POEMAS INÉDITOS
E a saudade é tanta que até a mágoa de outrora
sería bem-vinda.
***
Ele substituiu o heróico pelo erótico.
Desperdiçava em esperma e sangue
não-derramado.
***
Acho um mistério porque, às vezes, colocam um telhado de alumínio, não sempre, às vezes.
Naquela casa amarela.
***
De quem, não?
Uma enxaqueca renitente.
No 14a. andar do
portentoso edifício
Comercial, ramal
1.316, a mulher
atônita espreita
ao telefonema uma
noticia querida.
Que um homem se
ofereça e seu esperma
para que ela,
querentosa possa
fertilizar um filho.
A solidão, estranhamento,
Revela, na dor de cabeça,
Seu corpo inquieto
Que geme o desejo do
Amor.
Um romance que explique
sua vida que, sem
explicação, corre o risco
do suicídio.
Só a enxaqueca alivia
sua abissal perplexidade,
a roda do destino que
decretou a circunstância da
rejeição.
Sentida em todas
dobras ambrósias das
Flores despetaladas.
Às 9h30’de certa manhã.
Tem dias que nasço
tão diferente,
lhasso
pareço capaz de
ir atrás só pra
saber o que já
sabia.
A diferença, triste,
tristíssima entre
o que eu queria e
a resposta ditada
no começo do tempo.
Caim não volta atrás,
na sina dos tempos.
E Abel, persiste, insiste,
na lição que não
aprende.
Mas, atrás, muito atrás,
talvez quem mata é
Abel porque na sua
inesgotável procura,
sabe,
saber triste, mas determinado,
que renasce,
e Caim, na verdade, coitado,
nunca saberá o sabor
da música do jatobá.
Se compro um divã,
escrevo um poema,
reformo o mundo,
ou lavo os dentes.
Ou, ou,
quem sabe,
nenhuma alternativa.
Dúvida, dívida das
minhas certezas.
Tantas e tantas, por
eternos tempos que a
cada instante se
transformaram em
interrogações, exclamações,
dor, choro e até riso
cínico.
A pausa.
Que não espera
e muito menos,
busca.
Descanso, embalo
dum fim que se aproxima
a hora mutante,
aquele minuto em que
o mundo cessa,
e tudo se esclarece ou,
às vezes, para sempre,
escurece.
No saguão do prédio,
sentamos, num banco, meu
pai e eu.
no silêncio, mudo fiquei,
ao seu lado.
Anos, séculos, milênios e
tempo nenhum nos separavam,
nos uniam.
No silêncio tumular,
me pediu –
prisioneiro em sua negra, viúva
solidão – Me Cante
uma estória,
meu filho”.
Eu, ser falante,
de enciclopédias
aventuras e roteiros,
aterrorizado, pelo
sepulcral desígnio, murmurei –
“Não sei o que dizer, não
nada a contar”.
***
Foi a primeira, única e
ultima vez, na vida que
a língua, a invenção
foi assaltada pelo branco
deserto.
40 anos de sede,
e por isto, no Marte,
vejo pecador, que
jamais, por isto, a
Terra Prometida.
***
Adivinhar nas trevas
da noite ou
inventar água da
chuva.
***
Com luva
apalpar a noite sossegada.
Uma película
de outras tardes,
na primavera dos
tempos.
***
As noites da
tormenta,
atormentadas noites.
A janela tentadora
em que batem
Os tambores do horror.
***
Assim,
vou acabar aprendendo
a escrever.
***
Que bela figura
essa única e talvez
última personagem
que maquia a
própria carnalidade.
***
Slowly, baby
vá devagar,
bem devagar.
Que me importa o
balé encomendado ao
som de amendoim
torrado,
olhares, gestos, risos que
serpenteiam a infinita
rapsódia clonada.
até a senhora
surpresa é programada
nesta rústica paisagem
de notas dissonantes.
***
Longo caminho
da noite
curta.
As palavras soltas
que no vento
chicoteiam.
***
Roubar, de volta,
palavras.
Desmonta-las, silaba,
A silaba,
enterrá-las para
sempre
em torno do não-dito.
***
Falar os calados,
desbastar os silêncios,
inaugurar as pausas,
descanso enfim de
quaisquer penas.
***
E agora
já é ontem,
o ainda agora
cinza rapsódia
fundo soturno das
imagens encantadas.
