O Percurso III

 

Jacob Pinheiro Goldberg

 

 

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O QUASE QUE FAZ O MILAGRE

Dialogando com Jacob Pinheiro Goldberg

 

                                                                                           Henryk Siewierski

( Professor titular do departamento de Teoria Literária e literaturas da Universidade de Brasília.)

 

Nos mesmos navios, que os pais de Jacob vieram ao Brasil, podiam ter vindo meus avôs, camponeses de uma região da Polônia, que naquela época rendia muitos imigrantes às colônias do Paraná. Se eles viessem, a história seria outra, eu dificilmente teria vindo ao mundo. Podemos dizer que assim como Jacob deve a sua vinda ao mundo àquela viagem transatlântica dos seus pais, eu devo-a a uma resistência ou a impossibilidade de embarcar nessa viagem por parte dos meus antepassados. Sim, essas foram apenas umas de inúmeras condições para podermos ter nascido, condições que são tantas, que nos levam a procurar a nossa origem no grande mistério do infinito. Mas, por outro lado, são as coordenadas da nossa inserção na história.

O meu avô paterno contava sempre história da Primeira Guerra Mundial, em que lutou no exército do império austro-húngaro até o momento em que numa batalha perto de Viena foi gravemente ferido; a ferida talvez o tivesse salvo, porque o fez inapto a lutar na Segunda Guerra que veio vinte anos depois. Um estilhaço arrancou-lhe uma parte de crânio e se não fosse uma freira austríaca, os médicos iriam apenas ajudá-lo a morrer. Ele nos deixava, os netos, a passar a mão na sua cabeça e verificar que havia uma parte mole. Muitos anos depois, no Brasil, fiz um poema para contar essa história, porque há histórias que não há como contar, a não ser em poema. Gostaria, de lê-lo e depois explicar o que o meu avô tem a ver com Jacob, cuja pessoa e cuja obra nos fez aqui reunir.     

Antes de ter o meu pai

o meu avô foi a guerra

quase morremos todos

numa batalha perto de Viena

Uma bala abriu o crânio

e a vida se ia embora

em vez de fechar-lhe a porta

o médico quis dar a carona

 

Nem lhe passou pela cabeça

que num vazo tão devastado

a vida ainda pudesse

ter um aliado

Precisava o meu avô

fazer uma declaração

que ainda queria viver

com a vida que lhe sobrou

Me lembro quando passava

a mão na sua cabeça

no lugar onde passou a bala

era mole por ser aberta

O meu avo não ganhou a guerra

mas isso não interessa

o que interessa é que ganhou

a vida com a cabeça aberta

              Precisava apresentar aqui o meu avô Blazej, porque sempre quando penso nas relações entre os judeus e poloneses, nos que encontrei no meu caminho e os que se tornaram meus amigos, e quando penso no Shoah, me lembro dele e ele me ajuda a carregar a memória do Apocalipse, que escolheu como um dos seus palcos a minha terra natal, só um pouco antes de eu ter nascido. Porque quando numa noite escura bateu na porta da sua casa um homem, judeu, perseguido que nem uma caça, pedindo pão e abrigo, o meu avô não o mandou embora, mas, contrariando o próprio instinto de sobrevivência, contrariando a minha avó e arriscando a vida de todos, inclusive dos que, como eu, ainda não tinham nascido, abriu a porta e num esconderijo preparado no paiol, cuidava essa vida até ao fim da guerra. A memória dessa minha inserção pessoal na história do povo judeu, que guardo como uma herança e um patrimônio precioso da família, ajuda a carregar a memória coletiva polonesa, européia, a memória do mundo do século XX, que não pode ser seletiva, e da qual fazem parte também a omissão, o medo, a indiferença diante da tragédia de um povo condenado a destruição. Para não falarmos do pior, que eram os casos de condenscendência e até de colaboração ativa no diabólico plano da Alemanha nazista. Porque se, ajoelhando nos diante do Crucificado há quase dois mil anos não nos podemos  sentir inocentes, não os somos também em relação a esse povo, que no meio da grande família humana, em pleno século XX, foi vítima de um genocídio.

               Mas não foi só essa a minha inserção na história do povo judeu. Dela fazem parte também muitas outras histórias, sagradas e profanas, histórias bíblicas e da minha rua da infância, incontáveis histórias de fixão, que disputaram seu lugar na realidade e histórias de amizade, uma das quais me trouxe aqui para dar o meu testemunho.

               Conheci Jacob Pinheiro Goldberg há quatro anos, quando começou a interessar-se pela literatura e cultura da terra de origem dos seus pais. Pensando, que melhor tarde do que nunca,

ofereci-lhe alguns textos traduzidos em português, recebendo em troca seus poemas e outras obras, também livros poéticos da sua mãe, Fanny Goldberg. Mantivemos contato por telefone e por e-mail, trocando idéias e opinhões sobre diversos assuntos, contando histórias dos nossos passados, tão diferentes, e descobrindo afinidades, como se, apesar de tantas diferenças fossemos irmãos separados há muito tempo, que agora se reencontraram. Pensando hoje a quem atribuir o dom desse reencontro, não vejo tanto mérito em nenhum de nós dois, quanto em terra, aquela terra da bacia do rio Vístula, que guarda os ossos e as cinzas dos nossos antepassados e a memória das suas vidas, a terra da nossa origem comum. E penso também numa outra terra, a terra da nossa origem ainda mais distante, Terra Santa, onde outrora de uma rocha brotou água viva, onde há muito começaram as nossas histórias do passado e do futuro. Talvez hoje, mais do que nunca, nos tempos da globalização, que são também tempos da globalização dos desencontros, precisemos cultivar essa memória tellúrica, como o ponto de partida da nossa origem comum, a origem, que não conhece judeu nem grego, escravo, nem senhor, mas que tem uma força extraordinária de uma geradora dos reencontros.

           Se a memória telúrica da origem comum nos fez aproximar, a memória histórica, religiosa, cultural, introduzia desde o início uma tensão e uma polarização. Jacob chega até dizer num e-mail indeletável de 8 de abril de 2003: 

           “Eu não compreenderei jamais você. Católico polonês. Entre nós, lágrimas e sangue. Visões opostas. Jesus, Moisés, terra, céu. Quase tudo. Mas. Mas, exatamente o quase faz o milagre. Eu sei. Um saber sem lógica, razão, cartografia que estou mais perto de vc do que posso imaginar”. 

            Sabemos que estamos perto, mais perto do que possamos imaginar, e que jamais nos compreenderemos, porque há muito que nos separa, há muito que fomos separados, há muito que em nós resiste a aproximação. Sabemos também que nem tudo nos separa e que há milagres. E que a nossa chance depende mais da imaginação do que do saber. Mas o que dificulta a nossa compreensão recíproca faz com que o diálogo se torne mais atraente. E sem o diálogo até o monólogo fica difícil, porque eles se complementam.  Karl Jaspers dizia, “não posso ser eu sem comunicação com o outro e não posso estar em comunicação sem estar só”. Mas a comunicação, a compreensão, o diálogo ainda não são milagres. O milagre acontece quando abrimos a nossa casa e recebemos o outro como se fosse deus. Isso já aconteceu muitas vezes, como neste poema, em que um poeta moderno, de D.H. Lawrence (1885-1930), roconstrói o imaginário e a sensibilidade do homem da antiquidade, evocando um testemunho de um filósofo do século IV depois de Cristo, Maximus:

Deus é mais antigo que o sol e a lua

E nenhum olho o enxergará

Nem voz alguma contará

 

Mas um homem nú, desconhecido, á porta,

Com um manto pendurado no braço, esperava.

 

Então o convidei: entre, se quiser!

 

Entrou devagar e sentou-se junto a lareira.

 

Perguntei-lhe: qual é teu nome?

 

Me olhou sem dizer nada, mas fiquei tão maravilhado

Que sorri a mim mesmo, pensando: deus!

 

Então ele disse: Hermes!

 

Deus é mais antigo que o sol e a lua

E nenhum olho o enxergará

Nem voz alguma contará:

Mas este é deus Hermes e está sentado junto a minha lareira.

(„Maximus”)

            O que no início constituia para mim o maior obstáculo ao diálogo e a aproximação era a determinação com que Jacob insistia em que nesse encontro e nesse diálogo representássemos, antes de tudo, cada um o seu povo, sua memória e identidade coletivas. Ele acentuava demais a sua linhagem judaica e de mim esperava que assumisse o papel de um polonês católico de carteirinha. Não me agradava nada fazer o papel de um personagem de uma moralidade medieval. Mais interessante seria um happening, sem os papeis predeterminados, carácteres premoldados, objetivos predefinidos. Porque a identidade que herdamos é apenas o ponto de partida, o patrimônio a ser não apenas preservado, mas multiplicado, a origem de inúmeras possibilidades. Aos poucos foi descobrindo que Jacob também pensava assim, foi descobrindo o seu lado ortodoxo e heterodoxo, a sua insaciabilidade na projeção e expansão de si próprio e o seu fascínho pela magia da interação pessoal, pelo outro, sua opção preferencial pela subjetividade e o seu engajamento em causas da polis, paulistana e não só paulistana, seu lado anárquico e messiânico, e a sua poesia.

            O meu pai era soudador, eu sou tradutor (também professor, mas ser professor é ser tradutor também). Entendo a tradução literária como a imposição a uma outra língua, de algo que ela dificilmente teria, por si só concebido – uma infiltração no seu sistema imunológico de um corpo estranho que possa provocar alterações irreversíveis, inclusive as indesejáveis. Por outro lado, vejo a também como acolhimento de uma obra que vem de longe, que quer emigrar de uma língua para a outra, ter uma vida também fora das suas fronteiras. E vejo a tradução como a apropriação de uma obra estranha por uma língua insaciável, a que não basta o que nela nasce naturalmente. Mas, ao mesmo tempo, a tradução, se a olharmos do ponto de vista da língua da partida, não deixa de ser processo de desapropriação, despojamento, perda da exclusividade dos direitos autorais. E gosto de repetir, o que dizia um grande tradutor brasileiro vindo das margens do Danúbio, Paulo Rónai:

             “Cada vez que uma obra literária me comove a fundo, a mina reação instintiva é  verificar se já está traduzida, para, em caso contrário, eu mesmo transplantá-la para a minha língua materna, ou para outras em que acabei por sentir, pensar e me exprimir”.

             A tradução, portanto, não é apenas a questão de fidelidade, mas tem muito a ver com sedução, comoção, acolhimento e epifania.

             Assim, nesse nosso diálogo ficava comovido tanto pela história do passado do Jacob, como pela história do futuro que ele ia ou pretendia construir e pela poesia do presente, vivido de uma forma inquieta, irreverente, de bom humor, livre, mas também fiel aos princípior atemporais herdados, a uma voz interior, que vem do que nos transcende.

