Porto – Portugal
26/12/2007
Os porquês da violência urbana no Brasil
Entrevista com Jacob Pinheiro Goldberg e Leandro Piquet Carneiro
A violência urbana no Brasil
A violência urbana está no centro do debate no Brasil e, em entrevista, Leandro Piquet Carneiro e Jacob Pinheiro Goldberg avaliam o cenário brasileiro contemporâneo, a questão da ética, os índices de criminalidade e as alternativas para enfrentar e combater a violência e o crime.

Jorge Sanglard*
Investir no que
importa e não dispersar recursos em programas que não terão efeito sobre o crime
é o que defende Leandro Piquet Carneiro, que ataca o Programa Nacional de
Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), do Ministério da Justiça do governo
Lula da Silva, por considerá-lo “um retrocesso e não simplesmente um programa,
mas uma nova estrutura no Ministério da Justiça que irá concorrer por recursos
públicos com a Secretaria Nacional de Segurança Pública, a Senasp”. Por seu
lado, Jacob Pinheiro Goldberg vê como um avanço no processo de estratégia social
contra a violência e o crime exatamente o fato de que “o Pronasci
simultaneamente prevê ampliação de recursos para todas as áreas governamentais
que cuidam do problema da segurança individual e social com uma visão que
ultrapassa o conceito falido da mera repressão”.
O senhor defende maiores investimentos no sistema de
justiça criminal, incluindo as polícias civil e militar, o Ministério Público,
as varas de Justiça criminal e o sistema carcerário. O Programa Nacional de
Segurança com Cidadania (Pronasci), anunciado pelo Ministério da Justiça e pelo
governo Lula, prevê a ampliação de recursos para estas áreas. Qual a saída para
a questão do investimento na área da segurança?
Leandro Piquet Carneiro (LPC): Investir no
que importa e não dispersar recursos em programas que não terão efeito sobre o
crime. O Pronasci é um retrocesso porque ele não é simplesmente um programa, mas
uma nova estrutura no Ministério da Justiça que irá concorrer por recursos
públicos com a Secretaria Nacional de Segurança Pública, a SENASP. Durante os
últimos dez anos houve uma consolidação notável da doutrina e da organização da
SENASP. Caminhávamos para algo difícil de ser conseguido no Brasil, a formação
de uma política de Estado para a área de segurança pública. A SENASP contribuiu,
dessa forma, para que as políticas de segurança adquirissem uma identidade
própria, mas o Pronasci não partilha dessa visão e propõe dissolver as políticas
de segurança em uma sopa de programas sociais. Isto é um erro de estratégia que
irá penalizar milhares de jovens pobres que vivem nas periferias das grandes
cidades brasileiras. Os recursos disponíveis para a segurança pública serão bem
empregados se forem destinados a programas capazes de gerar resultados no curto
prazo. Nos últimos sete anos houve uma redução de 50 % no número de homicídios
no estado de São Paulo. Se as taxas de homicídio observadas em 1999 tivessem
permanecido constantes, 19 mil pessoas teriam perdido a vida de forma violenta,
principalmente jovens e pobres. Evitar que um crime violento seja cometido
também é uma forma válida de promover a justiça social. A idéia de que teremos
um país melhor no futuro se adotarmos mais políticas sociais e menos políticas
que visam diretamente o controle do crime é desastrosa, nessa lógica empenha-se
o presente de uma geração em nome de uma vaga idéia de futuro.
Jacob Pinheiro Goldber
(JPG): O que se registra como um avanço no
processo de estratégia social contra a violência e o crime é, exatamente, o fato
de que o Pronasci simultaneamente prevê ampliação de recursos para todas as
áreas governamentais que cuidam do problema da segurança individual e social com
uma visão que ultrapassa o conceito falido da mera repressão. A distribuição dos
recursos, portanto, deverá se transformar num fator de estratégia de longo prazo
e não uma política oportunista e demagógica de pirotecnia da sociedade do
espetáculo, em que duas violências – a do crime e a da sociedade organizada – se
digladiam.
Durante anos, a segurança era vista como um problema dos estados brasileiros e
cada estado adotava uma política para o setor. A falta de um sistema integrado e
eficiente da gestão da segurança pública é o principal equívoco no país?
LPC: É impossível discordar da afirmação feita, integração e eficiência são
metas adequadas para qualquer sistema. É claro que uma política integrada e
eficiente é melhor do que uma fragmentada e ineficiente. A questão é como
integrar e como desenvolver medidas eficientes. Em um sistema federativo a
implementação de políticas públicas depende, em larga medida, de iniciativas que
serão realizadas por estados e municípios. O papel do governo Federal limita-se
à produção de mecanismos de coordenação e indução. Caso não seja possível
convencer as polícias e as secretarias de segurança nos estados e municípios de
que as metas de uma determinada política são adequadas, muito pouco será feito.