Roubar do infinito
as palavras ditas
pretensão do sim.
Meus desejos,
ilusões deste mundo
que reza a solidão.
As letras das canções
que se separam e se
juntam,
numa insuportável,
interminável serenata
em despedida
Pode você enxergar
tudo que se foi
e ouvir?
Lembre-se daquele telhado
no subúrbio, atravessado
pelo trem da memória.
***
Sou os pedaços
que, no quebra-cabeça,
desenham figuras queridas.
Um frango assado, naquele
restaurante,
a cor violeta da saia
esvoaçante.
o passo trôpego de meu
pai na galeria do prédio.
O sorriso assustado de minha
mãe na tarde inesperada,
e meu gesto intolerante,
impaciente.
Aquelas crianças nos berços que
hoje, me olham, meus filhos,
anos passados, com os olhos
que um dia fitarão os
dias de seus filhos,
por sobre minha eterna
ausência
para sempre presente.
E nessa inexprimível
falta os olhares,
vozes, gestos, atos, fatos,
fotos.
Fênix,
asas cambiantes.
***
Lulice dez que fez
canil no coração dela,
derretem na sua alma
todas as separações,o
latido que afaga, o rabo
que abana.
encarnou a outra filha que
não teve, embora, sem ir
embora macho.
***
Em dia de circo
a lua desfila
desdizeres.
Em pouco se acaba o
encontro das gentes.
um bobo dança e sua
ri um choro
intimo, sem lagrimas
o palhaço que gerou,
degenerou no útero.
e por essas
e tantas outras, a
constrangida lua de
casa em casa alisa
suas faces coradas.
***
Modéstia à parte
nasci.
E sepultei mim mesmo
vezes sem conta.
Fênix incorporado,
não obstante.
E, por isto, e
muito mais,
modéstia à parte,
Parti
e parteiro.
Bandas do Brás,
Casa Verde, R. dos Italianos,
Tio Bernardo.
Olhos acesos,
Certezas que um dia,
Um curto instante que tudo exclamo.
Voz negra que encanta
Alguma corda perdida
Do bonde desabalado outra vez
Em tantos centros na
Corda geográfica das estórias
Sem fim e sem começo.
Praça Onze.
Tra falgar Square,
Bem ye huda
Shiste Gás
Nos nervos, o samba, jazz,
O Velho Oeste,
Que coisa!
O meu sonho era o
seguinte.
Mas agora esqueci um
pouco.
Depois o Senhor saiu
de cena.
E eu numa situação de
teste.
***
Quando vejo
as lágrimas já
escorreram,
a paixão,
meu pai é.
***
“Se isto é possível, tudo é possível”.
Isaac Bashein Singer
***
O amor só se absolve pela incompreensão.
Amar é mergulhar num Eu do Outro que foge e se refugia.
Ostrowiecz,
aonde nunca
estive,
sem latitude,
altitude.
Aonde moram
meus fantasmas,
sonhos enterrados.
Presente nos pesadelos,
azimute na memória.
Visão num espelho
repetitivo que
persegue, segue.
Segue.
***
Ela era tão linda
e morreu de bulimia,
moça cuidado com a solidão,
amanhã, ontem e antes-de-ontem,
é tudo amanhã.
E, por isto, e muito mais,
querida não seja triste.
Nem sozinha.
Grande, é para cantar.
Nunca amei a esquiva
como amo a tua esquiva.
Ausente,
presente, o escape de teus olhos,
quem saberá amore,
a escuta quando o
barulho de longas
estradas que correm
por mares e cielos.
Di-me e que estalagem
medieval nossas palmas
se encontraram.
***
A moça
quase senhora
tomando café.
Olhar perdido
achado em qualquer
horizonte preso no
café.
O cigarro na boca
disfarça uma
plástica nasal.
Se levanta
muda de
endereço para ler
no jornal.
Ler no jornal o
movimento de um
numero qualquer
Pode ser 58.
***
O Vento
Bach no
canto das
árvores.
O estelar dos
dedos que
chama
xamã
a memória.
***
Foto de um intelectual.
não olhe para a
câmara, não olhe.
olhe para baixo,
para parecer
um pensador.
***
Leve pra riba.
amassando os
bichos,
tudo, blusa, livros
trastes.