 

Nunca fui amigo do Rei

Meus heróis de infância foram Tarzã e Flash Gordon

Mesclando Hollywood e Biblia

Atravessei com Mosés o deserto e recebi a Lei do Sinai

Nasci em Juiz de Fora, na terra dos Gerais

Não da acomodação

Meu pai veio com o navio „Valdívia”, de Ostroviec, Polônia

Sem um tostão no bolso sem falar uma palavra

Em português, dezenove anos de idade,

Com a opção do suicídio no mar ou

Vôo no horizonte

Escolheu o céu

Ganhou o pão com suor do seu rosto

E dividiu-o comigo e nossa família

Cada um vê o mundo segundo sua ótica

No regístro biográfico mas também

Segundo sua livre assunção como ser

Sou outsider por nascimento, destino e vocação

Questiono interminavelmente

Democracia para mim é um estado de espírito e não

Um vocábulo ou um regime político

Liberdade é uma reflexão crítica que começa na angústia

E termina na esperança e não bandeira para demagogia

Denuncio o torturador e choro o torturado

Porque palmilhei os caminhos que passam

Pelas fogueiras da Inquisição, Dachau e desembocam

No pau-de-arara

Fico com a mãe solteira e desprezo a covardia do pai desertor

Um só esfaimado, doente ou abandonado, faz-me

Ter vergonha de mim mesmo

Enquanto almoço têm criança e velhos

Pedindo comida nas esquinas

Doentes sacrificados, ignorância universal

Animais vítimas nos abatedouros

Da nossa sanha de Caim

Caim ecológico que suja os rios

Derruba árvores, empesteia atmosfera

A idolatria impera no esquecimento de Deus

Eis que a integridade se transforma em corrupção

O assalto em foroeste de televisão

E o traidor se julga mestre e senhor

Um rol de decepção?

Não

Um manifesto na possibilidade de reação

Nasci em Minas

Meu pai veio com o navio „Valdívia”, de Ostrowiec, Polônia,

Escolheu o céu

Ganhou o pão com suor de seu rosto

         A comoção era tal, que a tradução desse e de outros poemas de Jacob para a minha língua materna, que era também uma das línguas dos seus pais, tornou-se irresistível e tão natural como a própria leitura:

 

nigdy nie byłem przyjacielem króla

bohaterami mego dzieciństwa byli Tarzan e Flash Gordon,

mieszanka Hollywoodu i Biblii

z Mojżeszem przeszedłem przez pustynię i otrzymałem Prawo na Synaju

urodziłem się w Juiz de Fora, ziemi Minas Gerais

której obce jest wygodnictwo

mój ojciec przypłynął na statku „Valdivia”, z Ostrowca, z Polski

(...)

        Nesse e nos outros poemas de Jacob encontrava também os tons dos poemas que ele nunca devia ter lido ou ouvido, mas para mim familiares, tons da poesia polonesa. Não seria isto o resultado dessa memória profunda, tellúrica, que temos em comum? Foi talvez essa memória e essa familiaridade que o fez estudar a literatura polonesa há poucos anos atrás e criar um programa de estudos da obra de um dos maiores poetas poloneses, Czeslaw Milosz. Seguindo essa lógica podemos também encontrar na literatura polonesa os poemas, que Jacob podia ter escrito, poemas em cuja tradução portuguesa poderiamos reconhecer também o seu sotaque mineiro. E até muito mais do que um sotaque. Escolhi como exemplo um poema de Zbigniew Herbert, escrito nos anos 70 do século vinte, que na Polônia eram também anos em que a liberdade parecia distante, em que não faltavam dias de pedra, em que, como na „Música de fundo” de Jacob, também éramos ilhas. O título do poema é „Mensagem do senhor Cogito”, o mesmo senhor do „cogito ergo sum”. Que a sua tradução seja também uma homenagem fraterna ao Jacob Pinheiro Goldber.

 

Vá para onde outros foram, até ao fim obscuro,

até ao Tosão de Ouro do nada, tua última recompensa.

 

Caminha por entre aqueles que vão de joelhos

e os que viraram as costas e foram reduzidos a pó.

 

Tu não sobreviveste para viver,

Tens pouco tempo, tens de dar testemunho.

 

Tenha coragem quando a razão falha tenha coragem

no fim de contas só isso importa

 

A tua ira impotente que seja como o mar

Sempre que ouças a voz dos humilhados e espancados.

 

Que nunca te abandone teu irmão Desprezo

Pelos espiões carrascos covardes – eles ganharão

Virão a teu funeral e com alívio jogarão terra

E o cupim escreverá ordenada a tua biografia

 

Não perdoa, não está no teu poder

Perdoar em nome dos que foram traídos de madrugada

 

Evite o orgulho desnecessário

Olhe no espelho seu rosto de palhaço

Repita: eu foi chamado – não havia ninguém melhor?

 

Acautela-te da secura do coração ama a fonte matinal

O pássaro de nome desconhecido o carvalho do inverno

 

A luz no muro o esplendor do céu

Não precisam da tua respiração quente

São para dizer: ninguém te consolará

 

Vela – e quando a luz nas montanhas der o sinal – ergue-te e caminha

Até que o sangue faça girar no peito a tua estrela escura

 

Repita velhos conjuros da humanidade, fábulas e lendas

Assim conquistarás o bem que não conquistarás

 

Repita grandes palavras, repita obstinadamente

Como os que ao atravessar o deserto pereceram na areia

 

Serás recompensado com que eles têm à mão

A chicotada de riso onassassinato no monturo

 

Vá porque só assim serás recebido na comunidade dos crânios frios

A comunidade dos teus antepassados: Gilgamesh, Heitor, Rolando

Os defensores do reino sem fim e da cidade das sinzas

Seja fiel. Vá.

         Marília Librandi Rocha no artigo „Poesia Judaica em Juiz de Fora: um delírio mineiro-Ostrowiec” relaciona a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg com a chamada „literatura de testemunho” ou seja obras de sobreviventes da Primeira e Segunda Grande Guerra do século XX, em que a necessidade de testemunhar costuma coincidir com a consciência da imposibilidade de representação do catástrofe. Focalizando um forte elemento autobiográfico, a crítica encontra nesta poesia também uma terra prometida para quem quiser explorar regiões de exílio, deslocamento, fronteira, entre-lugares ou sem-lugares. Sem dúvida, quem procurar na poesia de Jacob Pinheiro Goldberg o reflexo da história ou testemunho de uma vida nela inserida, encontrará, embora o testemunho deste poeta não se limite a representação da história. Além deste testemunho há um outro, que permeia a sua poesia e faz com que o conceito de „literatura de testemunho” pareça restrito demais para ela. É um testemunho de fidelidade ao que ultrapassa os limites da representação do que foi, para transitar também nas regiões do que poderia ser. Poderia e deveria, independentemente e até à revelia da história, porque a poesia – em geral e esta em particular – é também o testemunho da liberdade do sonho e da imaginação, bem como o testemunho de uma ligação – ou antes re-ligação – com uma força estranha e misteriosa, que nos faz fazer poesia quando a poesia parece impossível, que indica o caminho nas encruzilhadas, e que alimenta os mais ousados e mais íntimos desejos da alma humana.

Brasília, maio de 2006.

Henryk Siwierski é Doutor em ciências humanas pela Universidade de Cracovia, professor de Literatura na Universidade de Brasilia e escritor.

 

 

O QUASE QUE FAZ O MILAGRE - Dialogando com Jacob Pinheiro Goldberg

Prezado Sr. Carlos,

fiquei emocionado com as suas palavras tão generosas sobre
o meu texto, mas também muito grato pelas reflexões que com
ele dialogam e que me deram muito a pensar. Confesso que num
certo momento, fiquei preocupado de ter provocado uma comparação
em que a herança da cultura brasileira é pouco valorizada, porque
eu nunca duvidei da sua grandeza. Mas logo percebi que foi apenas
uma forma de registrar um pensamento "in statu nascendi" cuja
conclusão é uma afirmação tão expressiva e tão bela da riqueza
que o Brasil representa pela sua história, sua diversidade cultural,
seu amor a liberdade. Muitíssimo obrigado por suas palavras,
pelo privilégio de assim participar junto consigo num diálogo
com o nosso amigo, o Dr. Jacob P. Goldberg.

Cordialmente,

Henryk Siewierski



Assim, diante de representantes de tradições tão intensas, me senti nu, herdeiro de nada, talvez como um índio tivesse se sentido ao se deparar com os jesuítas e vislumbrar todas suas tradições, livros, cultura, hábitos, paramentos etc.

 

 

Prezado Prof. Siwierski


Recebi do Dr. Jacob P. Goldberg (pessoa a quem admiro profundamente, e que reserva a você os maiores elogios) um e-mail com o texto O QUASE QUE FAZ O MILAGRE - Dialogando com Jacob Pinheiro Goldberg, que você escreveu, e gostaria de externar aqui o prazer que a leitura do mesmo me proporcionou, além da admiração que ensejou em mim.
Na verdade, ao me deparar com um texto tão bem escrito, tão tocante e profundo, juntando prosa e poesia não só em suas duas formas próprias, mas mesclando-as entre si, fazendo poesia em forma de prosa e vice-versa, minha primeira sensação foi de mutismo. Algo como sentiria alguém que pudesse presenciar uma conversa entre anjos, e que, ao perceber o quão é incapaz de tentar reproduzir ou mesmo se aproximar de sons tão belos e de uma linguagem tão nobre, percebe que nada mais lhe resta que não manter o silêncio.
Contudo, ousei romper este silêncio constrangido, quase visceral, que me foi auto-imposto, apenas em razão da vontade maior de externar, ainda que na precária linguagem daqueles infelizes que, ao contrário de você e o Dr. Jacob, são completamente desprovidos do dom da poesia, minha profunda admiração.
Mas seu texto me tocou muito além de sua beleza intrínseca.
Ao lê-lo pela primeira vez, devo confessar que minha primeira sensação foi de inveja das condições de vocês, enquanto herdeiros de tradições e história tão intensas: A Polônia, um país único na Europa por tudo o que já passou nos últimos séculos, cercado de ávidas potências, alvo de cobiça, manipulações e ao desprezo por sua identidade, mas cujo povo tão bravamente lutou por ela, e de uma tradição católica a ponto de levar um filho seu ao Pontificado. Já, o povo Judeu, de tradição tão forte quanto antiga, sem paralelo, que sequer carece de maiores considerações.
Eu, por outro lado, sou um típico paulistano, filho do Brasil há muitas gerações. Minha raiz estrangeira mais próxima são apenas meus tataravôs italianos, influência esta que não passou além de umas poucas expressões italianas que minha mãe falava quando eu era criança e que, especialmente em São Paulo, onde é tão comum, não nos distingue em absoluto.
Assim, diante de representantes de tradições tão intensas, me senti nu, herdeiro de nada, talvez como um índio tivesse se sentido ao se deparar com os jesuítas e vislumbrar todas suas tradições, livros, cultura, hábitos, paramentos etc.
Mas foi justamente essa imagem, lembrando que o índio, apesar da ausência de uma cultura formalizada pela escrita ou por construções, era detentor também de uma tradição riquíssima, que me fez passar a buscar quais são minhas próprias raízes, qual a tradição do meu povo, e como eu poderia me encaixar no diálogo entre estes expoentes de duas culturas e religiões tão específicas.
E, ao menos à primeira vista, acho que a principal distinção da cultura do meu povo seja justamente a ausência de especificidade. Ao contrário de ser fruto de uma longa evolução histórica, ou derivar de alguma tradição única, o que distingue a cultura do brasileiro é justamente sua riqueza de influências, sua juventude e permeabilidade, sua capacidade de a tudo absorver, digerir, metabolizar, e sintetizar. Enfim, sua pluralidade.
E, da quase lamentação ou frustração, da sensação de pouco ter, passei à sensação de tudo poder ter, de liberdade, de amplas possibilidades. E, ouso dizer, até de modernidade e adequação aos tempos atuais, de irrestritas comunicações e interação com outros povos, tempos da globalização.
Enfim, seu texto foi realmente muito tocante e edificante.
Parabéns,
de seu mais novo admirador,



