizes
Judaicas do Brasil.
Um tema que tem sido tabu, como tantos outros, na historia do Brasil, feita por e para a oligarquia, é a influencia judaica na formação de nossa mentalidade.
O maior de nossos folcloristas, Câmara Cascudo, ao enviar-me, pouco antes de morrer, seu livro “Mouros e Judeus”, destacava, sublinhando a reflexão final de seu trabalho, que no alvorecer da nacionalidade a Nação se forjou em judaica,
Muito mais que uma tese acadêmica, arrolando dados, números e documentos, o que importa é a rede extraordinária que se estende, dentre nossos arquétipos, num profundo atavismo.
E, curiosamente, hoje se vive o inicio do “Retorno do reprimido”, na fuga freudiana.
Sem preocupação lógica ou cronológica, Kurt Loewenstamm anota que o nome de solteira da mãe de Tiradentes era Antonia de Encarnação Xavier Colaço, e como os cristãos-novos faziam deixou de usar esse sobrenome. Existem processos inéditos com estes homônimos processados como judaizantes (outro conjurado, o padre Antonio Rodrigues Dantas, primo de Tiradentes, era também neto de Maria Oliveira Colaço).
Tiradentes foi o único participante da conjura Mineira condenado a pena máxima. D. Maria I o considerou “indigno da real piedade”, expressão usual relativa a cristãos-novos.
José Joaquim da Maia se apresentou a Jefferson como enviado da “nação”, conceito corrente entre os cristãos novos. Rocha Pombo diz: “os primórdios da rebeldia para constituir uma nação independente tiveram por parte dos israelitas e dos seus descendentes destacada contribuição”, o que é ratificado por Adolfo Varhangen e Lecky.
Bequimão (ou Beckam), no Maranhão, Vilas Boas da Mota revela que o primeiro poeta de Goiás, Antonio Ferreira, era cristão-novo.
Gilberto Vilar acaba de publicar seu livro “O primeiro brasileiro”, advogando que Bento Teixeira, autor da “prosopopéia”, cristão-novo, teria sido o primeiro brasileiro, o que irritou o critico literário do “Jornal do Brasil”, Wilson Martins, que refutou alegando que Bento seria no máximo, o primeiro poeta no Brasil (sic...).
Publiquei no meu livro “Cidade dos Sinos”, na altura de 1960, um roteiro cinematográfico para a impressionante figura de Antonio José da Silva, o Judeu, nosso primeiro teatrólogo, embora acredite que a personalidade emblemática do judaísmo na psique brasileira foi Isaac de Castro (vide estudo de Elias Lipiner), em Pernambuco, uma vida missionária, de herói da exclusão.
Branca Dias, primeira professora brasileira, João Ramalho, Ambrosio Fernandes Brandão que editou em 1618 a primeira historia econômica brasileira, Jacob de Andrade Velosinho, primeira médico nascido no Brasil. Hipólito José da Costa, patrono dos jornalistas brasileiros, preso pelo crime de judaísmos, de 1802 às 1805, gervasio Pires Ferreira, herói das lutas de Pernambuco. Ângela Vieira Melo, em sua tese (UFRJ). “A sombra do medo” investiga os hábitos que se enraízam em nossa cultura, dos descendentes dos Antunes, Mendes, Nunes, Lopes, Roiz, Fernandes, Gomes,, Serrão, Dias, Henriques, nas capitanias do açúcar – Bahia, Pernambuco, Itamaracá, Paraíba.
E não bastasse, D.Pedro II, filho de D.Pedro I (amante de Inês de Castro), traduz do hebraico livro de rezas judeu, do ritual sefaradim-contandim, depois de visitar a então Palestina, e discursar numa sinagoga de Nova York.
E quem quiser viajar, neste delírio romântico, pode procurar no erudito Moyses Kahan, “Judeidade”, as semelhanças lingüísticas entre o tupi-guarani e o hebraico, bem como hábitos judaicos entre os chamados silvícolas, ou o estranho achado no quilombo dos Palmares de objetos da liturgia judaica.
Talvez, antes do católica, a sedimentação de nosso primeiro extrato, como povo, tenha sido judaica.
Quem desafiará o proibido e o oculto?
Este inquérito encontra resistência, entre nós judeus, pois de alguma maneira, o cristão-novo é exagerado como o desertor, o que fraquejou e entre os cristãos, por causa do estranhado anti-semitismo primitivo que, no Brasil, intelectualmente, têm suas pontas em Gustavo Barroso, o radical possuído pelo complexo de inferioridade étnico e Gilberto Freyre.
Alias, Silvia Cortez Silva, em sua tese “Tempos de Casa Grande” desmascara o anti-semitismo de Gilberto Freyre, com o qual tive contato, quando era cronista de um jornal juizforano. Conversei com Gilberto Freyre, por telefone, e ele me perguntou se eu era judeu, e arrematou com o indefectível: “Vocês são muito inteligentes”(sic). Retruquei , “vocês, quem?. E Gilberto, matreiro: “Não, não, eu quis dizer que vocês judeus se interessam muito por sociologia”.
Finalizei o telefonema, arrematando: “Creio que ambos estamos enganados. Eu por procura-lo e o senhor por enquadrar-me num plural, por sua conta”.
O resgate da negritude, do judaismo, do indígena, do Brasil é o selo de uma identidade a definir.
“Tribuna da Imprensa 26/12/00”
Psicologia de Massa
Nas vogas lançadas pelas poderosas máquinas divulgativas, nos diversos quilates, é preciso localizar certos elementos de mistificação, para elucidá-los. Periodicamente, de maneira simultânea, como que obedecendo a controle remoto, as grandes revistas internacionais passam a projetar ensaístas ou pensadores. Deixando de lado o aspecto de coincidência de revelação de valores, por extemporâneo, restaria o valor intrínseco da obra do escritor. Acontece que mesmo um conhecimento perfunctório dos emaranhados do grande mundo editorial e da informação, permite constatar que esta é uma das últimas facetas a serem levadas, em consideração. O número de talentos despejado no mercado é de tal monta que os controladores de opinião pública podem, perfeitamente, se dar ao luxo de selecionar aqueles que, de uma ou outra forma, correspondem aos seus interesses mais diretos de ordem política, social e econômica. Em décadas diferentes citemos Erich Fromm, Koestler e Mac Luhan e Marcuse. A compilação do gênero “Digest para adulto”, tem de ousadia o que lhes falta em singularidade, pouco convincentes em seriedade filosófica. A “promoção sociológica” se escora em “cultura de jargão”, para ser assoalhada em fórmulas doutorais, nas ante-salas das Universidades e grêmios juvenis, tanto menos perigosas, quanto menos embasadas na realidade social.
O despudor com que se faz a exaltação da violência, em todas as formas — das mais primárias (gangsterismo na TV e mocinho no cinema) até as mais complexas (o exercício arbitrário do poder estatal e a guerra) assume características paranóicas acerbadas, na sociedade em conflito. A manipulação dos instrumentos de crime — armas brancas e de fogo —
apresenta cada vez mais amplos. Clubes de tiro ao ar livre pululam. Fotografias coloridas, nas matrizes dos jornais insensibilizam a juventude, exibindo chocantes cenas de atropelamento. O golpeamento pela trituração do adversário, é apresentado, em todas as instâncias como a forma mais eficiente, rápida e elegante, de triunfo, numa sociedade onde o triunfo é o critério de aceitação. Os mais bestiais instintos que as condições ambientais excitam ao invés de sofrear encontram guarida e tolerância.
Não podemos admitir, a não ser como resíduo da exploração comercial desbragada, a entrega dos órgãos de comunicação para a massa a dirigentes que não tenham condições intelectuais adequadas, constatamos a degenescência que avassala a formação da cultura de opinião pública, em nosso país. Alguns dos desacertos que estas contingências provocam pela sua singular gravidade merecem destaque.
Tirante os dispositivos culturais, a constatação de capacidade imanentes diferenciadas de inteligências nos conduz ao problema de se ater a uma linguagem universal como se pudesse abstrair deste elemento básico. A não ser para temática específica — técnica ou condicionamento de interesses — uma simbologia universal de vocábulos serve à linguagem. Tendo em vista que a captação e enunciação são decorrentes em grande parte de postura inteligente, pode-se avaliar o grau de resíduos que essa precariedade informativa induz.
O abismo de compreensão qualitativa que separa as instâncias de inteligência é maior do que a distância de uma língua de outra.