***
Todos os dias
neste dia,
e de sempre
o húmido será
cinzento e
ainda que
as sílabas repitam
o húmido não é
o húmido, nem
mesmo o sempre,
Sempre.
***
E a origem não
é Jakobson.
Minha mãe desconstruía
nossas calças
e blusas rasgadas,
mandava para Mariquinha,
lá em Costa
Carvalho que
cerzia, costuravam,
os pedaços.
Que linda essa
colcha-de-retalho.
O Senhor Vento
na discreta
miopia da véspera.
A horas da morte de meu pai.
Não me deixaram testemunhar.
Fui roubado,
há que esquecer, a cena e a perfídia.
não há como lembrar.
Os meninos, em cor, alegres,
me perseguindo, aos gritos:
“Dumbo”.
não há que perdoar.
O rabino que na
esquina da Alameda Franca,
com empáfia pergunta
porque não me converto ao
Judaísmo já que não como “Kasher”
Ou o padre gorducho, rosado que na
Praça do Cruzeiro, em
Juiz de Fora pergunta, sardônico,
porque não fiz a Primeira Comunhão.
O amigo comunista de
meu primo comunista
que responde ao meu pedido
de voto – “Quem não te
conheça que te compre”.
A licença
poética permite
até a verdade.
E tantas e tantas
passagens e paralisias,
todas pequenos degraus
do Altar de Eu mesmo,
argamassa, cimento, em
dor e lágrima, para
as horas de não
esquecer as outras horas.
Não esqueci as horas de lembrar.
O levantar de ombros de
minha mãe, gesto
infantil de excitação.
Meu pai, o sorriso
triunfante quando lhe
ensinei a escrever seu nome.
Os olhos de meus filhos.
Em todos os dias,
todas as noites.
susto, medo, raiva,
admiração, descoberta,
encoberta, caminho,
descaminho.
Seus corpos, as adivinhações.
As “Variações de Goldberg”,
ouvidas em Campinas, surpresa
dominical.
Hino de Infantaria,
Comando a 1o. Companhia,
na Madrugada.
As costas das Ilhas Gregas,
prevendo a Terra Prometida,
olhar prata, das
nuvens pratas, o luar
prateado.
Os olhos dela, naquele
outro instante
só nosso de mistério
que alembra, deslumbra,
lume, fogo, fogueira,
as músicas dos acordes que
costura a lã do inverno.
E, num rap, a desforra
no sublime assassinato
do fugitivo nazista.
Amérika
Jacob Pinheiro Goldberg
Sempre desconfiei que você é a casa que cada um
carrega nas costas,
cabeça, sol, som e vento
como que carrega o filho querido,
por entre a tempestade.
Uma lembrança que alguém perdeu,
de um martírio visionário,
longas terras, de liberdade,
cavaleiros cavalgando,
sem Juiz e sem Rei.
Jovens e crianças delirando um delírio grandioso,
festa de amor, dança, febre, sexo,
velhos rindo de costas ao sol,
em paz com o que foi,
com o que acontecerá.
Um pandeiro,
aromas de comida proibida,
pernas compridas, desfilando anseios prolongados,
por festivais de anedotas e trégua.
Martí, Bolívar, Colombo,
um desafio seco à maldição,
Tiradentes , um dentista enlouquecido pela festa da cor,
vida, emancipação.
Um cholo deitado,
nas cordilheiras,
um índio navajo espelhando na água
sua crença num amanhã
de paz.
Uma garota saborosa
de tranças , trançando uma transa de bilhetes
no recreio da escolinha mexicana,
lendo, às escondidas,
ouvindo um apelo de amor
do moleque francês do Canadá.
Uhm, uhm, uhm.
Que sons terríveis se ouvem no chão da Amérika,
gente.
Peladas e miseráveis, populações sugadas pelos donos
da banana,
do ouro, do açúcar,
a industria de querer vestir à européia.
Mas não são sinos de finados,
são sinos de alerta que eu ouço,
no assobio da invocação
(existe outra palavra mais brava, mas não cabe no jeito
mineiro)
que percorre,
como calafrios de esperança,
as minas de estanho,
os gemidos da gravidez desta terra curtida
por homens que caminham descalços,
com cargas de burros.
Paraguai de Élvio Romero,
Assunção,
pátria idolatrada,
onde se cambia dinheiro e alma pela praça,
mas se fala um troco guarani,
por trás dos móveis quebrados.