Não é possível imaginar que uma mesma política de segurança irá servir para
conter a epidemia de homicídios em Olinda e as ações de traficantes de drogas no
Espírito Santo. Embora a estratégia comum seja aumentar a probabilidade de
punição para os criminosos, as táticas são locais e serão mais eficazes se forem
desenhadas a partir da base do sistema de segurança, principalmente pelas
polícias nos estados que são os principais agentes nessa questão. O governo
federal, por exemplo, poderia contribuir muito se desenvolvesse instrumentos de
avaliação e monitoramento das iniciativas de governos estaduais e locais.
JPG: Não se conhece uma estadualização do crime e, portanto, não se pode
admitir políticas estaduais contra o crime. O crime não respeita fronteiras. O
país vive uma situação em que a capilaridade ultrapassou a noção da megalópolis
e da província. De inúmeras formas, a violência, micro e macro, se expande pelo
país. Uma política nacional de segurança com cidadania já implica numa abordagem
que traduz a leitura do fenômeno como uma realidade num país com dimensões
continentais. Propósitos amplos inspiram confiança à população que se sente
desamparada diante de a cultura do “Está tudo dominado”, mensagem subliminar que
o crime, organizado e/ou desorganizado, tenta imprimir, de forma ameaçadora à
população.
Como explicar o aumento indiscriminado da criminalidade em cidades como Rio de
Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador e Belo Horizonte? O que tem sido feito de
concreto para enfrentar essa realidade?
LPC: Não é correto afirmar que essas cidades passam por processos
semelhantes. Como já disse, em São Paulo a taxa de homicídio decresce desde 1999
e acumulamos uma redução de 50% nos últimos sete anos. Esse resultado tem um
enorme significado social e decorre da adoção de políticas públicas consistentes
na área de segurança pública. Em Belo Horizonte houve um aumento de 170% na taxa
de homicídio entre 1999 e 2004, enquanto que no Rio de Janeiro e no Recife as
taxas de homicídio ficaram mais ou menos constante ao longo da década, na faixa
entre 60 e 80 por 100 mil. Se nada for feito, essas duas cidades terminarão a
década da mesma forma que começaram, com uma posição de destaque entre as
cidades mais violentas do mundo. O que esses dados indicam é que o problema não
é o mesmo em todas as grandes cidades brasileiras e que há diferenças que podem
ser explicadas pelo tratamento dado ao problema.
JPG:
O Brasil vive uma situação contraditória e paradoxal
em que a minoria privilegiada, estabelece um contraste sado-masoquista, com a
maioria espoliada, marginalizada, miserável, carente dos recursos mínimos de
sobrevivência. A novela na TV e a coluna social mostram uma riqueza que ostenta
formas faraônicas de vida, num autêntico deboche com índices de submundo
econômico social e cultural. Na penitenciária, o preso decepa a cabeça de outro
detento. No acidente em Congonhas, a mulher, tentando salvar a vida, se joga
pela janela e morre. A TV exibe as cenas. E assim, se conjugam os elementos para
disseminar paranóia e necrofilia. Portanto, são inúmeras as variáveis
psicológicas que precisam ser revertidas para diminuir a onda de criminalidade,
como o fim das utopias românticas e da apologia histérica do bandido, seja de
colarinho branco ou travestido de revoltado. Os povos – pobres, ricos,
classe-média – demandam um significado de exigir e não um jogo de consumo que
carrega no bojo a prostituição da alma. O século XXI terá que ser o tempo do
espírito ou será o tempo do terror. Portanto, o que mais deve ser
feito de concreto é no abstrato, na mentalidade, e passa pela intelectualidade,
pelo poder, pela sociedade no todo, por suas forças organizadas. A “mauvaise
conscience” burguesa não pode paralisar a resposta da Ordem.
Como o senhor avalia a atuação da polícia brasileira em meio ao aumento da
violência urbana?
LPC: Não há uma polícia brasileira. Há mais de 50 instituições policiais no
Brasil, cada uma com uma história, com seus próprios problemas e qualidades.
Algumas polícias têm respondido muito bem à crise gerada pelo aumento do crime:
investiram na formação de seus policiais, em tecnologia e em estratégias
inovadoras de policiamento e de gestão. Não posso oferecer um quadro exaustivo,
mas gostaria de destacar as experiências de Minas Gerais, São Paulo e Paraná.
Esses três estados investiram em sistemas eletrônicos de boletins de ocorrência,
criaram unidades especializadas de análise criminal, melhoraram o uso de
informação e desenvolveram metodologias de planejamento que buscam integrar as
ações das polícias civil e militar. Dessa forma consolidaram as bases de um
modelo de gestão por resultados que já começa a apresentar resultados em alguns
casos.