Oscilando entre o jogo da hipocrisia convencional e os impulsos descontrolados do aproveitamento, o sexo serve à fantasia publicitária, sem objetividade científica. Desde a proibição da menção dos órgãos genitais até os convites da lascívia exibidos em anúncios, prima-se por emprestar ao problema do sexo, características de “tema tabu”. O apagar contínuo da sensibilidade, pelo confinamento das reações acaba degenerando no crime — estimulante de cultura de vendas, e por isso, endeusado na arte e divulgação, em verso e prosa. Mesmo nos países onde a presença da mulher, em termos de emancipação social vem se acelerando, facilitando a solução dos problemas sexuais, os resíduos de impacto diário de informações desvirtuadas e “apelos irracionais”, com base exasperação do sexo — como elemento de mercadoria e sustentação de venda — dificulta seu dimensionamento lógico.
Uma comissão de psiquiatras norte-americanos, presidida pelo dr. John Sipieguel, diretor do Centro para o Estudo da Violência da Universidade de Brandeis, dirigindo peritos em Sociologia, História, Medicina e Direito, aventou a tese de que a fórmula para diminuição das ondas de violência e ódio, na sociedade moderna, seria a educação do público para “aprender a perder”. Em palavras não condicionadas isto seria uma proposição para aquietar-se as ondas de insatisfação natural do indivíduo e grupos, diante de erros e injustiças que caracterizam o mundo de terríveis contrastes entre a opulência e a guerra, o prazer e a dor que flagelam grandes multidões. É claro que se trataria de tomada-consciência em favor da criação do homem-carneiro para as reações sociais, em manada.
O envilecimento paulatino dos meios e processos de comunicação e a superficialidade e a mistificação, terão como resultado a ambigüidade e desorientação. E teremos que assoalhar o espírito da época, conforme Goethe: “Sempre que ele graceja tem um problema oculto”.
Revistae Sesc – Nov. 2001 – n. 4 – Ano 8
Respondendo inquérito criminal
Alegado que teria assistido ao filme “Paixão de Cristo”, do famigerado Mel Gibson, em dvd pirata fui ouvido na 1a Delegacia DEIC.
O 43º Promotor de Justiça Dr. Paulo Juricic em cota requereu o arquivamento do inquérito por “não restar comprovada a materialidade do delito que se quer imputar ao averiguado”.
Determinado o arquivamento pela MM. Juiz de Direito (Tribunal de Justiça de São Paulo), em maio de 2005.
Romário e Felipão: no divã,
Um caso perdido.
O psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg, que traballhou
com Senna e que tenta colocar Marcelinho
Carioca no eixo, diz que o desempenho do
atacante na Copa já está comprometido
Copa do Mundo.
COSMER RÍMOLI
Jornal da Tarde
O problema de relacionamento entre o técnico Luiz Felipe Scolari e Romário já virou caso de psicanalista. E o pior é que o prejuízo para a Seleção na Copa é irreversível. “O mal está feito”, resume, revoltado, o psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg. Ele fala com a experiência de quem trabalhou com Ayrton Senna, Vanessa Menga, o time campeão de vôlei do Suzano, e que atualmente se esforça para aprimorar o genioso Marcelinho Carioca. O tratamento esta dando tanto resultado que o ex-jogador do Corinthians quer leva-lo para o Japão.
Acompanhando as declarações e o comportamento de Scolari e Romário, o professor de psicologia diz que haverá cobrança dos que forem para a Copa. Se Scolari o chamá-lo, por ordem do presidente da CBF, ou mesmo por uma reformulação do pensamento do treinador, toda pressão ficará para Romário. O jogador de 36 anos precisará de uma performance “fora do comum” o que comprometerá o seu desempenho ou do resto do time.
JT – Por que Luiz Felipe não quer chamar Romário?
Jacob Goldberg – Porque se trata de um caso psicológico muito complexo. Mistura narcisismo com uma relação que beira o sadomasoquismo. Luiz Felipe sabe do potencial do jogador que o Brasil inteiro e o presidente da Republica pedem que seja convocado. O treinador se sente ameaçado com o carisma de Romário. Luiz Felipe se insere na categoria dos treinadores que vêem os jogadores ainda como quem sente ter toda autoridade. É um resquício da ditadura que dominou o Brasil. A sua vontade tem que prevalecer diante de todos.
O Romário não contribui para essa reação? Não tem comportamento individualista fora do padrão dos jogadores?
O Romário está certíssimo. Os gênios criativos têm comportamento diferenciado. Agora caberia ao técnico saber como utilizar essa genialidade para o bem do grupo de jogadores. Não simplesmente afastar o diferente porque o Luiz Felipe é uma pessoa inteligente e sabe o que significa o futebol para nosso País, que infelizmente ou felizmente acaba tendo muito mais a importância do que a própria política.
Um beco sem Saída
Mas é a função de Scolari optar pelo melhor para a seleção?
Deveria ser. Mas acontece que... Não gostaria de usar termos específicos para essa entrevista, mas não tem jeito. O que acontece com o Luiz Felipe é que ele confunde “fuherprinzip” com “leadership” para comandar a Seleção Brasileira. Ou seja, Scolari confunde ser o chefe com o líder. Chefe não aceita contestações ou até ponderações. É só a sua palavra e ponto final. A atitude que ele deveria tomar seria a de líder, da pessoa que ouve opiniões e respeita opiniões diferentes das sua. E não como ele, que, ao perceber que está errado, não pode voltar atrás. Porque ele mesmo se verá como um fraco ao mudar de opinião. Infelizmente é uma pessoa assim que comanda a seleção.
Mas se Scolari chamar Romário para o último amistoso e para a Copa do Mundo não da tempo de remediar a sua teimosia?
Não. O mal já está feito. Essa negativa de Luiz Felipe em convocar Romário, quando está todo mundo de acordo que ele é necessário, agora já mexeu com a cabeça de todos. Principalmente com a do jogador.Se ele for chamado para o Mundial irá com a responsabilidade de resolver todas as partidas. Se não for convocado, então, pior para o time que será pressionado demais para ganhar a Copa. Essa postura autoritária do Scolari terá péssimas conseqüências.
Há uma lição nisso tudo?
Sim. A que os jogadores estão deixando de ser submissos. Os treinadores precisarão se adaptar, modernizar. A postura de atletas como Romário será cada vez mais comum. Jogadores estão descobrindo que têm personalidade. Infelizmente neste caso poderá custar a Copo do Mundo para o Brasil.
“Jornal da Tarde, 28 de fevereiro de 2002.”
Gooooool e orgasmo
A relação entre esporte e erotismo é além de evidente. Em termos históricos, podemos nos reportar até Esparta da Grécia Clássica, onde guerra, força, valentia e disputa física se igualavam. E quando se pensa dessa maneira, a primeira colocação associativa é entre homosexualidade e esporte, particularizando no que nos interessa nesta crônica: o futebol. Esporte, basicamente, masculino. Tanto jogadores, quanto torcida. Os machos-atletas no vestiário, no chuveiro, nos banheiros, nas concentrações, nas brincadeiras de empurra-empurra, arrastão que se espraia para a torcida. O lusco-fusco ambíguo de amor e ódio, raiva e gozo. Nós contra eles. A ansiedade, a expectativa, o “suspense”, o gozo e o alivio. Até que enfim! A exclusão da mulher torna-se quase sádica. Futebol é coisa de homem. Embora, agora, no modismo, muitas mulheres tentem entrar no show. Mas o fato preponderante é, inclusive, o caráter catártico do triunfo fálico. E põe pênis nisso. A redonda que fura o véu da noiva” O locutor que transmite para o olho que não enxerga, o ouvido que não ouve, a respiração, a corrida desabalada, espermática. Dribla um, dribla dois, dá uma finta, manha de corpo. Encaixou. A bola, o jato que fertiliza. Nasce um campeão. E o derrotado, abatido, passivo, entregue, esgotado, humilhado, quem sabe, enrabado? Enfiou com gosto. Entrou tudo. E a torcida, os frustrados, que gozam com o pé, o pau alheio.
A simbologia do pai, do herói, que Édipo deposita no mito, com rituais de bandeiras e hinos, a orgia do guerreiro frustrado. E tudo isso quando entra em sintonia com a noção de pátria, sai de baixo. Literalmente, sai de baixo. O orgulho de pertencer ao grupo que ganha, ao grupo que derrota, imobiliza, possui, trepa, arrebenta o adversário. Não tem dúvida. É esporte de homem, não vale salto alto. Ora, ora, convenhamos, é muita ingenuidade!