No sul, norte, leste,
sei lá os pontos cardeais,
o coração tem pontos cardeais?
Reside um filho de asteca, maia,
num Peru ou Uruguai,
de estradas atômicas, num mundo de arrebóis.
Vou lamber suas feridas, Amérika,
desastradas, infelizes, empobrecidas,
de gente sofrendo, doente, morrendo,
numa guerra por engano,
como um cão leal e raivoso.
Os leões virão com os negros
pelos mares para esta terra,
com o desejo do sexo do branco pelo negro,
o erotismo desperdiçado de corpos enganados,
na prosa de Faulkner,
numa fazenda do Sul.
Jerônimo,
Ave Pelada,
Touro Sentado,
Negro Pai João!
Palma, Pau, terra, Cacique, Mulher Antonia.
Zero à esquerda no balaço,
uma palavra pela outra,
um horizonte por uma raiva,
eh, beliscão no opressor,
eh, beliscão no guardião,
um cavalo, um avestruz, um garanhão, uma águia,
um canal de frustrações,
Amérika nos nossos pés; nas nossas mãos.
Michabo, Jockeke e Manabocho.
O próprio título já revela uma contestação. O nome América é um equivoco. Afinal, é uma homenagem ao navegador italiano Américo Vespúcio (1454?-1512), mas este apenas colaborou na preparação da segunda e da terceira viagem de Cristóvão Colombo (1451-1506), verdadeiro descobridor do continente americano.
América deveria ser então Colômbia? Sim, porém as conotações da palavra descobrimento irritaram os primeiros movimentos de contracultura da década de 60. Colombo não teria descoberto a América, pois esta sempre existira com raízes e tradições autóctones.
Surgiu então a denominação Amérika, mostrando que o etnocentrismo europeu precisava ser combatido. Sendo assim, o título já indicia qual será o conteúdo do poema. Trata-se de uma tentativa de revistar o universo americano sem suas múltiplas facetas.
Não há duvida de que cada habitante deste continente carrega nas costas um espectro cultural do qual, mesmo que queira, não pode se livrar. O poema traz quadro índices de vital importância: a cabeça, o sol, o som e o vento.
Devemos nos deter em cada um deles para apreender melhor a dimensão do texto. A cabeça estabelece uma relação metonímica (“parte pelo corpo”) com o corpo humano. Falar em cabeça significa falar em razão. O sol representa, como já foi dito, a consciência e a sabedoria. O som remete às imagens e valores do passado impedidos de florescer pela repressão colonizadora. Finalmente, o vento é um tradicional símbolo de transformação.
Nada se mantém igual após a passagem do vento. As lufadas alteram objetos e emoções. Até as verdades mais absolutas não resistem a uma ventania, a uma metamorfose. Nada é estático e perene a não ser o desejo humano de conhecer-se e desvendar o mundo.
A tempestade amerikana é uma constante após o descobrimento. Numerosas lutas resultaram em sangue coagulado pela história. É um sangue difícil de limpar que impregna a casa chamada Amérika. Porém, o vento não cessa e a arte pode ser a resposta para o descortinar do passado sob uma ótica iluminadora.
Considerada por muitos o Éden, a Amérika também possuía seus sonhos. Pouco foi concretizado. Mesmo assim, o ideal não morria. O sol, o amor, a dança e a pureza do sexo formariam quatro mandamentos de um continente que acreditava nas próprias potencialidades.
A dominação dos invasores ocorreu. Mas também veio a revolta. O poema cita o cubano José Martí (1853-1895), o venezuelano Simón Bolívar (1783-1830), o infeliz Colombo, descobridor sublime, mas péssimo governador, e Tiradentes (1746-1792) como símbolos de homens que lutaram pela honra da Amérika e de si mesmos.
Os cholos (mestiços de branco e índio) e os índios navajos (América do Norte) também são nomeados. Contudo, a imagem mais saborosa provém da menina mexicana que lê no recreio um apelo de amor e liberdade. Não há duvidas também de que o ideário revolucionário francês de 1789 permeia toda a luta amerikana pela libertação. Basta recordar que o iluminismo era a fonte principal em que os Inconfidentes bebiam a ilusão de livrar-se das pesadas taxas da Coroa Portuguesa. A emancipação política é vista como um passo primordial para uma liberdade cultural e econômica.