                    Carlos E. Lora Franco
Juiz de Direito - Fórum Criminal da Barra Funda

 

As Artes Entre As Letras

Porto – Portugal

27/01/2010

 

Literatura

Jacob Pinheiro Goldberg

A poesia como fonte de vida

 

Jorge Sanglard

Jornalista e pesquisador brasileiro

 

A solidão e o estranhamento, tanto existencial quanto geográfico, permeiam a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg. Ora um choque cultural intenso, ora um ímpeto de comunicação e diálogo. “Espécie de errância interior, trajetória de vida contada e recontada em muitos poemas e textos, a poesia de Jacob Pinheiro Goldberg pode ser descrita como a de uma vida singular tornada estranhos poemas ou poemas-vida”; assim, Marília Librandi Rocha abre-alas para a compreensão de uma obra inquietante. E ao partir desta vertente, para organizar a antologia Poemas-Vida (7Letras), a doutora em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP e professora de Literatura Brasileira na Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, articulou um livro que revela a força de um escritor desterritorializado.

Nascido em Juiz de Fora e radicado em São Paulo há mais de 50 anos, o renomado psicanalista faz da escrita e da poesia a busca de uma expressão de vida. Em constante processo de criação, a fronteira é a pátria de Jacob Pinheiro Goldberg, a esquina, sua peregrinação. Admirador confesso da obra de outro poeta mineiro e juizforano, Murilo Mendes (1901 – 1975), como um outsider, Goldberg tem instigado o debate de idéias, a reflexão e, com isso, provocado muita polêmica. O “psicólogo da poética”, nas palavras de Sandra Magalhães, investe na construção de seus poemas como um desafio de revirar o passado e apontar para o futuro.

É assim também que o lugar da escrita de Jacob Goldberg na literatura brasileira é, até hoje, a de um estrangeiro em terra estranha ou ignota, afirma Marília Librandi ao apresentar a antologia. E essa questão implicou em que a organizadora do livro ficasse numa posição lateral para pensar a respeito de produções singulares e que historicamente ficam à sombra. Afinal, “sem território, essa poesia ficou de fora – exilada dos leitores – sem lugar nem na literatura brasileira nem na literatura brasileira de expressão judaica, que nos últimos anos começou a ser melhor estudada e definida”. E Marília Librandi explica: “Goldberg não pertence a nenhuma delas, mas situa-se em um entre-lugar, ‘pequeno intervalo hipotético’. Diríamos assim que as principais linhas de força de sua poesia correspondem às suas principais linhas de fuga”. Não é à toa que o autor afirma em vários de seus escritos: “Eu não sou daqui”, manifestando o caráter desterritorializado dessa escrita que encontra no deslocamento o seu canto.

Poemas-Vida deriva de um estudo realizado sobre a obra de Jacob Pinheiro Goldberg, defendido em 2003, como tese de doutorado de Marília Librandi Rocha na Universidade de São Paulo. Na ocasião, argumenta a pesquisadora, a antologia propunha-se como o fim da tese, no sentido de sua conclusão e finalidade, e era bem maior do que a presente, tendo em vista a necessidade de apresentar esse escritor, então praticamente desconhecido na Academia e entre o público das Letras.

Desde então, Goldberg assumiu seus próprios textos, antes guardados em gavetas ou publicados em pequenas edições de autor, e teve sua produção escrita reconhecida por um número significativo de leitores, dentre os quais, Henryk Siewierski, que traduziu 18 de seus poemas para o polonês, publicados na edição bilíngüe A Mágica do Exílio - Magia Wignania (Landy Editora, 2003). O poeta também publicou, em 2005, o livro Rua Halfeld, Ostroviec, onde mergulha na esquina imaginária entre a rua mais importante de Juiz de Fora, em Minas Gerais, no Brasil, e a cidade natal de seus pais na Polônia. Assim, a intenção da organizadora da antologia é apresentar o que chamamos genericamente a poética de Goldberg, nela abarcando o conjunto de textos compostos em forma de poesias, poemas em prosa e aforismos, coligidos a partir do livro Tempo Exilado, de 1968/69, e chegando até o mais recente, Rua Halfeld, Ostroviec, de 2005.

Marília Librandi partiu da leitura de cerca de 1200 trabalhos publicados nos livros de Goldberg (compreendendo uma produção escrita que inclui desde poemas longos, crônicas, artigos, até escritos de uma só frase ou poesias de um só verso), chegando a uma seleção que, segundo o ponto de vista da organizadora da antologia, corresponde, pois, a algumas das principais preocupações e tendências da escrita de Goldberg. A obra foi reunida em sete tópicos intitulados: “Parábola e ponto de fuga”, “O nem insólito”, “Sombra da sombra”, “A carne da memória”, “Bio(necro)grafia”, “Errância” e “Melitzá. Fragmentos poéticos”.

Inicialmente, a pesquisadora acreditava que os textos de Goldberg, desconhecidos no seu presente de produção, poderiam vir a ser recuperados e lidos num futuro, a exemplo de outros escritos marginais. Também pensava que se não fossem recolhidos a tempo poderiam perder-se, a exemplos de tantos outros cujos nomes e obras não registrados desaparecem. Decidiu então tomar conta dessa produção, “sem o anseio de salvação ou a noção de permanência”. Por isso, afirma, do mesmo modo que se arranca uma flor para dá-la a alguém, aqui arranca-se de sua estagnação e obscuridade esses textos para ofertá-los aos presentes no tempo presente.

Na opinião de João Adolfo Hansen, professor titular de Literatura Brasileira na Universidade de São Paulo, a matéria da poesia de Jacob Goldberg é essa desabitação, essa despossessão, esse estar não-estando de quem medita as perdas levado pelo vento do mundo. “Na sombra, à esquerda da linguagem, Goldberg escreve poesia com o sangue da experiência do real. É poesia elegíaca e trágica, uma lamentação que contra-efetua o acontecimento da dor, elaborando o sofrimento para resistir à destruição e à amargura do mal”.

Jacob sabe que nascer judeu ou palestino, índio ou espanhol é só acidente, pois o que realmente importa é o que fazemos com o que fizeram de nós, afirma Hansen. E explica: “Kafka, por exemplo, quis escrever como um vira-lata para apagar as marcas da Lei gravadas na pele. Jacob é dessa família de desgarrados magníficos que dizem non serviam, ‘não servirei’. Inconformado com a vida, revoltado com a morte, escreve sua poesia na fronteira do Paraguai com a Finlândia, aquele não-lugar onde as etnias, as nacionalidades, as religiões, as classes e os sexos finalmente foram abolidos e só sobrou a liberdade da descrença radical dos valores herdados. A liberdade de Jacob é livre, ou seja, generosa, e faz seus poemas espaçosos para recolherem compassivamente os cacos da história universal de um ‘nós’ despedaçado. São fortes, duros, intensos, sem nenhum consolo, comoventes. Podem até fazer desesperados pensar que, se ainda há homens como ele, há esperança para todos”.

E o próprio autor confessa: “a escrita é o exercício balanceado entre a onipotência do criador e a impotência da fragilidade do ser, proporcionando a simbiose entre o irreal e o acontecido”. A antologia Poemas-Vida é uma síntese da reflexão poética de Jacob Pinheiro Goldberg ao longo do tempo em meio à perplexidade, ao desafio, ao caos e à superação. É um compromisso de vida e um compromisso com a escrita. Enfim, é uma outra forma de se respirar.

 

 

Voto Ético e Estético: por Jacob Pinheiro Goldberg

Existem pessoas que marcam o seu tempo e a sua terra com altitude e grandeza. Transitam pelo humano como vozes privilegiadas do futuro. Antecipam tendências e acedem esperanças. Paulo Delgado é um desses luminosos. Com a nostalgia de Juiz-forano saudoso quero votar em 03 de outubro em seu carisma, num ato de fé no Brasil e na causa progressista.

Jacob Pinheiro Goldberg

 

Conheço (Será?) e convivo com esta moça, anjo talvez, pra mais de 20 anos. Acompanhava-me, saltitante, irrequieta, como estudante e psicóloga e amiga, no desafiante oficio de acontecer, de existir. E, como naqueles filmes entre piegas e sublimes americanos, sempre desconfiei de que Mara Gabrilli não era daqui.

 

O seu gênio tutelar de presença - ausência, olhar distraído e transparente, beleza sensual, inteligência aguda, senso de humor, mistério e revelação alimentavam minha suspeita.

Mara Gabrilli pertencia a outra dimensão, qualquer outra espaçosa de galácticas ingenuidades. Escrevi, escrevi e, finalmente, encontrei o conceito correto. Ingenuidade.

 

Das linhas surge uma ninfa alegre na tristeza elegíaca de ser. Vou caprichar com aval de quem é seu cúmplice tribal: Mara Gabrilli é uma das mais importantes escritoras contemporâneas. E, de propósito não disse, brasileira.

 

Como fiz certa vez (e ele fingiu que se aborreceu comigo), pelo  “Jornal de Brasília” com Carlos Drummond de Andrade, faço-me garoto-propaganda e nesta orelha, solenemente, lanço a candidatura de Mara Gabrilli a Academia Brasileira de Letras. E mais não digo, embargada a voz.

 

Jacob Pinheiro Goldberg,

Psicólogo e escritor.