Em São Francisco, no bairro gay, o Castro, a emancipação reúne a alegria, o frenesi aberto, do amor que esconde o nome. Mas, pela Tv, em circuito global, os Barbados delirantes não enganam. Vão fundo, mais saibam o que estão fazendo.Ou, o que vale é o segredo. A escolha é de vocês, mas enrusticados ou não, melhor no campo de futebol do que se matando como primatas nos campos de batalha. Perfilados, suados, cantando os hinos nacionais. Ok. A bandeira sobe o mastro. É melhor parar por ai, porque quando a libido se expõe os dogmas vão para escanteio. O fálico interroga: “É jogo de viado?”. A submissão remete ao espaço que vai da homo-afetividade até ao recalque. Boa partida.
Jacob Pinheiro Goldberg
Voto, Manifestação de um Estado Babá?
Uma das piores tradições da sociedade brasileira é a obrigatoriedade do voto. O voto é uma conquista democrática e não deve se transformar em uma manifestação do Estado babá que cuida e zela os pobres cidadãos. O Estado, as organizações corporativistas, todos se acham no direito de exigir voto de seus congregados, até para votar na folclórica “chapa única”. Mas é preciso acabar com o autoritarismo do voto obrigatório. Não é menos cidadão e não deve ser penalizado quem não acredita mais na farsa esquizofrênica da política atual.
“O Estado de São Paulo”
Para psicólogo, a vitória também foi de seu cliente
Jacob Goldberg acredita
que Marcelinho
aprendeu que não precisa
ser sempre o “justiceiro”
Carol Knoploch
Dentro de campo, vitória do Corinthians e de Luxemburgo. Mas, na opinião de Jacob Pinheiro Goldberg, seu cliente, o jogador Marcelinho, também saiu vitorioso do conforto com seus desafetos. “Em vez de ter a atitude do justiceiro, ele se comportou como parte o grupo”, avaliou. “Isso é bom, porque antes fazia o que os outros esperavam dele. Agora percebeu que não precisa ser sempre o herói ou o vilão.”
Ao contrario da torcida santista,o psicólogo saiu da Vila satisfeito com o que viu. Em “termos científicos”, considerou o resultado positivo. “Eu e o Marcelinho podemos dormir em paz”, disse.
“Ele pode continuar a ser um ótimo jogador, sem vestir a camisa do superstar. Já percebeu que isso custa caro e que sua vida pessoal é afetada”, observa Goldberg, que desde a manha de ontem acompanhou a delegação do Santos. Ele lamentou apenas o clima de já ganhou, ainda na concentração. “Estavam confiantes de mais e isso atrapalha”.
Para Goldberg, Marcelinho, que não foi bem ontem, também se sentiu pressionado. “Na ânsia de ganhar o confronto contra o inimigo e mostrar integridade, acabou acuado e comportou-se como um menino.” Na sua avaliação como “critico esportivo”, o jogador teve bom desempenho e ficou na media do quesito futebol. “Todo o primeiro tempo foi caracterizado pelo anticlímax criado em torno do embate entre Marcelinho e Luxemburgo”, analisou. “mas parecia partida de dama ou xadrez.”
“O Estado de São Paulo” – 29/10/2001
Triste vergonha do psicólogo ao ver a crise de um Hospital
“Psicólogo leva apoio aos funcionários e protesta contra o fechamento do hospital”. Psicólogo tem vergonha da crise no hospital – Ele não tem qualquer vinculação com a Santa Casa, mas confessa que ficou com vergonha ao ver a situação que se abateu sobre os empregados do hospital. Trata-se de Jacob Pinheiro Goldberg, um dos mais renomados psicólogos clínicos desse país, que apareceu de repente na vigília do desespero, no final da tarde. “estou revoltado de ver esse pessoal sem receber, pedindo para voltar a trabalhar, e a Cidade continuar vivendo sem se importar”
“Ele próprio chegou a utilizar-se dos serviços do hospital, há poucos anos, quando seu pai sofreu uma violenta hemorragia e precisou ser internado na Santa Casa. Ver o hospital fechado sensibilizou-o profundamente. Ma foi no megafone que lançou que lançou suas criticas: “O Brasil deve estar muito bom mesmo em termos de atendimento medico. Um país que se pode dar ao luxo de permitir que um hospital com 1.400 leitos permaneça fechado mais de cinco meses só pode estar mesmo em situação privilegiada. Deve haver milhares de hospitais preparados para atender a todos os doentes, milhares de funcionários especializados”. E continuou: “Em vez desse país pedir para que vocês trabalhem, vocês é que estão pedindo para trabalhar. Isso é uma vergonha nacional. Eu estou com vergonha! Não conseguiu continuar começou a chorar, uma explosão sentimental seguida por vários funcionários que atentamente escutavam, sentados nas escadarias do hospital. Pouco depois, mais calmo, prosseguiu em suas críticas: “O país só pode estar desnacionalizado. Só existe uma nação efetivamente se o homem tiver direito à saúde física e mental. O país esta desgraçado em termos de saúde. Há crianças nascendo com deformidades em Cubatão, como um fantasma em nossas consciências, na consciência do governador. Toda a Baixada Santista é uma região desprotegida, ela esta mal servida em termos de assistência médica, com seu maior hospital fechado”. Goldberg não encontra justificativa para insensibilidade que detectou na cidade. Segundo ele, os carros passam, seus ocupantes olham e vão embora como se o problema não lhes dissesse respeito: “Onde estão os políticos? Estamos em plena campanha eleitoral. Por que eles não estão aqui, junto com esse pessoal? Só se interessam mesmo por votos? Onde estão os representantes da Igreja? Como se explica essa insensibilidade geral? Esse pessoal não pode se sentir desprotegido. È essa insensibilidade que cria “Fernandos da Gata” para que depois a população acabe com eles. Onde estão os clubes de servir, as entidades ditas beneméritas?
Para ele, democracia não é apenas um exercício político: “È um exercício de atuação constante, de solidariedade social. O Brasil é mesmo um deserto democrático. Não é votando apenas que se faz democracia. É participando ativamente em prol da população”. Jacob Goldberg garante não compreender o que se passa com a comunidade e com as chamadas forças vivas da cidade. Os funcionários encontram-se hoje no ponto zero, da mesma forma como se estivassem no primeiro dia de mobilização. Apenas aumentou o numero de funcionários presentes às escadarias do prédio. Segunda-feira eram 100. Hoje são mais de 400. E novos elementos vão chegar. Até que se defina a situação e se resolva de uma vez por todas reabrir o hospital em bases seguras sem interesses particulares.
As palavras de Goldberg foram aplaudidas, mas sua revolta persiste, assim, como a de todos os “empregados”.
“A Tribuna” e “A Cidade de Santos”.
Psicologia da pomba-gira
Cada um tem seu mito no coração. Não a entidade estudada pelo antropólogo ou a intermediação mediúnica, mas o Rei Congo, o afro, o índio, a negritude pirando a cabeça e o desejo do banco. A madame que nos encantos do amor, enlouquecida pelo desejo ao cornear o marido pede para a preta Ana cozinha: “Faz um trabalho para o César me amar...” Gira, a pomba gira.
Fizeram de tudo para exorcisar a força telúrica do sexo desregrado, a transgressão a sublimar. Jogaram a camisa de força da religiosidade. Negativo. Chamaram o chato do Jung para explicar. Mais negativo.
Do cemitério, da zona, gente rezando, o nhambu, uma saia colorida o pandeirinho. As velas acesas, gritando, cantando, o rei de espada em punho, dança congada, dança. Sonho, pesadelo, macumba, informática na realidade virtual, engenharia, genética. Meu pai Oxalá.
Se Freud tivesse nascido na Bahia, candomblé, festa de Ogum, Cabloco Eru, chegada dos erês, caruru e aruá.
A pomba-gira no divã, endoidando o Zigmunt e a sua genialidade, viajando pelo som de Gilberto Gil.
Em qualquer encruzilhada este continente estranho (certa vez consignei meu diagnostico – país p.m.d. – ou campeão do mundo ou fim da terra).
Quiseram domar o misticismo e a Erotica. Dançaram. Em ponta de Areia, o Terreiro, os axexés, oferendas aos babás. Iansã, a rainha dos mortos, um balé do bode e da galinha, do galo e do porquinho.
O eterno conflito (Glauber Rocha) entre Deus e o Diabo, a ternura e a sedução, o Bem e o Mal.
Gira, a cultura mestiça, a mulatagem, ocosmopolitismo, a mundialização do ano 2000, a lição para o europeu racista e sacana: A fé do negro e índio, o indomável, que sacode o carnaval e o tesão, alinhando a esperança.
Falar ingreis, e no computador, a mensagem a decifrar (ou devorar, numa bacanal de Aids).