JPG: Ela é reflexo da integralidade da comunidade, atuando e sendo ativa e
passiva na interação com o desregramento dos costumes. É preciso anotar a função
executiva e superego que a polícia deve significar. É neste simbólico e
imaginário que a polícia pode resgatar um papel corretivo, que parte,
inicialmente, de auto-respeito. A corrupção sinaliza o deboche da tolerância
zero.
O filme “Tropa de Elite” tem provocado uma ampla discussão sobre a criminalidade
e sobre a ação policial no Rio de Janeiro. Até que ponto o filme ajuda a
refletir sobre a violência e seu combate?
LPC: Não considero um caminho promissor tomar uma obra de ficção como base
para a discussão de políticas públicas. O filme deve ser avaliado e analisado
pelo que ele é: uma obra de ficção. Como pesquisador do assunto não me sinto a
vontade para emitir uma opinião sobre um filme de ação policial. O fato do filme
ter por base depoimentos de policiais e ex-policiais não o transforma em uma
fonte de informação válida sobre o sistema policial do Rio. Nem é isso que ele
petende, e cobrar isso do filme é injusto e empobrecedor. O fato do filme ser
discutido pela comunidade de especialistas como se fosse um trabalho sociológico
mostra tão somente que ainda não temos uma comunidade acadêmica consolidada na
área.
JPG: Sem dúvidas, o filme “Tropa de Elite” cumpriu uma realidade catártica.
Ela se iniciou no fato de que a aquisição no camelô mostrou a hipocrisia do
faz-de-conta que a sociedade mantém seja com o jogo do bicho seja com a
maconha, e com mil “macetes”, interface das cenas brutais e desumanas,
percebidas no filme. Inútil considerá-lo de direita ou de esquerda. Ele revela
um caráter insuportável de nossa sociedade que precisa ser exorcizado. Fingimos
que não vemos, ouvimos, o gemido do martírio. A civilização termina quando o
horror violenta os últimos vestígios de direitos. Bestialidade e tortura
conduzem ao declínio de civilidade.
No Brasil, como garantir da Justiça um tratamento igual para todos?
JPG: A igualdade diante da Justiça, ou melhor, a evidente e gritante
desigualdade sempre foi o estopim que desencadeou o surto revolucionário. Os
corredores de nossos tribunais acabaram se tornando uma triste paisagem em que
sofrem todos os personagens conscientes, desde o juiz até o réu. Volto à
consideração de que se trata de mudança mais subjetiva do que objetiva. É
preciso reintroduzir Sobral Pinto como uma referência, como advoguei em
conferência na USP.
O escritor Affonso Romano de Sant’Anna, em entrevista, afirmou que a ética está
em ruína no país. E, coincidentemente, argumentou que nunca se publicou tanto
livro sobre ética no Brasil. O que é preciso fazer para que a ética prevaleça
efetivamente e não seja mera retórica?
LPC: Acho a afirmação um lugar comum sem qualquer sentido prático. Durante o
regime militar a ética certamente estava em ruínas no Brasil. Torturava-se,
delatava-se, não havia Justiça e o governo mentia e cometia muitos outros erros
que são próprios dos regimes autoritários. Quando o Brasil foi ético? Se
voltarmos ainda mais no tempo, podemos dizer que o Brasil paroquial e
provinciano do regime de 46-64 era mais ético do que o atual? Como sociedade,
avançamos em quase todos os aspectos sociais nos últimos 25 anos. Veja por
exemplo o quanto progredimos na saúde, na educação ou no combate à pobreza.
Avançamos menos do que seria possível ou desejável, mas esses avanços não
existiriam sem um regime Democrático estável. Quanto maior a pressão da opinião
pública e mais livre for a imprensa, quanto mais eficientes forem o ministério
público e a justiça, quanto mais as polícias investigarem, mais “problemas
éticos” teremos nas páginas dos jornais. O controle sobre os que exercem o poder
tem sido mais eficiente, apenas isso.
JPG: Em debate, com o senador Aluisio Mercadante, argumentei que a ética e a
estética caminham juntas enquanto reflexos harmônicos do esforço de convivência.
A beleza não pode ser resultado de cirurgia plástica, como a decência não pode
ser resultado de livros e discursos vazios e nem pode ser ensinada em manuais.
Dom Quixote foi o arauto que informou ao mundo que a realidade só existe em
sintonia com a fantasia. Ética decorre de opção moral, opção moral depende de
código de valores que se baseiam na virtude. Não pode existir virtude numa
sociedade presidida pelo “Grande Irmão”, de Orwell.
