POEMAS INÉDITOS

 

E a saudade é tanta que até a mágoa de outrora

sería bem-vinda.

***

 

Ele substituiu o heróico pelo erótico.

Desperdiçava em esperma e sangue

não-derramado.

***

 

Acho um mistério porque, às vezes, colocam um telhado de alumínio, não sempre, às vezes.

Naquela casa amarela.

***

 

De quem, não?

 

 

Uma enxaqueca renitente.

 

No 14a. andar do

portentoso edifício

Comercial, ramal

1.316, a mulher

atônita espreita

ao telefonema uma

noticia querida.

 

Que um homem se

ofereça e seu esperma

para  que ela,

querentosa possa

fertilizar um filho.

 

A solidão, estranhamento,

Revela, na dor de cabeça,

Seu corpo inquieto

Que geme o desejo do

Amor.

 

Um romance que explique

sua vida que, sem

explicação, corre o  risco

do suicídio.

 

Só a enxaqueca alivia

sua abissal perplexidade,

a roda do destino que

decretou a circunstância da

rejeição.

Sentida em todas

dobras ambrósias das

Flores despetaladas. 

 

Às 9h30’de certa manhã.

 

Tem dias que nasço

tão diferente,

lhasso

pareço capaz de

ir atrás só pra

saber o que já

sabia.

 

A diferença, triste,

tristíssima entre

o que eu queria e

a resposta ditada

no começo do tempo.

 

Caim não volta atrás,

na sina dos tempos.

E Abel, persiste, insiste,

na lição que não

aprende.

 

Mas, atrás, muito atrás,

talvez quem mata é

Abel porque na sua

inesgotável procura,

sabe,

saber triste, mas determinado,

que renasce,

e Caim, na verdade, coitado,

nunca saberá o sabor

da música do jatobá.

 

Em dúvida

 

Se compro um divã,

escrevo um poema,

reformo o mundo,

ou lavo os dentes.

 

Ou, ou,

quem sabe,

nenhuma alternativa.

 

Dúvida, dívida das

minhas certezas.

Tantas e tantas, por

eternos tempos que a

cada instante se

transformaram em

interrogações, exclamações,

dor, choro e até riso

cínico.

 

A pausa.

 

Que não espera

e muito menos,

busca.

 

Descanso, embalo

dum fim que se aproxima

a hora mutante,

aquele minuto em que

o mundo cessa,

e tudo se esclarece ou,

às vezes, para sempre,

escurece.

 

Silêncio

 

No saguão do prédio,

sentamos, num banco, meu

pai e eu.

no silêncio, mudo fiquei,

ao seu lado.

Anos, séculos, milênios e

tempo nenhum nos separavam,

nos uniam.

No silêncio tumular,

me pediu –

prisioneiro em sua negra, viúva

solidão – Me Cante

uma estória,

meu filho”.

Eu, ser falante,

de enciclopédias

aventuras e roteiros,

aterrorizado, pelo

sepulcral desígnio, murmurei –

“Não sei o que dizer, não

nada a contar”.

***

 

Foi a primeira, única e

ultima vez, na vida que

a língua, a invenção

foi assaltada pelo branco

deserto.

40 anos de sede,

e por isto, no Marte,

vejo pecador, que

jamais, por isto, a

Terra Prometida.

***

 

Adivinhar nas trevas

da noite ou

inventar água da

chuva.

***

 

Com luva

apalpar a noite sossegada.

Uma película

de outras tardes,

na primavera dos tempos.

***

 

As noites da

tormenta,

atormentadas noites.

A janela tentadora

em que batem

Os tambores do horror.

***

 

Assim,

 vou acabar aprendendo

a escrever.

***

 

Que bela figura

essa única e talvez

última personagem

que maquia a

própria carnalidade.

***

 

Slowly, baby

vá devagar,

bem devagar.

Que me importa o

balé encomendado ao

som de amendoim

torrado,

olhares, gestos, risos que

serpenteiam a infinita

rapsódia clonada.

até a senhora

surpresa é programada

nesta rústica paisagem

de notas dissonantes.

***

 

Longo caminho

da noite

curta.

As palavras soltas

que no vento

chicoteiam.

***

 

Roubar, de volta,

palavras.

Desmonta-las, silaba,

A silaba,

enterrá-las para

sempre

em torno do não-dito.

***

 

Falar os calados,

desbastar os silêncios,

inaugurar as pausas,

descanso enfim de

quaisquer penas.