Vou comer abati, caçar jibóia com Ubiratã. Ser maracajá, caititus, ou anajé, num acordo intimorato com acauã. Minha mulher saí, ate jací, pra mim, abaeté.
Ao contrário do que imagina o Fantástico, o futuro não será o Primeiro Mundo, mas o único mundo, que roda a cancha, a pança, a canja, a lança, o formidável “melting-pot” que o útero, a vagina, desemboca nas ondas da Lua, Iemanjá, ógea, calhandra, Pomba-gira, Nheê.
Anguery, Índio, Nego véio.
Gira, gira, catarse, na ave de Picasso. “Revista Trip”
A TV GLOBO E O NEONAZISMO
No dia de Iom Kipur, a TV Globo exibiu na infeliz série “Você Decide”, de tendência simplificadora e maniqueísta, uma história intitulada “Carrasco de Nazista”, de autoria de Charles Peixoto, aparentemente para decidir a dúvida de um casal de estudantes (interpretados por Flávia Monteiro e Charles Muller), denunciando ou não à policia um velho nazista (interpretado por Serafim Gonzáles) que salvou a vida do rapaz. O resultado, como seria presumivelmente possível de antecipar foi mais de 36 mil contra 24 mil a favor da denuncia.
Este programa tem se firmado por desrespeito às concepções humanísticas e por uma visão autoritária da ética. O problema é que a pretensão do programa é caracterizar-se como democrático, admitindo a participação livre da opinião pública e de ter uma expressão da vontade popular, o que é uma farsa, capaz de indesejos e inclinações ideológicas do telespectador.
Na realidade, “Você Decide”, como denunciou de forma brilhante a cronista Marília Martins, numa crítica publicada pelo “Jornal do Brasil”, dia 10 de outubro, não é uma obra aberta e reflete somente um segmento da composição social brasileira – os quem têm telefone em casa, os que estão assistindo ai programa e os que dispõem a discar. No próprio titulo, “Carrasco de Nazista”, se instala uma confusão propositada: carrascos são os nazistas e denunciar, justiçar ou matar nazistas é medida profilática de justiça social.
Por tudo isso e muito mais, no dia 13 de outubro, encaminhei ao presidente do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana do Ministério da justiça uma representação, requerendo a manifestação do colendo órgão para os fins e efeitos de direito, alegando:
A formula insidiosa revelada no programa referido atenta contra a Constituição da Republica, implicando tortuosa manipulação subliminar de discriminação religiosa contra os judeus (principalmente no detalhe maldoso de sua exibição em Iom Kipur).
Consubstanciando o aspecto jurídico e psicológico da questão da liberdade de informação que não pode atentar contra a ética, solicitava juntada de documentos produzidos no XII Congresso Internacional de Psicoterapia e na CPI sobre violência urbana, no Senado Federal.
A TV, com seu poder irradiador na formação da opinião pública não pode servir ao racismo e ao ódio que conduzem e à fragmentação emocional.
A mídia vem relatando fatos (agressão a jovens judeus no ABC; declaração integralista Lara de quem em “campos de concentração só morreram piolhos”, grupelhos demenciais e deliquenciais que se afirmam neozasistas, preconizando ódio contra judeus e nordestinos; estandes com fotos de Hitler e braçadeiras com suásticas em adolescentes no Colégio Singular), que exigem pronta resposta jurídica, política e psicológica.
Os neonazistas ou aproveitadores devem saber que a “historia não se repete a não ser como farsa”. O judaísmos e os democratas brasileiros que já viveram inclusive o horror detatorial que sacrificou entre outros Vladimir Herzog; os negros, nordestinos, as minorias não aceitam distinção e violência.
A própria existência do Estado de Israel e a consciência contemporânea repelem essas exteriorizações que são ilegais, imorais e odientas, merecedoras da reação e desprezo.
O anti-semitismo é uma patologia de complexo de inferioridade, ancorada em deficiência intelectual que deve ser desmarcada e punida, sem concessões.
A Hebraica/dezembro de 92.
Psicólogo:
Brizola é um
‘mistagogo’
São Paulo – “A tática de Brizola é a insistência na sua formação acadêmica (engenheiro) para minimizar o lastro mistagógico (místico e demagógico)”. A afirmação é do PhD em Psicologia Jacob Pinheiro Goldberg, autor do primeiro perfil psicológico dos candidatos à Prefeitura do Rio.
A eleição será decidida entre Saturnino e Medina por aquele que assegurar maior possibilidade de devolver ao Rio sua auto-imagem perdida com a transferência da capital para Brasília e ao interior do Estado uma chance verossímil de prosperidade – disse, o psicólogo, sem explicar como o Prefeito do Rio cuidara do interior do Estado, atribuição do Governador.
Goldberg levanta a mais de 10 anos o perfil psicológico de candidatos a vésperas de eleições e garante que sempre acertou suas previsões com base nos perfis.
Jorge Leite seria o nosso bicheiro de confiança ou o melhor corretor para venda do automóvel usado. Mas não seria o marido ideal para a nossa irmã, a não ser de uma camada extremamente carenciada (SIC), “lumpen”, pobre de expectativas. A face majoritária do Rio não é mais o anedótico, mas uma população sofrida, que não está mais disposta ao populismo demagógico, ao paternalismo que joga com elementos primários de comunicação humana – define.
Roberto Saturnino é excessivamente imperial. Não convence inteiramente como intelectual de primeira linha, mas também tem quase uma alegria física pelo povão. Tem a malicia de não se expor demais, o que poderá lhe garantir votos por aproximação do eleitor que não tem a visualização de sua imagética (SIC) – afirmou.
O Globo – 21/10/85
Psicanalista defende fim do “folclore”
Conquistar uma medalha de ouro em olimpíada vai além de ter preparo físico e tático adequado, competência, patrocínio e sorte. O Brasil sabe vencer? “Os brasileiros precisam legitimar o direito de vencer e buscar a vitória não pelo que representam, que é o carnaval, a fama, e sim por ter capacidade igual aos demais concorrentes”, declarou o psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg, que já trabalhou com campeões como Ayrton Senna e o time de Voley do Report/Suzano. Para ele, é preciso por fim à posição psicológica que beira o folclore e o sentimento de terceiro mundista.
“Acabar com o comportamento de caipira, de vira-lata”.
Goldberg explica que o brasileiro sente-se inferiorizado aos demais. Vai competir derrotado. “Os atletas pensam assim: embora pobres, mal qualificados, esteticamente inferiores e até sem pista para treinar, conseguimos estar aqui”, observa.
“E ao olhar para os Deuses do Olimpo, os favoritos, o brasileiro murcha.” O psicanalista acredita que os atletas supervalorizam o fato de terem comido mal, de serem de origem humilde e feios esteticamente.
Quando conseguem uma medalha em torneios de grande importância, no entanto, passam a sentir-se como fenômenos, super-homens. “Isto é primitivo e infantil.”
De acordo com Goldberg, o não-sucesso da delegação brasileira em Sydney é fruto de trabalho psicológico mal feito.
“Parece que os atletas iam para a guerra”, disse ao lembrar de uma palestra do psiquiatra Roberto Shinyashiki, antes do embarque para a Austrália, em que pisaram em brasa.
“Querer é poder! É pobre” Na sua opinião, é preciso fazer um trabalho psicológico a longo prazo, individualizado, cientifico, explorando recursos e objetivos pessoais.
Segundo ele, o sentimento de inferioridade está intimamente ligado ao de onipotência. O futebol oscilou entre uma posição narcisista para a de sobrevivente de dificuldades. Na Olimpíada, ficaram em hotel cinco estrelas, longe da proposta do evento. “Não sentiram-se em casa e esqueceram que foram preparados até para jogar pelada na vázea”, acrescentou. “Sem extremos, não somos piores e nem melhores, somos iguais aos outros.”
Para Goldberg, o brasileiro que equilibra o preparo mental físico e tático, é o cavaleiro Rodrigo Pessoa, bronze com a equipe de hipismo. “Ele tem consciência do seu potencial.”
Goldberg, no entanto, não condena a valorização de histórias como a da levantadora de peso e ex-lavadeira Maria Elizabete, nona na categoria até 48 quilos. “Eles precisam competir sem obrigação de vencer, pois este é o atleta autêntico.”
“O Estado de São Paulo”
Psicólogo analisa candidatos.