Mas a imagem da Amerika não é desejada. Homens descalços que trabalham como burros alimentam as cortes européias. A banana, o ouro e o açúcar retirados da Amérika levam do continente a energia, o poder e o sonho de um paraíso terrestre. A terra grita por estar sendo vilipendiada, os homens choram por sofrer em cada despertar.
Cada grama de ouro é uma gota de sangue e cada banana, um pouco de élan vital que deixa o continente. O adocicado sol do Caribe transforma-se em amargo sangrar de pés descalços.
A alusão ao poeta paraguaio Élvio Romero justifica-se por ser o representante de uma tendência social que se coaduna às metáforas do poema. Astecas e maias estariam no coração de todo amerikano, pois indicam o pulsar de civilizações prósperas, mas intoleradas por tentar manter a autonomia.
Contudo, o texto não se limita a mergulhar no passado. Duas imagens merecem ainda especial referência: as “estradas atômicas” e o “mundo de arrebóis”. Se antes era o sistema colonial que explorava a Amérika, atualmente seria o capital internacional que levaria o continente a um progressivo fracasso econômico. A imagem dos arrebóis (vermelhidão do sol na aurora ou no poente) traz uma conotação perigosa à raça humana: o céu pode avermelhar-se a qualquer momento pelos acidentes nucleares que lhe dariam a cor do sangue e das chagas.
O vermelho-natureza poder-se-á tornar um vermelho-desgraça se não houver responsabilidade e consciência. A imagem do “cão leal e raivoso” que lambe as feridas de um continente que sofreu sangrias históricas parece adequada. Guerras e mortes não passariam de “enganos” que não podem ser esquecidos para não ser repetidos.
O mesmo “engano” histórico apareceria no prazer puramente físico dos senhores brancos pelas escravas negras. Mais uma vez, a violência impera com crueza. Nesse universo naturalista em que o amor pouco significa perante o prazer carnal, o nome do escritor norte-americano William Faulkner (1897-1962) encaixa-se com precisão.
Premio Nobel de Literatura em 1949, Falkner retrata em suas obras a sociedade em decomposição do sul dos EUA. Paixões mórbidas e a impotência diante dos conflitos desencadeados pelo destino podem ser encontradas em obras como Absalom, Absalom! (1936) e Moisés, baixe à terra (1942).
Faukner retratou o conflito racial norte-americano com precisão estilística. Mas não só as figuras ficicionais merecem destaque. Jerônimo e Touro Sentado, entre outros, são lembrados como símbolos da opressão do homem branco sobre os indígenas dos EUA. O assassinato pelas costas de Touro Sentado, por exemplo, surge nos interstícios do poema.
Os heróis amerikanos comungam do mesmo ideal de não ceder à cultura estrangeira. A libertação por Bolívar de Venezuela, Colômbia, Equador, Bolívia e Peru é um autentico “beliscão no opressor”. O mesmo acontece em relação à tentativa de José Martí, em 1895, de desembarcar em Cuba e desencadear uma rebelião.
Martí e touro Sentado foram frustrados em suas tentativas de libertação. Mesmo assim, tiveram a força do cavalo, a velocidade do avestruz, a virilidade de um garanhão e a visão ampla da águia para perceber que se entregar ao colonizador era a morte.
A Amérika, apesar das derrotas, permanece em cada coração amerikano, em cada pé que toca o solo com orgulho e em cada mão que luta pela liberdade e procura agarrar a esperança de conduzir o próprio caminho.
O último verso traz o nome de três ídolos de lendas indígenas (Michabo, Jockeke e Manabocho) que se assemelham ao Moisés do Velho testamento. A analogia é evidente, pois o legislador e profeta hebreu (século XIII a.C.) liderou os israelitas em sua saída do Egito, mas morreu antes de conseguir chegar à Terra Prometida (Canaã).
O mesmo acontece com os lideres da Amérika. Morrem ou são mortos antes de atingir seu ideal. Mesmo assim, o esforço não é perdido, pois cada gota de suor derramada transforma-se em passo decisivo para que o continente perceba que cada morte rumo à liberdade transforma América em Amérika, casa pesada que precisa ser carregada com esforço e sangue para que renasça do amor e da luta.