 

 

Debate sobre a CPI caso PC Farias  na TV “25ª hora”

Senador Marcelo Crivella – Deputados José Dirceu, Roberto Jefferson e Professor Jacob Pinheiro Goldberg.

 

Pergunta: Dr. Jacob, o que o senhor acha da volta do governo militar caso a CPI tenha uma conclusão que venha causar uma ruptura nas instituições, entre o Congresso e o Executivo? Isso é viável? Quais as implicações para o nosso país?

 

Jacob: Não obstante todas as dificuldades que são criadas e existem em um desenvolvimento de processo democrático, eu não vejo a viabilidade e a possibilidade de uma tragédia dessa natureza. Isso seria um resultado contrário às aspirações da cidadania e da sociedade democrática. Existe um princípio fundamental no comportamento social que eu acho importante que a gente deixe sempre consignado, que são esses exercícios futurológicos e essas viabilizações de alternativas prováveis, que são às vezes muito perigosas. Simplesmente projetar essa possibilidade é muito perigoso, já teria que estar excluída por princípio. A sociedade brasileira é uma sociedade que tende e deve tender para cada vez mais um processo de participação democrática. O resultado dessa CPI e desse esforço tem que ter como resultado a impossibilidade de qualquer tipo de golpe de governo militar, tem que se dirigir a um governo de participação e de cidadania total e absoluta.

FEBEM

Jacob: Eu realmente desconheço como a FEBEM está trabalhando nesse momento, mas o que eu posso dizer é que, como analista de comportamento, eu não gosto dessa expressão “menores”. Essa expressão me cheira alguma coisa de exclusão e de marginalização. Essas crianças que estão aqui representam um sonho e uma esperança em termos de sociedade. Eu estava olhando para o rosto de cada um deles e eu diria que fico muito impressionado com essas impressões. A televisão no Brasil tem o compromisso, a obrigação e o dever de levar essas crianças todo dia para a sala de visita, não só da classe média, mas também da oligarquia, do rico e do poderoso, para ele descobrir que esses meninos têm a cara dos filhos dele. Esse menino não é bandido, ele só vai ser bandido se nós quisermos e permitirmos que ele seja bandido. Ele tem toda a chance de ser um cientista. As expressões desses jovens são de desejo e de sonho, e você vê isso na expressão daquele menino, ele me lembra o rosto do meu filho. Eu sou incapaz de olhar para esse garoto de maneira neutra, de maneira fria e científica, ele é um ser humano e esse país não pode desperdiçar isso. Eu não sei o que a FEBEM está fazendo, mas eu sei o que ela tem obrigação de fazer, eu sei qual o compromisso que ela tem com cada um de nós e com a sociedade: é de permitir e dar uma chance para que o talento dessa gente possa explodir; eles não são um ônus e nem um peso para a sociedade, é a sociedade que tem uma dívida com eles.

 

Benedita da Silva: Quando o Jacob diz que a sociedade é responsável, eu queria dizer que eu fui menina de rua também e que não são os meus pais os responsáveis por não terem emprego e a gente ter que ir à luta na rua. Quando se fala da sociedade, se fala daqueles que estão no poder e não fazem as coisas e depois querem responsabilizar a gente. Essas crianças não devem se condenar, porque elas não têm culpa das pessoas que estão no poder hoje e da sociedade em si não lhe estender a mão. A responsabilidade é de todos nós, nós temos responsabilidade de dar escola, de aceitar a sua vocação para estudar, de dar emprego para seus pais, de eles morarem dignamente e isso é responsabilidade nossa. Esse jovem não pode ter na cabecinha dele que ele não tem esse direito.

 

Breve Prefácio

Michel Temer

 

Conheci Jacob Pinheiro Goldberg em Congresso do Instituto Brasileiro de Direito Constitucional nos idos de 1980 em Belo Horizonte. Depois mantive muitos contatos quando ocupei, pela primeira vez, o cargo de Secretário de Segurança Publica no Estado de São Paulo.

Interessei-me pelas suas idéias e interessei-me pela sua formação já que era capaz de formular extraordinário raciocínio lógico em todas as suas observações. Soube, então, que era advogado com robusta formação jurídica. E que se formara em Psicologia realizando também o Curso de Assistência Social.

Tão eclético e vasto conhecimento fizeram-no professor, escritor e conferencista. Por onde passava expunha com clareza e convicção as suas ideias. Sempre inovadoras. Fruto da somatória de seus conhecimentos nas mais variadas áreas. Encontrei-o varias vezes. Conversamos muito. O que mais me chamava a atenção era a sua sensibilidade para os problemas sociais e a paciente análise das questões pessoais. Achava até que, nele, preponderava o Psicólogo.

 

Hoje, quando Jacob Pinheiro Goldberg lança um livro com seus escritos em jornais e revistas e as várias entrevistas e conferencias que deu, verifico que ele não reservou para conversas individuais as suas idéias. Pregou-as. E quem prega, lembra  Vieira, espalha sementes. Que frutificam. Que não devem ficar apenas para si ou para poucos, mas disseminadas para muitos. É o que faz este trabalho de Jacob Goldberg. Pautados pela idéia de justiça social e de crescimento individual servirão a todos os leitores que tenham tais preocupações. Revelam a faceta do intelectual que se dedica a causas especiais.

Saúdo – e saudamos todos – a publicação deste trabalho.

 

 

APRESENTAÇÃO

 

É com entusiasmo que venho prefaciar a obra de Flávio Goldberg, a antologia do grande Dr. Jacob Pinheiro Goldberg, destacado psicólogo, assistente social, advogado, e acima de tudo, pessoa dedicada ao crescimento do ser humano.  

Jurista comprometido com a pesquisa e estudo do Direito, que através de uma atitude altruísta, traz uma seleção de sua obras organizadas por seu discípulo e filho Flávio Goldberg, que vem abrilhantar e complementar o ramo do Direito.

O Autor é um singular cientista do direito, ousado e corajoso, pois penetra em temas delicados da sociedade atual, sendo de indiscutível importância, tornando-se referência na matéria.

Trata-se de obra baseada em suas conferências, artigos e teses apresentadas no Brasil e fora dele, que abraça questões de Direito, com destaque para Psicologia do Sentenciado, Crime e Jovem, Violência Urbana, dentre outros não menos importantes, de grande serventia para todos os operadores do Direito, bem como psicólogos, assistentes sociais e todos os que se interessam pelas questões humanas como um todo, ou que precisam de informações precisas acerca do tema.

Pelos motivos expostos, estou certo da significativa contribuição feita pelo autor ao universo jurídico, sobretudo humano, que já nasce destinada ao absoluto sucesso.

FERNANDO CAPEZ

 

Pedido fim da prisão cautelar de menores.

 

Da reportagem local

A revogação da prisão cautelar de menores; o fim da tortura e da Lei de Segurança Nacional; a criação de uma Comissão Nacional de Defesa subcomissão para estudo das questões  do  menor na Constituinte, e o direito da mulher de poder indicar o nome do pai da criança no registro de nascimento, foram algumas das conclusões do 4º Encontro Nacional dos  Direitos do Menor, que se encerrou ontem, no auditório do SENAC, n a rua Dr. Vila Nova, região central de São Paulo, após quatro dias de debates entre quinhentos representantes de cinqüenta entidades de dezessete Estados.

Para a presidenta do Movimento de Defesa do Menos, Lia Junqueira, que coordenou o encontro com a Associação dos Advogados de São Paulo e a Ordem dos Advogados do Brasil, o destaque foi a proposta de revogação da lei que permite que menores fiquem detidos nas delegacias por tempo indeterminado.

A psicóloga e advogada Clara Zular, 49, considerou importante a criação da comissão que vai acompanhar os trabalhos da Constituinte, observando que “temos hoje cerca de quarenta milhões de menores sem condições de sobrevivência”.

O psicoterapeuta e professor Jacob Pinheiro Goldberg, coordenador eleito da Comissão Nacional do Direitos do Menor – que apresentou proposta para que a mãe possa indicar o nome do pai da criança no registro de nascimento, acredita que esta medida diminuiria o numero de abortos: “Pesquisa da Universidade Estadual do rio apontou como uma das causas principais de aborto o fato de mulher não poder registrar seu filho com o nome do pai.” 

Folha de São Paulo – 30 de Setembro de 1985.

Definição de Loucura e crime para o Programa

“Saia Justa do canal” GNT:

 

A nossa sociedade, cultura humana foi construída e permanece como demencial, ou seja, a sociedade é uma forma enlouquecida de convivência. A idéia de que se trata de uma sociedade racional já foi decomposta por Miguel de Cervantes através de “Dom Quixote”, por Machado de Assis na obra “O Alienista” e assim por diante. Se você observar com atenção, quanto mais o indivíduo é sensível, é cada vez mais difícil, na proporção da sua lucidez, viver as regras de uma sociedade absolutamente contraditória, psicologicamente cruel e desumana, voltada para o horror e violência contra o indivíduo. Quanto mais você procura a individualização, mais você se choca com os valores da sociedade. Nesse choque você é considerado um marginal, e qual marginalidade sobra? A do crime ou a da loucura.

 

Rapsódia de uma década perdida – O Folhetim da Folha de S.Paulo (1977-1989)

 

 Marco Maschio Chaga*

As perspectivas da psicanálise — Metáfora de uma coletividade ou deslize individual?

 

Contudo, há uma entrevista, “O divã na periferia”, com o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg, que pode servir como uma passagem que, a seguir, fecharia o foco sobre questões exclusivas ao campo da psicanálise. Nesta entrevista, Jacob Pinheiro Goldberg defende a idéia de se “levar o divã” às regiões periféricas das grandes cidades, através da Igreja, sindicatos e associações de bairro. A jornalista Sônia Regina Nabarrete salientava, no início da entrevista, que “o Brasil precisa deitar no divã e falar de suas angústias. Mas como conseguir isso se a psicoterapia é um privilégio de classes abastadas e grande parte da população ganha salário mínimo (…)”. Esta entrevista é crucial, porque ela colocava na ordem do dia a questão, que se aprofundaria posteriormente, entre a perspectiva individualista e coletivista da psicanálise.

Sem dúvida, parece que o discurso psicanalítico teve lugar nodal dentro das séries que sustentaram o suplemento, não somente pela discussão das implicações contemporâneas das descobertas e invenções da psicanálise, mas, sobretudo, porque estes textos estão instalados em pontos estratégicos dentro da “história” do Folhetim.  O uso da psicanálise como metáfora que objetiva “curar” os males políticos do país desliza e toma outros rumos, servindo, inclusive, para explicitar outras preocupações próximas, como a do feminismo, a da homossexualidade, ou o questionamento da ontologia, por exemplo...