José Luiz Teixeira
O senador Franco Montoro tem a imagem do “pai concessivo” e esta com um concorrente do “pau de sebo” que chegou ao alto e agora esforça-se para ficar lá. Seu colega Orestes Quércia, com a imagem do “irmão mais velho”, precisa perder o medo de um novo sucesso. Se não tomar cuidado, Lula pode virar o “entrevistado da moda”. Laudo Natel se encaixa bem com a imagem que vende do “candidato caipira” Reinaldo de Barros segue a imagem do tio, Ademar de Barros. E Jânio Quadros corre o risco de ser um ótimo segundo mais votado. Se houver possibilidade de reeleição, o governador Paulo Maluf tem chances, com sua mensagem voluntarista do “querer é poder”.
Estas considerações sobre os principais candidatos à sucessão paulista foram feitas a “Folha” pelo psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg, cogitado para assessorar Quércia em sua campanha eleitoral. Especialista na área de psicologia política e social, tem assessorado diversos candidatos em campanhas eleitorais e condena as pesquisas de opinião publica que estão sendo publicadas (“pois estão induzindo o eleitorado”).
Sobre a sucessão ao governo do estado, afirma que, “basicamente, embora o jogo dê impressão de estar com cartas marcadas, se surgisse um candidato totalmente novo, ou então se um desses candidatos atuais tivessem a coragem de assumir uma proposta nova, o quadro morno da sucessão paulista seria alterado. Do jeito que as coisas estão postas,o eleitor não ira para os comícios brigar por nenhum dos candidatos, Todos estão muito comportados e alinhadinhos demais para um momento de insatisfação social”
Montoro.
De acordo com o psicólogo, o senador Franco Montoro vai trabalhar nessa campanha com apelo poderoso. “É o apelo da transformação em conta-gotas. Aquilo que popularmente poderia se dizer: mudar tudo para ficar tudo na mesma. Isso corresponde muitas vezes à vontade das coisas ficarem como estão para não piorarem”.
Para ele, Montoro tem a imagem do “pai concessivo” e esta trabalhando como governador eleito, “o que pode induzir favoravelmente o eleitor hesitante. E a manobra do já ganhou. Mas essa posição é muito vulnerável, principalmente tendo em vista o tempo que ainda falta para a eleição. Ele pode ficar sujeito a um desgaste e a tática que Maluf esta usando – criticando Montoro principalmente pela sua idade – está sendo funcional, pois o senador caiu na defensiva, quando na verdade deveria ter partido para o ataque, mostrando antagonismo entre a velhice cronológica e a vitalidade política . De qualquer forma. Montoro hoje está na posição do concorrente do pau de sebo que chegou ao alto: subiu e está segurando lá em cima”.
QUERCIA
Quanto ao senador Orestes Quércia – que ainda pretende disputar na convenção do PMDB a condição de candidato do partido ao governo do Estado (contando inclusive com a ajuda do psicólogo) -, Goldberg considera que sua grande vantagem como candidato “é que ele está conseguindo evitar o desgaste de sua Imagem porque não correspondeu às expectativas dos eleitores em 1974, que esperavam com sua eleição a revolução pelo voto. Devido as Limitações do Poder legislativo, Quércia não pôde corresponder a essa expectativa. Mas acho que já passou o perigo de que isso fosse Interpretado como uma fuga das responsabilidades, o que até um ano atrás era um perigo Iminente”.
“Paulatinamente – prosseguiu Goldberg – prosseguiu Goldberg -, Quércia foi marcado presença por estar em todos os acontecimentos importantes, demonstrando, por trás da delicadeza aparente, nervos de aço, e enfrentando com firmeza essa impressão de candidato derrotado. Isso lhe da uma opinião publica favorável, pois costuma granjear simpatia. Dá idéia de consistência.”
Para o psicólogo, o senador tem a imagem do “irmão mais velho que chegou lá” e precisa agora perder o medo de um novo sucesso. “Falta arregaçar de verdade as mangas e conquistar os votos na convenção.
Laudo e Reinaldo
Sobre os candidatos dos demais partidos, o psicólogo considera Laudo Natel, por exemplo, uma reserva poderosa do PDS pois tem a vantagem de se identificar facilmente com o homem qualquer. “Tem o tipo ate físico do candidato caipira, fala mansa do Interior e não se identifica com a estrutura do poder e sim com a população flutuante de São Paulo.”
Reinaldo de Barros é considerado por ele um candidato forte “porque o povo o vê sem muito papo na língua. Esta seguindo seu tio Ademar de Barros, tentando imprimir a imagem do “grande gerente”. Sua fraqueza “é que não esta levando em conta a camada dos chamados formadores de opinião publica que seria a Universidade, os sindicatos, as igrejas, jornais, radio e TV, sem os quais ninguém ganha eleição hoje, em uma sociedade avançada como a paulista”.
Jânio e Lula
Jânio Quadros para Goldberg , “tem um potencial extraordinário” mas corre o risco de ser “um ótimo segundo mais votado”. Esta caindo fácil na provocação dos adversários, tem se isolado numa espécie de torre de marfim pessoal e continua na defensiva no episodio da renuncia. “Se conseguisse, em um autoconcencimento, assumir o seu direito à cidadania, seria um candidato imbatível. Não devia ter tentado entrar no PNDB. Vejo esse episodio quase com um processo de masoquismo ou penitencia. Ele precisa exorcisar o fantasma da renuncia e seus recursos, bastante conhecidos deveriam ser temperados e atualizados.”
Quanto a Lula, tem a grande vantagem de sua origem operaria. Mas vem sofrendo um desgaste, segundo Goldberg, “na medida em que posa para fotos no Galery ou que, de repente, se transforma num mito confuso que fala a respeito de tudo e de todos. Tem que tomar cuidado para não se tornar o “homem do verão” ou o entrevistado da moda. E precisa, com autenticidade, defender a sua proposta política”.
A respeito de Maluf, Goldberg disse que “jogo com elementos carismáticos com muita adequação, desde a inflexão da voz, passando pelo olhar até sua desconcideração para com as criticas de oposição. Tenta ser o porta-voz de uma coerência férrea. E basicamente um homem que transmite a mensagem voluntarista do querer é poder. Seria um candidato com chances altas, mas precisaria trabalhar a conversação direta, através da TV e do rádio, possibilitando uma sensação de diálogo”.
Dever de informar – Transcrito de leitura no Senado Federal
“Folha de São Paulo” – 20/01/1982
ADVOGADO PEDE APOIO DA OAB PARA JORNALISTA
A angustia que Wanderlei Barreto, contador desempregado, que assaltou a agencia do Bradesco em São Paulo, para entregar a policia documentos que, segundo ele, comprovam um processo de corrupção em uma empresa de engenharia, e o respeito aos mandamentos da ética jornalística, que podem exigir do repórter a violação da sua responsabilidade social, são os pontos básicos da moção de solidariedade que o Advogado paulista Jacob Pinheiro Goldberg encaminhou à 8a Conferência Nacional da Ordem dos Advogados do Brasil, que se reúne em Manaus.
A moção que o Jornal de Brasília publica hoje, na integra, coloca o sigilo profissional como um ponto crucial no exercício do jornalismo cujo espaço de trabalho se confunde, para Goldberg, com a própria liberdade dos povos.
Moção
Exmo. Sr. Dr. Presidente da 8a Conferência Nacional da OAB
Proponho seja dirigida por esta magna conferência moção de solidariedade ao jornalista Mário Lúcio Franklin, chefe de reportagem de “O Estado de São Paulo” em relação ao episódio histórico, em anexo.
Considerações sobre o procedimento do jornalista Mário Lúcio Franklin em relação a extorsão cometida segundo a imprensa, por Wanderley Barreto, contra um banco em São Paulo.
“A simultaneidade obriga a focalizar vivamente o efeito da coisa feita. A simultaneidade é a forma da imprensa ao tratar da cidade terrena” (Marshall Mclúhan).
Resenha do fato, segundo a versão dos jornais – o contador Wanderley Barreto teria procurado o jornal O Estado de São Paulo pretendendo denunciar irregularidades que teriam sido cometidas por uma firma denominada Eletronorte. Contou que estava desempregado há dez meses e que planeja um assalto para ser preso em flagrante, afim de que sua família recebesse o auxilio reclusão. Teria escrito cartas de denuncias a várias autoridades e, inclusive, uma ao diretor-técnico da Eletronorte, ameaçando praticar um assalto a banco. Nenhuma das cartas mereceu resposta.
Na manhã do dia 15, Wanderley passou, novamente, pela redação de O Estado de São Paulo, onde afirmou ao chefe da reportagem, Mário Lúcio Franklin, que iria simular um assalto para chamar a atenção da opinião publica e poder entregar documentos da corrupção que testemunhara à policia. Reiterou assim Wanderley Barreto suas declarações anteriores, feitas telefonicamente ao jornalista. Este, então, procurou informar à policia, não sem antes tentar demove-lo – mais de uma vez – do seu intuito desarroazoado, embora. Wanderley Barreto não lhe parecesse pessoa confiável. Em seguida, designou um repórter e um fotografo para a possível ocorrência do evento, que efetivamente aconteceu – foi documentado fotograficamente e por escrito.