***

 

E agora

já é ontem,

o ainda agora

cinza rapsódia

fundo soturno das

imagens encantadas.

 

 

Roubar do infinito

as palavras ditas

pretensão do sim.

 

Meus desejos,

ilusões deste mundo

que reza a solidão.

 

As letras das canções

que se separam e se

juntam,

numa insuportável,

interminável serenata

em despedida

 

Pode você enxergar

tudo que se foi

e ouvir?

 

Lembre-se daquele telhado

no subúrbio, atravessado

pelo trem da memória.

***

 

Sou os pedaços

que, no quebra-cabeça,

desenham figuras queridas.

 

Um frango assado, naquele

restaurante,

a cor violeta da saia

esvoaçante.

o passo trôpego de meu

pai na galeria do prédio.

 

O sorriso assustado de minha

mãe na tarde inesperada,

e meu gesto intolerante,

impaciente.

 

Aquelas crianças nos berços que

hoje, me olham, meus filhos,

anos passados, com os olhos

que um dia fitarão os

dias de seus filhos,

por sobre minha eterna

ausência

para sempre presente.

 

E nessa inexprimível

falta os olhares,

vozes, gestos, atos, fatos,

fotos.

 

Fênix,

asas cambiantes.

***

 

Lulice dez que fez

canil no coração dela,

derretem na sua alma

todas as separações,o

latido que afaga, o rabo

que abana.

encarnou a outra filha que

não teve, embora, sem ir

embora macho.

***

 

Em dia de circo

a lua desfila

desdizeres.

Em pouco se acaba o

encontro das gentes.

um bobo dança e sua

ri um choro

intimo, sem lagrimas

o palhaço que gerou,

degenerou no útero.

e por essas

e tantas outras, a

constrangida lua de

casa em casa alisa

suas faces coradas.

***

 

Modéstia à parte

nasci.

E sepultei mim mesmo

vezes sem conta.

Fênix incorporado,

não obstante.

E, por isto, e

muito mais,

modéstia à parte,

Parti e parteiro.

 

Nas idas

 

Bandas do Brás,

Casa Verde, R. dos Italianos,

Tio Bernardo.

Olhos acesos,

Certezas que um dia,

Um curto instante que tudo exclamo.

 

Voz negra que encanta

Alguma corda perdida

Do bonde desabalado outra vez

Em tantos centros na

Corda geográfica das estórias

Sem fim e sem começo.

 

Praça Onze.

Tra falgar Square,

Bem ye huda

Shiste Gás

Nos nervos, o samba, jazz,

O Velho Oeste,

Que coisa!

 

Voltei a dormir

 

O meu sonho era o

seguinte.

 Mas agora esqueci um

pouco.

 Depois o Senhor saiu

 de cena.

 E eu numa situação de

teste.

***

 

Quando vejo

as lágrimas já

escorreram,

a paixão,

meu pai é.

***

 

“Se isto é possível, tudo é possível”.

Isaac Bashein Singer

***

 

O amor só se absolve pela incompreensão.

Amar é mergulhar num Eu do Outro que foge e se refugia.

 

Segue

 

Ostrowiecz,

aonde nunca

estive,

sem latitude,

altitude.

 

Aonde moram

meus fantasmas,

sonhos enterrados.

 

Presente nos pesadelos,

azimute na memória.

 

Visão num espelho

repetitivo que

persegue, segue.

 

Segue.

***

 

Ela era tão linda

e morreu de bulimia,

moça cuidado com a solidão,

amanhã, ontem e antes-de-ontem,

é tudo amanhã.

E, por isto, e muito mais,

querida não seja triste.

Nem sozinha.

Grande, é para cantar.

 

Drashk

 

Nunca amei a esquiva

como amo a tua esquiva.

Ausente,

presente, o escape de teus olhos,

quem saberá amore,

a escuta quando o

 barulho de longas

estradas que correm

por mares e cielos.

Di-me e que estalagem

medieval nossas palmas

se encontraram.

***

A moça

quase senhora

tomando café.

 

Olhar perdido

achado em qualquer

horizonte preso no

café.

 

O cigarro na boca

disfarça uma

plástica nasal.

 

Se levanta

muda de

endereço para ler

no jornal.

 

Ler no jornal o

movimento de um

numero qualquer

Pode ser 58.

***

 

O Vento

Bach no

canto das

árvores.

 

O estelar dos

dedos que

chama

xamã

a memória.

***

 

Foto de um intelectual.

 

não olhe para a

câmara, não olhe.

olhe para baixo,

para parecer

um pensador.