... Durante uma época em que o pensamento de esquerda desconfiava das atividades que não tivessem um compromisso claro com a consolidação das conquistas democráticas, a psicanálise passou a sofrer ataques constantes, que a vinculavam ao autoritarismo político e ao individualismo. O assunto que se tinha iniciado com a entrevista de Jacob Pinheiro Goldberg, citada anteriormente, retornava com freqüência às páginas do suplemento. Mas, é preciso entender que os ataques desferidos à psicanálise tinham dois endereços: no primeiro caso, era mesmo uma estreita visão da disciplina que, padecendo pela falta de compreensão da matéria, exigia da psicanálise e do psicanalista uma postura política voltada à solução dos problemas coletivos do país em outro plano, entretanto, as páginas do suplemento serviram de abrigo à exposição de uma crise gerada no interior da Sociedade Psicanalítica do Rio de Janeiro, que se alastraria por outros institutos psicanalíticos do país (devo acrescentar que a polêmica envolvendo membros da SPRJ foi a mais longa polêmica acompanhada pelo suplemento).

Quando o feio vira belo

“Temos que aprender a conviver com as diferenças mesmo porque o nosso olho não é o único juiz.”  (Jacob Goldberg)

Os conceitos de beleza e feiúra vêm agregando, ao longo dos séculos, conotações surpreendentes e por vezes bizarras. Ao assistir o Dr. Jacob Goldberg em uma de suas sábias declarações acerca de temas polêmicos, lembrei-me de Umberto Eco em História da feiúra. O escritor italiano comenta sobre os dois principais problemas que envolvem a questão da feiúra: 1)  Vamos tornar o inimigo feio 2) Quem é feio é o inimigo.

Eco lembra o estereótipo das bruxas que provavelmente eram velhas de aspecto desagradável, fato que gerava desconfiança e provocava, por conseguinte, afastamento e rejeição. A bruxa das estórias infantis era sempre má e tinha planos maquiavélicos. Assim, a aparência desagradável tornou-se sinônimo de maldade. Caso fossem senhoras de belas feições, certamente não seriam perseguidas e queimadas.

O autor afirma que a relação com os judeus era diferente, nesse caso  temos o que ele chama de transformar o inimigo em feio. Diferentemente do que relata acerca das bruxas, aqui temos inicialmente a desconfiança contra o inimigo que é representado como feio. Entretanto não se torna inimigo porque é feio, como no caso das bruxas; torna-se feio porque é inimigo. Já o africano é feio em relação aos critérios de beleza estabelecidos por uma sociedade que vai considerá-lo inimigo.

Umberto Eco aponta duas razões para esse excesso de feiúra, que ele chama de “o triunfo do feio”. Uma delas é que propondo-se a combater a burguesia, a vanguarda do início do século XX passou a produzir elementos com características feias. A outra é o que ele chama de “politeísmo de beleza”, em que os dois conceitos (belo e feio) confundem-se perdendo suas diferenças patentes.

Contudo, Jacob Goldberg alerta que equações do tipo beleza/felicidade, feiúra/infelicidade não existem. O problema parece concentrar-se em uma massificação e consequente perda da capacidade de olhar o belo, de transcender esse olhar e  documentar uma beleza que reside além dos padrões e estereótipos criados pela mídia, que transforma o belo de hoje no ridículo de amanhã e vice-versa.

Uma ressignificação dos conceitos de belo e feio não se daria tão facilmente, haja visto que a sociedade contemporânea segue padrões ditatoriais que têm  origens em conflitos étnico-raciais  que ainda permeiam nossos valores e conceitos.

Portanto, ao tornar o feio belo, corre-se um sério risco de transformar o belo em feio. Enquanto milhões de telespectadores acompanhavam a saga da transformação de Paula Veludo, personagem do Pânico na TV, na bela Gorete e alavancavam a audiência da rede TV!, fica no ar a pergunta: a feia ficou mesmo bela, e por quanto tempo?

 

Os psicólogos políticos revelam as emoções por trás das imagens da

"mãe" Dilma, do tucano "Zé" e da Marina "zen"

 

A candidata Dilma Rousseff (PT), líder nas pesquisas para presidente, é apresentada em sua propaganda como "mãe do Brasil". A expressão já foi usada diversas vezes pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Há poucos dias, foi citada pela primeira vez pela própria Dilma: "Quero fazer com cuidado de mãe o que ainda precisa ser feito", disse. José Serra (PSDB), o segundo colocado nas pesquisas e principal opositor do governo, usa a imagem de Lula em sua propaganda. Diz como eles trabalharam juntos e segue com um jingle que começa assim: "Quando Lula da Silva sair, é o Zé que eu quero lá".

 

Os eleitores, evidentemente, sabem que um país não tem mãe. A maioria sabe também que Serra está longe de ser um aliado de Lula. Ao recorrer a esse tipo de marketing eleitoral, os candidatos, porém, não estão mirando apenas a razão dos eleitores. Eles estão em plena disputa de um jogo travado silenciosamente, a cada eleição, pelos comitês de campanha: o da conquista das emoções dos eleitores, na qual o foco são os elementos subjetivos. No processo eleitoral, como em quase todas as decisões na vida, as emoções interagem com a razão e são elas que frequentemente guiam o eleitor na definição do voto.

 

Que tipo de emoção as campanhas dos candidatos à Presidência querem despertar nos eleitores? Para responder a essa questão, ÉPOCA ouviu especialistas raramente consultados para análises eleitorais: os psicólogos políticos. São profissionais que estudam como a imagem pública dos candidatos é construída junto aos eleitores, mobilizando sentimentos nas entrelinhas. A psicologia política é um ramo de estudos bastante desenvolvido nos Estados Unidos, mas que só agora começa a despertar mais atenção no Brasil. Para esses especialistas, o atual clima de bem-estar reinante no país cria um ambiente favorável a que os candidatos tentem se comparar a figuras familiares para capturar emocionalmente os eleitores. "Estamos vivendo o embalo de um sonho", afirma o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg, que trabalha há 20 anos com o tema do imaginário popular na política. "A disputa se dá entre grupos adversários, mas há um acordo tácito de que tudo vai bem, como nas boas famílias."

 

Segundo os psicólogos políticos, a associação de Dilma com a figura da mãe foi a solução encontrada pelo marketing de sua campanha para atenuar a rejeição ao perfil de mulher forte, dura e capaz de tomar decisões sozinha, com que ela era caracterizada durante sua passagem pela Casa Civil da Presidência. Essa marca, normalmente associada aos homens, não serve para uma candidata novata em disputas eleitorais. "A imagem de 'gerentona', útil no ministério, é disfuncional na campanha", afirma Joseli Costa, professor de psicologia social da Universidade Federal da Paraíba. "Daí a Dilma mãe, sensível, feminina."

Para conquistar o eleitor, Dilma precisou aproximar-se da imagem convencional das mulheres na sociedade. Por isso, passou por uma transformação visual. Adotou novo corte de cabelo, maquiagem, roupas mais delicadas, começou a sorrir mais. A Dilma vaidosa, feminina, sensível e maternal serve para associá-la a qualidades das mulheres normalmente valorizadas no ambiente doméstico de uma casa. "No senso comum, às mães cumpre educar, exigir. 

 

Quando Dilma age como mãe, ela está cumprindo o papel de mulher", diz Betânia Diniz Gonçalves, professora de psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e autora do livro Identidade feminina e a inserção no mundo do poder.

O marketing da campanha de Serra, na análise de Jacob Goldberg, também procura transformá-lo em um personagem familiar próximo do eleitor. Para Goldberg, Serra pode ser comparado a um filho homem, que critica as regras da casa, mas tenta se parecer com o pai. Esse seria o objetivo das propagandas do candidato tucano que tentam aproximá-lo do presidente Lula, como as que enfatizam a origem modesta de sua família. Em um dos programas de Serra na TV, uma cena foi montada para apresentar um "samba na laje" em que personagens pobres cantam seu jingle.

 

Para Alessandro Soares, professor de políticas públicas da Universidade de São Paulo (USP) e editor da Revista Brasileira de Psicologia Política, a propaganda tenta esmaecer a rejeição que Serra desperta em alguns segmentos da população brasileira por ele ser um político paulista. "São Paulo é o Estado mais rico, que puxa o carro para a frente. Mas também há a ideia da soberba, associada a uma elite econômica", diz Soares. Para Goldberg, ao tentar traçar semelhanças entre Serra e o presidente Lula, que tem origem familiar pobre e usa expressões populares no discurso, a campanha tucana incorre, porém, no erro de desenvolver um mecanismo de defesa que prejudica o candidato por transmitir uma imagem de hesitação. "Serra não deve se fantasiar de pobre ou de Lula. É um risco ficar nessa oscilação hamletiana, esse 'ser ou não ser'", diz ele.

 

A analogia familiar serve também para caracterizar a estratégia emocional da candidata do PV à Presidência, Marina Silva. Na análise de Goldberg, Marina, por sua trajetória e pela retórica, pode ser comparada à figura da irmã que confronta os desmandos do pai ao sair de casa na adolescência e agora tenta voltar para uma reconciliação. Marina deixou o governo Lula, descontente com sua política ambiental, trocou o PT pelo PV, mas evita partir para o confronto direto e faz uma pregação de conciliação das forças políticas. O discurso de Marina, repleto de referências abstratas a compromissos com a ética, também chama a atenção dos psicólogos políticos. "Quando temos compromissos éticos, a resposta técnica a gente encontra", costuma dizer a candidata do PV. Goldberg identifica nessa postura uma tentativa de parecer madura e acima dos problemas concretos, como uma adolescente da nova geração. "Marina parece estar na plenitude e na idealização. Ela se conformou no papel messiânico", afirma Goldberg. "Seu olhar e carisma dialogam com a alma."

 

Sigmund Freud, o pai da psicanálise, disse que os fatos da infância costumam determinar o comportamento e as emoções dos seres humanos ao longo da vida. Pela análise dos psicólogos políticos, os candidatos à Presidência comportam-se como mãe, irmão e irmã em busca do lugar de um pai. Se a política brasileira dá a impressão de ter infantilizado o tratamento dado aos eleitores, parece que Freud tem também, para isso, uma explicação.

 

Quinta-feira, 9 de Setembro de 2010 10:59:45

 

RES: Debate vice-presidente. PESSOAL CONFIDENCIAL.

 

De:

Michel Temer <micheltemer@micheltemer.com.br>

Exibir contato

Para:

Jacob Goldberg <jacobpgoldberg@yahoo.com.br>

 

 

Prezado Jacob Goldberg,

 

Só hoje li sua entrevista à “Brasileiros”. Ótima. A sua análise é sábia (como sempre)

 

Abraços.