Posteriormente, já em fuga, Wanderley resolve se apresentar em Uberaba ao promotor Silvio Fausto de Oliveira, que, julgando-o louco, manda que se dirija à delegacia.
Entendimento da reação do jornalista – Segundo a Enciclopédia Britânica, “o chefe da reportagem programa e orienta a cobertura dos acontecimentos, aferindo a sua importância e indicando aos repórteres a forma de trata-los”. Exatamente o que foi feito por Mário Lúcio Franklin. O jornal desempenha na sociedade moderna um papel catalizador, como é o caso dos escritórios de advocacia, das clinicas medicas e psicológicas, das igrejas, do serviço social, dos sindicatos e da policia. Um conduto onde desembocam reivindicações procedentes e inconseqüentes – individuais e de grupo. Onde desfilam historias lógicas e “kafkianas”, diante das quais o profissional tem que ter uma alta dose de tirocínio, um agudo grau de observação e um feeling apurado para distingui-las e fazer o encaminhado adequado. E, muitas vezes, esta distinção é dificílima e fica na dependência quase exclusiva do subjetivismo do receptor.
Ameaças de suicídios e homicídios, denuncias estapafúrdias e verossímeis, projetos messiânicos e planos ordenados, dramas e tragicomédias compõem o vasto painel multifacético que se vai desenrolando no cotidiano da redação de um jornal importante e vibrante como é O Estado de São Paulo. E o bom repórter não pode errar – para evitar o erro de avaliação deve ampliar ao máximo o leque de cobertura jornalística dos fatos possíveis. O que significa um aproveitamento mínimo para um material máximo que chega à redação do jornal. Qualquer “foca” tem esta experiência. E, muitas vezes, são horas, dias e até semanas atrás de uma noticia “fria”.
A Sauvy explica a sutileza do fenômeno, com muita felicidade, em “A Opinião Pública” (Difusão Européia do Livro); “A vida das noticias, o boato – um acontecimento impressiona os sentidos das testemunhas. A transmissão, porém, dos que viram ou ouviram não é instantânea, nem fiel. Somente se transmite e circula uma fração destes fatos”.
Esta transmissão pode ser oral, de boca a boca, ou escrita (imprensa, obra literária, etc). Quem recebe a noticia pode, por sua vez, transmiti-la, ou conserva-la em seu espírito, ou ainda esquece-la. Algumas noticias morrem depressa, enquanto outras, enquanto outras chegam a ter longa existência.
De resto, a transmissão pode ser deformada voluntariamente e conscientemente, ou por um mecanismo automático que escapa à consciência, e muito mais à memória de quem transmite. O esquecimento, a não-transmissão, acarreta, além disso, uma deformação do conjunto de fatos. Tudo se passa como se um filtro retivesse uma parte da substancia informadora.
A deformação e a seleção das noticias se fazem conforme leis determinadas que, pelo menos em certos domínios, já começam ser bem conhecidas.embora disponham de caráter individual, estas leis podem, no entanto, variar de acordo com os países e as épocas.
As noticias orais, de boca a boca, deformam-se com mais facilidade e mais rapidez do que aquelas que estão sujeitas a certo controle. Mas o sentido das deformações é mesmo”.
A informação que o jornalista recebeu – “vai haver uma simulação de assalto” – ele tem que cobrir. Para corresponder a um mandato de ética jornalística. Etimologicamente “comuns”, do latim, leva a idéia de comunhão, comunidade. Schram afirma: “Quando nos comunicamos, tratamos de estabelecer uma comunidade. Isto é: tratamos de com de compartir uma informação, uma idéia, uma atitude”. Para Baragli, “o ato da comunicação – faculdade de tornar comum aos outros não somente s coisas externas a ele, mas também ele próprio e suas ações, estados de“alma”. No enfoque psicológico, desde a retórica (comunicação) em Aristóteles, até o psicológico-social Stoetzel, com base em Cooley e Rousseau, impõe-se a uma assertiva: considerada de modo abstrato, a comunicação tem por função transmitir informações. Que é formação? Algo que diminui a incerteza, isto é, que diminui o número de possibilidades dentre as quais escolher (Jean Storzei, “Psicologia Social”, página 222). Particularmente, para o jornalista urge levar em conta fatores da atualidade, oportunidade, universalidade e difusão coletiva. Luiz Beltrão define a atualidade como vivencia do cotidiano, do presente, do efêmero, procurando o jornalista nele penetrar e dele extrair o que há de básico, fundamental e perene, mesmo que essa perenidade valha apenas por alguns dias ou algumas horas (Iniciação à Filosofia do jornalismo”). Groth afirma que a universalidade no jornalismo é teológica – “O jornal e a revista enfocam somente o que pertence aos mundos presentes dos seus leitores ou receptores, o que interessa a eles, o que olha com simpatia. Estes requisitos estavam presentes, com todo o impacto e a globalidade, no caso Wanderley Barreto. E pretender de um jornalista experiente que perdesse a oportunidade de um trabalho, quase antológico, seria exigir a subtração de informação ao público, ou seja, uma violação do seu compromisso ético. Ética, compreendida, com asérie de princípios morais pelos quais o individuo deve guiar a sua conduta no ofício ou profissão que exerce”.
Reflexões sobre a ação ética – Toda a profissão tem seu código moral que precisa ser observado em beneficio da comunidade. Em algumas delas o sigilo profissional é um pouco crucial que levanta dúvidas sérias e demanda profundas pesquisas para soluções altas. Assim, na Medicina, no Direito, na Psicologia, no Sacerdócio, no Jornalismo.
Um maquisard, na França ocupada atendido por um médico, revelando a intenção da prática de um ato de sabotagem, deveria ser denunciado às autoridades?
Um paciente, acometido de P.M.D (psicose maníaco-depressiva) a cada crise e ameaça de suicídio deveria ser submetido ao processo penal correspondente? Denunciado pelo psiquiatra ou psicólogo?
O adultério confesso, pelo sacerdote? É aquele que manifestasse a intenção de uma aventura de sedução?
Alberto Gomes da Rocha Azevedo, na revista da Ordem dos Advogados, Vol. 35, afirma que “o dever de guardar segredo profissional é de ordem pública”. Compreensível, portanto, nos parece a prevalência de atenção que o jornalista Mário Lúcio Franklin emprestou ao aspecto jornalístico das dramáticas opções que o caso Wanderley Barreto apresentava.
Precedentes históricos – O jornalismo contemporâneo esta recheado de sitações semelhantes àquelas que estamos discutindo. A necessidade de permeabilizar a atuação do repórter com a ocorrência do fato. E seria um desvirtuamento de função e de papel exigir que o jornalista deixasse sua preocupação principal por comportamentos paralelos. Inclusive, para exemplificarmos, a isenção que é exigida do jornalista corresponde de guerra.
No Brasil, temos alguns episódios antológicos: Edmar Morel publicou em O Jornal uma reportagem que causou sensação. O leite que durante a guerra, depois de 1942, faltava ate nos hospitais infantis, sobrava para cavalos privilegiados. A reportagem provocou ate invasão e depredação de leiteria.
Carlos Lacerda publicou reportagem apresentando o deputado Barreto Pinto fotografado de casaca, mas em cuecas, o que leva o Congresso Nacional a cassar o seu mandato.
Em todo o mundo os objetos voadores não-identificados merecem cobertura jornalística. Em 1952 O Cruzeiro publica matéria de João Martins e foto de Ed Keffel mostrando um disco. Os menos crédulos acreditam num truque fotográfico. O repórter e o fotografo afiançam que são fotos autenticas. Darwin Brandão denunciando a morte de Nestor Moreira leva o culpado a ser processado, pronunciado e condenado pelo Tribunal do Júri como assassino, a partir de uma reportagem na Manchete.
Ainda faz pouco a noticia publicada do pouso de um disco voador movimentou milhares de pessoas.
O jornalista não pode se limitar à passividade de uma testemunha cinzenta da Historia. Muitas vezes, mergulhado no seu chamamento ansiolítico, ele será “a própria consciência do tempo”, pelo relato e pela foto.
Implicações – que não cerceie nem se pretenda inibir o movimento nervoso do jornalista porque é através da sua atuação pronta e audaciosa que se faz o registro do discurso da sociedade. Sem ele a liberdade de imprensa é uma peça vazia, de retórica sem sentido. O seu espaço de trabalho se confunde, quase sempre, com o espaço de liberdade da comunidade.