***

 

Leve pra riba.

amassando os

bichos,

tudo, blusa, livros

trastes.

***

 

Todos os dias

neste dia,

e de sempre

o húmido será

cinzento e

ainda que

as sílabas repitam

o húmido não é

o húmido, nem

mesmo o sempre,

Sempre.

***

 

E a origem não

é Jakobson.

Minha mãe desconstruía

nossas calças

e blusas rasgadas,

mandava para Mariquinha,

lá em Costa

Carvalho que

cerzia, costuravam,

os pedaços.

Que linda essa

colcha-de-retalho.



** *

 

O Senhor Vento

na discreta

miopia da véspera.

 

Lembrar de esquecer

 

A horas da morte de meu pai.

Não me deixaram testemunhar.

Fui roubado,

há que esquecer, a cena e a perfídia.

não há como lembrar.

 

Os meninos, em cor, alegres,

me perseguindo, aos gritos:

“Dumbo”.

não há que perdoar.

 

O rabino que na

esquina da Alameda Franca,

com empáfia pergunta

porque não me converto ao

Judaísmo já que não como “Kasher”

Ou o padre gorducho, rosado que na

Praça do Cruzeiro, em

Juiz de Fora pergunta, sardônico,

porque não fiz a Primeira Comunhão.

 

O amigo comunista de

meu primo comunista

que responde ao meu pedido

de voto – “Quem não te

conheça que te compre”.

 

A licença

poética permite

até a verdade.

 

E tantas e tantas

passagens e paralisias,

todas pequenos degraus

do Altar de Eu mesmo,

argamassa, cimento, em

dor e lágrima, para

as horas de não

esquecer as outras horas.

 

Não esqueci as horas de lembrar.

 

O levantar de ombros de

minha mãe, gesto

infantil de excitação.

Meu pai, o sorriso

triunfante quando lhe

ensinei a escrever seu nome.

 

Os olhos de meus filhos.

Em todos os dias,

todas as noites.

susto, medo, raiva,

admiração, descoberta,

encoberta, caminho,

descaminho.

Seus corpos, as adivinhações.

 

As “Variações de Goldberg”,

ouvidas em Campinas, surpresa

dominical.

 

Hino de Infantaria,

Comando a 1o. Companhia,

na Madrugada.

 

As costas das Ilhas Gregas,

prevendo a Terra Prometida,

olhar prata, das

nuvens pratas, o luar

prateado.

 

Os olhos dela, naquele

outro instante

só nosso de mistério

que alembra, deslumbra,

lume, fogo, fogueira,

as músicas dos acordes que

costura a lã do inverno.

E, num rap, a desforra

no sublime assassinato

do fugitivo nazista.

 

Amérika

               Jacob Pinheiro Goldberg

Sempre desconfiei que você é a casa que cada um

carrega nas costas,

cabeça, sol, som e vento

como que carrega o filho querido,

por entre a tempestade.

 

Uma lembrança que alguém perdeu,

de um martírio visionário,

longas terras, de liberdade,

cavaleiros cavalgando,

sem Juiz e sem Rei.

Jovens e crianças delirando um delírio grandioso,

festa de amor, dança, febre, sexo,

velhos rindo de costas ao sol,

em paz com o que foi,

com o que acontecerá.

 

Um pandeiro,

aromas de comida proibida,

pernas compridas, desfilando anseios prolongados,

por festivais de anedotas e trégua.

Martí, Bolívar, Colombo,

um desafio seco à maldição,

Tiradentes , um dentista enlouquecido pela festa da cor,

vida, emancipação.

 

Um cholo deitado,

nas cordilheiras,

um índio navajo espelhando na água

sua crença num amanhã

de paz.

Uma garota saborosa

de tranças , trançando uma transa de bilhetes

no recreio da escolinha mexicana,

lendo, às escondidas,

ouvindo um apelo de amor

do moleque francês do Canadá.

 

Uhm, uhm, uhm.

Que sons terríveis se ouvem no chão da Amérika,

gente.

Peladas e miseráveis, populações sugadas pelos donos

da banana,

do ouro, do açúcar,

a industria de querer vestir à européia.

Mas não são sinos de finados,

são sinos de alerta que eu ouço,

no assobio da invocação

(existe outra palavra mais brava, mas não cabe no jeito

mineiro)

que percorre,

como calafrios de esperança,

as minas de estanho,

os gemidos da gravidez desta terra curtida

por homens que caminham descalços,

com cargas de burros.