 

Michel Temer

 

 

De: Jacob Goldberg [mailto:jacobpgoldberg@yahoo.com.br]
Enviada em: terça-feira, 24 de agosto de 2010 14:08
Para: Michel Temer
Assunto: Debate vice-presidente. PESSOAL CONFIDENCIAL.

 

Presidente Michel Temer:

 

Caríssimo:

 

Seu desempenho no debate ficará nos anais da história política, pela estatura lógica, elegância formal e poder de persuasão.

Anexo minha entrevista para a revista "Brasileiros" sobre os presidenciáveis.

Ficará na minha memória o dia de hoje para o estudo que farei de sua candidatura a presidência, no próximo pleito.

A admiração e o abraço do amigo,

 

Jacob Pinheiro Goldberg.

Analise de Goldberg

“Zé”, o erro de José Serra

 

Guilherme Evelin – Revista “Época”

 

 

É certo que as dificuldades da campanha presidencial de José Serra já estavam anunciadas desde o começo da disputa eleitoral, por causa da popularidade do governo Lula e da boa situação da economia. Mas parece claro, a esta altura do campeonato, que alguns erros de condução da campanha tucana também contribuíram decisivamente para a complicada situação em que se encontra hoje Serra – na torcida para a realização de um segundo turno.

Um grande equívoco da campanha,  na opinião de muitos analistas, foi a tentativa de popularizar artificialmente a imagem de Serra, com a criação da figura do “Zé” no lugar do  tradicional “José Serra”, mostrada no primeiro programa eleitoral na TV (veja vídeo abaixo). A ideia era construir a imagem do tucano como uma extensão de Lula, que tem origem familiar pobre e costuma recorrer a expressões populares no seu discurso. Mas  teve efeito contrário. Acabou transmitindo uma impressão de hesitação por parte de Serra, como apontou o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg, que trabalha há vinte anos com o tema do imaginário popular na política. Em entrevista à repórter Ana Aranha, para a reportagem “Os candidatos à presidência no divã”, publicada pela revista ÉPOCA na edição 641, de 30 de agosto, Goldberg disse que a figura do “Zé” prejudicava a campanha tucana. “Serra não deve se fantasiar de pobre ou de Lula. É um risco ficar nessa oscilação hamletiana, esse ser ou não ser”, afirmou Goldberg.

Na semana passada, o sociólogo Marcos Coimbra, diretor do instituto de pesquisas Vox Populi, fez uma crítica semelhante, ao dissecar, numa palestra na Casa do Saber, no Rio de Janeiro,algumas das razões do favoritismo da candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, na eleição presidencial. Para Coimbra, a criação do “Zé” foi  um dos principais erros da campanha tucana. “O espaço do “Zé” já estava ocupado no imaginário popular pelo Lula. Serra teria tido mais sucesso se tivesse se apresentado como José Serra. Ou seja, a campanha de Serra não precisou dos adversários para ser descontruída”, afirmou Coimbra.

Os assessores de Serra, pelo visto, perceberam também o tamanho do engano. Logo, logo, aposentaram o “Zé”.  José Serra voltou a ser chamado na propaganda eleitoral simplesmente de “Serra”

 

 

 

 

MEMÓRIA, IDENTIDADE E  TRADIÇÃO BRASILEIRA EM CANTATA PARA O BRASIL

THE BRAZILIAN IDENTITY,  MEMORY AND TRADITION IN CANTATA PARA O BRASIL

 

Vanessa Leite Barreto Quintino1

RESUMO:  Neste ensaio discutimos a presença da memória e da tradição do povo brasileiro nos versos de Jacob Pinheiro Goldberg em Cantata para o Brasil. Consideramos que o autor faz uma homenagem à diversidade dessa gente através de um mergulho às mais variadas formas de representação da cultura e da tradição brasileiras. Nossa reflexão baseia-se em pressupostos desenvolvidos por teóricos como Halbwachs, Derrida, Bosi e outros.

PALAVRAS-CHAVE: memória, identidade, tradição

 

ABSTRACT: In this essay we discuss the presence of memory and tradition of Brazilian people in Jacob Pinheiro Goldberg’s verses in Cantata para o Brasil. We consider the author pays tribute to these people’s diversity through a dip in the most varied forms of representation of Brazilian culture and tradition. Our reflection is based on assumptions developed by theorists such as Halbwachs, Derrida, Bosi and others.

KEYWORDS: memory, identity, tradition

Introdução

            Ao examinar os versos de Goldberg em Cantata para o Brasil, este ensaio pretende discutir as relações que podem ser estabelecidas entre memória, identidade e tradição na referida obra. Para avançar em uma discussão consistente sobre o assunto, trataremos o tema sob um olhar teórico-cultural, compreendendo essas relações enquanto processo psicológico básico, haja vista que nosso conhecimento acerca da psicologia não nos confere autonomia para um possível e desejável aprofundamento. Entretanto, optou-se por uma apresentação de comentários, ainda que introdutórios, baseados em teóricos que versam sobre o tema e em estudos feitos e artigo publicado por esta autora intitulado Um percurso para a pesquisa com narrativas orais no Norte de Minas Gerais, em que discutimos cultura, representação e construção de identidades, afastando assim a pretensão de fornecer informações exaustivas acerca de tema tão extenso e complexo.

 

Ao invocar termos e traços culturais presenteados por europeus, negros e índios, por judeus, espíritas e protestantes, Goldberg canta as tradições místicas e míticas que se apresentam através de uma rica e impensável miscigenação. Canta o samba, o futebol e a culinária como elementos memorialísticos de sua obra. Por tratar-se de uma linguagem poética, nosso percurso permite assim a inclusão de aspectos culturais no que tange à memória e à identidade, não deixando de conceder destaque à considerações teóricas que cercam o tema em questão.

Memória Individual e  Memória Coletiva

            Na atualidade, o conceito e o funcionamento da memória ganham relevantes aportes das ciências físicas e biológicas. Paralelamente, as Ciências Sociais e a Psicologia também abrigam em seus campos de investigação a memória individual e coletiva. Conceitos de retenção, esquecimento, arquivo, anarquivo (DERRIDA, Mal de Arquivo, 2001) são frequentemente utilizados nesses estudos. Elaborada a partir de variados estímulos, a memória é sempre uma construção feita no presente a partir de vivências/experiências ocorridas no passado. Segundo Bosi (1994) “a memória é sim um trabalho sobre o tempo vivido, conotado pela cultura e pelo indivíduo”.

            Jacob Goldberg (1978, p. 1-5), à semelhança de Bosi, afirma:

 

 

E para entender esse processo um mergulho na alma do passado, do passado presente, passado futuro.  Do presente passado, presente futuro. Do futuro presente, futuro passado. Porque na dimensão da alma o tempo é uma dimensão só. Que nasce, cresce e se renova, sem lei e sem medo. E que com ela constrói a grandeza da noção de alma, da noção de povo.

            Interessante observar a reciprocidade entre identidade e memória. O sentido de continuidade e permanência presente em um indivíduo ou grupo social ao longo do tempo, depende tanto do que é lembrado, quanto o que é lembrado depende da identidade de quem lembra. A memória é elemento constitutivo do processo de construção de identidades coletivas.

            Na obra Cantata para o Brasil, Goldberg (1978, p. 1-5) desmistifica a ideia de um comportamento de grupo, de uma identidade coletiva ou da psicologia de um povo. Segundo o autor, ainda que motivados por uma determinada cultura e tradição de seu povo, o indivíduo juntamente exerce papel relevante na construção de sua identidade. Em suas palavras:

Não acredito, por formação, informação, ciência e decência, que cada povo tenha sua psicologia. A psicologia não depende de clima, fronteira nacional, geografia, religião ou mesmo história. O comportamento, ainda que condicionado por todos esses fatores e as raízes mais diretas nunca é do grupo, da multidão, do povo, ou da raça. É do indivíduo, raiz, objeto e fim de todas as coisas. Feito à imagem e semelhança.

            Não nos parece que Goldberg negue a influência do coletivo na construção da memória individual. Paralelamente à isso, o autor dá margem à possibilidades de interferências, heranças e superstições que expressas em um espaço multirracial e multicultural colabora, e que fique claro,  não em detrimento da figura individual, com a construção de representações coletivas observadas na música, na dança, na culinária e no credo de um povo.

            Corroborando nosso entendimento sobre as considerações de J.P.G., HALBWACHS (1990) acena que a memória individual pode, quer para confirmar algumas de suas lembranças, quer para precisá-las, ou mesmo para cobrir algumas de suas lacunas, apoiar-se na memória coletiva, deslocar-se nela, confundir-se momentaneamente com ela, mas nem por isso deixa de seguir seu próprio caminho.

Poderíamos dizer que cada memória individual é um ponto de vista sobre a memória coletiva, e variações nesse ponto de vista podem ocorrer dependendo do lugar que o indivíduo ocupa no tecido social. Por isso, QUEIROZ (1987, p. 272-286) nos recorda que a memória depende do contexto social.

            Ciampa (1990) em seu livro “A estória do Severino e a história da Severina” apresenta a identidade como um processo contínuo de transformação, que ele denomina de metamorfose, no qual estão envolvidas todas as especificidades do ser humano: biológicas, psicológicas e sociais. Essas transformações ocorrem ao longo do tempo de vida de cada indivíduo, podendo construir uma identidade que possui como elementos composicionais, singularidade e coletividade: o indivíduo se identifica e se diferencia do grupo à que pertence, tornando-se igual e diferente ao mesmo tempo.

            A memória, é portanto, uma reconstrução psíquica e intelectual, uma representação de um passado, como sugeriu HALBWACHS (1990, p.128), coletivo. Busca assegurar a continuidade do tempo e resistir à alteridade, às rupturas. É um instrumento constituidor da identidade, da percepção de si e dos outros. Se por um lado concordamos sobre o caráter coletivo de toda memória individual, não podemos com isso afirmar que exista uma representação do passado que seja compartilhada e aceita por toda uma coletividade.

A memória da própria história é a condição para a apreensão desse elemento de igualdade da própria identidade, que constitui o eixo da biografia pessoal (Baptista,2002).  A identidade coletiva também é uma construção histórica que se dá a partir da relação dialética que ocorre em um determinado espaço geográfico, entre indivíduos e/ou grupos que organizam sua vida cotidiana em torno de atividades semelhantes, tendo como base um conjunto de valores compartilhados. Esses indivíduos/grupos podem ser a família, grupos profissionais, grupos que têm atividades de lazer semelhantes etc.

 No poema Ecos do rústico banguê, percebe-se a presença desse exercício cultural em forma de hábitos e costumes. Entretanto, o tom de homenagem percebido em toda a obra não é, a nosso ver, o que lhe confere autenticidade, mas sim, o claro propósito de ser testemunho no sentido histórico.  O canto goldbergiano utiliza a literatura em verso como lembrança para instaurar a verdade e manter viva a memória.