O que Mário Lúcio Franklin fez foi correr atrás do fato para documenta-lo. Essa a função, a tarefa do jornalística.
E entender a extensão do processo da simultaneidade, referido por Mcluhan é compreender a dinâmica psicológica do jornalismo. A altura de uma sociedade sofisticada e tecnologicamente avançada.
Jacob Pinheiro Goldberg.
“Diário do Congresso Nacional”- Maio de 1980
Ser Lobo, Hoje
Quem serão hoje os Lobos Maus e os Chapeuzinhos Vermelhos? De uns anos para cá, a gente ouve muita gente alegar que não existe mais a chamada moça ingênua. Ou seja: que a mulher estaria de tal maneira emancipada que o Chapeuzinho Vermelho hoje seria o homem. Mas eu acho que isso acontece. Embora a moça de hoje tenha à sua disposição uma massa de informações muito grande sobre sexo e amor, não consegue ainda digerir e assimilar tudo isso.
Alem disso, no grande continente que é o Brasil, uma mulher jovem, principalmente do interior (mas também das capitais, com exceção talvez do Rio e Salvador), encontra dificuldade para entrar em determinados bares sozinha, ou mesmo para ir ao cinema num sábado à noite, desacompanhada. Na sociedade brasileira ainda impera um sentimento de machismo muito grande. Então, é muito difícil não se comportar como Chapeuzinho Vermelho.
O que eu acho, porém, é que a maioria das moças brasileiras, embora façam o papel de Chapeuzinho, não acreditam muito nele. A não ser aquelas que estão muito ligadas a uma concepção medíocre da própria feminilidade.
As outras desempenham o papel a contragosto. Mas continuam desempenhando porque, em primeiro lugar, por espírito de acomodação. A moça que não quiser ser Chapeuzinho Vermelho vai ter que romper padrões, tabus, preconceitos.
E o Lobo Mau, existe ainda? Acho que a sociedade do jeito que esta estruturada também ainda propicia o aparecimento dos Lobos Maus. È comum, inclusive, o homem dizer que vai a rua “caçar”, isto é, para conquistar as mulheres. A maioria dos meninos continua sendo educada para fazer papel de Lobo. E os pais se orgulham disso, desde, evidentemente, que esses lobos não cometam o crime de “comerem” suas filhas.
Mas o que acontece quando o Chapeuzinho Vermelho ousa mudar os papeis, isto é, arreganhar os dentes e se colocar no papel de Lobo Mal? O que temos visto freqüentemente é que, quando isso acontece, quando a mulher toma algumas iniciativas no campo erótico, muitos homens se colocam na defensiva emocional e até sexual.
Quando os papeis previamente combinados se desestruturam, o Lobo Mau fica apavorado. E então deixa ver dentro dele o seu lado de Chapeuzinho vermelho. Porque essa conjugação é que tem que ser reequilibrada: atrás de cada Chapeuzinho Vermelho tem um Lobo Mau e atrás de cada Lobo Mau tem também um Chapeuzinho Vermelho.
Acho que essa atitude de defensiva do homem, porém, acontece num primeiro momento. Num segundo momento, em que ele possa se soltar, vai se criar uma dinâmica mais positiva na relação homem-mulher.
Quando isso acontecer, acho que alguns comportamentos aparentemente agressivos dos jovens tenderão a ir desaparecendo. Há muitos jovens hoje que, por trás de roupas chamativas, motos incrementadas, enfim de uma aparência de terríveis Lobos Maus, estão procurando esconder os lobinhos incapazes de crescer, que não realidade são.
Porque a maturidade esta profundamente ligada a uma atitude de doçura, de ternura e de aceitação do outro. O Lobo vai ter que entender um dia que ele não precisa arreganhar os dentes para se transformar no Lobo-homem. Quer dizer:nós podemos soltar nossos instintos, o animal que existe dentro de nós, respeitando o equilíbrio natural que permite que os animais da mesma espécie não precisem se devorar.
Acho que não estamos longe desse equilíbrio. Nos Estados Unidos, por exemplo, já vemos um novo modelo de relacionamento homem-mulher, bem mais aberto. Acho que dentro de alguns anos isso também vai começar a acontecer no Brasil.
“Revista Carícia” – Abril 1985
No estranho comportamento do brutal ditador chileno, o dr. Goldberg encontrou elementos que evidenciam sérios problemas
psicológicos.
PINOCHET NO DIVÃ
Psiquiatra analisa
paranóia do
ditador chileno
Com o recrudescimento das perseguições políticas no Chile, após o atentado do último dia 7 de setembro, contra o general Augusto Pinochet, Contigo, ouviu um especialista nos intricados meandros da mente humana, para que ele explicasse o que leva alguém a ter tanta sede de poder e tamanho ódio por quem se atreve a discordar de suas posições ideológicas.
Corajosamente, o psiquiatra e analista Jacob Pinheiro Goldberg, autor do livro Psicologia da Agressividade, que demonstra detalhadamente como funcionam as mentes tirânicas, no seu depoimento fazendo uma análise à distancia deste homem que, desde 1973, vem governando o povo chileno com mão de ferro.
Pinochet, como todo tirano, é um psicotico que deu certo – inicia ele. – O general corresponde, num certo instante, à psicose de grupos que assassinaram a história de seus povos.
E o dr. Goldberg prossegue, ainda, contrapondo a truculência do ditador à cultura chilena:
A sanidade do Chile pode ser expressa pela obra de Pablo Neruda e a lembrança de Salvador Allende, enquanto que a insanidade e representada pela teimosia do general Pinochet em não permitir qualquer avanço da liberdade.
Em seguida, compara Pinochet com outros tiranos famosos:
O feitio brutal, a aparência de machão, a arrogância, o medo paranóico de “um comunista demoníaco”, tudo isso indicada uma personalidade totalmente desequilibrada. Da mesma forma que Mussoline e Hitler, Pinochet é o traço de Thanatos, o deus grego da morte, se opondo a Eros, o deus da vida. Esse tipo de individuo acha prazer no sacrifício, estimulando assim a tortura e assassinato político.
O dr. Goldberg diz também que a personalidade tirânica é freqüentemente confundida com a virilidade. E explica:
Freqüentemente, o déspota tem dentro de si elementos de impotência emocional e, às vezes, física. Kurt Krueger, que foi psiquiatra de Adolf Hitler, escreveu que o ditador nazista tinha impotência sexual de raízes sifilíticas e sérias dificuldades para assumir uma hossexualidade pervertida. A vontade de dominar outras pessoas, mantendo-as sob seu jugo é um traço sadomasoquista. Quem age assim tem uma dificuldade acentuada de se relacionar com os outros, de manter diálogos. São pessoas explosivas, temperamentais e carregadas de megalomania.
Mas, como se explica que alguém com esse tipo de personalidade doentia descrita pelo dr. Goldberg possa, durante o mais violento atentado que já sofreu, passar o tempo todo preocupando-se com a integridade física de seu netinho de 10 anos, que cobriu com o próprio corpo para proteger dos disparos que vinham de todas as direções? O psiquiatra volta no tempo para responder:
- Durante a Segunda Guerra, os nazistas passavam o dia torturando seres humanos de forma inimaginável e depois iam para a casa brincar tranqüilamente com seus filhinhos. Ilse Koch arrancava a pele das crianças, com as quais fazia abajures, e chorava ao ouvir musica alemã romântica. Pinochet, durante o atentado, ficou preocupado com o neto, mas diariamente esquece do que acontece aos filhos e netos de suas vitimas. Essa contradição é típica do universo do homem que gira apenas em torno de si, sendo incapaz de contatar com a realidade de outras pessoas.
“Revista Contigo”
CARTA-ABERTA A UMA DOCE PROVETA
Como são estranhos os caminhos da vida. Meu pai e minha mãe me queriam. Mas, por dificuldades fisiológicas eu não podia nascer.
Eu querendo meus pais e eles me querendo. Um sonho impossível...
Contudo, a ciência progride e a generosidade da inteligência humana abriu mais uma chance.
Meus pais corajosamente, enfrentaram o desafio.
E você, proveta, abrigou minha esperança, deu alento, foi meu passaporte para este difícil, conturbado, porem excitante mundo. Principalmente, para que eu pudesse desfrutar o amor de meus pais, e eles pudessem me amar. Por tudo isto, obrigado, doce proveta. Que Deus te abençoe...
Quando eu crescer vou querer ter um filho. E se for necessário um amado.
bebê de proveta.
Frase do dia
“Burro não põe outro burro no pau-de-arara. O homem é que é um animal pouco inteligente.”