O senhor tem afirmado que o aumento do número de soldados no policiamento das
ruas é decisivo para obter uma redução no número de crimes. O secretário de
Estado de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, também defende
esta tese. O que tem sido feito efetivamente nos grandes centros sobre essa
questão?
LPC: Aumentar o número de policiais é apenas uma parte do trabalho. Isso é
importante, mas a tarefa mais difícil é fazer com que esses policiais sejam
capazes de prender cada vez mais infratores. É preciso também elucidar mais
crimes, apreender mais armas e mais drogas, abordar mais supeitos. O Rio de
Janeiro é um exemplo de como políticas erradas podem produzir resultados
desastrosos. Os governos do Estado, até o momento, fizeram uma opção
preferencial pela impunidade: contemporizaram com estruturas policiais
corruptas, promoveram doutrinas erradas, como a idéia de que é possível combater
a presença de armas sem enfrentar o tráfico de drogas nas favelas, e investiram
em projetos de alta visibilidade, como as Delegacias Legais, que não têm nenhum
efeito potencial sobre o crime. O policial continua mal pago, mal treinado e sem
supervisão. As polícias não prendem e não investigam, os presídios estão vazios
e controlados pelo crime. Esses são os entraves a serem resolvidos. A mensagem
da autoridade pública em uma situação conflagrada como a do Rio de Janeiro deve
ser a mais clara possível. Do meu ponto de vista, é muito bom saber que não se
pretende negociar com corruptos e criminosos, que não há ‘meia’ Lei, que não
haverá paz para traficantes armados ou desarmados. E, principalmente, de que
essa mensagem será sentida nas ruas.
JPG: O Exército e as Forças Armadas, em geral, precisam ter um papel
saliente na chamada “ação de presença” que devolve a rua ao cidadão. O cidadão
foi exilado da rua e vive acoelhado nos “shoppings” e nos edifícios vigiados.
Mas para isto é preciso um preparo junto à tropa. Apresentei, na PUC-SP, o
trabalho “Serviço Social no Exército brasileiro”, em cima de um estudo no 4º RI,
em São Paulo, em 1962. Nele, constatei que o soldado, tanto do Exército como da
polícia, precisa ser amparado, inclusive sua família, para só então exercer um
papel de exemplo e de cidadania.
O que fazer para viabilizar uma aplicação com mais rigor nas punições aos
criminosos ao lado de uma maior flexibilidade na forma de cumprimento das penas?
JPG: Crimes teratológicos têm sido tratados de forma benigna e pequenas
transgressões jogam pobres diabos nas escolas de pós-graduação, que são nossas
penitenciárias. Sugiro que se introduza, de forma maciça, a sociologia, a
psicologia, a pedagogia, a educação e o trabalho nos sistemas prisionais, tanto
como modalidade de socialização como processos de proteção da comunidade.
Alguns estados brasileiros, em especial Minas Gerais e São Paulo, têm convivido
com o aumento da violência na área rural e em pequenas cidades, praticamente
desguarnecidas de policiamento e de delegados. Como o senhor vê esse problema?
LPC: Há de fato uma convergência nas taxas de homicídio não só nesses
estados, mas em todo o Brasil. Os municípios estão ficando mais parecidos no que
diz respeito aos seus níveis de criminalidade. Durante os últimos trinta anos, o
número de crimes nas grandes cidades e regiões metropolitanas do Brasil cresceu
muito e houve portanto, como seria razoável esperar, uma concentração do
policiamento nessas áreas. E não apenas o gasto público com segurança aumentou,
como também o gasto privado com auto-proteção. Isto produziu uma elevação nos
custos do crime nessas áreas, o que por sua vez produz um incentivo para a
migração do crime em busca de outras áreas que ofereçam vantagens comparativas.
Muitas cidades de porte médio no Brasil são muito atraentes para os criminosos
porque têm um nível razoável de riqueza, o policiamento é menos presente e as
pessoas adotam menos medidas de auto-proteção. Por exemplo, moram em casa, não
dirigem com as janelas fechadas, não têm sistemas de alarme em casas e carros,
entre outras medidas dessa natureza que são corriqueiras nos grandes centros
urbanos do país. As oportunidades geradas nessas cidades serão devidamente
exploradas pelo crime.
JPG: As pequenas cidades, freqüentemente, são deixadas de lado nos
diagnósticos que partem de pressupostos quantitativos. É mais uma forma
lamentável de reducionismo. A questão da segurança concerne a todos,
independentemente de geografia ou de economia. O Estado é obrigado a oferecer
condição preliminar para o desenvolvimento do cidadão, em ternos de qualidade de
vida, e isto se inicia, com a proteção à vida. Hoje, somos todos reféns da
bandidagem. Mudar o jogo exige mudar as regras.
*Jorge Sanglard é jornalista, pesquisador e editor da Revista OAB-MG 4ª Subseção.