                                                O hino alagoano tem gente,

tem paixão, arrebite, minha gente,

nas palmas da minha mão, os versos

coloridos, das cores do seu céu,

sua mente,

seu chão.

Esquecer para Lembrar e Lembrar de Esquecer

 

            A análise da memória através dos versos  de Jacob Pinheiro Goldberg possibilita uma rica abertura conceitual: o lembrar e o esquecer são submetidos a uma releitura do que seja o papel exercido pelo olhar e pela imaginação do leitor. Ao relacionarmos elementos da poética de Goldberg à aspectos memorialísticos da obra drumondiana, por exemplo,  percebemos elementos comuns de composição e quiçá de recepção. Essa própria dimensão de memória (querer esquecer e lembrar ao mesmo tempo) presente  tanto na obra de C.D.A quanto na de J.P.G., nos remete às duas faces contidas na memória, inseparavelmente lembrança e esquecimento, um local de cruzamento, uma tensão estabelecida entre um espaço de experiências e um horizonte de expectativas. Segundo Derrida, a memória é tecida por lapsos, incongruências, faltas e reconstruções de sentido. É um material opaco e fraturado que o filósofo chama de anarquivo – uma pulsão que trabalha para destruir o arquivo – a pulsão de morte.

            Sobre as razões do esquecimento, a pesquisadora GOLDFARB (2004) afirma que a memória existe porque existe o esquecimento. Se não tivéssemos a capacidade de esquecer, ter memória não faria o menor sentido, pois não precisaríamos dela. Assim, a memória está envolvida na interseção entre história e identidade. Ela torna-se um recurso fundamental para a apreensão da identidade/história.

Podendo ser definido como mais que um autorretrato psicológico, um painel de uma sociedade entre o urbano e o campestre, recontado em poemas ora longos ora rápidos, que parecem obedecer à lição de Bergson: a lembrança, ao atualizar-se, torna percepção. Esses escritos caracterizando a obra Esquecer para Lembrar, de Carlos Drummond de Andrade, nos fornece no mínimo dois pontos de encontro com a obra de J.P.G. A saber,  extraído de Rua Halfeld, Ostroviec, o poema Lembrar de Esquecer muito bem se encaixa na proposta memorialística de Drummond quando Goldberg reúne lembranças de família, de meninices, o local e o povo do local, sentimentos e fatos, tudo isso reforçando o tom senão histórico, certamente memorialístico dos versos.

                                   E tantas e tantas

passagens e paralisias,

todas pequenos degraus

do Altar de Eu mesmo,

argamassa, cimento, em

dor e lágrima, para as horas de não esquecer as outras horas.

Mais adiante, uma inevitável ligação observada entre Cantata para o Brasil e Esquecer para Lembrar, esta última, obra de Carlos Drummond de Andrade onde o autor reúne mais de 200 poemas.

            Nossa análise, ainda que superficial, nos permite uma leitura comparada das duas obras citadas baseando-se na questão memorialística. Claro é que um estudo mais abrangente das obras Cantata para o Brasil e Esquecer para Lembrar nos fornecerá certamente mais subsídios para que dessa forma possamos identificar elementos específicos que aproximam as intenções dos autores. Entretanto passemos à uma leitura introdutória de alguns trechos que ilustram essa aproximação.

                                               Neste bloco maior vejo as Boêmias,

                                               Ilka e Luisinha Andrada, Lurdes Rocha,

                                               Hilda Borges da Costa, Heloísa Sales,

e Tinice e Clarita e Cidinha e quem mais.

Nomeá-las todas não posso: são dois carros

e é preciso olhar, passando na Avenida,

as Sevilhanas, as Aviadoras,

os Fantasmas da Ópera, as Caçadoras de Corações,

as Senhoritas Barba-Azul, copiadas de Bebé Daniels,

as Funcionárias (da Secretaria das Finanças),

e na calçada os Netos de Gambrinus

fantasiados de Barril de Chope.

Aqui, no trecho de Carnaval e Moças, Drummond revive cenas do carnaval belo-horizontino enquanto exalta a figura feminina em uma festa tipicamente brasileira. Seus versos demonstram a preocupação do autor em resgatar o passado como condição para a construção de uma identidade no presente através do culto às tradições e costumes.

 

                                   Desfile de Frevo,

escolas de samba,

no Rio de Janeiro,

acadêmicos do Salgueiro,

portela,

batutas da Cidade Maravilhosa

 

            Há um nítido reforço do componente cultural nos versos de Goldberg em Dança, que à semelhança de Drummond relembra, rememora e exalta elementos das tradições do povo brasileiro, possibilitando a conservação do ontem como sendo a conservação da própria poesia , que enquanto memória, narra, revive e reinventa modos de vida.           

            Nossa intenção não vislumbra um percurso comparativo entre os dois autores, ainda que consideremos uma semelhança pelo menos de utilização da poesia como recurso de reforço da memória, de possibilidades de trazer o passado até o presente, mantendo vivas as experiências vividas outrora.

            Percebemos na obra de Jacob Pinheiro Goldberg uma luta que narrada poeticamente, dribla e combate a ação do tempo que por sua vez corrói tradições e costumes, a fim de não deixar vestígios do que um dia existiu e que no presente é elemento fundamental para compreender a formação das identidades. Entendemos a partir de seus versos o poder e a importância dessa poesia na perpetuação da história dos homens.

Considerações finais

            A intenção desse ensaio foi refletir sobre a utilização da poesia de Jacob Pinheiro Goldberg, em especial na obra Cantata para o Brasil como estratégia de reforçar a cultura e a memória na construção da identidade de um povo. Através do estudo, que consideramos introdutório, observamos uma preocupação do autor em problematizar em seus textos o papel das tradições na formação da identidade cultural do povo brasileiro. Ressaltamos  homenagem e indagações que utilizam humor e ironia ao ler e apresentar os costumes da nação.

            Através de um rico jogo de palavras em que J.P.G. parece brincar de escrever, notamos uma intrigante e complexa poética que se constrói a partir de uma análise genial das tradições e dos costumes.

            Em relação à observação teórica do conceito de memória em Cantata..., convém lembrar que a mesma não tem lugar apenas no passado, mas percorre um caminho atemporal em que passado, presente e futuro se entrelaçam, possibilitando uma forma de aprisionar o tempo e libertar-se da morte.

            Ao considerar a linguagem poética de Goldberg como mais do que um simples relato poético de tradições, percebemos a importância do conjunto no qual essa obra está inserida. Sua poética pode ser considerada elemento fundamental para a compreensão da memória enquanto condição de manter viva a história de um povo e observação de  aspectos da construção de identidades a partir de costumes e tradições.

            O autor de Rua Halfeld, Ostroviec e de Ritual de Clivagem ainda nos oferece um rico acervo de versos que instiga a possibilidade de entendimento acerca de aspectos não somente memorialísticos, mas históricos e identitários.

            A evocação à poética de Drummond neste trabalho nos possibilitou uma rica ferramenta para traçar um paralelo entre os dois autores e compreender o processo de narração da história através da poesia, que abre portas para a permanência e renovação das tradições nacionais.

 

Referências bibliográficas

ANDRADE, Carlos Drummond de. Esquecer para lembrar: Boitempo III. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1981.

BAPTISTA, M. T. D. S. (2002). O estudo de identidades individuais e coletivas na constituição da história da psicologia. Memorandum: memória e história em psicologia. http://www.fafich.ufmg.br/~memorandum/artigos02/baptista01.htm

BERGSON, Henri. Matéria e memória. São Paulo: Martins Fontes, 1999.

BOSI, E. (1993). A pesquisa em Memória Social. Psicologia USP, 4 (1/2), 277-284.

CIAMPA, A. C. (1990). A estória do Severino e a história da Severina. 2ª ed. São Paulo: Brasiliense. (Original publicado em 1987).

DERRIDA, J. Mal de arquivo:uma impressão freudiana. Trad. C. M. Rego. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.

GOLDBERG, Jacob Pinheiro. Cantata para o Brasil (e psicologia do brasileiro): ASS OINA- Brasil, 1978.

GOLDBERG, Jacob Pinheiro. Ritual de Clivagem. São Paulo: Massao Ohno Editor, 1989.

GOLDBERG, Jacob Pinheiro. Rua Halfeld, Ostroviec. São Paulo: Open Press Com, 2005.

GOLDFARB, D. C. (2004). ComCiência-Revista eletrônica de jornalismo científico, 10/03/2004. HTTP/WWW.comciencia.br/entrevista/memoria/delia.htm.

HALBWACHS, M. (1990). A memória coletiva. (L. L. Schaffter, Trad.). São Paulo: Ed. Vértice. (Original publicado em 1950).

 

QUEIROZ, M. I. P. (1987). Relatos orais: do "indizível" ao "dizível". Ciência e Cultura, 39 (3), 272-286.

 

QUINTNO, V.L.B.; SANTOS, K.C.(2007). Um percurso para a pesquisa com narrativas orais no Norte de MG. Revista eletrônica do instituto de humanidades. ISSN 1678-3182  http://publicacoes.unigranrio.edu.br/index.php/reihm/article/view/365

Nota sobre a autora

1Vanessa Leite Barreto Quintino é mestranda em Letras/ Estudos Literários pela Universidade Estadual de Montes Claros-UNIMONTES, professora do Curso de Letras-Inglês da mesma universidade.

Equilibrados?

Os candidatos no divã de Goldberg. A seguir os diagnósticos

 

Ninguém conseguia entender o que estava acontecendo com o Suzano. Os jogadores eram bons, eram ótimos, mas o time não passava do sexto lugar no campeonato nacional de vôlei. Então, os diretores chamaram o psicólogo Jacob Pinheiro Goldberg* para injetar ânimo nos atletas. Em pouco tempo, o time chegou ao primeiro lugar e se sagrou campeão. Seus principais jogadores foram convocados para a seleção brasileira. Goldberg aplicou, nos papos com os atletas, os conceitos da imagética, ainda pouco conhecida no Brasil e da qual ele é um dos raros estudiosos por aqui. Assim como tornou atletas, a imagética também pode tornar políticos vitoriosos. Um exemplo é Barack Obama. A convite da Brasileiros, Goldberg analisa os três candidatos à presidência da República à luz da imagética. "Ela é o inverso do marketing", explica ele. O que já é um bom começo.

Brasileiros - Eu acho que essa eleição presidencial está dois a um: Lula e Dilma contra Serra. Você concorda?
Jacob Pinheiro Goldberg -
Eu talvez fosse até mais longe, aproveitando a sua perspectiva e diria que na realidade é de três contra um. Porque, embora a Marina pareça andar em raia própria, na verdade ela quase que disputa com a Dilma a condição de herdeira de Lula. Em um viés do inconsciente, ela acaba consagrando a herança do Lula e por intermédio dessa consagração nos últimos dias, na hora final, no momento em que o eleitor for depositar a cédula, existe a possibilidade de que esse eleitor acabe fazendo opção pela Marina.