Oscar D’Ambrósio
(Rompendo com a tradição o D.O. Leitura da Imprensa Oficial de São Paulo – publicou em 11-10-92)
Outra semana passou
O capote do inverno
embala descobertas.
Cinza colorida reveste a
retina de sons africanos.
E a quanto tempo,
tantos tempos.
Deixa pra lá,
amor demais, atrapalha.
Ainda mais, de outrem, de
madrugada.
Lençóis brancos da
prima Vera.
Sacrilégio
Estamos descendo a Rua Prates.
Meu pai pede que eu o esqueça
depois da sua morte. Ele é diferente
de minha mãe. Lembre-se dela. Fale
dela. Escreva sobre ela. Ninguém mais o
fará. Não permita que a esqueçam.
Na verdade pede o impossível. O que
Deus não deu. A imortalidade para sua amada.
Pede para mim. À quem comparava, às vezes com
Moisés. Às vezes, ironicamente, sugerindo eu, um “schleniel”.
Me esqueça e, aliás, comece hoje, se afastando de mim.
Queria o que não permitia.
Que o deixasse morrer. Sabia que se eu estivesse
por perto eu não permitiria o ganho do Anjo da
Morte.
Jacob.
Como minha mãe, no sábado final. Pode ir, estou
bem, vá. E ela se foi.
Como posso respeitar seu desejo de esquecimento,
apagamento, silencio?
Como não falar dele? De seus medos recalcados, sua
paixão envergonhada, carregando minha mala até,
a rodoviária, aceitando o meu pedido para mais cinco
minutos de sono, na madrugada, antes de eu ir para
o quartel, marchar sua orgulhosa marcha de judeu
exilado, humilhado, o café com leite e o pão com
manteiga e seu olhar ofertando sua vida no meu
altar, correndo na plataforma da Estrada de Ferro
Central do Brasil, acenando-me com o lenço
branco até que eu desaparecesse na curva?
E o que eu fazia, depois,
com o lenço?
Escrevo, como uma carta, no aguardo da resposta,
prometendo que depois de sua morte, só então,
cumprirei seu pedido.
Esquecê-lo e dele nunca mais lembrar nem escrever.
Naquele verão,
inverno, qualquer
tempo, São Francisco
era na Rua Batista de Oliveira.
Rádio PRB-3
A chuva fina caindo
das calçadas de Juiz de Fora.
Ah se bem me lembro,
ah se bem me esqueço.
Meu São Francisco,
os sorrisos de mamãe,
o riso do papai,
oh Deus de todo Céu,
aonde escondeste
aquelas mornas horas, auroras,
os sonhos de eu-menino.
Aonde se esconderam,
para onde fugiram se eram
tão certos, tão certo
estava de que um dia,
lá na frente,
eu protagonista.
E agora,
que todos aconteceram,
eles não estão aqui.
Esconde-esconde.
Corrente
Somente flores amarelas
no pássaro do mundo,
para além deste mundo alcançar
o mar sem fundo.
Aonde nada se perde pelos
caminhos da terra.
levantar as costas e conversar
em frente da sepultura.
Além das águas quebrar a casca
fixada do tempo,
aonde nem um fiapo de memória
possa penetrar.
Morto durante o sono,
despedir-se do fim diante do
crepúsculo,
Aonde canta o coração dum
pássaro.
Passos no corredor
Leves, esvoaçantes, prometendo,
trôpegos que assustam o
fim,
correndo infantis de tempos,
imemoriais,
solenes das noticias graves,
mas sempre de
gênese oculta, a descoberta
oracular e que,
nunca, jamais, cessam
o ritmo desequilibrado,
pois que ainda que
na ausência tripudiam
a véspera da caminhada,
com um mil disfarces,
mascaras para mascarar
o que na verdade não
são não. Passos, simples
passos no corredor.
Esquina
Meu ritual de passagem,
da infância para a
adolescência, foi a descoberta
urbana das ruas que se
bifurcam.
Toda tarde, depois do
almoço e da sesta, o calor
mineiro, deixava-me,
extasiado em qualquer
esquina adivinhando escolhas
e destinos.
O prazer e a diversão de
imaginar os encontros de um
lado e as hipóteses de outro.
A galope, a imaginação delirava.
Pouco a pouco, o tempo passando,
ia atrás do delírio e às vezes
encontrava lírio, às vezes, nada
às vezes, às vezes.