 

Paraguai de Élvio Romero,

Assunção,

pátria idolatrada,

onde se cambia dinheiro e alma pela praça,

mas se fala um troco guarani,

por trás dos móveis quebrados.

No sul, norte, leste,

sei lá os pontos cardeais,

o coração tem pontos cardeais?

Reside um filho de asteca, maia,

num Peru ou Uruguai,

de estradas atômicas, num mundo de arrebóis.

 

Vou lamber suas feridas, Amérika,

desastradas, infelizes, empobrecidas,

de gente sofrendo, doente, morrendo,

numa guerra por engano,

como um cão leal e raivoso.

 

Os leões virão com os negros

pelos mares para esta terra,

com o desejo do sexo do branco pelo negro,

o erotismo desperdiçado de corpos enganados,

na prosa de Faulkner,

numa fazenda do Sul.

 

Jerônimo,

Ave Pelada,

Touro Sentado,

Negro Pai João!

Palma, Pau, terra, Cacique, Mulher Antonia.

Zero à esquerda no balaço,

uma palavra pela outra,

um horizonte por uma raiva,

eh, beliscão no opressor,

eh, beliscão no guardião,

 

um cavalo, um avestruz, um garanhão, uma águia,

um canal de frustrações,

Amérika nos nossos pés; nas nossas mãos.

Michabo, Jockeke e Manabocho.

 

 

 

O próprio título já revela uma contestação. O nome América é um equivoco. Afinal, é uma homenagem ao navegador italiano Américo Vespúcio (1454?-1512), mas este apenas colaborou na preparação da segunda e da terceira viagem de Cristóvão Colombo (1451-1506), verdadeiro descobridor do continente americano.

América deveria ser então Colômbia? Sim, porém as conotações da palavra descobrimento irritaram os primeiros movimentos de contracultura da década de 60. Colombo não teria descoberto a América, pois esta sempre existira com raízes e tradições autóctones.

Surgiu então a denominação Amérika, mostrando que o etnocentrismo europeu precisava ser combatido. Sendo assim, o título já indicia qual será o conteúdo do poema. Trata-se de uma tentativa de revistar o universo americano sem suas múltiplas facetas.

Não há duvida de que cada habitante deste continente carrega nas costas um espectro cultural do qual, mesmo que queira, não pode se livrar. O poema traz quadro índices de vital importância: a cabeça, o sol, o som e o vento.

Devemos nos deter em cada um deles para apreender melhor a dimensão do texto. A cabeça estabelece uma relação metonímica (“parte pelo corpo”) com o corpo humano. Falar em cabeça significa falar em razão. O sol representa, como já foi dito, a consciência e a sabedoria. O som remete às imagens e valores do passado impedidos de florescer pela repressão colonizadora. Finalmente, o vento é um tradicional símbolo de transformação.

Nada se mantém igual após a passagem do vento. As lufadas alteram objetos e emoções. Até as verdades mais absolutas não resistem a uma ventania, a uma metamorfose. Nada é estático e perene a não ser o desejo humano de conhecer-se e desvendar o mundo.

A tempestade amerikana é uma constante após o descobrimento. Numerosas lutas resultaram em sangue coagulado pela história. É um sangue difícil de limpar que impregna a casa chamada Amérika. Porém, o vento não cessa e a arte pode ser a resposta para o descortinar do passado sob uma ótica iluminadora.

Considerada por muitos o Éden, a Amérika também possuía seus sonhos. Pouco foi concretizado. Mesmo assim, o ideal não morria. O sol, o amor, a dança e a pureza do sexo formariam quatro mandamentos de um continente que acreditava nas próprias potencialidades.

A dominação dos invasores ocorreu. Mas também veio a revolta. O poema cita o cubano José Martí (1853-1895), o venezuelano Simón Bolívar (1783-1830), o infeliz Colombo, descobridor sublime, mas péssimo governador, e Tiradentes (1746-1792) como símbolos de homens que lutaram pela honra da Amérika e de si mesmos.

Os cholos (mestiços de branco e índio) e os índios navajos (América do Norte) também são nomeados. Contudo, a imagem mais saborosa provém da menina mexicana que lê no recreio um apelo de amor e liberdade. Não há duvidas também de que o ideário revolucionário francês de 1789 permeia toda a luta amerikana pela libertação. Basta recordar que o iluminismo era a fonte principal em que os Inconfidentes bebiam a ilusão de livrar-se das pesadas taxas da Coroa Portuguesa. A emancipação política é vista como um passo primordial para uma liberdade cultural e econômica.