Brasileiros - A Dilma está apoiada no mestre, no guru em que Lula se tornou. Isso enfraquece ou reforça a candidata?
J.P.G. -
Nós vivemos a chamada era da imagética. O que é isso? É o momento da prevalência da imagem sobre a palavra. Da aparência sobre a essência. Da entonação sobre a convicção. O Lula é na política brasileira aquele que sucede a nossa tradição sociológica do mistagogo. O mistagogo nós sabemos que é uma somatória de profeta, de místico, de um gênero de conselheiro, aquele que faz a anunciação divina por meio do eu todo poderoso, do eu onipotente, que é o papel do Lula. Então, é o místico e o demagogo, aquele que arrebata as massas pela paixão. E por meio da identificação. "Eu sou um de vocês." "Vocês estão em mim." Então, é uma simbiose.

Brasileiros - Lula lembra alguma personagem histórica ou bíblica?
J.P.G. -
Bíblica. Ele mesmo já reportou. O próprio Lula já teve um momento em que se identificou com Jesus. Ele fez essa identificação. E é a identificação do dadivoso. Esse otimismo, essa permanente celebração... Isso tem caráter sacrossanto. Algumas pessoas estão impressionadas com as pesquisas, dando oitenta por cento ou mais ao Lula, mas não tem nada de perturbador nisso. Nós nunca tivemos na presidência da República alguém com a loquacidade do Lula. O Lula é verborrágico. Nem Marina, nem Serra têm esse papear que cria o jogo de intimidade que no Brasil é associado à ideia de transparência. Agora, nesse aspecto, a Dilma também não tem.

Brasileiros - Mas a vantagem dela...
J.P.G. -
...É que ele fala por ela.

Brasileiros - Então, ela tem o poder de trazer o Lula de volta se for preciso um conselho, por exemplo?
J.P.G. -
Inclusive, o que eu acho que está sendo conchavado, em minha opinião, é passar para o eleitorado que o papel do Lula vai ser o do superego, vai ser o papel do primeiro-ministro. Ela vai ser a rainha. Da Inglaterra. E ele, o próprio ministro.

Brasileiros - E isso é bom?
J.P.G. -
Para ela, é bom. Se conseguir passar isso... É uma garantia para o eleitor de que existe a continuidade.

Brasileiros - Lula é Getúlio?
J.P.G. -
Getúlio Vargas era considerado o pai dos pobres. Acontece que o Lula ultrapassou Getúlio nesse aspecto, porque ele é o pai e a mãe. A ideia de "bolsa", por exemplo, sempre foi associada a uma proteção materna. Quem carrega bolsa é mulher. Mas foi ele quem deu a Bolsa Família, a Bolsa Escola...

Brasileiros - O que parece é que, enquanto a aprovação do Lula continuar alta, Dilma também vai subir.
J.P.G. -
Se aparecesse um candidato de oposição forte, mas que realmente disputasse com o próprio Lula essa eleição, a história seria outra. Mas o que acontece é que nós estamos trabalhando aqui em um clima fantasmático-ficcional. Ou seja: o candidato verdadeiro é o Lula. Dilma é simplesmente o que se pode chamar de factótum, é o indivíduo que está fazendo as vezes dele. A grande armadilha do Serra, na minha opinião, era disputar com a Dilma. E ele está entrando nessa armadilha.

Brasileiros - Ele não quer disputar com o Lula?
J.P.G. -
E é exatamente o contrário que ele tem de fazer.

Brasileiros - Isso mostra que ele está mais fraco que Lula, não quer medir forças com ele...
J.P.G. -
Exato. Eu me lembro que Serra disse que Lula está acima do bem e do mal.

Brasileiros - Ele escorregou?
J.P.G. -
Ele ficou numa condição estranha...

Brasileiros - Se Lula está acima do bem e do mal e diz que Dilma é a melhor...
J.P.G. -
Ele é ela, e ela é ele.

Brasileiros - Tem soberba no perfil do Serra?
J.P.G. -
Acho que fica vizinho à soberba. O que é muito sério em um país em que hoje a soberba é associada à ideia de uma oligarquia que está perdendo paulatinamente o poder e inclusive está se desmoralizando perante a afluência das classes emergentes. As classes que foram mantidas abaixo da linha da pobreza durante décadas ou séculos no momento em que descobrem que têm a legitimidade de direitos, a soberba fica impossível de ser aceita. A sociedade brasileira hoje não aceita nenhuma atitude que lembre um conceito de complexo de superioridade. A Dilma em determinado instante ficou perto de correr esse risco quando insistiu na imagem da gerente administrativa, competente, que poderia vir a lembrar Meryl Streep em O Diabo Veste Prada. Qual era o carisma da Meryl Streep? A mulher acima dos erros, a mulher que enfrenta o universo masculino do poder, não dá satisfações e é imperial. A formação da Dilma é de tecnóloga, e o tecnólogo tende a ficar em um bunker de sabedoria, que tem a pretensão de um saber que não é do leigo. E isso é inadmissível em uma sociedade democrática aberta, em que impera a internet. Não vai mais haver saber oculto no universo da internet.

Brasileiros - O passado dela, para o brasileiro mediano, é positivo ou negativo?
J.P.G. -
O passado dela na guerrilha tem para o brasileiro mediano dois aspectos contraditórios e os dois merecedores de atenção. O primeiro: se a oposição consegue insinuar ou sugerir que isso tem relação com o crime, será prejudicial a ela. Associando a ideia da guerrilha política à ideia do crime. Porque se existe hoje uma quase unanimidade, é a necessidade de vigiar e punir o crime. O inimigo da sociedade hoje é o bandido, muito mais que o corrupto.

Brasileiros - A Marina tem uma carga mística também, como o Lula, sem a mesma popularidade, é claro...
J.P.G. -
É muito curioso, porque nessa eleição, na verdade, nós temos dois mistagogos.

Brasileiros - Ela quer ser o Lula?
J.P.G. -
Ela quer ser o Lula. De saia. De qualquer maneira. Ela quer herdar no patético do inconsciente social brasileiro a ideia da presença do divino. Ela está usando agora um anel com o nome de Jesus...
Na eventualidade de nessa eleição ela se encaminhar mais para o campo da emoção, ela começa a ser uma candidata paritária, em condição de disputar com os outros dois. Vai depender só de sair do campo partidário para o campo da emoção. Ela fica no tripé do Lula e da Dilma. Parece que ela é a terceira perna. É um pato manco, porque incômodo, desconfortável. Tenho certeza de que, a essa altura, a Dilma faria qualquer negócio para retirar a Marina.

Brasileiros - A Marina incomoda mais que o Serra?
J.P.G. -
Nesse momento, sem dúvida nenhuma. Aliás, o Serra nesse momento é o opositor ideal. Serra é um candidato paulista. Serra é o candidato de 1932. Não por acaso, Dilma tem a origem política dela no Rio Grande do Sul, ela não era PT, era PDT, ela era Brizola. Ou seja, o sentimento gauchesco que lidera uma espécie de coalizão anti-São Paulo. E isso vai pesar nessa eleição.
Se psicologicamente ficar São Paulo versus Brasil, nós sabemos qual será o resultado. E a Marina é outra que não é São Paulo, é Amazônia.

Brasileiros - Marina não passa imagem frágil, por ser magra demais?
J.P.G. -
No aspecto da consciência, essa argumentação é esmagadora. No aspecto do inconsciente, é exatamente o inverso. Não se esqueça de que o Brasil é um país de carências. Então, a tendência é se identificar com o magro e com o frágil. Agora... Não sei se eu digo isso...
Vou dizer sim: a Marina corre contra o preconceito que é contemporâneo, muito forte, só que é tabu, ninguém está falando disso. Acontece que a psicologia tem de falar daquilo que ninguém fala. Ela é feia.
Em uma sociedade que faz permanentemente apologia da beleza física.

Brasileiros - Por que alguns políticos, até mesmo tucanos dizem que a eleição poderá ter um turno só?
J.P.G. -
Se ao invés de Dilma ficar colada no Lula, Lula ficar colado nela, ela começar a ter voo próprio, ela ganha essa eleição no primeiro turno, porque aí, sim, ela mergulha em uma história pessoal que tem todos os elementos para se transformar em uma história de grande carisma. Porque ela tem esses recursos...

Brasileiros - A guerrilheira?
J.P.G. -
A guerrilheira.

Brasileiros - Qual é a imagem da guerrilheira?
J.P.G. -
Eu acredito que no momento histórico e social que o Brasil vive hoje, uma candidata que fosse absolutamente identificada com o conceito de guerrilha, não seria eleita. Porque a sociedade brasileira tem esperança de opulência e uma sociedade que tem esperança de opulência não se associa com a guerrilha. Mas ela pode se associar com alguém que se opõe ao establishment, que foi o caso de Barack Obama nos Estados Unidos.

Brasileiros - Por que o País está mais empolgado com a Copa que com as eleições?
J.P.G. -
Qual é o espírito do tempo que existe hoje no Brasil? É um espírito do tempo pronto para a ferveção.

Brasileiros - O que quer dizer isso?
J.P.G. -
Você conhece a palavra ferveção. E os três candidatos estão indo na contramão da ferveção. Ferveção é Lula. Lula é ferveção. Lula é hiperativo. Se Lula estivesse em uma escola convencional brasileira, os professores chamariam os pais e mandariam Lula para um psicólogo. A própria Marisa quantas vezes tem pedido: "Sossega leão, vamos embora para casa". E o homem não sossega, a gente sabe disso. Tanto é que, de vez em quando, ele baixa no Sírio Libanês. Não dorme. É hiperativo, sempre foi hiperativo. Então, o que acontece? Em um País que vive nesse clima, que é de mobilização, exasperação, eu chego ao êxtase, que é a ferveção, os candidatos estão frios. Eles não falam, eles não brigam, eles não discutem, eles estão recolhidos.


*Doutor em Psicologia, psicólogo, advogado, assistente social, professor e escritor. Conferencista convidado - University College London Medical School - Uniwersytet Jagiellonski e Uniwersytet Warszawski (Polônia) - Universidade Eotvos Liorand (Budapest-Hungria) - University of Leicester (Inglaterra) - Hebrew University of Jerusalem - École des hautes études en sciences sociales - (Paris) - USP - PUC-SP - PUC-Campinas - Universidade de Brasília - UNESP - Mackenzie. Deputy-chairman - Middlesex University South American Advisory Board (2000).