| Lula é fiador do otimismo dos
brasileiros, dizem intelectuais
População usa mecanismo de negação para não tomar consciência da
crise, diz Goldberg
Historiador Boris Fausto diz que a grande maioria da população só vai
ver o que está acontecendo "quando a crise chegar no bolso"
ANA FLOR
DA REPORTAGEM LOCAL
Ao estimular a população a consumir, mesmo em meio às perspectivas
sombrias da economia mundial, o presidente Lula age como fiador,
acalmando artificialmente uma população que ainda não começou a sentir
os efeitos da crise global.
Mesmo irreal, a garantia do presidente explica, segundo especialistas
ouvidos pela Folha, parte do otimismo do brasileiro e a alta
aprovação de Lula, revelados pela pesquisa Datafolha divulgada ontem.
Segundo o instituto, 78% dos brasileiros declaram que sua vida vai
melhorar no ano que vem, enquanto apenas 3% afirmam que irá piorar. A
aprovação do presidente bateu novo recorde e chegou a 70%.
Para o psicanalista Jacob Pinheiro Goldberg, a insistência de Lula na
intangibilidade da economia brasileira frente à crise faz parte de um
mecanismo de negação freqüente quando se enfrenta uma situação de
impotência: "O governo vinha afiançando insistentemente uma posição
privilegiada do Brasil que não era real", diz ele. "O indivíduo se
alheia de vez, ainda mais se vem o aval do presidente da República".
Goldberg insiste que a sociedade brasileira "se nega à maturidade" e
que, apesar da situação de pré-crise, a população fará "todos os
contornos possíveis" porque "não quer pagar o preço da realidade".
A estratégia do presidente, entretanto, é arriscada: "Lula está jogando
com o patrimônio político inigualável que ele conseguiu, está investindo
em uma saída global [para a crise].
Apesar de não ser uma expectativa absurda, é um jogo de risco. Se você
prepara a sociedade jogando com o tempo a seu favor tem mais chances de
uma saída menos traumática".
O historiador Boris Fausto acredita que a grande maioria da população só
vai ver o que está acontecendo "quando a crise chegar no bolso", o que é
inevitável. "Ele [Lula] transmite boas novas. São palavras
reconfortantes que ajudam a aumentar a popularidade de alguém que é um
grande comunicador", afirma.
Já o sociólogo e cientista político Bolívar Lamounier acredita que nem
mesmo o presidente se deu conta do tamanho da crise. "[A sociedade e
Lula] Não se deram conta porque é difícil crer em coisa ruim".
Os especialistas são unânimes em afirmar que o presidente Lula deveria
adotar um tom "mais sóbrio", aconselhando a população a se preparar para
os possíveis reflexos da crise global. Isto inclui um linguajar com
menos "gracinhas" ou palavras de baixo calão.
Na quinta-feira, ao dizer que um presidente precisa assegurar que a
crise tem saída, Lula fez uma comparação afirmando que um médico não
poderia dizer ao paciente: "Meu, sifu".
"Há uma linguagem própria do homem público, que não deve se confundir
com o desabafo popular. Ele tem um papel educativo", afirma Fausto.
Segundo Lamounier, apesar de ajudar na popularidade de Lula, frases como
a do presidente não ajudam o país "a criar a idéia de um chefe de
Estado".
Em evento ontem em São Paulo, o presidente não quis comentar o resultado
da pesquisa Datafolha. Afirmou, entretanto, que "coisas estão
acontecendo no Brasil, as pessoas estão descobrindo as coisas, as
pessoas estão vivendo. É uma coisa circunstancial".
Ao comentar a pesquisa, o governador de Minas, Aécio Neves (PSDB),
reconheceu que o bom momento vivido pelo Brasil se deve em parte aos
"acertos" do governo Lula.
Atribuiu também a "uma certa bendita herança em relação à estabilidade
econômica". Para ele, parte da aprovação de Lula se deve a uma
satisfação que o brasileiro tem consigo mesmo.
Publicado na "Folha de São Paulo", 06/12/2008.
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