Mas a imagem da Amerika não é desejada. Homens descalços que trabalham como burros alimentam as cortes européias. A banana, o ouro e o açúcar retirados da Amérika levam do continente a energia, o poder e o sonho de um paraíso terrestre. A terra grita por estar sendo vilipendiada, os homens choram por sofrer em cada despertar.

Cada grama de ouro é uma gota de sangue e cada banana, um pouco de élan vital que deixa o continente. O adocicado sol do Caribe transforma-se em amargo sangrar de pés descalços.

A alusão ao poeta paraguaio Élvio Romero justifica-se por ser o representante de uma tendência social que se coaduna às metáforas do poema. Astecas e maias estariam no coração de todo amerikano, pois indicam o pulsar de civilizações prósperas, mas intoleradas por tentar  manter a autonomia.

Contudo, o texto não se limita a mergulhar no passado. Duas imagens merecem ainda especial referência: as “estradas atômicas” e o “mundo de arrebóis”. Se antes era o sistema colonial que explorava a Amérika, atualmente seria o capital internacional que levaria o continente a um progressivo fracasso econômico. A imagem dos arrebóis (vermelhidão do sol na aurora ou no poente) traz uma conotação perigosa à raça humana: o céu pode avermelhar-se a qualquer momento pelos acidentes nucleares que lhe dariam a cor do sangue e das chagas.

O vermelho-natureza poder-se-á tornar um vermelho-desgraça se não houver responsabilidade e consciência. A imagem do “cão leal e raivoso” que lambe as feridas de um continente que sofreu sangrias históricas parece adequada. Guerras e mortes não passariam de “enganos” que não podem ser esquecidos para não ser repetidos.

O mesmo “engano” histórico apareceria no prazer puramente físico dos senhores brancos pelas escravas negras. Mais uma vez, a violência impera com crueza. Nesse universo naturalista em que o amor pouco significa perante o prazer carnal, o nome do escritor norte-americano William Faulkner (1897-1962) encaixa-se com precisão.

Premio Nobel de Literatura em 1949, Falkner retrata em suas obras a sociedade em decomposição do sul dos EUA. Paixões mórbidas e a impotência diante dos conflitos desencadeados pelo destino podem ser encontradas em obras como Absalom, Absalom! (1936) e Moisés, baixe à terra (1942).

Faukner retratou o conflito racial norte-americano com precisão estilística. Mas não só as figuras ficicionais merecem destaque. Jerônimo e Touro Sentado, entre outros, são lembrados como símbolos da opressão do homem branco sobre os indígenas dos EUA. O assassinato pelas costas de Touro Sentado, por exemplo, surge nos interstícios do poema.

Os heróis amerikanos comungam do mesmo ideal de não ceder à cultura estrangeira. A libertação por Bolívar de Venezuela, Colômbia, Equador, Bolívia e Peru é um autentico “beliscão no opressor”. O mesmo acontece em relação à tentativa de José Martí, em 1895, de desembarcar em Cuba e desencadear uma rebelião.

Martí e touro Sentado foram frustrados em suas tentativas de libertação. Mesmo assim, tiveram a força do cavalo, a velocidade do avestruz, a virilidade de um garanhão e a visão ampla da águia para perceber que se entregar ao colonizador era a morte.

A Amérika, apesar das derrotas, permanece em cada coração amerikano, em cada pé que toca o solo com orgulho e em cada mão que luta pela liberdade e procura agarrar a esperança de conduzir o próprio caminho.

O último verso traz o nome de três ídolos de lendas indígenas (Michabo, Jockeke e Manabocho) que se assemelham ao Moisés do Velho testamento. A analogia é evidente, pois o legislador e profeta hebreu (século XIII a.C.) liderou os israelitas em sua saída do Egito, mas morreu antes de conseguir chegar à Terra Prometida (Canaã).

O mesmo acontece com os lideres da Amérika. Morrem ou são mortos antes de atingir seu ideal. Mesmo assim, o esforço não é perdido, pois cada gota de suor derramada transforma-se em passo decisivo para que o continente perceba que cada morte rumo à liberdade transforma América em Amérika, casa pesada que precisa ser carregada com esforço e sangue para que renasça do amor e da luta.

 

Oscar D’Ambrósio

(Rompendo com a tradição o D.O. Leitura da Imprensa Oficial de São Paulo – publicou em 11-10-92)

 

 Eu nasci e
morri, tantas vezes
em duas ruas -
Shiste Gass e Santos Dumont.
Elas não existem mais.
Nem eu.
Para onde foram aquelas ruas?
Uma em que caía neve,
a outra em que a bola saltava.
Para onde fui,
se nunca estive,
da outra sou prisioneiro.