Jacob Pinheiro Goldberg
“Folha de São Paulo”
19/07/83.
Caderno 2
O Estado de São Paulo
Sexta-feira 20 de fevereiro de 1987
Recado
Senhoras e Senhores, A Voz de Brasília.
Uma foto que decepciona e angustia é a do deputado falando na Câmara, em Brasília, para o plenário vazio. Seria preciso a cristividade de Orson Welles para fixar um momento de sul-realismo tão dramático. O monólogo se trava com a surdez. Se este espetáculo já era deprimente nas sessões normais do Congresso, é revoltante na Constituinte. É preciso repetir a dramaticidade do teatro grego em Brasília. A narrativa, os atores e a “moral” da historia devem ter nobreza e galanteria. Mobilizados pela tevê e imprensa, a platéia esta atenta. Vai depender dos constituintes criar uma ópera bufa ou uma epopéia.
Jacob Pinheiro Goldberg.
Projeção de futuro
Em setembro de 1970, veio ao Brasil, o diretor do Hudson Institute, dos E.U.A, Herman Kahan, considerado então, o mais importante futurólogo Americano.
Em relação ao “Encontro sobre o futuro da América Latina”, Jacob Pinheiro Goldberg, atuou profundamente.
Goldberg, o nosso Futurólogo,
Comenta o Brasil do ano 2000.
Nas próximas décadas , o homem terá, finalmente, acesso à genialidade. Nessa época, e emulação como o robô será um fato. Os cérebros eletrônicos ajudados por fotocélulas, vão chegar a ouvir, compreender e experimentar;
Haverá, então, uma intensificação do casamento homem-máquina-animal, simultaneamente à criação de espécimes animais híbridos, que servirão de repositório de órgãos humanos para transplantes;
Nas próximas décadas, seremos transportados por auto-veículos; pequenos aparelhos, com a forma de cadeiras, que acionaremos como bem quisermos, e que nos transportarão rápida, segura e economicamente a qualquer distancia.
Dentro de 30 ou 40 anos, os homens terão uma linguagem mundial, que não será o esperanto ou outra língua qualquer, mas simplesmente a musica, pois a forma falada e escrita de comunicação, tal como a conhecemos hoje, será privilegio da elite intelectual muito pequena.
Estas são algumas das previsões que o primeiro futurólogo brasileiro, Jacob Pinheiro Goldberg, um advogado de 35 anos, reservou para a humanidade que vivera nos próximos 50 anos. Sua previsões estão no livro “Ética e Tecnologia”, editado há quatro anos, ora esgotado e numa tese sobre “Genocídio Cultural” que enviou à Sociedade Internacional de profilaxia Criminal, com sede em Paris. Este órgão, sob outro nome, reúne os principais estudiosos da futurologia da Europa.
Jacob Pinheiro Goldberg mora em São Paulo, dá aulas de Comunicação Cultural no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Fez conferencias em todo os Brasil e nas principais capitais latino-americanas e, depois de estudar a futurologia por dez anos, sente-se a vontade para relutar totalmente as previsões que seu celebre colega Herman Kahn fez para o Brasil. Hoje, Jacob esta contente porque poderá dizer o que pensa sobre Kahn a ele pessoalmente, pois participara da reunião final do encontro sobre o Futuro da América Latina, que se realiza no Copacabana Palace, no Rio.
Recolocação
Para Jacob, a recolocação que Herman Kahn fez de suas previsões para o Brasil continua paupérrima, porque ate se utilizou de dados pouco importantes.
Temos um território de oito milhões e meio de kilometros quadrados, e basta olharmos para os mapas para constatarmos que somos praticamente toda a América Latina; temos a mais rica estrutura geológica do mundo, ou seja, um escudo cristalino coberto de rochas sedimentares, e isso não chamou a atenção do Sr. Kahn”.
“Temos regioes como zonas de clima temperado, semitemperado e tropical e tropical, todas elas cortadas por ricas bacias hidrográficas. Herman Kahn aconselhou-nos a deter a explosão demográfica. Com bases em dados irreais: de fato, na ultima década tivemos uma alta taxa de crescimento demográfico – de 2706% - mas nossa densidade populacional, no entanto é baixíssima – apenas oito habitantes por quilometro quadrado – uma das mais baixas do mundo. Além disso, essa má distribuição populacional será corrigida com a construção da rodovia Transamazônica”.
“O processo morfo-geologico do Brasil é simplesmente inacreditável. É como se , na hora da divisão das quiquezas minerais, Deus nos estivesse protegido como a um filho caçula: temos um embasamento cristalino que ocupa respectivamente 32% e 4% em rochas ígneas e metamórficas, sendo que o ultimo é rico em ferro bauchita, níquel, manganês, chumbo, prata, ouro e cristal de rocha, e a hiléia amazônica é composta de depósitos terciários cobertos das mais densa formação florestal da terra”
“Mais – prossegue Jacob Pinheiro Goldberg – temos 50 espécies de jazidas minerais, das 300 que a humanidade se utiliza”.
No entanto, o grande desmentido a todas as previsões pessimistas sobre o Brasil seria criarmos um vasto programa de industrialização atômica, conjugando esforços dos órgãos oficiais, para estatais e particulares. Temos de encarar o Oceano como nossa principal via de comunicação, pois 17 Estados brasileiros tem litoral no Atlântico, dando destaque aos problemas de navegação costeira e de longo curso. Em termos de energia elétrica, temos disponibilidade de força hidráulica com potencialidade de 300 milhões de kw, o que é mais que o suficiente para quem quer se tornar uma superpotência.
Nosso futuro
Mas Jacob Goldberg se torna realmente ousado quando fala do futuro do Brasil em termos continentais de cultura e ensino, de jogos de comercio, industrialização e turismo (Em outras palavras, Jacob Goldberg preconiza a extinção dos pequenos países sul-americanos que fazem fronteira com o Brasil, do qual são, geográfica e culturalmente, seu prolongamento)
Jacob se admira que Herman Kahn tenha apenas recentemente descoberto o “milagre japonês”, atribuindo-o a algumas peculiaridades da personalidade do homem japonês.
“Atrás do chamado milagre japonês – argumenta – há apenas um numero concreto, e não divagações sobre a psicologia dos habitantes daquele país: há 25 anos, o Japão é o único país no mundo que não destina um único centavo de suas dotações para a guerra. Para mim só isso deve ser vatribuido o “milagre japonês”.
Como professor de Teoria da Comunicação, mais do que o uso errado dos números, Jacob se espanta, em Herman Kahn, do que chama de seu “erro de linguagem”. E cita Marshal Mc-Luhan: “Ninguém ainda conhece a linguagem inerente à cultura tecnológica; somos cegos e surdos-mudos em termos de nossa linguagem futura”.
“Hoje se sabe que o idioma é um problema de insrumentação para as questões do futuro. Nesses termos, a linguagem e os exercícios de Herman Kahn são extremamente parcimoniosos com relação às Ciências Sociais. Para mim, o “Hudson Institute” deveria criar uma seção de Lingüística, indispensável para entender e comunicar os problemas da futurologia.”
“O aspecto anedótico ou pitoresco da figura de Herman Khn é o que ele tem de mais atraente, porque Goethe dizia que “quando ele ironiza, é porque esta escondendo algum problema oculto.”
De qualquer forma, Jacob Goldberg concorda em que Herman Kahn é um homem de talento, mas que não detém boas informações sobre o Brasil, coisa que não se estranha porque realmente a contextura da realidade brasileira e do nosso gênio nacional são de tal sorte que é muito difícil reduzi-los a condicionamentos de medidas. Também ironizando, Jacob Goldberg aconselha Kahn a esperar os resultados do Censo-70, para evitar novos desmentidos.
“Uma coisa, no entanto, não lhe podemos negar. A custa da sua desmoralização, estamos aprendendo a ver a importância do planejamento de nossa vida para o futuro, nem que seja apenas para desmentir o gordo sr. Kahn, e no fim, acabamos lucrando alguma coisa”, conclui o futurólogo brasileiro.
“Folha de São Paulo” 4/09/1970
PAIXÃO DE CRISTO
Fonte por um dia
Victor Gentilli
Tudo indica que A Tribuna, de Vitória (ES), saíra na frente. Convidara o arcebispo, políticos de destaque e outras personalidades religiosas para uma sessão especial do filme Paixão de Cristo, de Mel Gibson, que tanta polêmica vem trazendo. E tinha uma pauta carregada, que merecia as duas primeiras páginas do jornal, dedicadas a reportagens especiais. Coisas de tablóide.
A Gazeta