 

 

 

Outra semana passou

 

O capote do inverno

embala descobertas.

Cinza colorida reveste a

retina de sons africanos.

E a quanto tempo,

tantos tempos.

Deixa pra lá,

amor demais, atrapalha.

Ainda mais, de outrem, de

madrugada.

Lençóis brancos da

prima Vera.

 

Sacrilégio

 

Estamos descendo a Rua Prates.

Meu pai pede que eu o esqueça

depois da sua morte. Ele é diferente

de minha mãe.  Lembre-se dela. Fale

dela. Escreva sobre ela. Ninguém mais o

fará. Não permita que a esqueçam.

Na verdade pede o impossível. O que

Deus não deu. A imortalidade para sua amada.

Pede para mim. À quem comparava, às vezes com

Moisés.  Às vezes, ironicamente, sugerindo eu, um “schleniel”.

Me esqueça e, aliás, comece hoje, se afastando de mim.

Queria o que não permitia.

Que o deixasse morrer. Sabia que se eu estivesse

por perto eu não permitiria o ganho do Anjo da

Morte.

Jacob.

Como minha mãe, no sábado final. Pode ir, estou

bem, vá. E ela se foi.

Como posso respeitar seu desejo de esquecimento,

apagamento, silencio?

Como não falar dele? De seus medos recalcados, sua

paixão envergonhada, carregando minha mala até,

a rodoviária, aceitando o meu pedido para mais cinco

minutos de sono, na madrugada, antes de eu ir para

o quartel, marchar sua orgulhosa marcha de judeu

exilado, humilhado, o café com leite e o pão com

manteiga e seu olhar ofertando sua vida no meu

altar, correndo na plataforma da Estrada de Ferro

Central do Brasil, acenando-me com o lenço

branco até que eu desaparecesse na curva?

E o que eu fazia, depois,

com o lenço?

Escrevo, como uma carta, no aguardo da resposta,

prometendo que depois de sua morte, só então,

cumprirei seu pedido.

Esquecê-lo e dele nunca mais lembrar nem escrever.

 

 

Naquele verão,

inverno, qualquer

tempo, São Francisco

era na Rua Batista de Oliveira.

Rádio PRB-3

A chuva fina caindo

das calçadas de Juiz de Fora.

Ah se bem me lembro,

ah se bem me esqueço.

Meu São Francisco,

os sorrisos de mamãe,

o riso do papai,

oh Deus de todo Céu,

aonde escondeste

aquelas mornas horas, auroras,

os sonhos de  eu-menino.

Aonde se esconderam,

para onde fugiram se eram

tão certos, tão certo

estava de que um dia,

lá na frente,

eu protagonista.

E agora,

que todos aconteceram,

eles não estão aqui.

Esconde-esconde.

 

Corrente

 

Somente flores amarelas

no pássaro do mundo,

para além deste mundo alcançar

o mar sem fundo.

 

Aonde nada se perde pelos

caminhos da terra.

levantar as costas e conversar

em frente da sepultura.

 

Além das águas quebrar a casca

fixada do tempo,

aonde nem um fiapo de memória

possa penetrar.

 

Morto durante o sono,

despedir-se do fim diante do

crepúsculo,

 

Aonde canta o coração dum

pássaro.

 

Passos no corredor

 

Leves, esvoaçantes, prometendo,

trôpegos que assustam o

fim,

correndo infantis de tempos,

imemoriais,

solenes das noticias graves,

mas sempre de

gênese oculta, a descoberta

oracular e que,

nunca, jamais, cessam

o ritmo desequilibrado,

pois que ainda que

na ausência tripudiam

a véspera da caminhada,

com um mil disfarces,

mascaras para mascarar

o que na verdade não

são não. Passos, simples

passos no corredor.

 

Esquina

 

Meu ritual de passagem,

da infância para a

adolescência, foi a descoberta

urbana das ruas que se

bifurcam.

Toda tarde, depois do

almoço e da sesta, o calor

mineiro, deixava-me,

extasiado em qualquer

esquina adivinhando escolhas

e destinos.

O prazer e a diversão de

imaginar os encontros de um

lado e as hipóteses de outro.

A galope, a imaginação delirava.

Pouco a pouco, o tempo passando,

ia atrás do delírio e às vezes

encontrava lírio, às vezes, nada

às vezes, às vezes.